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Por uma internet mais legal

Em meio à ansiedade generalizada e os gatilhos que temos on-line, tornar o ambiente digital mais saudável, gostoso e criativo parece ser o desafio da vez

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 18 nov 2020, 16h30 - Publicado em 16 nov 2020 02h12
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Clube Lambada/Ilustração

onfesso que quebrei a cabeça para escrever essa matéria. Do começo ao fim – propor a pauta, pesquisar dados relativos ao tema, entrevistar cada fonte e, de fato, escrevê-la –, me questionei se essa era mais uma matéria que precisava ser escrita. Vocês estão aqui, lendo, então parece que conclui que valia a pena. E isso é verdade. Cada vez mais, principalmente depois de ter começado a pandemia, parece importante falar sobre nossa relação com a internet. Principalmente o quão cansativa, opressora e tóxica ela pode ser.

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João Barreto/Ilustração

E isso não é (só) uma percepção minha, mas um fato comprovado por dados. O Indicador de Confiança Digital 2019 (ICD), levantamento conduzido pela Fundação Getulio Vargas, aponta que 41% dos jovens brasileiros relatam sintomas de ansiedade, depressão e tristeza relacionados às redes sociais. A busca por “como fazer meditação para ansiedade” cresceu 4.000% no Google em relação ao ano passado – é claro que a pandemia contribuiu para isso, mas meditar é, para muitos, sinônimo do único momento que passamos longe do celular. Outro estudo, dessa vez da Unicamp, aponta que 40% dos brasileiros relataram tristeza ou depressão nos últimos meses, quase sempre relacionadas ao isolamento e, consequentemente, ao maior tempo que passaram online. Se quase metade do nosso país (e, provavelmente, do mundo) não está sabendo lidar com o tempo que passamos vidrados nos nossos smartphones, o que será que podemos fazer para melhorar essa relação?

“Em 2019, trabalhei muito, celular na mão o tempo inteiro, precisava estar sempre conectado. O relatório semanal do celular registrava 12 horas de uso por dia. Isso é um vórtex, é uma coisa que se estendia desde antes de chegar no trabalho e depois que eu saía. Percebi que olhava para o celular no metrô sem sinal. Desbloqueava a tela por nada e, de repente, estava lá no Instagram preocupado com ter perdido algo. Eu tinha muita fome e muita sede, mas nada me alimentava, era quase como uma dose de droga”, conta Thiago Loreto, publicitário e produtor de conteúdo focado em repensar nossa relação com o ambiente digital.

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João Barreto/Ilustração

Natural de Uberlândia, Thiago faz parte de uma geração que, quando chegou na internet, “era tudo mato”. Teve um blog de sucesso em sua região, seguiu para o ramo da publicidade com foco no digital e desenvolveu alguns projetos pessoais, como o “Um texto por dia”, em que escrevia diariamente em sua conta no Medium. “Senti muita dificuldade de dar continuidade nessa história porque me faltava tempo. Escrevia no ônibus, voltando do trabalho, mas comecei a achar que eu estava jogando mais ‘lixo’ na internet”, lembra ele – o projeto durou 178 dias, quase metade de um ano.

A sensação de não conseguir de fato criar nada novo, somada à frustração de não ver as fotos de seus melhores amigos e familiares quando ele entrava nas redes sociais levou Thiago a tomar medidas extremas: uma experiência de unfollow coletivo, o que ele chamou de reset digital. “A gente fica numa coisa muito vaidosa e muito refém do algoritmo, do tipo: o que a amiga da irmã da minha amiga vai pensar de mim se eu parar de segui-la? Eu estava muito cansado de ter esse comportamento, meu olho estava fisicamente cansado da tela. Foi então que decidi escrever um texto no meu Instagram falando que ficaria 30 dias fora dele e, na volta, daria follow só em quem fizesse sentido. Baixei um app que fazia unfollow de 50 em 50, fui considerado spam pela plataforma, tive que fazer uma parte à mão… Na hora, é muito esquisito. É um misto de prazer e agonia, como diria a Sandy”, lembra.

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João Barreto/Ilustração

A grama do vizinho

A citação musical de Thiago não poderia resumir melhor. Primeiro que, ao retirar aquilo que nos causou o vício, corremos o risco (alto) de sofrer uma crise de abstinência. Além disso, em um universo que quem você segue acaba virando sua própria bolha, o que acontece quando você para de seguir todo mundo? “Minha bolha era eu. Você fica sem base do que é cool e o que não é. Qual é o timing, será que eu postei tarde demais ou antes de todo mundo? Hoje, vejo que essas são características tão vazias de significado, mas, mesmo assim, a gente as valoriza muito.”

O espaço vazio que sobrou no feed (provavelmente você não sabia, assim como eu, mas existe uma mensagem que o Instagram mostra quando você viu tudo que tinha para ser visto no seu feed) despertou em Thiago a vontade de conhecer outras partes da plataforma e também a se permitir ser “menos legal e bonito”. Desapegou dos filtros embelezadores, se permitiu ser mais engraçado e autêntico e, mais importante, percebeu que a estética presente na maior parte dos posts não era necessariamente a estética que mais o agradava. “Meu feed pode ser o que eu quiser. Posso não seguir nenhum amigo e só grandes criadores de conteúdo, ou só fotógrafos incríveis. O Instagram é uma ferramenta tão potente quanto você escolher. Hoje, sigo 190 pessoas, um misto de gente que eu gosto muito, gente que eu admiro muito o trabalho, gente que me inspira e me dá insights de uma forma muito indireta pra eu fazer um trabalho mais legal”, conta.

“Minha bolha era eu. Você fica sem base do que é cool e o que não é. Será que eu postei tarde demais? Hoje, vejo que essas são características tão vazias de significado, mas, mesmo assim, a gente as valoriza muito”

Thiago Loreto

E quando o assunto é noiar com o que é postado – por si mesma e pelos outros –, Camila Fremder é expert. Escritora com cinco livros publicados e autora do É Noia Minha, um dos podcasts mais escutados no Spotify brasileiro, Camila estava acostumado a criar narrativas e conteúdos para os outros, mas foi só quando seu filho, Arthur, nasceu que ela percebeu o impacto que a internet tinha de fato em sua vida. “A maternidade veio para me mostrar que o que eu via na internet era absolutamente diferente do que eu vivia. Acompanhava influenciadoras que tinham um poder aquisitivo totalmente diferente do meu, uma vida muito distante da que eu me proponho a ter. Comecei a sentir a necessidade de mostrar como era minha rotina, até pensando em outras mães e outras meninas que passavam por essa frustração que eu passei”, conta.

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Momentos reais: Uma criança fazendo manha e uma mãe exausta ( e bem feia nessa foto). E tudo bem. Como são os momentos reais aí na casa de vcs?

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Além do conteúdo muito bem humorado e bem produzido, jogar limpo com seu público parece ter sido a receita para Camila deslanchar no digital. Hoje com 112 mil seguidores em seu perfil pessoal e quase 50 mil no perfil do podcast, ela se considera um pouco menos noiada com essa parte negativa que as redes trazem para nossas vidas. “Eu lavo roupa, tenho louça na pia e reforço que a foto do meu filho lendo comigo durou realmente o momento da foto, 3 segundos apenas antes de ele perder o interesse. A internet pode ser muito legal, mas muito perigosa também. Optei por mostrar minha maternidade e minha realidade e percebi que as pessoas tinham essa necessidade de ver esse lado real, mas que também mostrassem uma profissão real.”

A noia, hoje, é outra: não deixar que o Instagram seja a principal fonte de renda. Os projetos de livros, podcasts, newsletters, roteiros e outros conteúdos seguem a todo vapor, enquanto os publis que rolam em seus perfis permanecem como um (bem-vindo) complemento. Mas a escolha por mostrar a realidade e não gourmetizar maternidade, vida a dois e tantos outros momentos íntimos que ela divide como influenciadora tem seu preço. “Não sinto o mercado conectado com um jeito mais real e mais devagar de produzir, menos conectado com a quantidade de likes. Fora a quantidade de marcas que se propõem a ‘criar a quatro mãos’ e não te pagam pelo trabalho de criação, pagam só pelo post como influenciadora. Elas ainda estão aprendendo a lidar com esse novo criador de conteúdo que, de fato, cria conteúdo, não só replica mensagem.”

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João Barreto/Ilustração

Sua tristeza vira lucro

Com cada vez mais gente questionando essa lógica de replicação sem criatividade, por que o mercado ainda insiste nesse cenário ou se recusa a ver, baseado nas métricas que ele tanto cobra, que algumas pessoas que questionam esse status quo digital estão construindo narrativas importantes? Não somos nós que estamos falando isso: uma pesquisa do Grupo Consumoteca aponta que 58% dos brasileiros estão insatisfeitos com a vida atual – um índice maior do que países da América Latina como Colômbia, Argentina e México –, 41% das pessoas ouvidas sentem que não estão fazendo tudo o que podem pela sua felicidade e que 35% sentem que essa negatividade aumenta ao acompanhar a vida alheia nas redes sociais. 

“Desde os anos 80, vivemos nessa lógica da produtividade, em que você pode sempre mais. Empresas e gestores criam metas inatingíveis, metas feitas para que não sejam batidas, e isso gera sofrimento. Na nossa pesquisa, mostramos que 8 em cada 10 brasileiros têm projetos que queriam tirar do papel e não conseguiam, o que aumenta esse sofrimento. Quando perguntamos o que elas gostariam de fazer caso tivessem mais tempo livre, a resposta, no entanto, não bate: elas só querem relaxar, não fazer nada”, explica Michel Alcoforado, antropólogo e sócio-fundador do Grupo Consumoteca. E o momento de não fazer nada normalmente tem uma companhia que pode aumentar ainda mais o problema: o smartphone, que nos entrega apenas pessoas de férias, na praia, transformando aquele sonho em realidade e frequentando os lugares que você não conseguiu ir pois estava cansado demais.

“Burnout não é excesso de trabalho, é um excesso de vida. O digital acirra essa contradição. A gente não trabalha mais do que os nossos pais, mas o problema é que os nossos pais tinham hora para parar de trabalhar”

Michel Alcoforado

Batizado de A economia do mal estar, o estudo reforça como esse discurso praticamente onipresente nas redes – aquele dos coaches, da positividade, de confiar no próprio potencial e seguir adiante, pois é isso que as pessoas bem sucedidas fazem – pode ser o grande responsável por isso. “O capitalismo funciona no esquema de oferta e demanda. Para que alguém te venda o discurso da positividade, de que você pode mais e é capaz, é preciso criar a demanda do sofrimento, da necessidade, da tristeza”, continua Michel. Em uma realidade que nos cobra cada vez mais e em que trabalho, amigos, paqueras, família e todos os outros setores da nossa vida estão na palma da nossa mão, a um clique na tela de distância, não é surpreendente que cada vez mais os casos de burnout estejam pipocando por aí – o Brasil é o segundo país com o maior número de pessoas afetadas pela síndrome, de acordo com o International Stress Management Association (ISMA-BR). “Burnout não é excesso de trabalho, é um excesso de vida. O digital acirra essa contradição. A gente não trabalha mais do que os nossos pais, mas o problema é que os nossos pais tinham hora para parar de trabalhar”, lembra.

Ou seja: o problema do digital, da nossa relação com a internet, na verdade não está em tela nenhuma. “E também não está no presidente do Google, no Mark Zuckerberg, na recrutadora da Apple. O problema está no capitalismo. Pensar em outras rotas de produção para atender a esse novo desejo, de ir mais devagar, criar com mais calma, marcar nossa individualidade”, declara Michel. Um raciocínio que esbarra e explica também a questão dos algoritmos racistas, machistas, misóginos que enfrentamos diariamente ao entrar em todas as redes sociais. “Culpar pessoas ou grupos de pessoas, ou até empresas, por esse problema é enxugar gelo.”

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Então… qual é a internet que a gente quer?

Se esses algoritmos tornam todos reféns, independentemente de suas profissões, é de se imaginar que, para quem trabalha com criação de conteúdo online, as algemas sejam ainda mais apertadas. Dentro de plataformas que privilegiam uma estética definida – você sabe do que estamos falando, já que questões de saúde mental, saúde pública, tragédias ambientas, crimes de ódio e o meme da semana costumam ter a mesma carinha millennial e motivacional – , como de fato ser criativo e criar um conteúdo relevante que, ainda por cima, caia nas graças dos algoritmos e seja de fato entregue ao público?

“Por mais que eu pense diariamente sobre isso e trabalhe com isso, não me eximo de cair nessa armadilha. A gente quer que a responsabilidade de comportamento seja individual, quando na verdade precisamos pensar em algo estrutural. Não fico na internet porque me falta força de vontade, mas porque o mecanismo é feito pra isso, cada like que você recebe libera dopamina no seu cérebro. Já tive momentos em que pensei que podia procrastinar menos, ser mais focada, colocava culpa em mim, mas entendi que a culpa é do modelo de negócio, do capitalismo”, conta Daniela Arrais, jornalista, criadora com ampla experiência no ambiente digital e uma das sócias da Contente, “a primeira plataforma de conteúdo e mídia para uma vida digital mais consciente”, em suas palavras.

Dani é uma daquelas pessoas que, quando chegou na internet, era tudo mato. Não tínhamos smartphones, os blogs eram a sensação e ela, claro, já tinha o seu. Em 2007, nasceu o Don’t Touch My Moleskine, em que, até hoje, ela escreve sobre música, literatura, fotografia, amor. É essa mistura de coisas afetivas e inspiradoras que Dani acredita, inclusive, ser uma das melhores soluções para trazermos mais leveza para nossa relação com o digital. “Para quem produz conteúdo, vira uma armadilha maior ainda. Ao mesmo tempo, ideias surgem muito mais para mim quando estou lendo um livro – costumo anotar as ideias que aparecem na última página. Parece que meu cérebro está respirando. O excesso de estímulo paralisa. Quando estamos na internet, às vezes pensamos: ‘todo mundo já fez isso’. Mas qual a história que a gente quer contar?”, questiona.

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João Barreto/Ilustração

A resposta para entender o nosso papel dentro da internet – e qual o papel ela deve ter dentro das nossas vidas – pode ter como resposta algo que muitos de nós já aprendemos sobre alimentação. Sabe aquela história do prato colorido? “Uma internet legal de verdade mistura vários tipos de conteúdo, uma boa nutrição digital tem de tudo: o textão, o Tiktok, a pílula de conteúdo no Instagram, várias vozes sendo amplificadas. Tenho expectativa de que isso seja realidade não seja só quem faz e quem consome, mas também de quem apoia, das marcas. É muito importante sair da internet para se abastecer e voltar pra internet criar conteúdo. Todo mundo pode falar do mesmo assunto, mas cada um vai falar do seu jeito. Criar é usar nosso repertório, referências, vivências, tudo. A gente precisa ter uma relação com a internet que respeite o ser humano por trás da persona. Entender porque você quer estar ali. hoje, são milhões de bolhas, pessoas que você nunca ouviu falar que têm milhões de seguidores. Conectar-se com o que você quer de fato me parece uma boa saída para uma produção digital – e uma vida offline – mais autêntica.”

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João Barreto/Ilustração
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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por João Vitor Barreto. Confira mais de seu trabalho aqui

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