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Casos de família

Décadas de experiências – e de análise –, técnica, foco e uma dose generosa de humanidade fazem de Ilana Casoy uma das principais criminólogas do país

por Rodrigo Grilo 7 jul 2020 09h58
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Clube Lambada/Ilustração

ão há como trafegar pelo universo da literatura de criminologia sem dar de cara com Ilana Casoy, 60 anos. Maior especialista brasileira no assunto, ela estuda, há duas décadas, os assassinos mais perversos do país. Esteve, inclusive, cara a cara com muitos deles, para entender suas mentes diabólicas. “Eu tinha três anos quando o meu tio Boris entrou na sala e disse para o meu pai: ‘Júlio, o Kennedy foi assassinado’”, lembra ela, sobrinha de Boris Casoy e prima de Serginho Groismann, citando o primeiro fato violento com que teve contato.

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DW Ribatski/Ilustração

Administradora de empresa de formação, Ilana é pós-graduada em criminologia. Como ela, pouca gente no mundo estuda assassinatos em série, uma especialidade e crimes raros. Mais atípica ainda deve ser a quantidade de pessoas que, como a Ilana fez, desarmada, entrevistou serial killers como Chico Picadinho e Pedrinho Matador.

Não à toa é convocada com frequência para dar consultoria a polícias civis e ministérios públicos Brasil afora e elaborar perfis criminais de assassinos. Única civil presente na reconstituição do assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen, Ilana assina o roteiro de A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou meus Pais, filmes que contam a versão de Suzane von Richthofen e de Daniel Cravinhos, a mandante e o assassino do casal, morto em 2002.

Dirigidas por Maurício Eça, ambas produções são baseadas nos dois livros sobre o caso lançados por ela: O Quinto Mandamento – Caso de Polícia e Casos de Família: Arquivos Richthofen e Arquivos Nardoni. Sua última obra, escrita em parceria com Raphael Montes, Bom dia, Verônica teve os direitos comprados pela Netflix e se tornou a primeira ficção policial brasileira a ganhar uma produção original do serviço de streaming. Transformada em série, tem estreia programada para o segundo semestre e tem no elenco nomes como Camila Morgado e Eduardo Moscovis. “O Rapha e eu assinamos a autoria e a produção executiva da série”, diz Ilana, que, a convite da Fox, traçou o perfil do psicopata Dexter Morgan, protagonista da série Dexter, exibida entre 2006 e 2013.

No papo a seguir, Ilana, também autora de Em Nome da Justiça, série sobre decisões judiciais de crimes duvidosas exibida pela Record, dá detalhes da participação no julgamento do caso Gil Rugai e conta como foi encontrada em São Paulo a mando do serial killer Pedrinho Matador, que desejava ser entrevistado pela criminóloga.

De quem partiu a ideia dos dois filmes sobre o caso Richthofen?
Fui procurada pelo Maurício Eça. Ele havia lido o meu livro sobre o caso, O Quinto Mandamento, lá em 2007. Tinha entendimento profundo dos fatos, o que ajudou muito na hora de dirigir o filme. A fábula Suzane e Daniel é clichê: menino se apaixona por menina de classe mais alta; menina se apaixona por menino de classe mais pobre. E os pais dela são contra a relação. Como contar esse lugar comum é o que dá molho à produção. No filme O Menino que Matou Meus Pais, sobre a versão da Suzane, ela é uma menina, ingênua. E, na versão do Daniel, A Menina que Matou os Pais, ela é uma mulher poderosa, dona de si. É muito interessante: duas versões sobre um mesmo acontecimento. O trabalho que tivemos junto aos atores (Carla Diaz e Leonardo Bittencourt) foi o de eliminar os julgamentos deles sobre cada um dos protagonistas do crime, para que focassem no roteiro. Não queríamos que aprendessem trejeitos, mas apenas contassem a história daqueles jovens. A história dos filmes parte do dia em que Suzane e Daniel se conheceram e vai até o crime. Eu estava sentada no júri, quando os dois contavam essa história.

Você chegou a entrevistar a Suzane e o Daniel?
Não. Eu tinha um acordo com a juíza corregedora do caso, à época. O objetivo em acompanhar in loco o julgamento era literário e não jornalístico. Também não quebrei a confiança do juiz Anderson, que me pôs no plenário e permitiu que eu acompanhasse todas as audiências e o júri final. Mas o Seu Astrogildo, pai dos Cravinhos, me procurou, antes do júri, e perguntou se eu gostaria de escrever junto com eles um livro. Com muito respeito, expliquei que escrevo sozinha e baseada no processo. Eu estava acompanhando uma história e não caberia ter conversas particulares enquanto o processo corria. Não posso atrapalhar um rito como o do júri. E, depois de julgado, o caso não me interessava mais. Eu não sei se Suzane quis ou não falar comigo. Sei que ela queimou o livro que escrevi sobre o caso. Eu sabia que Suzane era minha leitora, porque ela preencheu um formulário que vinha no fim do livro Serial Killer – Louco ou Cruel? e enviou para a editora, na época. Anos depois, fui fazer uma visita para conhecer a penitenciária feminina onde ela estava presa, mas com o compromisso de não abordá-la porque algum desembargador, na época, havia proibido entrevistas com ela. Não falei com ela, como havia me comprometido, mas conversei com muita gente ali, entre presas, diretoria, agentes penitenciários. Foi nesse dia que um desses ‘passarinhos’ me contou da reação dela à leitura do Quinto Mandamento – Caso de Polícia. E que ela rasgou o livro e queimou, de raiva.

O que mais chamou a sua atenção durante o júri?
Me emocionei ao ver, ali, os pais do Daniel e do Cristian, um casal com dois filhos no banco dos réus. Lembro de a Nadja, mãe deles, dizer quando os dois entraram na sala do tribunal: ‘o Daniel tá com cabelo branco’. Os depoimentos que estão nos filmes são ipsis literis o que foi dito no tribunal. É o mesmo texto, mas interpretado incrivelmente. Gravamos o depoimento que a Nadja deu no júri. É o mais emocionante que já ouvi na minha vida. É para chorar de A a Z. A [atriz] Débora Duboc conseguiu alcançar a Nadja real. Foi incrível.

Como imagina a vida de Suzane solta?
Difícil. A de todos aqueles que passam pelo sistema já é marcada, estigmatizada, mas ela matou o mais sagrado – a família. Sempre será reconhecida, não importa como se comporte, não importa se refletiu, se mudou, se pensa diferente hoje. E se tiver filhos, eles também serão marcados. É como a marca de Caim.

O que diria a ela, se a encontrasse?
Eu perguntaria se ela ainda acredita no amor.

Suzane mataria o Andreas, o irmão, se tivesse chance, lá atrás?
Lá atrás, não. Depois, jamais saberemos. O principal motivo de uma mulher matar, o mais comum, é dinheiro. E ela é uma matadora de família. Andreas é família e ficou com o dinheiro.


“Sinto muito, mas a família do assassino também sofre. A mãe de um assassino gosta dele do mesmo jeito que a sua mãe gosta de você. Não existe sofrimento bom e mau, mas sofrimento”

Quando viu os filmes prontos, qual foi sua reação?
Chorei. Em alguns momentos, sentia um mix de tempo: estou lá ou aqui? Esse fuso horário de o outro estar no ontem e eu, no amanhã, é incrível. Fui a muitas filmagens, mas não na gravação do dia do crime. Eu carrego uma carga de realidade grande. No meu livro sobre o caso, há uma reconstrução pericial feita por mim e o Maurício Eça já a conhecia do avesso. A minha presença na gravação do dia do crime poderia causar desconforto, preocupação, cobrança, expectativa nele e em mim. Não queria correr o risco de interferir em algo. E também não quis estar lá porque não tive forças. Essa história ocupou 18 anos da minha vida. Vi no filme depois, pronto. E adorei. Não deixei de acompanhar o caso, ele que foi encerrado. Suzane e os Cravinhos são culpados, cumprindo pena. Só não acompanhei a filmagem do crime. Nunca deixo de acompanhar um caso com o qual me comprometo, mas às vezes me sinto um pouco como Truman Capote em A Sangue Frio: você depende da história real acabar para só então finalizar seu trabalho. Veja no caso Rugai: a defesa apela por um novo júri (e eu apoio essa decisão), mas enquanto isso não for decidido, não posso acabar meu livro sobre o júri, porque não posso arriscar contar ‘o júri que não valeu’. E, se valer o que já foi, perdi um tempão pela morosidade da Justiça, porque já poderia ter escrito. Essa é a grande vantagem de escrever ficção. O escritor não depende de ninguém, só da imaginação e do tempo dele.

Você estreou na ficção, em 2016, com o romance policial Bom Dia, Verônica, escrito em parceria com o Raphael Montes. O que descobriu a partir desse gênero?
Eu adorei, primeiramente, porque eu posso matar. E, depois, ressuscitar, se quiser. Há, ainda, uma terceira via interessante: corrigir casos que apresentam vácuos. Um exemplo: fui chamada pelo delegado Dr. Paulo Tamer para colaborar com a polícia do Pará a encontrar o serial killer conhecido como o Monstro da Ceasa, que vinha matando garotos entre o final de 2006 e início de 2007 em Belém do Pará. Três alunos de uma mesma escola, moradores de um mesmo bairro, tinham sido mortos na mata da Ceasa, muito utilizada para oferendas. Analisei as circunstâncias do crime e elaborei o perfil do assassino. Havia uma garrafa verde quebrada perto do corpo do primeiro menino morto. Perguntei, então, se a equipe de investigação havia coletado a garrafa. Todos riram e me disseram: ‘A senhora acha que está em Hollywood? Há 500 mil garrafas nessa mata!’ Virei chacota durante um ano de investigação.


“Para o investigador-chefe do Caso do Monstro da Ceasa, eu era mais um E.T. de Hollywood do que uma especialista em qualquer coisa, além de ser mulher, a única na equipe. Brigávamos todo dia.”

Então, você atua em um campo onde homens, historicamente, ditam a regra do jogo e se sentem os donos da expertise. Como percebeu a desconfiança, reagiu a ela e se impôs?
Para o investigador-chefe do Caso do Monstro da Ceasa, eu era mais um E.T. de Hollywood do que uma especialista em qualquer coisa, além de ser mulher, a única na equipe. Brigávamos todo dia. Mas a investigação foi fechada com sucesso e ficou uma amizade que dura até hoje. O bom resultado é que impõe a aceitação. Quando você acerta, ganha o respeito bem rápido, e eu tenho acertado, tecnicamente falando. Investigar crime em série e de família requer metodologia específica, que o manual da polícia para investigar homicídios não tem.

Como foi fechado esse caso?
Depois de o André Barboza, o assassino, ser preso, fui entrevistá-lo para ouvir sua confissão e levantar histórias que corroborassem com o inquérito. No quinto dia de conversa, disse ao assassino que não tinha entendido o que ele usou para fazer o corte no menino. Eu insistia que fora uma faca. Já cansado, encalacrado mentalmente, ele fala: ‘Tem uma coisa que a senhora não acertou. Eu não usei faca, mas uma garrafa’. Aí o delegado se adianta e pergunta se o André lembrava a cor da garrafa. ‘Uma garrafa verde’, respondeu ele. O delegado estapeou a própria testa. Se ele tivesse coletado a tal garrafa que eu havia falado, a digital que nela estaria fecharia o caso logo ali. Na ficção, então, eu consigo fazer alguém coletar uma garrafa (risos). Ter controle total de qualquer coisa é uma delícia. Voltei de Belém condecorada com a Medalha do Mérito Policial Civil pela minha contribuição à polícia do Pará.

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DW Ribatski/Ilustração

Sem alarde, você contribui com várias investigações criminais. Como se sente nessa invisibilidade?
A vida me ensinou a entender esse lugar. Estive invisível nos três casos de família mais comentados dos últimos tempos: Manfred e Marísia Von Richthofen, Isabela Nardoni e Gil Rugai. Há ganhos nessa condição. Tenho maior abertura para desenvolver outro tipo de conversa com suspeitos presos na condição de autores de crimes. Eu não sou polícia, investigadora, sou a Ilana. O Chico Picadinho, por exemplo, dependendo de quem o interrogasse, usava vários vieses para uma mesma história. Ele tinha um discurso diferente para o integrante da polícia, para a pessoa da área jurídica, para o da saúde mental e para os jornalistas. Quando cheguei para entrevistá-lo, ele começou a falar de Dostoiévski, literatura russa, na tentativa de entender quem eu, a escritora, era. O Chico chorou muito durante a nossa entrevista. Naquela ocasião, pela primeira vez ele verbalizou muitas histórias, abriu algumas portas que estavam fechadas. Eu ganho, portanto, com essa invisibilidade.

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Matava pessoas com as mãos, o Chico Picadinho, certo?
Sim. Ele realizava asfixia erótica. Ele asfixiou doze, mas matou duas. Esquartejou as mulheres para se livrar do corpo, mas não sem um ritual. As nádegas delas tinham um corte em “x”, a assinatura que representava trabalho encerrado. Havia ali, então, questões psicológicas no contexto.


“Estive invisível nos três casos de família mais comentados dos últimos tempos: Manfred e Marísia Von Richthofen, Isabela Nardoni e Gil Rugai. Há ganhos nessa condição. Tenho maior abertura para desenvolver outro tipo de conversa com suspeitos presos”

Teve medo durante a entrevista com ele?
Não. Mas me assustei quando entrevistei o Pedrinho Matador (Pedro Rodrigues Filho), em 2005. Ele estava com um pacote de balas e, de repente, esticou o braço para colocar uma na minha boca: ‘Quer, doutora?’. Eu catei o braço dele, muito brava, e falei: ‘Não te dei essa liberdade!’. Ele começou a rir. E eu também, né? Pô, estava segurando o braço do Pedrinho Matador, que matou mais de cem pessoas! Em outra oportunidade, fui entrevistar um assassino de crianças, na Bahia. O cara relatava, bravo, como a mãe dele sofria com os crimes que ele cometera. Aí começou a chorar e deu um soco na mesa de raiva. Por pouco não faço xixi na calça. Claro que tento me precaver. Quando estive frente a frente com Jorge Beltrão Negromonte, o Canibal de Garanhuns, me recusei a entrevistá-lo algemado. Foi uma celeuma na cadeia, porque o cara era faixa preta de caratê. Mas ninguém consegue falar algemado. A coisa não sai! Aí posicionamos uma mesa entre a gente de forma que, se o Jorge tentasse algo, teria de pular. Também fui para lá de tênis, porque de salto alto não daria para correr. E estava acompanhada de um roteirista que também era faixa preta, terceiro dan, de jiu-jitsu. Se tivesse de rolar no chão com o cara, não seria eu.

Existe assassino em série que se recuperou?
O Pedrinho Matador assassinou mais de cem pessoas e está aí, solto, depois de mais de 34 anos preso. Em liberdade, adotou uma ideia que saiu durante o nosso papo: viver isolado. Ele já não era de fazer social. Aí arrumou emprego em um sítio e escreveu um livro. Dia desses, ele me mandou um WhatsApp (Ilana mostra o áudio): ‘E aí, minha amiga, tô com muita saudade. Mandei o parceiro procurar você, entendeu? Tô vendo de fazer um documentário sobre a minha vida e alguma outra coisinha. Vem aqui pra gente conversar, tomar um café. É só você ligar para o meu parceiro aqui, tá bom?, Ai nóis marca um lugar e vai. Fica com Deus e um abração pra senhora’. Ele é meu amigo no sentido de que pode me ligar para conversarmos. É um cara que tem um canal no YouTube, creio, e não reincidiu. E foi ele quem me procurou, para me conceder a entrevista, quando soube que eu havia publicado o livro Serial Killer Made in Brazil. Ele pensou: “Como ela escreve um livro sobre serial killer sem falar comigo?”. Aí, mandou um cara me achar, em São Paulo.

Como foi isso?
O Pedrinho falou para o carcereiro da prisão, que fazia bico de taxista, de noite, que precisaria me encontrar. O ponto de táxi do carcereiro ficava no Hotel Meliá, nos Jardins, onde coincidentemente um sobrinho meu, que cursava hotelaria, era estagiário. Um dia, ele e o carcereiro-taxista fumavam no mesmo ponto e, trocando ideia, o cara falou que procurava uma tal de Ilana Casoy. Aí o meu sobrinho me liga: ‘Tia, tem um taxista querendo falar contigo a mando do Pedrinho Matador’. Catei o carro e fui tomar um café no bar do Meliá para falar com o cara. E ele me orientou como fazer o pedido para conseguir entrevistar o Pedrinho Matador. Aí, na atualização do livro, coloquei a história do Pedrinho, a sétima história. Ficou até místico (risos). Mas, antes, ele me perguntou como eu iria chamá-lo no livro.

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DW Ribatski/Ilustração

E o que respondeu?
Falei que colocaria o nome de batismo. E ele: ‘Não, não. Coloca aí Pedrinho Matador’. Óbvio! Ele fora preso aos 18 anos e passou 34 anos atrás das grades. Qual a identidade dele então? A mesma que Veja, jornais, etc., usaram para identificá-lo. O Pedrinho deveria ter saído da prisão após 30 anos, como manda a lei. Mas precisou que uma defensora cuidasse juridicamente, sem fazer marola e levantar poeira, de soltá-lo. Oras, não gosta da lei? Trate de mudá-la. O Pedrinho matou muito dentro da prisão. Ele é um vingador, mas não um justiceiro como todo mundo pensa. É a justiça dele que está em pauta e não a do sistema. Ele tinha “vingança” tatuada nos dedos. Um dos sonhos dele era matar o Maníaco do Parque.

Por quê?
O Pedrinho é meio que um Robin Hood. Acha que roubar de traficante, que seria o verdadeiro criminoso, não é crime. Ele nunca matou uma mulher e nem ‘ninguém que presta’. Costuma dizer assim: ‘Quem eu matei a mãe não chora’. É uma ética particular de certo e errado. E, de fato, cumpriu esse código durante a vida toda. No sistema presidiário, assim que lá chegou, sua primeira tarefa foi não ser violentado sexualmente. Jovem, cheio de vida, logo na primeira noite foi enviado à cela do chefe do pedaço. Pedrinho enfiou um ferro de esquentar água no ouvido do algoz, que morreu na hora. Ele é um cara que, como diz, dormiu trinta anos de olho aberto. E ganhou respeito matando muita gente na cadeia.


“Eu não ganho dinheiro com crime, mas com pesquisa, estudo. Sou remunerada em termos de direitos autorais do que publico por ter tido a paciência de ficar anos e anos atrás de entender a mente humana, entrevistar pessoas, ler processos”

Já pagou para entrevistar assassino em série?
Nunca. Eu não ganho dinheiro com crime, mas com pesquisa, estudo. Sou remunerada em termos de direitos autorais do que publico por ter tido a paciência de ficar anos e anos atrás de entender a mente humana, entrevistar pessoas, ler processos, etc. E traduzir isso ao leitor de forma didática, coerente e profunda, contando, muito mais do que o crime – isso o jornal faz todo dia. Quando eu estava escrevendo a história do caso Nardoni, houve uma reunião na minha casa, na qual estiveram presentes, além de mim, a avó e a mãe da Isabela Nardoni. E elas me questionaram se eu iria ganhar com o crime sobre o caso. Aí o (Francisco) Cembranelli, promotor, que estava nessa reunião disse: ‘Vocês não acham errado eu ganhar pelo Ministério Público, mas se importam de a Ilana, que trabalha de graça há quatro anos nesse caso, ser remunerada por essa pesquisa publicada?’

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DW Ribatski/Ilustração

Como enxerga o fato de muitos crimes se transformarem em novelas a partir da cobertura da mídia?
Há crimes eleitos pela mídia, então, que desbancam outros que graças a Deus ficam na sombra, porque não dá para a gente aguentar, é muito sofrimento. Sofrem a vítima, a família da vítima. E, sinto muito, mas a família do assassino também sofre. A mãe de um assassino gosta dele do mesmo jeito que a sua mãe gosta de você. É muito sofrido descobrir que um filho está bem longe daquilo que você imaginou. Não existe sofrimento bom e mau, mas sofrimento. Houve um crime supostamente cometido por uma mulher de alta sociedade, uma baita história, um dia antes do caso Richthofen, que não foi notícia, porque o foco estava todo no caso da filha que matou os pais. Ninguém sabe que essa mulher foi julgada, condenada e está recorrendo. Há quase 20 anos, a história está invisível, porque a mídia toda estava em outro local de crime. O Primo Levi (escritor italiano) escreveu, certa vez, que “uma única Anne Frank nos emociona mais do que milhares de outros que sofreram tanto quanto ela, mas cujos rostos permaneceram na sombra. Talvez seja melhor desta forma, pois se tivéssemos que absorver o sofrimento de todas essas pessoas, talvez não estivéssemos mais vivos”.

Como você lida com todo esse sofrimento?
Faço análise desde os 13 anos. É impossível, na minha sessão de terapia, eu não aprender a entrar no buraco, na emoção da pessoa com quem falo. Porque se eu não sentir, não deixar doer, não tenho conteúdo pra ler um processo. O assassino abre suas histórias pra mim, durante nossa entrevista, porque eu o ouço de verdade. Antigamente, eu levava uma semana de cama pra me recuperar de uma história dessa pessoa. Passam muitos mortos pelo meu computador, pela minha sala, pela minha vida. Estou sempre lidando com a miséria, com a dor. O importante da terapia é aprender a sair do buraco. Entrar é fácil, porque a dor e o sofrimento grudam na gente, não é como a felicidade, passageira. A terapia, então, me ajuda a sair dessa lama.


“Antigamente, eu levava uma semana de cama pra me recuperar de uma história dessa pessoa. Passam muitos mortos pelo meu computador, pela minha sala, pela minha vida. Estou sempre lidando com a miséria, com a dor. O importante da terapia é aprender a sair do buraco”

O Marcelo Feller, advogado criminalista que defendeu o Gil Rugai, é seu filho. Você teve influência na escolha dele pelo direito?
Filhos são influenciados pelas mães e ponto. Sou administradora de empresa com pós-graduação em criminologia. E tenho um filho administrador de empresa especializado em negócios imobiliários e hoteleiros e outro advogado criminalista. Quando o Marcelo decidiu por essa carreira, sofri. Eu o avisei que iria conviver com um mundo de miséria. Mas ele aprendeu a lidar com o fato. Já choramos e rimos juntos e colaboramos um com o outro. Mas ele não precisa da mamãe para trabalhar. Precisa de mim para jantar fora, viajar junto.

Qual foi sua participação no caso Gil Rugai?
Uma noite, o Marcelo chegou em casa e me disse: ‘Mãe, você sempre contribui com a polícia e promotoria. Ajudaria a defesa em um caso famoso, mesmo se o acusado fosse culpado?’. Cara de gato que comeu o biscoito, né? Que pergunta era aquela, pensei. Aí o Marcelo me falou que iria defender, junto com o Thiago [Gomes Anástácio, advogado], nomeados pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), o Gil Rugai e queria que eu participasse da defesa. Argumentei que só entraria no caso se, ao menos, houvesse uma dúvida muito grande sobre a culpa do Gil, ou se acreditasse na inocência dele. Marcelo me passou o processo. Levei 13 dias para ler os quarenta volumes e achar a prova de inocência do Gil. Aí topei. Mas, durante o júri, não sentei no plenário. Seria uma brecha para o promotor soltar: ‘Resolveu chamar a mamãe?’. Eu não estava lá como mamãe, claro, mas até o meu filho e o Thiago explicarem que focinho de porco não é tomada… Fiquei invisível, de novo.


“Quando o Marcelo [filho de Ilana] decidiu por essa carreira, sofri. Eu o avisei que iria conviver com um mundo de miséria. Mas ele aprendeu a lidar com o fato. Já choramos e rimos juntos e colaboramos um com o outro. Mas ele não precisa da mamãe para trabalhar”

Qual brecha encontrou que corroboraria com a inocência do Gil Rugai?
Olha, eu vou escrever sobre o caso, para um livro ou um filme. O capítulo número um do manual do escoteiro de investigação versa sobre a hora do crime. Estabelece-se isso para poder confrontar com os álibis. Em nenhum momento dos 40 volumes do processo havia a informação da hora do crime. O Gil dizia que tinha almoçado na casa de uma amiga, depois pegou um táxi na avenida, foi para o shopping Frei Caneca e lá entrou pela porta tal. Há um monte de câmeras no shopping e a polícia disse não ter apreendido as gravações, porque havia passado cinco dias do fato. Oi? Dá para recolher imagens de até cinco anos atrás! Isso me incomodou. Ele tinha ido ou não no shopping? O álibi do Gil ficou, então, muito distendido. A acusação dizia que o crime acontecera entre 20h e 22h. Em depoimento, muitas pessoas disseram ter ouvido tiros. Alguns vizinhos ligaram para o guardinha da Rua Atibaia e perguntaram o que era aquilo. O guarda disse que poderia ser bombinhas, já que a casa fica próxima do estádio do Pacaembu. Algum tempo depois, outros tiros foram ouvidos. Ligaram novamente para o guarda e pediram para ele averiguar o que poderia ser. Aí pergunto: onde estão as fontes telefônicas? Simplesmente, o juiz negou o pedido delas, um álibi do Gil.

Qual seria a saída a partir daí?
Conseguimos uma filipeta da conta de telefone dos vizinhos com os horários dos dois telefonemas feitos para o guarda e, também, a conta do guarda na qual constava esses dois telefonemas. Bom, estava aí a hora do crime. Na mesma hora dos tiros, o Gil havia ligado do telefone fixo do escritório onde trabalhava, com a faxineira presente, para combinar um jantar com uma amiga. Na hora que estava acontecendo o crime, o Gil estava em outro ponto da cidade ligando do fixo para a amiga. Prova semelhante foi definitiva para condenar Alexandre Nardoni e a Anna Carolina Jatobá. Na hora da queda Isabella Nardoni, os pais dela estavam dentro do apartamento no telefone fixo, ou seja, não havia como tirar o casal do local do crime, naquela hora. Isso os condenou mais do que qualquer outra prova.

Mas não inocentou o Gil Rugai.
Não é louco? Para uma acusação funcionou, mas não para uma defesa. Bom, o meu filho e o Thiago pediram para o novo juiz do caso permitir que tivessem acesso às fontes telefônicas. Pedido aceito, a companhia telefônica não tinha mais o registro das ligações em arquivo. Havia passado anos demais. O Gil Rugai estava em outro lugar na hora dos tiros, mas ele não é sedutor, simpático. É estranho, anda com terço e seria, antes de ser proibido, um dos brasileiros a recepcionar o Papa. Aí o promotor contou todas as esquisitices do Gil e suas ideias psicopatas. Isso tudo, aos olhos dos jurados, cola muito mais do que tentar explicar a filipeta de conta telefônica.


“Não busco notoriedade, fama. Importa, para mim, a palavra dita, porque faço ponderações que pouca gente faz, que são técnicas e estão ali para levantar dúvidas”

Coincidência ou não, você é autora da série Em Nome da Justiça, da Record, que propõe uma reflexão sobre decisões judiciais de crimes que ainda despertam dúvidas. E, durante a exibição de cada episódio, comenta os casos.
Eu estava estudando muito decisões de justiça errôneas que culminam com a condenação de pessoas inocentes. E criei, junto com a produtora JPO, uma série, um argumento, para um assunto invisível: inocentes que são condenados e depois julgados inocentes. Eu havia dado de frente, no júri do Gil Rugai, com a questão do in dubio pro reo (na dúvida a favor do réu). Como pode o Gil Rugai ser condenado com tanta dúvida? A JPO vendeu a série para a Sony, que a exibiu, primeiramente, no canal fechado AXN. E, em janeiro, a série foi comprada pela Record. Nessa emissora, faço oito inserções ponderativas em cada um dos 13 episódios da primeira temporada. E já estamos produzindo a segunda.

Depois de pavimentar a carreira na literatura, como se sente com o rosto na tevê aberta?
Não busco notoriedade, fama. Importa, para mim, a palavra dita, porque faço ponderações que pouca gente faz, que são técnicas e estão ali para levantar dúvidas. Muita gente me criticou, argumentando que a série não deveria ser apresentada por um cara, como argumentou-se, sensacionalista como o Luiz Bacci. Muito pelo contrário. É ótimo que a atração seja apresentada pelo Bacci, porque o público dele é quem precisa entender que dá erro (em alguns casos)! E também pode modificar o próprio Bacci, que, de tarde, coloca no ar com o Cidade Alerta a cara de suspeitos na tevê. Eu quero aparecer na TV justamente para falar para esse segmento. As pessoas têm de entender que um erro de justiça pode acontecer com eles. A série está aí para gerar cultura, educação, conhecimento. O recado é: você acredita em tudo que você ouve? Toma cuidado, hein. Olha só esse caso.


“As pessoas têm de entender que um erro de justiça pode acontecer com eles. A série está aí para gerar cultura, educação, conhecimento. O recado é: você acredita em tudo que você ouve? Toma cuidado, hein. Olha só esse caso”

Muita gente tem uma imagem sombria de você pelo fato de a crueldade de assassinos ser seu objeto de estudo?
Sim, sou para-raio de maluco. Mas não posso confundir o personagem que criam para mim com o que eu sou realmente. Esse foi o conselho que a [autora de novelas] Glória Perez me deu quando, anos atrás, eu era alvo de agressões patrocinadas por um escritor frustrado. É uma carga de energia pesada. Se eu não tiver uma vida muito boa que vale a pena, um amor e filhos em casa me esperando para eu viver boas histórias, ficar no colo, chorar, receber apoio, não dá para tocar. Não sou mulher de mimimi. Sou super doce, cordata e cuido muito de quem está ao meu lado. Só lida bem com a morte quem está de bem com a vida.

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