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O fim dos videogames

O ano de 2021 marca o início da netflixazão da mais digital das mídias. O que muda para os gamers?

por João Varella 25 jan 2021 00h43
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Clube Lambada/Ilustração

uvens se acumulam no horizonte dos videogames. A mais digital das mídias seguirá o caminho da música, filmes e séries, vai se desmaterializar. Ou, dentro da metáfora da nuvem, deixar o estado sólido para o gasoso. E alguns serviços começam a desembarcar no Brasil a partir deste ano.

A bola da vez é o cloud gaming, ou game na nuvem, que promete fazer qualquer dispositivo conectado à internet rodar jogos de última geração. Ou seja, mesmo o celular mais básico consegue abrir o estado da arte em termos de jogos, como o Microsoft Flight Simulator 2020. Mais importante do que a configuração do aparelho é uma boa conexão à internet, nesse caso um mínimo de 10 mb/s.

É a lógica do streaming. Não confunda com as transmissões ao vivo na Twitch de Gaulês, Alanzoka e Neymar. Aqui o streaming tem um sentido mais próximo de serviços como Netflix, Disney+ e Globoplay. Esses serviços são como aparelhos de DVD virtuais. A novidade é a disponibilidade de console virtual.

Muitos têm contato com a tal nuvem da tecnologia como um espaço para guardar e enviar arquivos. Serviços como Google Drive, OneDrive, Dropbox e iCloud servem de HD externo. Nos bastidores, os arquivos estão sendo guardados em computadores espalhados pelo mundo. Além de armazenamento, os servidores remotos da nuvem podem processar dados pesados, incluindo aí os jogos de última geração com resolução gráfica no talo, deixando para o aparelho do usuário a mera transmissão do jogo como se fosse um vídeo de YouTube. Isso significa que não precisa mais esperar a instalação dos jogos ou dedicar espaço de armazenamento. Basta esperar carregar e pronto, bora jogar.


Isso significa que não precisa mais esperar a instalação dos jogos ou dedicar espaço de armazenamento. Basta esperar carregar e pronto, bora jogar

Sabe onde o bugado Cyberpunk 2077 melhor rodava? No Stadia, o serviço do Google de cloud gaming, que oferece computadores de ponta para fazer o trabalho pesado. A gigante das buscas não está sozinha. Microsoft, Facebook, Amazon, Sony, Tencent, NVidia além de startups como a francesa Blade já atuam nesse nicho. Segundo a consultoria de games e e-sport Newzoo, cloud gaming deve ultrapassar US$ 1 bilhão em faturamento em 2021, com especial ênfase na região do Brasil e seus hermanos. “Estimamos que o gasto em cloud gaming cresça 25 vezes entre 2020 e 2023 na América Latina”, afirma Guilherme Fernandes, da Newzoo.

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Arte/Redação

Please come to Brazil

Com a nuvem, deixa de ser necessário fazer grandes investimentos na compra de equipamentos próprios, o que faz sentido para um país como o Brasil, onde impostos e moeda fraca fazem com que equipamentos de ponta custem alguns salários. A versão mais barata do PlayStation 5, por exemplo, custa R$ 4.199. A Microsoft deve ser a primeira empresa a oferecer jogos na nuvem como parte da oferta do seu Game Pass, serviço que funciona como uma espécie de Netflix de jogos de PC e console Xbox. Disponível em alguns países, o serviço está em fase beta por aqui – alguns jogadores convidados podem abrir os jogos em celulares Android. O lançamento oficial está previsto para o segundo trimestre do ano. Nesse mesmo período, o serviço também estará disponível para iPhone, iPad e computadores.

“Temos mais de 200 mil contas criadas por brasileiros para usar o serviço nos EUA, mesmo com uma experiência terrível e uma latência de mais de 150 milissegundos”

Richard Camero, da NVidia

Também em 2021, a NVidia trará seu GeForce Now oficialmente ao Brasil. Mas já tem gente dando um jeitinho de usar o serviço. “Temos mais de 200 mil contas criadas por brasileiros para usar o serviço nos EUA, mesmo com uma experiência terrível e uma latência de mais de 150 milissegundos”, diz Richard Cameron, presidente da empresa no Brasil. A latência, no caso, é o atraso entre um comando e a sua realização. Para games não competitivos, 100 ms é o limite do tolerável. E sim, estamos falando de 0,1 segundo. Videogame é exigente.

A torcida pela vinda do GeforceNow é grande. A comunidade “Pessoas com computadores lixo mas que usam GEFORCE NOW” no Facebook conta com 26,2 mil membros. E sempre tem alguém no Twitter suplicando:

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Arte/Redação

Cinco Pôblemas

Para o jogo rodar na nuvem, a distância física entre o jogador e o servidor importa, pois os dados precisam ir e voltar rapidamente. É o que acontece em jogos online como o popular League of Legends, mas a carga de dados com o jogo rodando completamente na nuvem é maior. Esse arranjo gera desvantagens:

Atraso: O delay perceptível no comando e seu resultado, a chamada latência alta, é uma barreira em certos jogos. Vai ser mais tolerável em títulos não competitivos.

Imagem: Como a velocidade desse vai e vem com os servidores é importante, os serviços adotam técnicas de compressão de vídeos. Na prática é como assistir a um vídeo no YouTube, com definição menor do que se o jogo estivesse rodando direto no hardware físico.

Conexão: O mínimo para usar a nuvem do Game Pass é 10 mb/s. Isso significa que se a conexão da residência é compartilhada por mais pessoas será necessário bem mais do que isso. Atenção ao leilão do 5G, que o governo federal deve realizar no primeiro semestre deste ano. A quinta geração de internet móvel habilita que a jogatina seja feita em áreas sem wi-fi.

Preservação: Com os jogos alocados em computadores de outras empresas, a conservação dos títulos antigos fica nas mãos das corporações. Um problema que afeta toda forma de arte dependente de plataformas digitais.

Adaptação: Atualmente os jogos de ponta são pensados para monitores e televisores. Será necessária uma adaptação às telinhas dos celulares. Atualmente, a maior parte das legendas vira teste oftalmológico. Uma comparação válida é a experiência de assistir um filme em Blu-Ray ou na Netflix. A qualidade do disco físico é melhor, mas a conveniência e acessibilidade do streaming mudou o jeito de se consumir audiovisual. Não é nuvem passageira.

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