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Dramas da vida real

Ao comandar a releitura de um clássico Shakespereano, Júlia Rabello repensa o amor nos tempos atuais e conta sua experiência com a covid-19

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 7 ago 2020, 12h30 - Publicado em 7 ago 2020 01h51
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Clube Lambada/Ilustração

rovavelmente você já conhece Júlia Rabello. Atriz e comediante, ela ganhou a atenção do Brasil graças à explosão midiática do Porta dos Fundos – e talvez você tenha pensado agora mesmo na frase “o que eu quero, Mario Alberto?” –, em 2012, mas, desde então, sua carreira deslanchou e ela adicionou programas de TV, novelas e peças de teatro ao seu já extenso currículo.

Foi durante a pandemia também que Júlia aceitou adiantar um projeto previsto para 2021 e fazer o trabalho de um ano em um mês. Neste sábado, 8, ela sobe aos palcos do Teatro Petra Gold para comandar o monólogo “Romeu & Julieta (& Rosalina)”, uma releitura cômica e com questionamentos contemporâneos da peça mais famosa de Shakespeare – as apresentações serão transmitidas online, sem presença de público na plateia. Júlia interpreta Rosalina, a mulher que o protagonista iria originalmente encontrar no baile em que conheceu Julieta, por quem se apaixonou perdidamente. “A Rosalina era o amor da vida dele, por quem ele é perdidamente apaixonado, e ele esquece tudo isso quando vê a Julieta. Isso é bem contemporâneo, bem masculino, os héteros cis reproduzem esse comportamento até hoje”, dispara, rindo.

Em um papo descontraído com a Elástica, Júlia fala sobre o novo trabalho, reflete sobre a transformação do amor nos dias de hoje, a importância do humor em momentos de crise e fala sobre sua própria experiência com o covid-19 – a atriz teve a doença no primeiro trimestre da quarentena. 

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Chico Cerchiaro/Divulgação

Conta pra gente um pouco sobre a peça, Júlia?
É um diálogo com Shakespeare. Romeu e Julieta é uma história sobre a rivalidade de poder entre duas famílias, e esse homem e essa mulher, representantes dessa família, dão o tom da trama. A peça entrou pro nosso imaginário, séculos depois, mas como uma representação desse amor que, hoje em dia a gente chama de romântico, essa coisa de uma paixão maior que você, pela qual você daria sua vida. Quando a gente pensa em tudo isso, normalmente associamos esse comportamento a um elogio. E a peça é um pouco um diálogo sobre esse imaginário. O interessante é que, quando você lê com olhar contemporâneo, você vê que tudo isso aconteceu em 4 dias e meio, 5. Como amar tanto assim em 4 dias e meio? Minha resposta pessoal é que não ama, mas não quero desmerecer o amor deles. O problema não está no Shakespeare, mas em como a gente vê essas coisas.

E em que parte a Rosalina entra nessa história?
O Romeu foi para o baile na casa dos Capuleto atrás da Rosalina, amor da vida dele, é esse meu personagem. E ele esquece tudo isso quando vê a Julieta. Isso é bem contemporâneo, bem masculino, os héteros cis reproduzem esse comportamento até hoje. A Rosalina é essa ideia que o Gustavo Pinheiro, autor, trouxe para o texto. Ele é um cara super inteligente, que tem humor e um olhar contemporâneo muito interessante. Falei que estava há alguns anos sem fazer teatro, já que o boom do Porta dos Fundos me tomou tempo – e não reclamo, foi uma maré maravilhosa. Ele me disse que tinha muita vontade de escrever sobre Rosalina e eu respondi que a minha vontade era ter uma peça com uma voz feminina contemporânea. Como contar uma história de 1500 e pouco com um olhar contemporâneo? Com ideias e visões contemporâneas, dúvidas, mas também comportamentos antigos. Esse desafio eu joguei no colo dele (risos). Isso é um pouco o recorte do nosso momento, todo mundo está se reconstruindo. Tem muitas cascas de banana que a gente mesmo jogou para a gente cair nesse caminho. Mesmo sendo um monólogo, a peça é um debate entre ela, o Romeu e a Julieta.

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Cristina Granato/Divulgação

Existe espaço para esse amor romântico, idealizado ainda hoje?
Se você não caminha junto com o debate da praça pública, em algum momento ele vai te pegar. A gente vê muita gente gritando contra essa discussão de amor e relacionamentos porque sabe que essas pessoas não acompanharam as discussões. Comecei a ver Mad Men recentemente, porque é muito interessante ver esse recorte dos anos 1960, entender como aquele modo de funcionamento da sociedade está com a gente até hoje. A gente vive tempos de camadas sobrepostas, às vezes você não consegue entender. É um tempo meio cubista, você precisa ter um entendimento simbólico para não ficar confuso.

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Como mulher, fui criada como todas as meninas brancas, recorte importante falar, porque traz dores, mas dores diferentes em seus contextos. Eu tenho privilégios que as mulheres negras não têm, é óbvio. Meus pais se separaram quando eu era muito nova, sempre morei com a minha mãe, então tive aquela figura feminina forte que segura o dia a dia, trabalha, fez faculdades, no plural. Como na casa de muitos brasileiros. Minha mãe é minha referência, essa mulher batalhadora que tem que fazer tudo e não recebe parabéns por isso, sabe? Mas também fui educada para almejar um casamento maravilhoso, tendo isso como sucesso, e consumi os mesmo produtos culturais que as mulheres do meu tempo, com comédias românticas e novelas na TV. A linguagem cultural também nos educa para esse lado.


“A gente vive tempos de camadas sobrepostas, às vezes você não consegue entender, é um tempo meio cubista, você precisa ter um entendimento simbólico para não ficar confuso”

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Chico Cerchiaro/Divulgação

E como você lida com essas questões sobre amor que estão pipocando por aí?
Você vai ficando mais velha, vai vendo tudo isso, e percebe que são muitos os poréns no meio desse caminho. Ao mesmo tempo, a gente também está numa época em que vive intensamente o resultado do trabalho do Freud e do Nietzsche. Entramos em uma experiência muito grande pra dentro, a pesquisa de você mesmo, esse é um debate fortíssimo. Não sei quantas respostas a gente tem, vivemos em uma diversidade de opiniões e possibilidades do que é amor, do que é parceria. O buraco é muito mais embaixo. Assim como todas as pessoas que estão atentas, também estou atenta e pesquisando, fazendo minhas terapias, tentando entender o que é legal. Meu palpite é que a vida – inclusive isso é frase da Rosalina –, o sentido das relações é a gente que vai dando pelo caminho. Para a gente dar esse sentido, precisamos estar com essa lição de casa, que somos nós mesmo, feita. Não acabada, mas feita, a gente vai criando sentido. Colocar menos demandas e expectativas no colo do outro é um aprendizado e acho que é um caminho. Da maneira que o mundo está agora, isso é receita certíssima frustração. 

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Cristina Granato/Divulgação

Qual a importância – e a dificuldade – de ser artista nesses tempos de isolamento?
Não sei se você se lembra desse detalhe irônico, mas Romeu e Julieta, toda tragédia começa a degringolar, os desencontros que causam a morte deles, também por causa da peste. Também era uma pandemia. É o eterno retorno. Eu tive covid no primeiro trimestre da peste, logo no primeiro momento.

Não sabia disso, Júlia, sinto muito. Você gostaria de contar sobre essa experiência?
Não sei nem te dizer. Tem uma coisa que complica ainda mais tudo isso que é pegar uma doença num período de excesso de informação… de que não temos informação. Aí você pega e não sabe o que fazer. Há um medo diferente, só que, de novo, temos todos os nossos recortes, eu tô podendo ficar em casa, tenho um médico com quem tenho diálogo, mas o medo ainda existe. No meu caso, a doença chegou a ir para o pulmão, fiquei com medo de ir para o hospital. Tive três dias mais intensos na segunda semana, mas melhorei. No fim, foi uma história que se passou bem. Quando você tem essa experiência, vai entendendo algumas coisas sobre essa ansiedade, esse medo interno. Você vai sabendo de pessoas próximas que faleceram. A verdade é que faltam palavras, são situações, circunstâncias que não são novas na humanidade, mas esse mistério do que é a vida, que se apresenta através dessa figura que é a morte, e a gente não sabe o que dizer. Existe um silêncio para além do que a gente dá conta. E acompanhar todo dia a forma com que o nosso governo está lidando com tudo isso torna a situação mais pesada. No Brasil, a gente vive um massacre há muitos anos, e o efeito disso é o brasileiro, porque está nessa panela de pressão, normalizar a morte. Ao longo da história, esse caminho não traz resultados bons – são péssimos, na verdade. A gente está tentando ter um debate, não sei como resolver, mas quando vem a pandemia e aumenta a pressão da panela, estoura nas pessoas mais vulneráveis. Quando você tenta não normalizar, dói muito. Claro que tem muita gente que trabalha e está articulada, mas enquanto sociedade, não somos estruturados para lidar com isso.


“No Brasil, a gente vive um massacre há muitos anos, e o efeito disso é o brasileiro, porque está nessa panela de pressão, normalizar a morte. Ao longo da história, esse caminho não traz resultados bons – são péssimos, na verdade”

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Bob Wolfenson/Divulgação

Em tempos difíceis, de exceção, como o humor pode contribuir?
No primeiro mês que a gente entrou em isolamento, as meninas do podcast Mamilos me convidaram para fazer um dos programas sobre humor. Eu lembro que, na hora, fiquei muito em dúvida por não saber como contribuir. Exatamente por estarmos em tempos difíceis, elas queriam uma coisa mais leve. No primeiro momento do assombro, eu fiquei receosa. Aí peguei a doença, fui ficando em casa. A vida quando quer, ela sacoleja. E o acaso veio: a Ana Beatriz Nogueira, que eu sou apaixonada e fã, me ligou falando do projeto do Teatro Petra Gold, ator sozinho no palco com plateia vazia. Ela não queria deixar o teatro parado tanto tempo, uma parte da renda vai para a família de trabalhadores do teatro que ficaram sem emprego, e aí combinamos de antecipar a peça, fizemos o que era trabalho de um ano em um mês. Tudo online, leitura de texto, ensaios, com nosso diretor em Curitiba. O teatro é uma arte coletiva, mesmo no monólogo. E poder trabalhar, fazer o que gosta para cuidar dos seus, dá um sentimento incrível de pertencimento. A gente quer valorizar isso, mas também está distanciado. Esse projeto é um alento até pra mim, sabe? As pessoas que fazem teatro costumam ser idealistas e românticas. Não me considero muito nenhuma dessas duas coisas, mas o teatro me dá essa oportunidade de cuidar dos meus. Me sinto em uma missão. Nesse momento, com a peça estreando, fazer humor me faz um bem enorme. A vida é a gente que vai significando. Vou ter a honra de comemorar meu aniversário no palco, é um presente poder oferecer isso para as pessoas. É um presente para todo mundo.

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Eu vendo o Instagram #quarentena #dia #perdiascontas

Uma publicação compartilhada por Júlia Rabello (@ajuliarabello) em

Romeu & Julieta (& Rosalina)
de 08 de agosto a 30 de agosto
Sábados e domingos, às 17h (duração: 50 minutos)
Classificação etária: 14 anos
Ingressos à venda em www.teatropetragold.com.br

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