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George Arias: um lutador

Colecionador do maior número de combates válidos por títulos nacionais de boxe, ex-campeão leva agora uma vida pacata dando aulas particulares a empresários

por Eduardo Ribeiro Atualizado em 10 nov 2020, 16h01 - Publicado em 2 set 2020 01h57
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Clube Lambada/Ilustração

e você vagar pelas ruas da Vila Medeiros, típico bairro da Zona Norte de São Paulo, em algum nascer ou pôr do Sol, talvez encontre um imóvel de paredes de concreto que passaria batido na paisagem não fossem os possantes de luxo estacionados à frente do portão. Ferraris, Land Rovers, BMWs, Cherokees e por aí vai. É ali que, desde 2005, George Arias, um dos grandes nomes entre os pesados do boxe nacional a partir da aposentadoria de Adilson “Maguila” Rodrigues, dá aulas particulares do esporte para empresários de alta patente. Dono de estilo de luta marcado por uma das melhores guardas da categoria, Arias, hoje aos 46, defendeu o título de campeão brasileiro em 29 combates ao longo de 18 anos. É o maior número de combates válidos por títulos nacionais de boxe na história.

A partir de 2013, após a morte do pai, Santo Arias, que também foi lutador e treinador, George vinha refletindo acerca de se aposentar e se dedicar quase que exclusivamente às aulas, voltando ao ringue apenas quando requerido para manter o cinturão do Conselho Nacional de Boxe. A cinta, porém, deixou de ser sua por conta de uma crocodilagem do CNB, que em 2016 colocou o cinturão à disputa por Lino Barros e Raphael Zumbano “Love” sem oferecer a ele a chance de brigar pelo troféu. Lino venceu por pontos. “Na verdade, me tomaram o cinturão no tapetão, sacanagem”, amargura o ex-lutador ao relembrar. “Um belo dia, fui fazer uma luta fora do país e, quando voltei, tinha outro campeão, sem ninguém me comunicar, sem nada. Meu pai já não estava aí também e acabei abrindo mão. Agora, história que segue, né.”

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Bruno Passos/Divulgação

A menção ao pai é recorrente em suas falas. Santo Arias (1942-2013) foi treinador do filho, que estreou mal na briga de luvas, em 1992. E, por ironia, na mesma Forja de Campeões em que Santos fora vencedor três décadas antes, aos 20 anos. O pai de George era um nato distribuidor de socos, mas ficou sabendo disso sem querer. Recém-chegado a São Paulo, o mariliense trabalhava como garçom no centro da cidade. Certa noite, após o expediente, o envolvimento numa briga de rua mudou a sua vida. “Meu pai morava numa pensão. A caminho de lá, na saída do trabalho, houve uma confusão, queriam tomar o relógio dele, aí entraram em confronto”, relata George. “Meu pai derrubou um, derrubou o outro, o outro correu, aquele tumulto… Nisso, ia passando um boxeador da época, o Felipe Cambeiro. O cara viu, ficou impressionado, e levou ele para treinar. Aí ele foi. E o pai do Éder Jofre que era técnico dessa academia, a Wilson Russo.”

Santo Arias chegou a ser vice-campeão paulista, mas um atropelamento, e ter uma das pernas engessadas por quase um ano, mudou sua vida pela segunda vez. Precisou abandonar as competições. Tempos mais tarde, a ligação com o boxe seria retomada por intermédio do filho, o mais novo de três, que, apesar de uma primeira luta desastrosa, logo se tornaria imbatível. Santo nunca deixou de comparecer a uma luta de George. “Quando fui lutar a primeira vez, fui muito mal. No campeonato seguinte, o Torneio Estímulo Kid Jofre, que é o que só lutam atletas que nunca foram campeões, também perdi na primeira”, conta George.

“Quis desistir, parar com o boxe, assim como fazia com tudo o que se mostrava difícil para mim. Aí meu pai falou: ‘Você vai parar por quê? O que é que está acontecendo? Vamos ver’. Ele, então, começou a arrumar uma equipe para que eu fizesse tudo o que fosse necessário e não tivesse como recuar. ‘Agora, você tem que ir em frente, e ganhar’. Surgiu até um professor de neurociência, e a gente começou a ajeitar a minha cabeça para que eu, na hora da luta, ficasse menos nervoso.”

Aparentemente já acostumado com a nova vida longe do circuito profissional, George Arias conversou com Elástica sobre fama e anonimato, os ensinamentos de seu pai, que considera ter sido um “visionário”, o cômico episódio de quando foi desafiado pelo Maguila em rede nacional, boxe vs. MMA e outros tópicos, como a alegria de tirar um som do saxofone.

Impossível falar da sua carreira no boxe sem remeter ao seu pai, que foi o seu tutor e implementou as técnicas de defesa que lhe alçaram ao topo. Conta um pouco de como ele serviu de influência para você entrar no esporte.
Meu pai foi lutador na década de 1960. O pai do Éder Jofre foi técnico dele e tal. Enfim, ele foi atropelado, lá na Avenida do Estado, fraturou a perna, ficou um ano com a perna engessada. Acabou parando de lutar, casou com a minha mãe, só que ela guardou todo o material que ele tinha: roupão, saco de pancada, luva da época. E aí eu, com 13 anos, já brincava com isso. Até então, não tinha sonhado em ser lutador de boxe, era só brincadeira. Com os meus 17 anos, resolvi me tornar lutador de boxe. Queria seguir carreira, ser lutador de boxe assim como meu pai tinha sido. Pedi para ele me treinar, e aí que começou tudo. Estreei com o mesmo roupão que ele lutou. O roupão estava intacto, tenho ele até hoje, para você ter uma ideia, guardado, que vai ficar pra um museu e tal.

E por que vocês decidiram construir um estilo de combate mais focado na guarda, numa época em que se valorizava tanto o lance de ir para cima e trocar socos?
Acho que por questão de ser filho, ele ficou preocupado de eu ficar lesado ao longo do tempo. Era isso o que eu entendia quando ele conversava comigo. Eu questionava meu pai sobre essa questão de ele não me deixar fazer sparring. Fazia todos os tipos de treinamento que qualquer atleta no mundo fazia, menos o sparring. Questionava muito ele disso, e ele falava para mim que, na época dele, ele fazia sparring com todo mundo. Com o Luis Faustino Pires, peso pesado, peso médio… meu pai era treta. O Seu Wilton Campos, presidente da federação, lembra do meu pai e da época, e fala que meu pai, em qualquer lugar que ele se apresentasse, era show, porque era porrada para tudo quanto é lado. Ele ia para o pau, era brigador. E aí teve uma fase da vida que ele falava que estava gaguejando já, ou seja, muito golpe na cabeça. Então ele me explicou de uma forma bem simples. Matemática pura. É muito engraçado, não me esqueço disso até hoje: “No mundo inteiro, se faz sparring três vezes por semana, é a média. Vinte golpes na cabeça por sparring, 60 golpes por semana, 240 por mês. Ao longo de dez meses você tem 2400 golpes na cabeça só para treinar. Você vai ficar xarope, vai ficar louco. Você não vai fazer isso. Nós vamos criar outro meio, melhorar a sua defesa, as técnicas que existem para se defender melhor, e aí, quando você estiver pronto com isso, aí sim eu deixo fazer os sparrings. Até lá, vamos fazer tudo o que é necessário para se lutar.”


“No mundo inteiro, se faz sparring três vezes por semana, é a média. Vinte golpes na cabeça por sparring, 60 por semana, 240 por mês. Ao longo de dez meses você tem 2400 golpes na cabeça só para treinar. Você vai ficar xarope, vai ficar louco”

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Bruno Passos/Divulgação

Por que se faz sparring?
Para você ter noção de distância, reflexo, trabalhar a agilidade… Coisas que se treinam na manopla para colocar em prática no sparring, para quando for à luta, você estar preparado. Meu pai fazia tudo isso, sem sparring. A gente montava muita escolinha de combate. E deu certo, né? Ele identificou isso por meio da experiência dele como lutador e implementou nos meus treinos. Tudo para proteger o filho. Ele criou uma metodologia de treino que existe no mundo inteiro. Quais são os conceitos do boxe?

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Ataque e defesa, técnica e eficiência?
Então, dentro dos quatro conceitos que já existiam pelo mundo, ele criou a técnica da defesa de punho. Porque se esquiva, se cintura, tem jogo de perna para se defender, para contra atacar e tal, e tem a defesa com os braços, que quase ninguém usa, porque é muito difícil, é chato, tem que treinar incansavelmente todo dia, etc. E aí meu pai empregou isso pra mim. E, por meio das escolinhas de combate, eu fui aperfeiçoando o lance de contração muscular. Tem que fazer uma certa isometria, grudar o cotovelo no peito, ir ajustando isso para, depois, implementar junto esquiva, movimentação de perna… É bem trabalhoso, enche o saco, só que deu certo, porque, se a gente for computar, eu tenho 72 lutas como profissional e mais 40 como amador. São 112 lutas na carreira.

Teve uma das entrevistas, antes de meu pai morrer, acho que foi para a Bandeirantes. O pessoal estava perguntando por que não do sparring, aí ele explicou isso e falou o seguinte: “O George pode lutar até os 60 anos de idade, ele tem vida longa no esporte. Agora, para quem fica tomando golpe na cabeça a torto e direito, aí a vida é curta. Logo, logo vai ter que parar, porque o cara fica sonado, e pode ter um descolamento de retina.” Hoje, já existe um termo para o que a gente chamava de “sonado”, chama-se demência pugilística. E o véio tinha razão. Eu só parei de lutar porque ele faleceu, aí as coisas mudaram, o meu rendimento caiu, pela tristeza e tal. Até cheguei a fazer umas lutas depois dele, mas não era a mesma coisa. E eu já tendo que trabalhar, porque antes eu só treinava e meu pai cuidava das outras coisas, né.. Aí resolvi parar. Mas ele tinha razão: eu podia estar lutando até hoje mesmo.

Essa coisa de valorizar a guarda é hoje uma preocupação comum dos campeões?
Você quer um cara bom, que faz de maneira diferente? O cara é top, não estou me comparando a ele, mas dizendo como meu pai era visionário. Esse cara faz isso do jeito dele, mas dentro do que meu pai pregava para mim: Floyd Mayweather Jr.. Ele é um cara que trabalha na defensiva. Quem consegue bater nesse cara? Ninguém bate nele. Os melhores do mundo, Manny Pacquiao, Ricky Hatton, um que está na atualidade aí, o Canelo, ninguém bateu no cara, ninguém acha ele. Ele arrumou um sistema de defesa tão bom, que ele tem o rosto limpo, ele é liso, e está na história igual o Rocky Marciano, terminou a carreira invicto. Então, o que acontece: meu pai era visionário, ele tinha razão.


“Eu só parei de lutar porque ele faleceu, aí as coisas mudaram, o meu rendimento caiu, pela tristeza e tal. Até cheguei a fazer umas lutas depois dele, mas não era a mesma coisa. Mas ele tinha razão: eu podia estar lutando até hoje mesmo”

É interessante comparar o seu estilo e o desses caras com o do Mike Tyson, que é o total avesso dessa prática.
Mas é diferente… o Mike Tyson arrumou um esquema de agressividade tão absurda, pelo potencial que ele tinha, que a técnica de defesa dele era atacar primeiro. E ele atacava e saia nocauteando todo mundo. Aí o cara é um fenômeno. Como Floyd Mayweather é um fenômeno, ou seja, são distintas as técnicas… Mas eu falei do Floyd porque o que o meu pai tentou fazer comigo para me preservar seria mais ou menos o que o Floyd Mayweather faz e dá certo. Óbvio que eu não tive uma estrutura emocional como o Floyd teve para poder ganhar de todo mundo, me tornar campeão do mundo, porque o que me pegou foi mais o emocional do que a parte física e técnica em si. Mas aí não é culpa do meu pai, é culpa minha mesmo.

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Bruno Passos/Divulgação

Você sempre comenta que o que fortaleceu a ideia de se aposentar foi realmente a perda do seu pai. Mas a memória dele não poderia lhe servir de inspiração para seguir lutando?
O fato de ele ter falecido mudou tudo. Eu nunca bati saco na minha vida sem o meu pai estar presente. Jamais subi num ringue sem o meu pai estar presente. A gente criou um vínculo. Por exemplo, fiz uma luta na Alemanha para 30 mil pessoas, com o Sinan Şamil Sam na época, turco, que era o segundo do mundo do conselho mundial e tal, uma luta importante. Meu pai, lá do corner gritava “jab, jab”, e eu conseguia ouvi-lo e fazer o que ele estava pedindo. Existia uma sintonia, uma sincronia com ele. Depois, a minha esposa [Carla Arias, também professora de boxe] pegou esse posto, a meu convite, de técnica, e foi até legal… eu acredito que ela seja uma entre as três mulheres, se existir, no mundo, que treinam peso pesado. Foi legal, e tal, mas o rendimento não ficou igual. E aí, assim, eu não conseguia me dedicar aos treinamentos do mesmo modo como quando meu pai estava presente. Porque eu tinha que trabalhar. E trabalhar e treinar, realmente, não dá. Aí eu preferi parar e seguir com a carreira de dar aula mesmo, me tornar professor.

Você começou a dar aulas a partir daí?
Eu já dava aula, mas bem pouquinho. Me formei em 2005, então sou professor de educação física, fiz uma pós-graduação em 2013, tudo já lutando, tudo já investindo nesse lado por ordem do meu pai. Ele que mandou eu estudar. Em 2001, lutei na Inglaterra com o Johnny Nelson pelo título mundial. Na época, eu era o segundo do mundo e ele era o campeão. Fomos para a luta e houve uma derrota por pontos. Foi uma luta boa e tal, mas não entrei pra história. Na viagem de volta, no avião, meu pai falou: “As coisas agora vão ficar mais difíceis e você vai procurar uma faculdade, vai fazer educação física”. Eu respondi: “Ah não, já parei de estudar faz tanto tempo.” E ele: “Eu não estou te auxiliando nem aconselhando, estou mandando você procurar uma faculdade e ir estudar.” Aí, a gente que é filho tem que obedecer, fui estudar e, hoje, só consigo me manter por conta disso, de ter uma faculdade, senão não ia ter esse gancho que tenho hoje. Sempre falo a palavra “visionário”. O velho me falava umas coisas que eu teimava, que achava que, pô, não tinha necessidade. E aí, mais para frente, as coisas que aconteciam me mostravam que ele tinha razão. Acredito que, talvez, meu pai tenha parado de sonhar para viver os meus sonhos. E aí, se dedicou a vida todinha a mim.


“Acredito que, talvez, meu pai tenha parado de sonhar para viver os meus sonhos. E aí, se dedicou a vida todinha a mim”

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Bruno Passos/Divulgação

Um esporte como o boxe estimula o cara a ser mais calmo ou mais agressivo?
Nem sempre é necessário você entrar agressivo, com atitude, tanto no esporte como na vida. Às vezes não é nessa ordem. Você tem que esperar, aguardar o momento certo para atacar ou contra atacar. O que é usado no esporte a gente leva para a nossa vida, e é isso que eu falo para os empresários que atendo aqui. São caras muito bem conceituados, que a grande maioria estudou nos melhores colégios, vem de família estruturada. Os caras gostam de estar aqui não porque eu sou muito inteligente. Não sou, mas eu passo a experiência que meu pai me ensinou. E essa experiência eu ensino para os caras, é mole? É isso que acho demais, sensacional. E eles, que são muito bem sucedidos nas coisas, falam: “Seu pai era foda, porque o que você ensina aqui para a gente, às vezes a gente adota na empresa.” E eu:  “Caramba, preciso fazer isso na minha vida também.” Estou me moldando, me alinhando. Quer dizer, meu pai continua, mesmo sem estar presente, me ensinando.

Como assim? Nas aulas de boxe entra também o lance de trabalhar uma espécie de inteligência emocional?
No treino, o cara desenvolve uma inteligência emocional e uma segurança para as dificuldades que a vida apresenta pra gente. São alguns caminhos tortuosos, algumas pedras no meio dessa trajetória, dessa passagem que a gente está por aqui, mas o esporte, mesmo que o cara não vingue para ser um atleta de alto nível, vai ensinar isso para ele: enfrentar as dificuldades que a vida lhe dá de uma maneira melhor, mais controlada, mais inteligente, sei lá.

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O pessoal que treina com você não está em busca de competição, nada disso?
A grande maioria vem para desestressar, descarregar, fazer um pouquinho de resenha depois do treino, ter um momento relax. Porque você imagina que esses caras trabalham com coisas gigantes, empresas que têm lá 1500 funcionários, folhas de pagamentos absurdas, e entram umas crises, que nem está rolando agora, na pandemia. Aí o cara tem pelo menos o refúgio, é isso que eu tô vendendo, né? O cara tem um refúgio para poder aprender uma modalidade que obriga ele a zerar tudo o que existe lá fora e focar, senão não sai nada. Detalhe: se for lutar de verdade o cara vai ter uma fratura de nariz, vai tomar pancada na cara.


“No treino, o cara desenvolve uma inteligência emocional e uma segurança para as dificuldades que a vida apresenta pra gente. O esporte, mesmo que o cara não vingue para ser um atleta de alto nível, vai ensinar isso para ele”

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Bruno Passos/Divulgação

Não é natural que uma pessoa que treine alguma luta, cedo ou tarde, acabe querendo colocar isso em prática de alguma forma por aí? Tipo numa desavença do cotidiano?

Depende muito de quem ensina, de como o professor educa esse esportista. Na visão do meu pai, o boxe é uma defesa pessoal, sim. Se você estiver em alguma situação em que não tem o que fazer e precisa se virar, você tem condições de lançar um golpe na pessoa, alguma coisa, para poder sair fora daquele problema, se precisar. Mas eu falaria até diferente, não é em termos de se precisar, num termo vulgar, sair na mão. Eu diria que, numa situação em que se resolveria partir pra briga, o boxe dá um autocontrole tão forte que você consegue resolver sem precisar sair na mão com o cara, tal é a confiança que ele te traz. O quadro se reverte, você consegue levar o cara para tomar um café. Quantas vezes eu já não tive confusão de trânsito, de o cara me mandar praquele lugar e xingar minha mãe, e às vezes o cara nem está certo… e qualquer outro daria um tapa na boca do otário, acabaria com a arrogância dele. O farol fecha lá na frente, você para do lado do cara, ele acha que você vai brigar, aí você fala: “Ô, amigão, desculpa aí, foi mal, quer parar, tomar um café aí? Você está nervoso.” Você quebra o cara, tal é a sua confiança. Porque não preciso meter a mão no cara para falar que sou mais forte. Você quebra ele só porque sabe do que é capaz, não precisa provar nada. É mais ou menos isso.

Um lutador se esquiva como um lutador. Isso já mete medo, imagino.
Sim, com certeza. Nunca aconteceu comigo, mas já vi situações com amigos que o cara, muito nervoso, ficou cego, veio para cima, jogou um golpe, o outro deu uma desviada, e já acabou a briga na hora [risos].

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Você comentou antes sobre a sua mulher. Vocês estão juntos desde a adolescência?
Minha mulher me acompanha no esporte desde 1991, quando a gente se casou. Então a gente estudou junto, fez tudo junto. Tenho uma filha de 29 anos. Por coincidência, casei em setembro de 91 e minha filha nasceu em dezembro, cê vê que coisa, parto prematuro, né… [risos] Mentira, é que a Carla ficou grávida e, quando a gente se casou, ela estava com seis meses de gravidez já. Na época, ela tinha 15 anos e eu, 17. Fui pai antes de me tornar lutador de boxe. Por isso que a gente faz tudo junto. Já tenho até um netinho de dois anos de idade.

Quantas horas de aula você dá por dia?
Umas 15, 16 horas por dia. Mas isso não chega nem perto das seis horas que eu treinava todo dia. Os treinos é que eram dureza. As aulas, assim, você cansa às vezes, claro, porque fica de pé muitas horas e tal. Mas o trabalho é mais fácil.

E a pandemia do novo coronavírus, mexeu com a rotina?
Eu mudei o esquema, porque são aulas particulares, né, então tivemos que cuidar um pouco mais da limpeza, fazer uma higienização maior na troca de um aluno para outro. Mas atendo um aluno por vez. Sempre foi assim. Claro que tem horários que atendo dois, três alunos de uma vez, que são amigos. Isso tinha caído bastante, nos primeiros três meses de pandemia, e agora que esses amigos começaram a voltar. Mas se tenho 30 alunos, 15 não saíram de casa. Pelo menos metade caiu porque os caras ficaram com medo. Não é que perdi esses alunos, eles estão esperando passar essa loucura. Falo com eles toda semana e tal, eles me ligam para saber se estou precisando de alguma coisa, porque sabem que o faturamento diminuiu. Assim, são meus amigos, já, né? Já dou aula há 15 anos, é muito tempo. Meu primeiro aluno está aqui até hoje. Dou aula para o filho dele já, agora, que é o Valentino.

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Esse espaço é o mesmo onde aconteciam os treinos com o seu pai?
Sim, um espaço, particular. Recebo esses alunos lá. Conheci meu primeiro aluno no Shopping de Guarulhos, na fila de um cinema. Ele estava com a esposa e eu também, só que eu tinha passado no programa do Ratinho, quando o Maguila me desafiou. Deu um bafafá danado, fiquei um pouco conhecido durante alguns anos, porque o programa do Ratinho estava bombando no Brasil inteiro. Fui lá no palco, fizeram um link aqui no meu espaço, com carro do SBT, antena, fechou a rua, foi uma loucura… Aí esse cara me viu na fila: “Ow, você não é o George Arias?” Eu: “Sou, e tal”. “Pô, você não dá aula?” Falei: “Dou.” Só que menti, não dava aula ainda [risos]. Estava me formando na faculdade – ele sabe disso hoje. “Quanto você cobra?” Nem sabia quanto cobrar. “Depois a gente vê isso aí, vamos fazer a primeira.”

Nunca pensou em ser treinador de atletas profissionais, ter um pupilo?
Não, não tenho vontade. Momentaneamente, não tenho esse tesão, não. Porque é muito trabalhoso, é árduo, o caminho é difícil, eu vi o quanto meu pai se ferrou para poder me levar a algum lugar. Acho que não tenho esse pique que meu pai tinha, por enquanto. Mas pode ser que amanhã mude.


“Não tenho vontade [de ser treinador de atletas profissionais] porque é muito árduo, eu vi o quanto meu pai se ferrou para poder me levar a algum lugar. Acho que não tenho esse pique que meu pai tinha. Mas pode ser que amanhã mude”

Qual é a sua opinião sobre o Maguila?
Até uns dez anos atrás, o Maguila era a segunda maior pancada do mundo, ele só perde para o George Foreman, em peso de mão. Depois, surgiram outros atletas, aí já não sei… E o arroz com feijão, os jabs, hooks, diretos de direita do Maguila eram terríveis, então ele foi muito bom. Ele reinou na América do Sul por muitos anos. Quando lutou com o Hollyfield, no primeiro round o Hollyfield respeitou ele, porque a mão do cara era pesada realmente. Ele não é qualquer um. Agora, perdeu, paciência, os caras são fenômenos. O Maguila tem a sua importância no boxe brasileiro, sim, tem que se respeitar.

Foi uma pena que a luta entre vocês não tenha acontecido.
Para lutar comigo, a confederação forçou ele a entrar no ranking, porque ele não estava nem no ranking mais, já estava afastado. Aí ele escolheu um cara do ranking que na época já tinha me desafiado também. Eu era, nessa época, o boxeador mais desafiado do Brasil, deu até capa de revista isso aí. Aí falaram: “Luta com o Daniel Frank primeiro e quem ganhar luta com o Arias.” Só que aí o Maguila perdeu pro Frank e encerrou a carreira dele. Gostaria de ter lutado com ele, mas enfim…

Poderiam ter organizado pelo menos uma luta de exibição.
Sim, seriam os dois pesos pesados que tiveram mais relevância na categoria. Nós tivemos Luis Faustino Pires na década de 1970, Maguila na de 1980 e o George Arias que veio em 1990 para 2000. 

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Está rolando o corre para incluir no Guiness as suas 29 lutas por títulos brasileiros?
Nós estamos tentando homologar no Guiness. É que eu precisava de uma assessoria legal para reunir a documentação. O recorde é meu, mas enquanto não estiver homologado, não adianta nada. Quem está lá no Guiness agora é um alemão. Ele tem 14 lutas por título nacional.

Como foi a sensação de vivenciar uma sequência tão longeva como campeão brasileiro?
Na verdade, foi acontecendo. Eu me tornei campeão brasileiro, o título não estava mais na mão do Maguila, tava na mão de um carioca. Aí fui campeão brasileiro dos cruzadores e, na sequência, surgiu a oportunidade de se fazer o título brasileiro dos pesados. E eu tinha feito um sparring já com o Maguila antes. Sempre quis ser peso pesado. Era meu sonho. Surgiu a oportunidade, fui campeão.

Você se sente estranho hoje longe da cobertura da mídia?
Se você não estiver na mídia, esquece, não vai ser conhecido. O boxe perdeu o espaço na mídia, cheguei nessa época em que o boxe perdeu espaço na mídia por questões políticas no meio mesmo. Por exemplo, o Maguila chegou a fazer algumas lutas que a turma brincava, “ah, pegou o açougueiro da esquina lá”. Ou seja, o Maguila estava tão bem com a sua experiência, maturidade, quantidade de lutas, que aí os empresários, talvez pra ganhar um dinheiro maior, marcavam lutas com qualquer um. Um exemplo, um cara de peso, para dar uma luta boa com o Maguila, na época, custava 40 mil… aí os caras falavam assim para os patrocinadores, só para você entender: pegava um cara que estava estreando no profissional, pagava 1 mil e guardava os 39. Aí o Maguila ia lutar com aquele cara e o que fazia? Dava um tapa na orelha do cara e o cara caia! Porque existe todo o lado emocional, o cara não tem experiência nenhuma. O cara podia até ser bom, mas no futuro, não naquele momento. Aí começaram a falar que eram lutas armadas. Mas não era isso não, é que eram lutas muito desniveladas. Foi perdendo o interesse do público. A televisão foi deixando de transmitir, depois melhorou um pouquinho com o boom do Popó, mas mesmo assim não ganhou tanta força porque também não sei nem te dizer se peso pesado chama mais atenção. Mas aí não dá pra falar, porque o Eder Jofre é sensacional, o Popó também é um cara muito fora de série, carismático. Teve o boom dele, só que, se a gente parar para pensar, o Maguila reinou na mídia mesmo nas décadas de 1980 e 1990, e o Popó, quando foi campeão, em 99. Reinou durante alguns anos também, mas depois, se não tiver outro lutador, as coisas param mesmo. Tem que aparecer mais lutadores.

Você gostaria que suas conquistas tivessem mais projeção do que realmente tiveram?
Não ligo para isso. Eu gosto. Não tenha dúvida, se me chamarem, que nem você está me entrevistando, para um programa de TV, eu adoro. Na época do programa do Ratinho, eu saia na rua, os caras me paravam para pedir uma foto, um autógrafo, era sensacional. O atleta que falar que não gosta é mentiroso. Todo mundo gosta, porque é o reconhecimento de um bom trabalho que você está fazendo, isso é muito gratificante. Mas, quando não tem, não me incomoda também. Porque o que mais valorizo são as amizades. A fama, essas coisas, são uma consequência. Já tive a minha numa determinada época, agora estou num outro esquema, de torcedor. Agora torço pelo Esquiva Falcão, Robson Conceição, Yamaguchi Falcão, pessoal que está aí. É cada um na sua época.


“O atleta que falar que não gosta é mentiroso. Todo mundo gosta, porque é o reconhecimento de um bom trabalho que você está fazendo, isso é muito gratificante. Mas, quando não tem, não me incomoda também. A fama é uma consequência”

Guarda algum arrependimento ao longo da carreira?
A única coisa que me dá de remorso é não ter sonhado em ser campeão do mundo. Sonhei disputar um título mundial. Para você ter uma ideia de que se sonhar e for atrás, você consegue. Meu primeiro sonho era ganhar um cinturão, via os cinturões na televisão, e queria ser campeão brasileiro. Quando ganhei o título de brasileiro, não queria perder, mas nem ferrando. Treinava para caramba e me virava. Deu no que deu, mantive o título brasileiro de outubro de 1998 até 2016.

Quais foram os combates mais difíceis que você enfrentou?
Johnny Nelson. Se eu tivesse ganhado dele, seria o quinto brasileiro a ser campeão do mundo. Entraria para a história no esporte. Daqui 50 anos, quais são os campeões do mundo do Brasil? Aí teria lá Eder Jofre, Miguel de Oliveira, Popó, Sertão e George Arias. Essa luta foi muito difícil para mim. Depois, teve o Fabrice Tiozzo, campeão do mundo, cruzador. Tudo na categoria cruzador, depois teve o Marcelo Dominguez, campeão do mundo também. Lutei com Audley Harrison, foi campeão olímpico, peso pesado já, na Olimpíada de 2008. Seria uma eliminatória para título mundial. Todas essas lutas perdi por pontos. Esses foram adversários difíceis.

O que lhe faltou para ganhar desses caras?
Foi do jeito que era pra ser, dei meu melhor. Perdi porque perdi mesmo. Meu velho falava assim, que perdi porque não ouvi ele, se tivesse feito o que ele mandava, não teria perdido, e é verdade. Todas as minhas lutas que tem em televisão, está até no YouTube, se você prestar atenção, analisar friamente, as vezes que meu pai manda fazer alguma coisa e eu faço, dá certo. Ele tinha a visão do negócio, eu só precisava fazer o que ele mandava. É que eu, às vezes, tinha o receio de me arriscar, ficava ali, vai-não-vai, e meu pai mandava jogar as mãos e eu demorava um pouco, quando via, já perdia aquele timing e o round já foi, perdeu o round. Isso que aconteceu nas lutas em que perdi. É tudo experiência. O que importa é que dei o meu melhor. As lutas que não deu para ganhar, perdi por mim mesmo, não foi nem por mérito dos caras, foi por não ter conseguido fazer o que tinha que ser feito. Isso que meu pai falava: “Você não perdeu porque o cara é melhor, perdeu porque não fez o que tinha que fazer.” Isso me dava motivação para lutar de novo, treinar de novo. Era só jogar tudo o que tinha feito em treino. Por isso que posso falar: meu boxe é bom pelo que meu pai me ensinou.

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Bruno Passos/Divulgação

Você acha que o MMA é o novo boxe?
Tem que tomar cuidado ao dizer que o MMA está ganhando holofotes, digo, ao falar que o boxe perdeu espaço para o UFC. É verdade, mas no Brasil só. Porque em qualquer país das Américas, Europa, o boxe ainda é o esporte mais bem pago do mundo. Até o Floyd Mayweather, que parou de lutar não sei quanto tempo, no ranking que fizeram lá, era o atleta mais bem pago do mundo em relação a qualquer esporte. Tiger Woods, Cristiano Ronaldo, ninguém ganha o que esse cara ganhou. Não tem pra ninguém. O que um top, o José Aldo, ganha no UFC, não chega nem perto do que se paga no boxe profissional. Minha maneira de ver: tem esporte para todo mundo, público para todo mundo, então não tem uma concorrência, na minha visão. Eu assisto UFC, boxe, basquete, tem público para todo mundo. É que a turma compara muito.

Ainda tem tocado saxofone?
Tenho tocado. Postei no Instagram uma foto tocando alguma coisinha. É uma paixão. Vou tentando refinar os meus ouvidos. O meu sonho era, na minha última luta da carreira aqui no Brasil, tocar o hino nacional no evento. Só que aí pintou de os caras me tomarem o cinturão… É o maior barato. Faço uma confraternização aqui de final de ano para os meus alunos, e adivinha o cara que boto para tocar aqui? É um saxofonista. O cara toca tudo.

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