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Ser um homem negro no Brasil

Convidamos cinco caras que se propõem a repensar suas masculinidades para um ensaio exclusivo

por Redação 30 out 2020 00h31

O que é ser um homem negro no Brasil? Quais são as implicações de ter a pele mais escura num país abertamente racista, ainda que a maioria da população não seja branca? Que camadas de preconceito e estereótipo vem junto com a masculinidade quando se é preto? Isso muda também a forma de paternar dessas pessoas? Na última reportagem do nosso especial “O que é ser homem?”, assinado por Ismael dos Anjos, convidamos nossos entrevistados para um ensaio que questiona padrões e abre as portas para que cada um desses homens, a sua maneira, se expresse, fale, sorria. Confira aqui embaixo trechos das entrevistas e nossos cliques preferidos. Para ler a matéria completa, é só clicar aqui.

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O homem ocupa 85% do Congresso Nacional e 87% dos cargos de CEOs no Brasil. Mas de quem estamos falando quando dizemos “homem”, no singular?

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Jef Delgado/Fotografia

“O modelo de masculinidade hegemônica patriarcal é baseado no homem branco, e em um modelo muito específico de homem branco. Que é o homem branco, cisgênero, hétero, detentor de riquezas, de posses. Próprio do poder, uma figura muito ligada à do coronel, que é esse lugar que o colonialismo traz”

Túlio Custódio, curador de conhecimento
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia

Túlio Custódio, sociólogo e curador de conhecimento, veste camisa Studio Aurum; gravata Dois Maridos; jaqueta e calça acervo; tênis Vans e óculos Chili Beans

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Quando se trata da distribuição de renda no Brasil, por exemplo, raça tem mais impacto que gênero

Os homens e mulheres brancos recebem, em média, R$ 3.138 e R$ 2.379, respectivamente. Com renda ponderada de R$ 1.762, os homens negros ficam abaixo das mulheres brancas e são seguidos pelas mulheres negras, com R$ 1.394.

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Jef Delgado/Fotografia

“Carregamos heranças da escravização em nossos corpos. Não demonstrar sentimento era sinônimo de resistência, força e garantia de vida, e isso se perpetua ainda nos dias de hoje. Temos poucas referências acessíveis de formas de ser homens pretos que fujam do estereotipo do negão, que é o homem negro forte, potente sexualmente”

Everton Mendes, psicólogo
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia

Everton Mendes, psicólogo, veste casaco À La Garçonne; óculos Givenchy na Safilo; camisa Studio Aurum; calça Gucci e tênis Vans

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Jovens negros, entre 10 a 29 anos, possuem 45% mais chances de suicídio que brancos na mesma faixa etária

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Jef Delgado/Fotografia

“Nós, homens negros, somos matáveis fisicamente e também simbólica e subjetivamente. Nossa morte subjetiva se dá quando a única perspectiva do que é ser gente, do que é ser homem, está atrelada a essa identidade branca. E a nossa busca por essa masculinidade é também algo que acelera a nossa morte. Essa construção se utiliza de nós como arma. Produz homens negros que compreendem que a única forma de existir é a partir da produção de violência”

Roger Cipó, escritor
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia

Roger Cipó, fotógrafo e escritor, veste blazer, camisa e tênis Gucci; calça e broches Minha Avó Tinha; óculos Givenchy na Safilo; e boina Renner

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É preciso romper com o ideal hipersexualizado do homem negro que, ao menos em teoria, parece desejável ou elogioso

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Jef Delgado/Fotografia

“Existe a questão da fetichização, a expectativa de enxergar o homem como um pauzudo, e fico pensando o quanto isso descaracteriza ainda mais a gente enquanto pessoa. Porque, quando se é visto, se resume a isso. Aí também entram as outras masculinidades. O que acontece com o cara trans, preto, que não tem pau, por exemplo? Não é homem? São questões que a gente precisa dialogar, trazer para escolas e espaços de formação, porque já deu ficarmos repetindo e produzindo esse tipo de violência”

Pedro Pires, psicólogo
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia

Pedro Pires, psicólogo, veste blazer, blusa, óculos e calça Minha Avó Tinha; cinto À La Garçonne; e sandália Melissa

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Para deixar de performar uma masculinidade que não é ou não precisa ser essa, o afeto entre homens negros pode ser a chave

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Jef Delgado/Fotografia

“Nós homens negros temos um papel fundamental na desconstrução desse sistema, e precisamos construir uma nova estrutura a partir das dores relacionadas ao racismo estrutural e institucional que sofremos. Dores de homens, homens-pais, homens gays, homens trans, homens no plural. Passar para um lugar de mais escuta, de observar e fazer, com atitudes e na prática, as mudanças necessárias para a construção de uma nova narrativa em relação às mulheres e ao nosso lugar no mundo. Nós negros, conforme avançamos, não avançamos sozinhos. E isso abre espaço para que efetivamente o patriarcado diminua”

Bruno Horácio, empreendedor social
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Jef Delgado/Fotografia
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Jef Delgado/Fotografia

Bruno Horácio, empreendedor social, veste camisa, costume e chapéu Minha Avó Tinha; óculos Evoke; lenço Scarf Me; e sandália Melissa

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Jef Delgado/Fotografia

Bruno Horácio, empreendedor social, veste macacão e chapéu Rodrigo Evangelista

As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Jef Delgado. Confira mais de seu trabalho aqui.

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