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O olhar do estrangeiro

O paulistano Gal Oppido encontrou na cultura japonesa uma afinidade antiga que se desdobra agora em livros e exposição em torno da arte erótica do país

por Nina Rahe Atualizado em 14 jan 2021, 11h51 - Publicado em 6 jan 2021 14h58
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Clube Lambada/Ilustração

Estou preocupado com vocês aí, esse quadro custa mais do que o ar-condicionado”, adverte Gal Oppido aos homens que tentam consertar o aparelho fixado logo à entrada da Galeria Lume, em São Paulo, posicionando uma escada a poucos centímetros da obra do fotógrafo de 68 anos. “Não é melhor retirar o quadro?”, ele interrompe mais uma vez, tranquilizando-se somente após o galerista atender o pedido e correr para retirar a peça do lugar. “Um desenho em suporte de acrílico caiu do nada e quebrou, fico preocupado”, explica o artista antes de continuar sua fala sobre o motivo de escolher uma fotografia da aldeia Shirakawa-go, famosa pelas casas em estilo gassho (com telhados em forma de triângulo), para iniciar o trajeto por sua mostra Shunga: Serenos e Ofegantes. “Minha ideia era começar a exposição justamente com esse Japão milenar”, conclui.

Fotógrafo reconhecido, com obras nas coleções do MASP e do MAM, Gal diz que só costuma trabalhar com aquilo que lhe é familiar. A declaração pode ser facilmente comprovada nos tempos em que era estudante de arquitetura na FAU-USP, época em que desenvolveu uma série de imagens a partir do prédio onde morava, o edifício Japurá, mas torna-se mais ambígua quando remonta à sua relação com o Japão, objeto de sua exposição atual, em cartaz na Lume desde novembro passado.

Serenos e Ofegantes, 2020
Serenos e Ofegantes, 2020 Gal Oppido/Divulgação

As conexões com o país asiático, para ele, vêm muito antes da viagem que realizou ao Japão em 2013 e na qual clicou a imagem de Shirakawa-go. “A gente vive em um país com a maior colônia japonesa do mundo”, o fotógrafo responde de pronto, lembrando que no bairro onde cresceu, o Ipiranga, havia uma das poucas igrejas católicas administradas por padres japoneses e que o colégio onde estudou levava o nome de São Francisco Xavier, primeiro jesuíta a ir em missão para o Japão, em 1549. Mais tarde, já na faculdade, o artista descobriu How to Wrap Five Eggs, livro de design com foco na embalagem tradicional japonesa, e se impressionou com a economia de meios dos objetos feitos de bambu, palha de arroz, barbante de cânhamo, papel e folhas. O ano de 1973, no qual ingressou na FAU, também foi marcado por seu interesse na imagem dos lutadores de sumô, que começou a desenhar de maneira “contínua e sistemática” com traços sumiê, uma técnica de pintura com raízes na caligrafia chinesa e que acabou sendo absorvida no Japão.

Estúdio de Gal Oppido em São Paulo
Estúdio de Gal Oppido em São Paulo Filipe Redondo/Fotografia

O que mais conecta Gal Oppido ao país, no entanto, é o corpo, um interesse que perpassa desde sempre a trajetória do fotógrafo e cuja mostra Prata Sobre Pele Sobre Prata, realizada na Pinacoteca de São Paulo em 2002, com foco em fotografias que mostravam intervenções no corpo por meio de próteses e ornamentos, é exemplo. Na análise publicada no livro derivado dela, inclusive, o curador Diógenes Moura escreve sobre o “profundo mergulho nas questões do corpo, nas derivações do corpo, nos movimentos que o corpo provoca em torno de si mesmo, nos outros, na sua geografia tão privada…”, comparando o ritual de formas presente nas imagens de Gal às esculturas de Rodin.

“Há uma proximidade que é conceitual e está relacionada à forma de representação dos ritos e do corpo. A proximidade é por conteúdo e o que me interessa é que esse período do Japão, do Shunga, trata com dignidade aquilo que a gente coloca como pornográfico”

Gal Oppido

Não à toa, seu fascínio em relação ao Japão está direcionado à Shunga, a arte erótica predominante durante o período Edo, que corresponde aos séculos 17 e 19, no qual o país vivia um momento de isolamento político-econômico e de valorização das artes. Os artistas deste gênero retratavam cenas de sexo explícito em traços fortes e cores vivas, com órgãos genitais representados de forma detalhada e, muitas vezes, aumentada. “Há uma proximidade que é conceitual e está relacionada à forma de representação dos ritos e do corpo. A proximidade é por conteúdo e o que me interessa é que esse período do Japão, do Shunga, trata com dignidade aquilo que a gente coloca como pornográfico”, explica Gal. “Me chamou muita atenção ver o sexo dentro do ambiente cotidiano, em uma valoração diferente e que eu, particularmente, concordo.”

Serenos e Ofegantes, 2020
Serenos e Ofegantes, 2020 Gal Oppido/Divulgação

Filho do pintor acadêmico Giovanni Oppido, ele costuma contar com frequência a história de quando seu pai colocou um cavalo dentro de casa. O animal, que quase ficou entalado na passagem da sala para a cozinha, permaneceu alguns meses no pequeno quintal posando de modelo para as pinturas. Nessa época, em que era ainda adolescente e se vestia à moda dos Beatles, o maior pavor era encontrar algum conhecido durante a tarefa de trazer capim para alimentar o “bicho de estimação” da família. Seu pai, segundo conta, não chegou a direcioná-lo para as artes e tampouco conversava muito sobre seu ofício. “Apesar de ele ser um pintor, a gente quase nunca falou sobre isso. Eu observava, via muito o fazer mesmo, e sempre desenhei, desde pequeno. O desenho, por incrível que pareça, é a conexão mais rápida entre o cérebro e o registro e daí você vai percebendo que a urgência tem a ver com esse estilo [sumiê]”, conta.

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A ideia de um desenho de traços rápidos, onde as falhas são vistas não como erros, mas como inícios de novos contornos, lembra o próprio universo de Gal, onde acontecimentos aparentemente desconexos são encarados como convites para novos ensaios. Foi o que aconteceu quando ele ganhou um dicionário japonês-português-japonês que era parte do espólio de Michio Osawa, fotógrafo de origem nipônica que aportou no Brasil em 1956 e aqui viveu até o fim da vida. Folheando o objeto, ele passou a escolher palavras em torno do universo Shunga que poderiam servir como ganchos para desenhos, como o “agarra-pinto” na página 15 e “lamber” e “lambição” na página 285. O projeto acabou se transformando no Pequeno Dicionário Erótico Ilustrado, com a reprodução de 26 intervenções suas em páginas-duplas. Conforme o artista relata em texto introdutório do livro, o dicionário passou a pulsar como “amuleto de conexão com a cultura japonesa” após anos mergulhado nas imagens de Shunga.

Estúdio (?) de Gal Oppido em São Paulo
Estúdio (?) de Gal Oppido em São Paulo Filipe Redondo/Fotografia

Na data de abertura da exposição na Lume, também, Gal aproveitou para lançar Intoxicações Poéticas da Carne, resultado do seu encontro com revistas de arte das décadas de 1960 e 1970 que eram também parte da herança de Michio. A publicação, além de contar com desenhos sobre as páginas das publicações antigas, apresenta uma série de ensaios fotográficos – entre os quais aparece a prática erótica shibari, que consiste na suspensão de alguém amarrado – e um texto de Christine Greiner (coautora do projeto) sobre a relação da arte de Gal Oppido com o autor japonês Yukio Mishima, que cometeu seppuku, o suicídio ritualístico cometido por guerreiros samurais, em 1970.

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Filipe Redondo/Fotografia

Os livros, assim como a exposição, foram gestados de março a agosto do ano passado, meses em que os compromissos sociais – inviabilizados por conta da pandemia – deram lugar a uma prática de horas de desenho a fio, garantindo ao artista, assim, o feito inédito de lançar dois títulos em um único semestre. “A pandemia chancelou uma necessidade que eu tinha de recolhimento para colocar essas coisas em prática”, ele justifica.

Ainda que tenha fotografado menos, há nas impressões e na mostra fotografias feitas em 2020 que têm como cenário seu antigo quarto no edifício Japurá, onde morou de 1974 a 1989 – e em outros períodos intermitentes – e que utiliza como locação há quase 50 anos. Como não vive mais no espaço, a forma que encontrou para continuar fotografando no local foi alugá-lo a preço de custo em troca da permissão para utilizar um quarto. “O espaço se transforma no próprio objeto, deixa de ser suporte e se torna conteúdo”, ele explica, comprovando aqui mais uma vez o valor que confere ao que é próximo. Entre os trabalhos que já realizou ali, está o ensaio Taxidermia, resultado de cinco anos acumulando no quarto materiais encontrados pela rua. Para se ter uma ideia, o volume de objetos chegou a tal ponto que Gal diz ter precisado realizar uma “expedição” para encontrar uma bigorna que tinha sido emprestada pelo artista Guto Lacaz.

Grupo Rumo, composto por Akira Ueno, Ciça Tuccori, Gal Oppido, Geraldo Leite, Hélio Ziskind, Luiz Tatit, Ná Ozzetti, Paulo Tatit, Pedro Mourão, Zecarlos Ribeiro
Grupo Rumo, composto por Akira Ueno, Ciça Tuccori, Gal Oppido, Geraldo Leite, Hélio Ziskind, Luiz Tatit, Ná Ozzetti, Paulo Tatit, Pedro Mourão, Zecarlos Ribeiro Filipe Redondo/Fotografia

Baterista no Rumo, grupo que fez parte da Vanguarda Paulista e surgiu na década de 1970 em torno de nomes como Luiz Tatit e Ná Ozetti, Gal Oppido parece levar o espírito coletivo da música para tudo que faz. Argumenta, por exemplo, que sua aproximação com a cultura japonesa não se deu pelos livros, mas pelas trocas. Sua principal interlocutora, de acordo com ele, é fotógrafa Gê Fujji, que mora em Tóquio há mais de quinze anos e foi quem o ensinou que Shunga é, na verdade, um estado, “um sintoma sem palpabilidade no qual o Japão mergulhou por quase três séculos”. Mas as parcerias estão longe de parar por aí: em Pequeno Dicionário Erótico Ilustrado, ele convidou Celina Ishiwaka para escrever poemas a partir de suas intervenções; na construção dos ensaios fotográficos que compõem a mostra, também estão performers de diferentes corpos e etnias, trajando quimonos desenhados por Oppido e pelo designer Alex Kazuo e confeccionados pela costureira Atsuko Niwa. Há, ainda, um quimono do século 18 cedido por Ge Fujji, obras que possuem intervenções em caligrafia da artista Catarina Gushiken e até mesmo um poema de Alice Ruiz.

Até o fim de dezembro, no entanto, a exposição que segue até 20 de fevereiro não estava completa. Faltava para Gal Oppido finalizar a série Uma Leitura de Le Petit Tokaidô de Hiroshige, no qual deve apresentar releituras de 56 xilogravuras em volume sanfonado, tornando tanto a frente como o verso visíveis por meio de uma estrutura espelhada. “Quando você está envolvido com um projeto, é geralmente no momento que você o fecha que está mais capacitado para desenvolvê-lo”, resume Gal. “Há um domínio de linguagem, um aprofundamento naquele universo e acho que estou nessa condição. Na verdade, ainda tem muita coisa, não vai se encerrar por aqui.”

ikebana Shunga, 2020
ikebana Shunga, 2020 Gal Oppido/Divulgação
Shunga: Serenos e Ofegantes l Gal Oppido

Galeria Lume – Rua Gumercindo Saraiva, 54 – Jardim Europa, São Paulo, SP
Até dia 20 de fevereiro

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