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“Eu quero falar de violência e putaria”

Um dos artistas mais inventivos da atualidade, Getúlio Abelha faz forró e brega para uma geração descompromissada

por Rodrigo Grilo 6 out 2020 00h55
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Clube Lambada/Ilustração

cantor Getúlio Abelha é o nome artístico do piauiense considerado um dos principais nomes da nova geração do brega. Ou, no caso dele, do eletrobrega. Ou também não. Certo mesmo é que estamos falando de um artista não encaixotável. Prisley Brendly. Esse tem sido, ultimamente, o nome oficial adotado pelo próprio. “Não faz mais sentido essa coisa de dizer nome de registro. Nome de registro é o que a família escolhe, mas não é o que me representa”, diz ele, que, artisticamente, adotou o Abelha inspirado em Paulinha Abelha, cantora da banda Calcinha Preta. “Foi uma invenção rápida para eu ter um nome no Google que não se misturasse com o de outros Getúlios.”

Getúlio é um cantor-ator – ou ator-cantor –, um músico-intérprete (ou vice-versa) campeão de bilheteria sem ao menos ter lançado o seu primeiro álbum. Marmota estava programado para rodar o mundo em março, mas ficou enclausurado, como muitos de nós, por causa da pandemia. Getúlio nem tanto. Bicho inquieto, artista voraz e original, um transformista da arte, desatou a conquistar mais fãs por meio de lives cheias de cores, improvisações (e transformações), releituras de músicas e, principalmente, com os seus singles-sucesso feitos na raça, a partir de muita colaboração, no YouTube. 

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Sugiro que você se aventure pelo canal dele. Deixo até uma trilha para você maratonar alguns vídeos. Comece por Aquenda, passe por Tamanco de Fogo e pela superprodução Sinal Fechado. Enfim, rode a banca por lá sem amarras. As performances do cantor para Siga seu rumo, da dupla argentina Pimpinela, e Psychobitch, com ares de Trainspotting, do duo Easter, confirmam o seu dom para o ecletismo. Diga, ao final, se o cabra é ou não um jorro de luz.  

Na entrevista a seguir, a bicha cangaceira, como Getúlio se autodenomina em Aquenda, detalha, entre outros tantos assuntos, como o seu pai o “sequestrava” de sua mãe, de quem é separado, e o levava para bares e cabarés desde a infância, para conquistar mulheres valendo-se do dom do filho para o forró. Fala também do estranhamento que causa em homens e mulheres, da imposição para manter relacionamentos heterossexuais, do primeiro contato sexual com um garoto e de seu inusitado processo de criação em cima da bicicleta. 

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Igor Cavalcante/Fotografia

O som que você faz é um forró eletrônico como muitos dizem?
As minhas composições, ainda que tenham influências eletrônicas e pop, são acompanhadas por uma base de forró. Um dia, um cara me disse que o que eu fazia não era forró. Disseram o mesmo para a [banda] Calcinha Preta quando, em 1996, argumentando que o que ela fazia não tinha nada a ver com Luiz Gonzaga. Então, daqui a alguns anos, talvez você possa ouvir o meu som e entendê-lo como forró. Porque, desde o que Luiz Gonzaga fazia até o que o Aviões do Forró fez, o forró passa por mudanças o tempo inteiro. Poder ser, então, que me ouçam, lá na frente, e consigam reconhecer que a minha bateria e sanfona são de forró. E o fato de eu falar de outras temáticas só leva o forró para outros lugares. Mas pensei e não estou afim de tentar convencer ninguém sobre coisa alguma. Deixo o outro decidir o que eu tô fazendo. No geral, adoto isso para tudo. Odeio argumentar sobre o que faço, não gosto de criar sinopse, release, curriculum, porque tenho de me comprometer o tempo inteiro a dizer o que eu estou fazendo uma vez que nem eu mesmo sei. Eu só tô sobrevivendo. Quem me acompanha que quebre a cabeça e decida. Não vale a pena tentar dizer o que eu faço. E tem outra coisa.


“Odeio argumentar sobre o que faço, não gosto de criar sinopse, release, curriculum, porque tenho de me comprometer o tempo inteiro a dizer o que eu estou fazendo uma vez que nem eu mesmo sei. Eu só tô sobrevivendo”

Diga…
Eu não sei o que quero, mas sei o que não quero. Aí muitas janelas ficam abertas. Quebrando essa barreira, eu não tenho compromisso de manter nada. Posso lançar rock, o que for. Joguei uma bomba em tudo isso e deixo explodir para não ter compromisso com nada. Sempre tive dificuldade de descrever as minhas referências. Quando vou fazer clipe, não chego com papel, foto, desenho de figurino, cenário. As referências vêm muito embaralhadas. Queria que Laricado viesse do forró: aí botei bateria e guitarra de forró. Queria também uma pegada de música dos anos 1980 e botei um efeito no refrão que remete aos 1980. Gravei o clipe em um mercado que já existia. E a roupa? Peguei um vestido de uma amiga, uma sacola de plástico, uma sandália de um amigo e assim as coisas vão se construindo com o que tenho ao meu redor. Todos os forrós dos anos 1990, a música popular brasileira no geral, são referências, mas elas se encontram embaralhadas. 

O clipe de Sinal Fechado é muito elogiado também pela estética. Quais referência têm ali?
Sinal Fechado foi feito em colaboração com o diretor do clipe. Ele, que também é artista, usou como referência cenas de filmes de terror de que ele gosta. Esse foi o processo criativo dele e o meu, de incorporar, performar. Fiz o style do figurino. De onde veio a inspiração? De lugar nenhum, meu filho. Quer dizer, do improviso. Eu estava, dois dias antes da gravação, desesperado rodando São Luís todinha tentando achar uma roupa que ficasse legal e coubesse em mim e fui em casa de fulano para pegar peças emprestadas. E assim foi. O meu processo é esse grande improviso angustiado. Os significados de tudo estão, ali, colocados para vocês que assistem tomarem suas decisões. Tô mais interessado em saber o que você vê e não me importa muito de onde sai o que tá dentro de mim. O mundo que absorva do jeito que quiser se baseando em suas próprias referências. Eu não significo nada, sou apenas um pedaço de uma obra.     

Um cabide?
É. Mas não só. Um cabine só segura peças. No meu caso, eu construo figurino. A minha habilidade manual vem de processo intuitivo. Fiz teatro na [Universidade] Federal do Ceará, mas não concluí o curso. Foi na trajetória de artista solo que desvendei em minha cabeça uma fórmula de conseguir fazer com que eu trabalhe em qualquer linguagem artística ainda que não tenha domínio sobre ela. Se você me pedir para eu fazer uma maquiagem sóbria agora, de um jeito tal, talvez não consiga. Mas se eu sentar aqui, só, e começar um processo, algo pode sair. Não sou um técnico de costura. Assim como não sou de voz, de música, de nada. Sou um artista que irá tentar usar as linguagens de maneira intuitiva – e não técnica – que irão dar em alguma coisa. Construção de visual, por exemplo: eu mesclo várias peças que vão dar em uma composição. Talvez eu seja um compositor nesse sentido também. 

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Igor Cavalcante/Fotografia

Corajoso, não?
Em alguns pontos, sim. Quando me exponho, por exemplo. É corajosa qualquer pessoa que se exponha nessa geração da internet na qual todo mundo decide o que quer sobre você, só porque vê e tem impressões. E, sobretudo, porque faço isso em espaços que não são feitos para me receber. É muito tranquilo eu ir para uma boate de drag queen com o meu vestido, com aquele salto alto, mas em determinados programas de tevê com aqueles caras, não é tanto. Por isso, tento o tempo todo romper em locais que me abrem espaço e não foram feitos para mim. Exige coragem, porque ficamos suscetíveis a muitas coisas. 

Nesses casos, qual o seu maior receio?
Eu me arrisco muito. A gente é o tempo inteiro trabalhado para ter medo das coisas, de sair na rua, de andar de bicicleta, de usar salto, de se aproximar de quem a gente não conhece, de dar boa tarde para alguém e puxar um assunto na fila do supermercado. E eu tô o tempo inteiro trabalhando no caminho oposto a esse. Tipo, vou, sim, sair de madrugada. É como se a vida fosse acabar e valesse mais a pena a gente correr risco do que não ter feito nada. Esse é o caminho da coragem: sair dos espaços feitos para a gente. Chega, não quero ficar falando de ser LGBT para quem é LGBT. Não quero usar uma roupa colorida e diferentona para um grupo de coloridos e diferentões. Se for só dentro disso, não me interessa. Não me interessa, se não for para sair desses lugares. Quero trocar com pessoas que não compreendem o que estou fazendo. Quando escolho trabalhar para pessoas do mesmo universo que o meu, é para que a gente siga reunindo forças e nos estimulando. Porém, o negócio pega fogo e fica valendo mais fortemente, quando me comunico com alguém alheio ao nosso universo. É quando estou transportando novas informações e referências para quem não tem a mesma vivência que a minha. A coragem é passar por cima dos estranhamentos desse mundo.

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Igor Cavalcante/Fotografia

Qual o custo desse brio todo?
Eu sinto muito na cabeça. É como uma vida de eternas ressacas morais. Só mergulho nessa bad da ressaca moral, porque não quero colocar a responsabilidade do que eu tô fazendo na minha profissão de artista. Faço isso não por ser artista, mas porque eu faço e ponto. E é daí que vem a ressaca moral. Se dentro da minha cabeça tivesse certo que é um trabalho artístico, pronto: estava justificado e feito. Mas isso é justamente o que eu não aceito. Coincidentemente, ser artista é a minha profissão. 


“Não quero ficar falando de ser LGBT para quem é LGBT. Não quero usar uma roupa colorida e diferentona para um grupo de coloridos e diferentões. Se for só dentro disso, não me interessa”

Como tem lidado com o adiamento do lançamento de Marmota, seu álbum de estreia, depois dos singles Laricado (2017), Tamanco de Fogo (2018), Aquenda (2019) e Vá se lascar! e Sinal Fechado, ambos deste ano?
Esse trabalho já nasceu adiado. Não sei se pela minha ansiedade, que é grande desde quando decidi fazer música. Criei rapidamente quase todas as músicas do disco. Já estou aguardando há tanto tempo que o coronavírus foi só mais uma etapa da minha frustração. 

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O que alivia a sua ansiedade?
A minha cabeça é o tempo todo perturbação e inquietação. Contra tudo isso, andar de bicicleta me salva e resolve muito a minha vida. Quando a cabeça está perturbada, descarrego no corpo e tudo se resolve. E também fico inventando maneiras de produzir coisas, tipo maquiagens, faço algumas fotos, lives nas quais converso com as pessoas sobre as minhas histórias e respondo perguntas. Também faço jogos interativos no Instagram. Eu me monto, faço um ensaio fotográfico e peço a elas para baterem um print e me enviar. Também ligo para alguém e a desafio, por exemplo, a passar batom na boca rapidamente sem borrar ou peço que me mande o Instagram de alguma pessoa, para que eu envie uma mensagem de amor ou alguma declaração. Enfim, banalidades que nos distraem. A minha maior ansiedade é compartilhar o que sinto, penso, com as pessoas, com o mundo. Comer é outro método que alivia a ansiedade, inclusive faço isso enquanto pedalo. 

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Igor Cavalcante/Fotografia

Fale mais sobre essa cycle therapy.
A bicicleta é o meu principal meio de transporte. Não sou aquele que veste roupa de ciclista. Uso a bicicleta para trabalhar, ir à casa de alguém. Tem muito de autonomia, mas também de velocidade, mexer o corpo. Quanto mais parado, mais desesperado eu fico. Fiz um vídeo, pedalando, no qual mostro como quem usa bicicleta deve agir para escapar de assaltos durante a madrugada. Porque eu pedalo de madrugada. A gente é metralhado pelo mundo, vulnerável a tudo, mas aí eu descobri que também posso ser perigoso com a bicicleta. Ela me dá essa autonomia de também poder representar perigo a quem quer ser perigoso comigo. Não é a minha intenção, claro. Mas o meu pensamento interno é esse e me dá muita coragem para sair por aí. E, outra, criei muita música pedalando. 


“A gente é metralhado pelo mundo, vulnerável a tudo, mas aí eu descobri que também posso ser perigoso com a bicicleta. Ela me dá essa autonomia de também poder representar perigo a quem quer ser perigoso comigo”

É nada!
Sim, a maioria. Como ando de bicicleta sem usar as mãos com facilidade, gravo as melodias no celular enquanto pedalo. Comecei a criar a melodia de Cavalo Corredor pedalando perto da praia de Fortaleza. Fui fazendo trocadilhos: “Eu não quero te perder e não quero te prender, se você quer me prender, eu não quero mais vocêeee”. E o fato de eu estar na bicicleta ajudou muito. Na letra, eu digo: “Eu não sou boi de vaquejada, sou cavalo corredor”. Eu estava pedalando no meio da cidade, mas a sensação era de estar montado num cavalo. Em Voguebike, que será o single do meu álbum, narro o dia em que vou ao encontro de uma pessoa que quero muito e a maior prova do meu amor é levá-la na garupa da minha bicicleta. Todo dia, eu recebo mensagem de uma galera cantando essa música e enviando o vídeo para mim. Essa canção tem uma força própria que foi reforçada quando passei a ir em programas de tevê da hora do almoço do Nordeste, sabe? Neles, eu performo a música de vestido, salto, como se eu estivesse indo ao Grammy, no entanto, eu estou apenas em um programa daqueles, frequentado geralmente por muita banda de forró, héteros, machões. E eu tô lá performando. 

Seu pai é goiano. Sua mãe, piauiense e seus avôs, cearenses. Como é ser fruto dessa salada?
Eu, no caso, sou aquela banana que deixa a salada de fruta podre mais rapidamente. Desde criança, a minha história é um vai e vem entre o meu pai e a minha mãe, que se divorciaram quando eu tinha 3 anos. Nas minhas lembranças, eles sempre estão separados. Os dois sempre brigaram por minha causa, na verdade pela minha guarda. Meu pai é um, digamos, semi-sequestrador, já que me sequestrou da minha mãe várias vezes enquanto pode, desde os meus 3 anos. A minha mãe tinha a guarda e o meu pai, essa irresponsabilidade de me pegar à força, me jogar no carro e sumir no mundo comigo. Certa vez, quando eu tinha 7 anos, ele me enviou para Goiânia sozinho, sem avisar a minha mãe. Me colocou num avião e uma tia me pegou lá no aeroporto. Ao retornar de ônibus com a tia, rolou um assalto dentro do ônibus que durou a madrugada inteira. ‘Minino’, é tanta história na minha infância que nem dá pra contar direito, só quando for lançar um livro. Esse período foi tão agitado que explica a ansiedade de eu querer logo lançar dois, três, álbuns de uma vez. Só que não lancei nem o primeiro ainda.

Qual era o seu entendimento sobre essa relação de seus pais?
Sempre arrastei os meus sentimentos. Até hoje, é algo que não se apagou. Foi um momento muito caótico, fisicamente muito violento falando, entre os meus pais. Particularmente por parte do meu pai. Aquela história que a gente conhece do homem sendo o soberano em relação à mulher. Guardo muita lembrança de como a minha mãe se esforçou para proporcionar uma vida digna, com muito amor, a mim e à minha irmã mais velha – filha dela com o primeiro marido. E o meu pai me protegia e cuidava de mim de um jeito voltado à sua satisfação pessoal.

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Poc sensível.

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Explica melhor, por favor.
Por exemplo, ele me pegava em um fim de semana e, na mão dele, eu era como um bibelô com quem ele poderia brincar, dizer que era o meu pai e, depois, devolver para a minha mãe cuidar de mim de verdade. Cresci ao lado do meu pai em locais de adulto. Ele me levava a bares e, pontualmente, a cabarés que frequentava, aos finais de semana. Isso só parou quando entrei na adolescência e ganhei autonomia. Então, eu tive contato, precocemente, com tudo que está nesses locais, mas nunca fui obrigado a ter contato sexual com alguém. Meu pai sempre me deu amor, mas era muito voltado ao próprio ego. E me fez muitas cobranças emocionais para atingir a minha mãe, só que acabava me sugando também. Aí a minha mãe quem me consertava, me colocava no eixo, depois. Se dependesse da criação dele, não sei o que eu seria hoje. 


“Meu pai sempre me deu amor, mas era muito voltado ao próprio ego. E me fez muitas cobranças emocionais para atingir a minha mãe, só que acabava me sugando também. Se dependesse da criação dele, não sei o que eu seria hoje”

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Brotou algo positivo dessa experiência de também ser criado em botecos e cabarés?
A criação que o meu pai proporcionou me conferiu muita visão de mundo, sensibilidades, desde cedo. E eu não teria isso se tivesse convivido apenas com a minha mãe. Pelo contrário, eu teria uma vida mais comum. Ao crescer nesses locais, tive a oportunidade de cantar e dançar. Era o que eu fazia ali. Tudo isso reflete, hoje, no que faço. Em eu ser desapegado, destemido. Mas não sei até que ponto essas experiências afetaram as minhas orientações sexuais, as minhas performances de corpo enquanto artista. Eu não estive brincando de carrinho, casinha, com outras crianças na infância. Estava, sim, cantando e dançando em cabaré, bar. Era o que eu gostava de fazer e isso acabou formando o artista que eu sou. Vieram dali o gênero musical com o qual trabalho hoje e a minha estética enquanto artista. 

Certo. Fale um pouco mais sobre ônus dessas experiências todas de maneira precoce.
Às vezes, me pergunto até que ponto frequentar esses locais possa ter afetado a minha personalidade. Quando criança, obviamente eu era educado para gostar de mulheres e, desde cedo, ter tesão e contato sexual com elas. Não sei como isso influenciou a minha sexualidade. Ao mesmo tempo, o meu pai se apropriou bastante da minha imagem para elevar o status das conquistas amorosas dele. Desde pequeno, aos 2 anos, eu dançava forró adoidado. Com 4, 5, 6, 7, 8, 9 anos, eu estava dançando em shows de forró, em serestas com mulheres adultas. Eu não podia ver um tecladista, um seresteiro, que eu ia até eles e cantava. E isso era bom para o meu pai, que se tornava o centro das atenções em muitos lugares por meio da imagem de uma criança, que era filho dele.   

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Igor Cavalcante/Fotografia

Como o seu pai abordava as mulheres?
Apontando pra mim, ele dizia assim às mulheres: “Vocês querem fazer um desse comigo?”. Era perfeito para ele conquistar a atenção e as mulheres a partir da minha imagem. 

Você relata essa passagem, que é tão forte, com naturalidade, sem aparentar algum tipo de raiva. Tô enganado?
De jeito nenhum. Meu pai, hoje, encontra-se em um quadro de solidão. E, talvez, eu seja a única pessoa que pergunta como ele está, se precisa de ajuda. Ele necessita, psicologicamente falando, ser auxiliado, mas não quer. Aí fica complicado. Eu nunca o vi como um vilão. Existem coisas maravilhosas sobre o meu pai. Ele sempre fez questão de me ensinar sobre simplicidade e humildade mesmo que não praticasse sempre. E ele sempre foi um homem generoso em relação a fazer o possível para contribuir com pessoas que estão passando por necessidades. Costumava, por exemplo, dar passagens de ônibus para pessoas que precisavam viajar em busca de tratamento médico. E o que há de ruim não é suficiente para eu demonizá-lo. Me faz, pelo contrário, tentar ajudá-lo. Apesar de ter feito muito mal, ele é mais um homem vítima de um sistema escroto, péssimo, de como deve ser [educado] um homem, sabe? É muito complexo, mas tento ajudá-lo, hoje, de maneira objetiva, insistindo para que reflita sobre a vida e como quer se sentir em relação ao mundo. Mas é um homem já com 60 anos, não sei se consigo mudá-lo muito. O máximo que ofereço é algum tipo de amizade, algumas conversas. 

Fale um pouco da sua mãe.
Ela é ótima. Herdei dela o gosto por trabalhar com arte e ter autonomia. Dia após dia, acordar, descolar trabalhos, encontrar saídas para pagar as contas do mês. A vida do artista é essa. Ela me apoia enquanto artista, é uma mulher que tenta se atualizar, tem interesse em saber para onde o mundo está indo, porque quer seguir esse caminho. Se eu chegar aos 50, quero estar antenado ao caminho que o mundo estiver seguindo. E não aquele que fica o tempo inteiro olhando para trás, reclamando de como as coisas eram melhores. A minha mãe me dá essa força, é muito energética, ariana, muito ação. Hoje, está casada com o meu padrasto, fotógrafo. Ela trabalha com ele e os dois atuam no mercado de casamentos, fazendo books, livros. E eu cresci no meio disso. Hoje, o meu padrasto faz, também, pulseira, colares, bolsas de couro, costura à mão, é, enfim, um artesão. Ele e a minha mãe têm uma estética e visão das coisas mais polidas. E a minha referência ao lado do meu pai é de um mundo totalmente escrachado. Esses exemplos todos, então, me proporcionaram uma espécie de equilíbrio estético.

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Duas coisas que minha mãe fez pra mim ❤

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Inserido nesse caldo familiar, você era alguém fácil de ser administrado no colégio?
Lembro de, desde sempre, sentir uma curiosidade de explorar outros mundos e outras pessoas. E responsabilizar a escola era um argumento que eu usava para ir mudando de colégio, de amigos, de bairros. O sistema de educação é muito complicado para crianças e adolescentes como eu. Tu acha que eu estava interessado em ficar sentado das seis da manhã ao meio-dia e meio, aprendendo matemática, decorando texto, para tirar nota? Não, né. Houve um colégio onde fiz um grupo de amigos. Todos eram contidos e eu era o forrozeiro. Engraçado que, no entanto, a gente se entendia. Era a época do flogão. Éramos seis adolescentes, cada um com seu flog e um coletivo do qual participavam todos. A gente pulava muro de casas abandonadas e tirava fotos, que eram meio sexies, tipo revista de moda, dentro delas para postar nos flogs. Nesse mesmo período, aos 13 anos, eu desenvolvi a minha sexualidade de maneira prática enquanto gay e tive contato sexual com outro garoto. 

Teve de manter relacionamentos heterossexuais por pressão social?
Antes de transar com um garoto, me relacionei sexualmente com mulheres por imposição do meu pai. Várias vezes tive de namorar garotas por cobrança social. Por outro lado, namorei meninas também por gostar delas. Mas não durou muito tempo, porque coloquei para fora o que me movia e fui fazer o que eu queria. Hoje, porém, tenho dificuldade de definir a minha própria identidade de gênero. Já cheguei a pensar várias vezes sobre o assunto. Mas não coloco isso como prioridade na minha vida. 

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Igor Cavalcante/Fotografia

Conseguiu abrir a mente de familiares em relação a questões de gênero?
Faz nove anos que saí de casa e fui morar só em Fortaleza. Não cresci, no dia a dia, com a minha família, o meu pai etc. A minha mãe é super aberta em relação a esses assuntos porque foi atrás para estudar e entender a questão toda. Já com o meu pai, eu precisei ser bem objetivo. Quando saí de casa, aos 19 anos, para morar em Fortaleza, disse a ele que éramos agora dois adultos e o meu mundo era outro. Foi muito mais, então, eu impor a ele sobre quem eu era. O meu pai está muito, muito, muito, longe de se aprofundar e entender a complexidade da questão. Ele pagou pensão alimentícia para a minha mãe me criar somente até os meus 12 anos. Depois, eu não dependia mais dele. E, em Fortaleza, eu sempre me virei e nunca dependi de ajuda financeira. Então, o meu pai não tem muito a reclamar, o que fazer. O que posso trocar com ele, se quiser, é amor.


“Tenho dificuldade de definir a minha própria identidade de gênero. Já cheguei a pensar várias vezes sobre o assunto. Mas não coloco isso como prioridade na minha vida”

Como foi a experiência de morar sozinho, em Fortaleza?
Lá, morei em muitas casas de amigos. Antes, porém, a minha mãe tinha me ajudado a montar uma quitinete. Mas aí liguei e disse a ela: “Mãe, desculpa, não é isso que eu quero da minha vida”. Ela entendeu. Fiquei um bom tempo sem casa, mudando de casa em casa de várias pessoas. Eu tinha uma mochila que era a minha casa. Dentro dela, estavam o que eu chamava de meu banheiro: um desodorante, uma pasta de dente e uma a escova. Aí tinha uma sacola com biscoito e fruta que era a minha cozinha. E pronto. Com isso, ficava pulando de uma casa para outra. Eu queria exatamente aquilo: não ter um lugar fixo, passar por vários endereços, viver as experiências das pessoas e ir me adaptando. Isso trabalhou a minha sensibilidade de um jeito que, hoje, me adapto a lugares, pessoas, e consigo perceber as nuances, o estado emocional de quem está ao meu redor com muita rapidez. Trabalhei, então, a minha percepção para diferentes estados: emocionais e em relação a ambientes em que estou pisando pela primeira vez. Depois, Fortaleza ficou pequeno e fui enriquecer o meu repertório de sensibilidade e relações em outros lugares, como no Rio Grande do Sul.    

Em suas canções, só para citar três assuntos, relacionamentos, violência contra a população LGBT e o autodeboche, esse muito elogiado, têm muito destaque.
Esse meu primeiro álbum que está para ser lançado já deveria ter saído dois anos antes. Agora, passado esse tempo, se eu fosse lançar um segundo álbum, não estaria mais focado tanto nessas questões das quais falava, em 2017. Mas, sim, Tamanco de fogo fala sobre Igreja. Aquenda, sobre relação com o pai. Era importante um artista forrozeiro falar de temas que para o universo do forró eram tabus. O meu primeiro projeto sempre teve a ver com conquista de espaços, de público. Como faço para tocar as pessoas? Bora trabalhar com alegria, deboche, humor, nordeste. Hoje, já estou afim de colocar outras camadas sobre mim, sabe? Só que, como o álbum ainda não saiu, as músicas feitas três anos atrás ainda estão muito atreladas a mim. Como é isso que tem chegado ao público, sim, as músicas tratam desses assuntos, violência contra essa população, que, claro, seguirei falando. Mas provavelmente não de forma tão enfática. A tendência é ser menos didático. Até porque esses assuntos já são muito discutidos. E, como artista, tenho sede de tocar em outros pontos de vista e lançar mão de estéticas menos exploradas. Existe um lado obscuro meu que preciso mostrar. Nunca falei sobre frustrações e instabilidade mental. Talvez eu tente aplicar isso na minha música, futuramente. E, em termos de gênero musical, quero trabalhar outras coisas. A minha frustração, hoje, está no fato de o meu trabalho estar com delay em relação ao meu tempo.


“A tendência é ser menos didático. Até porque esses assuntos [violência contra LGBTs] já são muito discutidos. E, como artista, tenho sede de tocar em outros pontos de vista e lançar mão de estéticas menos exploradas”

Qual tipo de violência você mais sofre?
Até certo ponto da vida, eu tive grande barreira de proteção. A atual é a artística. “Artista é assim mesmo, é doido”, muitos dizem. Isso me resguarda um pouco, mas não de tudo e de todos. Artistas em geral são alvos de ódio, estranhamento, porque a arte tem sido muito sucateada. Obviamente, as violências caminhavam lado a lado comigo o tempo todo. Um bolsonarista que estava na plateia no meu primeiro show oficial como músico, filmou e compartilhou o vídeo em um grupo de adeptos do presidente. Os comentários foram coisas como “se estivesse morto, não faria isso”. Mas eu me vejo tão bravo, tão corajoso, que, anestesiado, nem sinto essas agressões. Eu escolhi que esses ódios todos não podem ser maiores do que a minha vida. Então, as violências vêm e eu não as absorvo. E, outra, para me dar uma surra, para eu apanhar de alguém, é difícil, porque eu sou atrevido, viu? 

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Igor Cavalcante/Fotografia

Quem seriam, hoje, os maiores alvos?
Os maiores alvos de violência mais profunda, hoje, são as mulheres transexuais. Muitas vezes, o meu corpo performa um homem X, um rapaz. E grande parte da sociedade já superou isso. Não é algo tão chocante alguém ser um homem gay. Isso limita muito a violência contra essas pessoas. Em vários contextos, posso estar estranho, de salto alto, às vezes estou bem afeminado, outras vezes não. Tenho esse lugar de ir e voltar, porque a maneira como me reconheço é mais fluida mesmo. Mas há muitas transexuais, travestis, que sofrem violências muito mais profundas. Nunca me bateram, espancaram. Também porque eu sou bem espertinho, sempre estou na rua. Não sinto medo e em várias ocasiões sou visto como um rapaz. Eu não sou mais o alvo maior. Hoje, gays aparecem na Globo se beijando.   


“Um bolsonarista que estava na plateia no meu primeiro show oficial como músico, filmou e compartilhou o vídeo em um grupo de adeptos do presidente. Os comentários foram coisas como ‘se estivesse morto, não faria isso'”

Está namorando alguém?
Solteiro sempre! Sou muito convicto. Essa coisa de monogamia, namoro… quebrei tudo isso. Narrativas como o casamento e a monogamia são características hétero. E nunca foram naturais, normais, para mim, do tipo “olha, tenho um namoradinho, vou levar ele pra casa”. Foi ótimo que aboli logo essa ideia e tenho outra visão sobre relacionamento. A racionalidade e a estrutura de vida que criei para mim me levam para outro caminho. Acredito no amor pensado e distribuído. Amar é uma escolha, uma atitude e não apenas um sentimento. Amar é escolher como lidar com alguém. Dentro disso pode estar a paixão ou não. Já pensou eu namorando, apaixonado, escrevendo musiquinha só de amor? Pelo amor de Deus, não! Eu quero falar de violência e putaria. O tempo inteiro estou me apaixonando e conhecendo pessoas. Eu penso muito mais em companheirismos. Tenho companheiros espalhados, amigos.  

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Igor Cavalcante/Fotografia

Então, dá para imaginar que, com o campo ampliado nesse tanto, a chuva molha mais a sua horta, não?
Oh, my god! Eu percebo algumas nuances. Eu pareço estranho demais para uma grande parcela de homens. E de mulheres também. Porque eu fico com meninas também, trans. Eu fico com todo mundo. Mas existe uma parcela que me acha estranha demais. E outra que tem receio pelo fato de eu ser artista, não consegue compreender bem a barreira da performance e da vida real, do que o artista faz no palco e como ele vive fora dali. Em vários relacionamentos isso se tornou uma barreira. Provavelmente, eu me dou bem no meio de artistas e pessoas estranhas.   


“Amar é escolher como lidar com alguém. Dentro disso pode estar a paixão ou não. Já pensou eu namorando, apaixonado, escrevendo musiquinha só de amor? Pelo amor de Deus, não! Eu quero falar de violência e putaria”

Em suas lives é possível vê-lo, além de cantar, trocar de figurino, pintar-se, costurar, iluminar o ambiente, dançar, enfim, um faz tudo.
Cheguei a um ponto da vida que encontrei uma forma de aplicar a minha sensibilidade em qualquer linguagem desde que ela consiga expressar e manifestar o porquê de eu ser assim. Hoje, estou fazendo um CD, mas, há três anos, eu não fazia isso. Daqui a dois anos, talvez eu esteja fazendo esculturas. Eu não sou do princípio que sou artista porque sei fazer música. Pelo contrário, por eu ser artista eu vou compor. Por ser artista, irei costurar uma peça de roupa mesmo não sabendo costurar. Por ser artista, irei fazer exposições das minhas artes visuais. Todas as linguagens que eu exploro são consequência de eu me enxergar como artista – e não o contrário. 

E essa espontaneidade toda aí esconde alguma coisa?
Por dentro eu sou muito sofrido, dolorido, melancólico. As pessoas pensam: “Ah, mas Getúlio é tão livre, não tem peso”. Mas, na real, é como se eu enfrentasse as minhas angústias, os meus medos, para ser isso. Eu aplico essa liberdade toda, para passar por cima das coisas e não deixar as prisões me prenderem de verdade. Eu invento essa espécie de liberdade, que, na real, é como encontrar uma maneira de, o tempo inteiro, sair do meu próprio corpo para sobreviver. Ainda assim, é legal que me enxerguem desse jeito. Sinal de que estou transformando em inspiração para os outros o que é um peso para mim. É uma sobrevivência. Ou isso ou mergulhar em um poço profundo do qual não conseguiria sair para respirar o ar fora dele.

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Cristovão Tezza ficcionaliza, no romance ‘A Tensão Superficial do Tempo’, a atual conjuntura brasileira a partir dos ressentimentos pessoais de um professor