expressão

Um novo Johnny Hooker

Lançando registro de show ao vivo e preparando novo disco, cantor pernambucano se reinventa fora dos palcos enquanto espera dias melhores para se apresentar

por Amauri Terto Atualizado em 5 abr 2021, 15h22 - Publicado em 5 abr 2021 00h22
-
Clube Lambada/Ilustração

le não é mais o mesmo. Desde que a pandemia começou, o cantor e compositor recifense Johnny Hooker resolveu mudar hábitos. Agora ele não come mais carne e não toma mais refrigerante. Também passou a fazer exercícios aeróbicos, dança e pilates de cinco a seis vezes por semana. É um artista mais saudável, mas não 100%. Ele decidiu manter o cigarro como “escape” para o momentos de ansiedade do cotidiano sob pandemia.

Os novos hábitos vieram depois de dias temendo a morte dentro de seu apartamento em São Paulo.”Ali no começo, eu fiquei bem maluco. Quase que eu abri a porta e atravessei”, ele conta à Elástica em entrevista por videochamada. Foi necessário terapia para que o cantor pudesse retomar as rédeas da situação. “Nerd estudioso” da crise do coronavírus, ele logo entendeu que a situação se agravaria. Resolveu, então, fugir de São Paulo para a casa da mãe em Florianópolis e, de lá, não tem data para sair.

É dessa casa que Johnny prepara o lançamento agora em abril do DVD e álbum Macumba Ao Vivo em Recife, registro de 2016 que traz o repertório de Eu Vou Fazer uma Macumba Pra te Amarrar, Maldito!, primeiro disco cheio do artista, que em 2015 o catapultou para a cena pop brasileira.

Para os fãs que aguardam ansiosos pelo terceiro disco do cantor, o sucessor de Coração (2017), há boas notícias. O novo trabalho está praticamente pronto e deve completar o que considera uma trilogia. “Falta gravar uma vozinha aqui, ajustar uma coisinha ali”, ele conta. Inspirado em um livro raro dos anos 60 de temática LGBT e ambientado em Recife, o álbum deve refletir outras mudanças e descobertas depois dos 30 na vida do cantor. Não de hábitos: desta vez, de perspectivas sobre o amor e sobre o sexo. Leia a entrevista completa:

Continua após a publicidade
-
Johnny Hooker/Divulgação

Como foi pra você este 2021 sem Carnaval?
Nossa, uma tragédia. Uma tragédia porque eu sou recifense e vivi minha vida toda no meio do Carnaval. E depois que eu fiz sucesso como músico, passei o Carnaval sempre trabalhando muito. Foi muito melancólico passar os dias em casa, observando a situação do Brasil se deteriorando e relembrando de tantos carnavais. Foram dias de depressão, um dos períodos mais difíceis desde que começou esse apocalipse todo. Foram dias de tantas lembranças com os amigos nos shows. E de pensar também toda essa cadeia cultural, principalmente de Recife e Salvador, que tem muita coisa, tudo isso interrompido. Acredito que o Carnaval é a maior bruxaria que a gente tem no país. É a maior catarse coletiva, todo mundo vai pra rua e tira a roupa e se beija e dança. É um negócio bem dionisíaco. É quando o país bota a voz pra fora. A gente vai pra rua, a rua é nossa, essa cultura é nossa. E não ter isso, ainda mais nessa situação que estamos vivendo, foi uma tragédia.

“Acredito que o Carnaval é a maior bruxaria que a gente tem no país. É a maior catarse coletiva, todo mundo vai pra rua e tira a roupa e se beija e dança. É quando o país bota a voz pra fora”

E como é a sua relação hoje com Recife?
Vou pouco, não moro mais lá faz quase oito anos. Mas sempre vou. Ainda tenho muitos amigos que moram lá, além da família toda do meu pai. Não fui no último ano por causa da pandemia. Hoje em dia, Recife é mais uma memória. Uma coisa que vive em mim porque foi o que me criou, a cidade que me pariu, mas não é mais tão presente. Já morei no Rio depois, estou morando em São Paulo faz quatro anos. Me sinto bem pertencente à megalópole, à essa energia nervosa, noturna, pesada e forte de São Paulo. Recife também tem uma energia bem nervosa, bem passional, mas sinto que São Paulo diz mais sobre o futuro. É tudo ao extremo. A libertação sexual em São Paulo está ao extremo. O ritmo de vida em São Paulo é extremo. O trabalho é ao extremo. Tudo é ao extremo. E Recife ainda é uma cidade média, tem um ritmo muito diferente.

Você se sente confortável com esses extremos de São Paulo?
Eu amo [risos]. Eu amo porque é uma cidade que tem espaço pra todo mundo. Todo mundo encontra o seu lugar, sua turma. Não tenho do que reclamar de São Paulo, mas ter ficado dez meses preso na cidade durante a pandemia foi um pouco angustiante, não vou mentir. Estou há alguns meses em Florianópolis, minha família por parte de mãe mora aqui. Vim passar o Natal e, quando vi que a situação ia piorar – porque eu sou um nerd estudioso de toda essa situação, eu leio os papers das vacinas todas –, falei “pra que eu vou voltar pra São Paulo e ficar trancado em um apartamento?”. Daí, fiquei aqui. Acredito que São Paulo é uma cidade que, se você não pode estar circulando, vivenciando ela culturalmente, ela meio que morre. Não é uma cidade que tem uma montanha, um lago, uma praia. Se não tem a cultura gastronômica, de bar, de vida noturna, de teatro, de cinema… Se não tem a cultura, a cidade morre. Vira um grande cemitério concretado. A parte zumbi das pessoas sendo esmagadas pelo capitalismo da cidade fica 100% evidente. Eu vim pra cá para ter um pouco de paz. Acho também que depois dos 30 você fica “ah, eu quero um pouquinho mais de paz, um pouquinho mais de silêncio”.

Como foi a sua experiência no primeiro ano de isolamento social?
Quando veio o apocalipse, eu fiquei bem maluco. Acho que todo mundo foi e está sendo muito confrontado com a ideia da morte, né? Porque foi uma coisa que invadiu as nossas vidas. A gente não estava acostumado a conviver com isso. A gente está mais acostumado a postergar a ideia da morte, principalmente na cultura ocidental que a vê como uma coisa ruim. No começo, tive pânico e a certeza de que algo muito ruim ia acontecer comigo, com a minha família e com os meus amigos. Graças às forças, ao acaso e à sorte, não aconteceu nada. Estão todos bem. Até quem pegou [covid-19] ficou bem. Mas é muito doloroso ver como essa situação aprofundou o abismo das desigualdades do país. Basicamente, a maioria das pessoas que morreram dessa doença até agora era pobre. Ali, no começo, eu fiquei bem maluco. Quase que eu abri a porta e atravessei. Mas consegui reunir forças pra voltar, fiz terapia. E acredito que o que mais mudou, em termos de hábitos que eu peguei pra mim, foi realmente viver uma vida mais saudável. Como eu não estou mais o tempo todo circulando, cercado de amigos e em ritmo de show, consegui adotar um estilo de vida muito mais saudável. Hoje em dia, faço exercício físico cinco ou seis vezes por semana: aeróbicos, dança e pilates. Parei de comer carne e tomar refrigerante. Só não parei de fumar [risos], que é uma coisa que, com a ansiedade que essa situação gera, falei “pô, se é pra ficar trancado em casa, preciso ter pelo menos algum escape, alguma coisa tem que sobrar”. Não tem amigo, não tem show, trabalho até tem, mas está todo mundo trabalhando remendado. É aquela coisa “faz uma live“. Mas uma live não é um show. É uma coisa meio remendada. Só pode dois músicos. Só pode um músico. Aí tem uma sessão de fotos. Mas, para tudo, tem que enxugar a equipe porque tem que ser o mínimo de gente possível. E faz teste. E mesmo fazendo testes, continuamos todos nervosos. “Será que eu peguei?”. Eu nunca imaginei que eu viveria uma situação tão horrenda nesse nível. E eu tenho muito medo desse vírus. Levo ele muito a sério, acho ele uma roleta-russa. Agora, na situação em que a gente está, não tem mais UTI, não tem mais vagas, você não pode nem ter outra coisa. Você não pode levar uma queda.

“São Paulo é uma cidade que, se você não pode estar circulando, vivenciando ela culturalmente, ela meio que morre. Não é uma cidade que tem uma montanha, um lago, uma praia. Se não tem a cultura, vira um grande cemitério concretado. A parte zumbi das pessoas sendo esmagadas pelo capitalismo da cidade fica 100% evidente”

Queria que você falasse mais sobre essa sua condição de depois dos 30 querer mais paz e silêncio…
O que mudou nos 30, um processo que já vinha mudando muito, foi o total e irrestrito botão do foda-se ligado. Quando a gente é mais jovem, a gente busca muito a aprovação. Busca conquistar certos objetivos. Eu tenho que fazer, eu tenho que acontecer. Será que as pessoas vão gostar? Será que não vão gostar? Depois de tudo o que passei, de polêmicas, dos discos, de turnês e tudo, eu liguei o foda-se. Não me incomoda, eu entendi que existe uma parcela das pessoas que sempre vai odiar a gente por alguma identificação, por alguma coisa que elas vêm na gente e queriam ter. Ou que elas têm e que não têm coragem de mostrar. O ódio é uma paixão que move muito as pessoas, como a gente pode ver nas redes e na última eleição presidencial. As redes são um lugar onde elas se sentem muito confortáveis para verbalizar e espalhar esse ódio. Quanto à situação política do Brasil, eu já larguei mão. Eles que se matem. A gente é muito pequeno, tem muito pouco poder em relação a isso. É uma estrutura que está aí desde que esse país foi fundado. Eles que se matem. Eu preciso viver minha vida. Eu não posso gastar a minha energia vital sofrendo porque essas pessoas são monstros. Monstros sempre existiram e sempre vão existir. Eu vou viver minha vida, vou ser feliz, vou fazer minha arte. Claro que nesse processo todo e dentro da minha arte essas questões políticas vão estar lá porque a vida é a política. Uma coisa está ligada à outra. Mas eu também não vou ficar gastando o meu tempo, não. Eu tenho mais o que fazer. Tenho os meus amigos, a minha família. Quero ser feliz, quero viver. Não quero ficar preso nesse pesadelo-Brasil pra sempre.

Aproveitando que citou a questão do ódio nas redes, você é uma pessoa que sempre se posiciona politicamente e também traz isso para o seu trabalho. Como você lida atualmente com os haters na internet?
Hoje em dia, eu ignoro. No máximo, quando pega em algum nervosinho, eu respondo alguma coisa bem irônica. Ou alguma coisa que eles não vão entender porque eles não me entendem mesmo [risos]. Mas é como a Pabllo fala naquela entrevista maravilhosa para a BBC em Londres: “Eu vou fazer o quê? Processar? Essas pessoas não têm nem dinheiro para pagar pelo processo”. O que é que eu vou fazer? Como é que eu vou me responsabilizar pelo ódio, pela frustração, pelo ressentimento dos outros. O Brasil se mostrou o país mais ressentido do mundo elegendo o que a gente elegeu. É uma turma de pessoas que, por motivos óbvios, nunca foi levada a sério por ninguém. Agora, eles acham que deter o poder, estar sentado na cadeira temporariamente – assim a gente espera – dá a eles uma legitimidade, mas não dá. Quando você é burro, raivoso e odioso, você pode fazer o que você quiser que ninguém nunca vai levar a sério. Então é isso. O que é que eu posso fazer?

“O ódio é uma paixão que move muito as pessoas, como a gente pode ver nas redes e na última eleição presidencial. As redes são um lugar onde as pessoas se sentem muito confortáveis para verbalizar e espalhar esse ódio. Quanto à situação política do Brasil, eu já larguei mão. Eles que se matem”

-
Johnny Hooker e Fafá de Belém em Recife Johnny Hooker com Fafá de Belém em XXXX/Divulgação

Você tem dois álbuns lançados: um em 2015 e outro em 2017. Há poucas semanas, você lançou um feat. com Fafá de Belém, “Abandonada por Você”, o primeiro single do DVD Macumba ao Vivo em Recife, gravado lá em 2016 e que está sendo lançado agora em abril. Fora isso, você tem poucas parcerias paralelas. Esse é um ritmo de lançamentos bem particular para um artista pop na era do streaming. Como funciona esse tempo de criação pra você?
Bem, entre o primeiro e segundo disco, só tiveram dois anos. Ali foi bem rápido. Assim que acabou a turnê do primeiro disco, a gente já tinha o contrato com a Natura pra fazer o segundo. Depois do segundo, foi demorando porque a gente entra em um processo de turnê infinita. Os meus shows, que são – eles eram [risos] – a minha principal fonte de renda, sempre deram muito público. Por onde a gente passa, as pessoas gostam muito de ir ver. De certa maneira, é um negócio que faz a gente cair na armadilha da turnê infinita. Porque você faz o último show e a galera quer mais. E a gente vai tendo que voltar, faz todo o circuito. Aí o povo quer mais. Faz outra vez. Entraram na fila também duas turnês internacionais. A gente fez uma e foi um sucesso. Quando voltamos pra cá, fez o Brasil inteiro de novo, o povo falou “vamos fazer a segunda turnê internacional”. Aí tivemos que voltar [risos]. Essa demora entre o segundo e agora o terceiro não tem a ver com qualquer demora pra escrever. Claro, tem que se dar um tempo entre um disco e outro. Você tem que parar, tem que viver, tem que entender o que você vai falar. Mas acabou que muita coisa entrou na fila. Até esse DVD, a gente só finalizou agora porque eu só tive tempo de parar e editar, finalmente, quando a pandemia começou em março do ano passado. Foi quando eu tive a ideia: “Vamos resgatar esse material, editá-lo e finalmente lançar”. A demora do terceiro disco, na verdade, é por causa da pandemia. Ele já estava sendo feito desde 2019. Era para ele ter sido lançado no ano passado. Eu não vejo como lançar um material agora. Duas mil pessoas morrendo por dia, uma situação totalmente caótica. Isso de maneira alguma é uma crítica a quem está lançando coisas agora porque eu acho que a gente tem que ter, claro, material sempre. A arte salva. E vamos nessa. Mas eu, pessoalmente, não me sinto muito à vontade de lançar uma coisa que eu sei que vai se perder no meio das notícias do Brasil. Porque é uma bomba atômica por dia. E tem outra coisa também: lançar pra ficar trancado, pra não ter como divulgar o disco direito. Como é que eu vou fazer os clipes? Os clipes pra mim são parte fundamental do disco. Pra mim, uma pessoa que vem do audiovisual, a representação visual das músicas é tão importante quanto as músicas. Mas o disco já está pronto musicalmente. Acho que falta gravar uma vozinha aqui, ajustar uma coisinha ali. A gente conseguiu fazer as fotos da capa e do encarte no ano passado. O disco já está pronto pra ser mandado para a mixagem.

Continua após a publicidade

Vamos falar sobre o disco novo então? Você contou recentemente que ele é inspirado em um livro raro chamado Orgia: os diários de Tulio Carella. Que livro é esse?
É o livro do Tulio [dramaturgo, jornalista e escritor argentino], que foi pra Recife nos anos 1960. Foi convidado para ser professor de teatro por Ariano Suassuna, se não me engano, na época. Ele foi ensinar na universidade federal de lá e, quando chega em Recife, se apaixona pela noite. Era uma cidade portuária nos anos 1960, né? O centro da cidade era aquela coisa: bordéis, cabarés, os marinheiros e a noite. Ele se apaixona por isso e se entrega e escreve esses diários sobre as experiências dele lá. Ao mesmo tempo que ele vive essa libertação longe da Argentina, uma libertação sexual, um tempo sombrio começa a se aproximar. Ele é preso acusado de pederastia e deportado para Argentina, que estava prestes a começar uma ditadura horrível e sangrenta também. Parece que é a história da América Latina. A gente dá uma volta e bate de novo de frente com autoritarismo, com governos militares, com repressão. Parece que é a história da nossa região. Depois de lançar o [disco] Coração, encontrei esse livro que eu nem sabia da existência. Descobri porque fizeram uma adaptação teatral dos diários. Aí, eu me identifiquei com o momento. Falei: “Gente, isso parece um paralelo. Parece que a história dele é a minha história”. Porque ele está vivendo um momento de libertação pessoal, sexual e afetiva, e enquanto ele está vivendo isso, está vindo uma nuvem negra se aproximando do país. Obviamente, ele trabalhava com teatro. Eu trabalho com música. Dois artistas gays em dois tempos diferentes, separados por 50 anos, vivendo a mesma situação. Falei: “Por que não fazer uma adaptação desse livro que, de muitas maneiras, foi um grande pioneiro em abordar essas questões na América Latina?” Adaptar para os dias de hoje, para minha experiência, para minha relação com São Paulo. Ele está lá em Recife falando da minha terra e eu tô aqui em São Paulo, mas ao mesmo tempo eu tenho o link com Recife. Isso tudo se misturou e acabou criando o disco novo.

Você tem falado sobre libertação sexual e recentemente também soltou a seguinte frase: “eu não sei se eu gosto de homem. Porque eles são enrolados…” Como tem sido essa experiência de ser Johnny Hooker em São Paulo?
[Depois de rir ao ouvir sua frase repetida, ele responde] Eu mudo muito. Quando eu me olho, até nesse DVD que a gente vai lançar, eu me sinto muito diferente, me sinto uma outra pessoa, outra encarnação praticamente, mal consigo alcançar o que eu era ali. Acho que a maturidade faz eu me sentir como se tivesse 100 anos [risos], mas o pouco de maturidade que a gente vai alcançando com os anos me trouxe uma desconstrução muito grande, muito feroz, do amor romântico. Acho que o amor romântico pode ser uma prisão muito grande. É uma ideia que é vendida como compulsória. Você precisa de alguém. Você está incompleto. Essa ideia é muito presente no Macumba, meu primeiro disco, porque ali acho que eu comprava muita essa ideia ainda. Do amor romântico mesmo. De sofrer por amor. Do idealizar. Mas acho que, com o tempo,  fui desconstruindo isso a ponto de quase me libertar dela completamente. Me sinto uma pessoa liberta, um ex viciado [risos]. Realmente, não sinto que falta nada em mim. Não sinto que eu preciso estar em um relacionamento, me sinto muito completo. Como eu sou, quem eu sou, o que eu faço, meu trabalho, meus amigos, tudo isso me traz muita alegria, muita completude mesmo. Acho que eu me libertei dessa ideia. Na verdade, é o que mais muda nessa minha trajetória. Ao mesmo tempo, na minha vivência em São Paulo, consegui me entregar a essa coisa do desejo, que eu acho uma experiência incrível. Foi um reencontro. Foi como se eu abandonasse a ideia do amor romântico e mergulha-se no desejo de entender o que é o meu corpo, como eu gosto de usar ele, como eu gosto de interagir com ele. De me jogar nessas aventuras. Um pouco como o Tulio mesmo no livro. De descobrir, me apaixonar, nem que seja por uma noite. De viver todas essas aventuras e não me prender. E, ao mesmo tempo, viver com amor esse momento. Esses momentos efêmeros. O primeiro disco discorre muito sobre o amor romântico. O segundo já fala do amor como uma forma mais política, de embate, que eu acho que também existe essa faceta que é muito bonita. O amor, você estar com alguém, você peitar o mundo estando com alguém, você viver esse amor, toda relação é política. O terceiro já é mais a conclusão disso. Quando tudo cai, quando o país morre, o que nos resta? Nossos corpos. Nosso prazer. Nossa arte. Nossa liberdade individual. Vou muito nesse sentido: o sexo também é uma arma de resistência. O desejo também é uma potência política. Mas essa coisa que eu falei que eu não sei se eu gosto de homem [risos] é porque eu acho que as relações homossexuais homem com homem, elas ainda são muito atravessadas pela questão do machismo, pela questão do patriarcado, pela questão do ser masculino. Acho que isso é uma bobagem. É uma coisa que a gente precisa também, num tempo mais tranquilo, se debruçar. Porque a gente está no tempo do caos total. Mas num tempo tranquilo, a gente precisa se debruçar sobre essas questões, falar como elas machucam a gente. E como elas continuam machucando a gente dentro dessas relações. Eu estava falando um pouco disso. Ali eu estava conversando com o Theo, que é amigo e aí saem essas pérolas [risos]. É porque às vezes me entedia um pouco essa coisa do ser homem. “Você é homem”.

“Quando tudo cai, quando o país morre, o que nos resta? Nossos corpos. Nosso prazer. Nossa arte. Nossa liberdade individual. Vou muito nesse sentido: o sexo também é uma arma de resistência. O desejo também é uma potência política”

Como foi a sua criação nesse sentido?
Muito livre. Não tive muitas referências de “macho”, “tem que ser macho”, nunca tive isso na minha vida. Pra mim, a força era mulher. Sempre foi. Era quem representava a força dos lares onde eu morei. E as divas, né? Como criança gay, as divas são o quê? Um tudo pra gente [risos]. A gente com cinco anos de idade já está se identificando com elas. Cresci num ambiente muito livre. Meus pais são artistas. Fotógrafos e cineastas, fizeram alguns filmes também. Os amigos deles, as pessoas com quem eu convivia formavam um grupo muito diverso. Tinha gente da periferia, tinha gente rica, tinha gente classe média, sabe? Tinha preto, branco, índio, travesti, gay, lésbica, tudo. Então, não era uma questão. A diversidade para mim era o normal. Por isso, acho também que eu chego de uma maneira muito reativa, que até me coloca em algumas polêmicas às vezes, com religiosos ou com conservadores. Com reacionários, né? Esse mundo do menino usa azul e menina usa rosa, pra mim, não existe. E nunca existiu. E eu continuo achando que não. Não é porque eu fui criado assim, não, é porque é uma besteira. São regras e dogmas feitos para aprisionar a mente das pessoas. Aí também muito pequenininho eu encontro o trabalho de Madonna. E ele me brilha os olhos. Fico “meu deus do céu, o que é essa força da natureza? Que força essa mulher!”. Ela é uma artista mainstream, do pop, questiona os dogmas, faz provocações, abraça a comunidade LGBT no trabalho dela, chega quebrando tudo. E, ao mesmo tempo, ela é uma popstar. Cresci muito com esse ideário de que eu poderia fazer isso um dia. Poderia fazer música e dentro do meu trabalho levantar todas essas questões: políticas, sobre sexualidade, até sobre religião mesmo, os dogmas que tentam enfiar de qualquer maneira na nossa cabeça. Foi uma criação muito, muito livre. Aí depois, adolescente, nunca ninguém me disse o que eu tinha ou não que fazer. Namorei mulher, namorei homem. Nunca botei minha cabeça dentro de uma caixa. Eu fui vivendo minha vida e sendo o mais livre possível. E é uma coisa engraçada porque, depois que eu ganho alguma projeção, alguma voz, os reacionários me odeiam, né? Mas se eu for recordar, com 5 anos de idade, eu me lembro de gente religiosa falando pra mim que eu era o demônio, que eu era o invertido. Não é uma coisa que começou agora. Quem é LGBT sabe que desde pequeno que a gente é chamado de demônio, que a gente é excluído. O que muda? Só a escala. As pessoas são as mesmas. Pessoas horríveis. São as mesmas. E o mundo está cheio delas. O que a gente pode fazer? Brilhar muito pra cegar elas [risos].

“A tragédia também é um artifício estético”. Queria que você comentasse essa outra frase sua e falasse sobre a presença da tragédia nos seus discos.
Eu acho que a tragédia, assim como ódio, move muito a paixão das pessoas. Por exemplo: é um comportamento humano quando morre alguém na rua e junta aquela multidão em volta. A tragédia, o definitivo, o sofrimento, ele atrai o nosso olho. Atrai a nossa atenção. Até pro país que a gente está vivendo em termos macro também: “a tragédia brasileira”. Isso é uma coisa que muitos políticos usam pra justificar o terror que eles dispersam sobre as pessoas. Desde as tragédias gregas e romanas [risos], a gente tem esse fator de atração. Quase que como um ímã. Eu quis usar isso ali no Macumba, destrinchar esse artifício, sabe? Porque a cultura latina e brasileira têm muito essa coisa da tragédia, da passionalidade e do amor romântico. É um tema que é repetido à exaustão. As músicas não falam sobre outra coisa. Se você for olhar no TOP 50 do Spotify, todas as músicas falam sobre a tragédia do amor romântico. Todas. Tem uma ou duas que falam sobre sexo, que é outra coisa que move muito as paixões das pessoas. Sexo, violência, tragédia. Enfim, são esses pilares do pensamento humano, das paixões humanas. Assim como eu abordei a tragédia do amor romântico no primeiro disco, eu abordei mobilização que vem através da paixão política no segundo, eu quero agora mobilizar a paixão que vem através do sexo, de falar sobre sexo, dos nossos corpos, que também são coisas que movem muito as pessoas. No final do dia, eu até consigo pensar nesses trabalhos como uma trilogia. O amor romântico: a tragédia. A política como a paixão. E a outra paixão que é o sexo. São três pilares, eu acho, que movem a sociedade. O que move a gente a encontrar a próxima história é um pouco isso também: é encontrar a próxima narrativa sobre a qual você vai se debruçar, né? A próxima história que você vai contar. E esses temas universais e atemporais, eles sempre retornam, se repetem e a gente vai dando a nossa visão sobre o assunto. Dia desses eu li uma coisa assim “o artista tem que ter responsabilidade sobre o que ele canta” no sentido de que o artista tem que ser o que ele canta. Aí eu discordei disso. Porque ele não tem que ser o que ele canta. Como um escritor vai se responsabilizar pelos personagens que escreve? Como é que um ator vai se responsabilizar pelos personagens que interpreta? Não é um pensamento complicado, mas é muito senso comum. Se você é um cantor assim, você é assim. Se você canta sobre isso, você é isso. Principalmente porque o cantor é a própria voz da pessoa. Então as pessoas confundem muito. Eu acho que deve ter alguma responsabilidade, obviamente, mas a arte descreve as coisas. Às vezes, ela descreve um estilo de vida que é horrível. O que eu estou querendo dizer é que a arte não tem que ter esse guia moral.

“Com 5 anos de idade, eu me lembro de gente religiosa falando pra mim que eu era o demônio, que eu era o invertido. Não é uma coisa que começou agora. Quem é LGBT sabe que desde pequeno que a gente é chamado de demônio, que a gente é excluído. O que muda? Só a escala. O mundo está cheio de pessoas horríveis. O que a gente pode fazer? Brilhar muito pra cegar elas”

Ouvindo você, lembrei do episódio da Karol Conká no BBB. Com uma obra de impacto na cultura nacional, ela foi “cancelada” após atitudes que decepcionaram os fãs. Como você vê esse episódio? É preciso separar a obra do artista?
Exatamente. Porque arte é diferente. Eu estava lendo um dia desses que Lana Del Rey é muito problemática porque “olha sobre o que ela fala”. Ela fala sobre um personagem que é uma pessoa que vive em Hollywood. Uma mulher que podia ter saído exatamente de um filme de David Lynch, que se envolve com homens mais velhos e ricos. Isso é um personagem. Não é ela. Ziggy Stardust, de David Bowie, era um alienígena que, no final das contas, descobria que era um ditador, que tinha impulsos autoritários. São os personagens que você vai desenvolvendo nesses trabalhos. Aí isso me levou a um trecho do filme Na Cama com Madonna, que ela chega em Roma e o Papa quer proibir o show dela. Ela escreve uma carta e vai até a imprensa e lê: “O meu show não endossa um estilo de vida, ele apenas descreve um. E eu deixo ao público a percepção se vão concordar ou não. Se vão se questionar ou não. Isso, pra mim, é liberdade de pensamento, de expressão e de fala”. Então, quando a gente mostra uma obra para o mundo, cabe ao público julgar, mas a balança moral não pode estar apenas sobre o artista. No caso de Karol, acho que o que aconteceu ali foi muito grave. Aquilo ali é um experimento social. A pressão é muito grande. Ela deveria ter consultado psicólogos e psiquiatras antes de ir. Porque acho que o que houve ali foi que ela dissociou forte.

Como assim?
Tem gente que quando está sob pressão ou sob tensão, se dissocia. Não é que ela seja mentirosa, é que ela se dissociou. Você via que ela falava coisas que não tinham acontecido, mas que pra ela aconteceram. Isso precisa de muito tratamento. E esse comportamento de dissociar, eu já convivi com muita gente que já teve e vem de trauma. Geralmente, pessoas que sofreram muito trauma têm tendência a se dissociar. No primeiro sinal de que as coisas vão ficar muito ruins, elas se descolam da realidade e criam uma realidade própria. Inventam uma realidade onde elas estão certas. Isso é mais complicado. Agora, no caso de Projota, as pessoas ficaram decepcionadas de saber que ele é um cara rico há muitos anos. Ele pode ter tido uma origem na periferia, mas ele não é mais o moleque da vila. As pessoas ficam decepcionadas como se ele tivesse a responsabilidade de ser esse moleque da vila pra sempre. É uma coisa de espelhamento, as pessoas se projetam nos outros. Essa decepção é por conta e responsabilidade das pessoas. O artista não tem nada a ver com isso [risos]. É muito louco isso. Até a própria Madonna, com a ideia da sexualidade, o livro Sex… Tenho certeza que a família tradicional brasileira achava que ela vivia dentro de um orgia, que ela acordava com cinco homens pelados ao redor [risos]. É o personagem Dita que ela até fala no [disco] Erotica que ela assumiu ali. É a gente brincando de fazer arte. É o artista sendo um pouco criança também. Qual o personagem que eu vou inventar agora? Que eu vou interpretar?

Como eu sei que você acompanha o BBB, a pergunta é: pra quem você está torcendo nessa edição?
Eu tenho que falar que é Gil. Porque ele é da minha terra. Ele é de Jaboatão, foi onde eu cresci. Acho que, pra ele, é um sonho estar ali, um objetivo de vida. Ele é um cara que ralou muito. E eu acho ele uma pessoa legal porque, apesar de ter sido criado em uma religião muito estrita e cheia de dogmas horríveis em relação à comunidade LGBT, ele consegue conviver com isso sem ódio. Ele meio que entendeu quem ele é. Ele tem essa percepção das diferenças do mundo, é um cara inteligente. E eu acho ele muito engraçado. E acho que ele quer tanto estar ali. É o sonho da vida dele. Também gosto muito de Camilla, João, Juliette, mas pra ele é o sonho. Tem muita gente ali que já é rica, que já é famosa, que não faz diferença. Mas, se for pela coisa “quem deve ganhar o prêmio de 1 milhão e meio”, eu falaria ele.

Continua após a publicidade
Tags Relacionadas
mais de
expressão
rico-dalasam-01

O Retorno de Rico Dalasam

Por
Depois de um hiato e um cancelamento, o rapper volta com novo álbum sobre afetividade de pessoas negras e relações interraciais
Pelo Brasil afora, drag amazônica chama a atenção para questões ambientais e sociais por meio de sua arte
Agnaldo Timóteo, cantor.

O último cantor do vozeirão

Por
Entrevistei Agnaldo Timóteo em 2018, mas apenas à luz de sua morte vejo essa conversa sobre homossexualidade e homofobia publicada
chorao03

A dualidade de um herói real

Por
Documentário "Chorão: Marginal Alado" mostra ambas as faces de um artista que marcou sua época sendo muito em todos os âmbitos de sua vida
No dia em que ele completaria 80 anos, Helio de La Peña, Jacy Lima, Yuri Marçal e outros humoristas refletem sobre o papel dos negros na comédia brasileira