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O desconforto de se perceber em uma sociedade doente

Uma das vozes do feminismo no Brasil, a escritora e roteirista Antonia Pellegrino conta como descobriu em si a luta a favor dos direitos das mulheres

por Bruna Santamarina Atualizado em 17 ago 2020, 17h31 - Publicado em 17 ago 2020 01h18
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Clube Lambada/Ilustração

empre reconheceu em si um desconforto com a estrutura da sociedade. Mas, formalmente, o feminismo só entrou na vida de Antonia Pellegrino com força a partir de 2014, logo após ser mãe. Com dois filhos, Iolanda e Lourenço, começou a ler e refletir sobre as questões de gênero e o interesse foi só crescendo. Começou, então, a falar e praticar com mais ênfase.

“Quem tem esse coração feminista, de alguma maneira, mesmo sem entender que é feminista, tem esse incômodo de natureza feminista. Sempre senti esse incômodo. Demorei a entender que um monte de gente já tinha falado sobre isso e lido sobre isso. Encontrei o meu grupo”.

Como roteirista – colaborou no documentário, Democracia em vertigem, de Petra Costa, indicado ao Oscar em 2020 –, Antonia aderiu à narrativa das ondas feministas, que para ela funciona. “Gosto de historinha. Tem gente que não gosta dessa narrativa, mas para mim é educativa. São ondas e vão passar. Esse é um desenho que faz sentido para muita gente.”

Ela enxerga que a sociedade brasileira passa por uma quarta onda feminista, que começou em 2011, com a Marcha das Vadias, e que a partir de 2017 começou a ser devorada pelo mercado e pelo capitalismo. Surgiram camisetas com “The Future is Female”, “Girl Power”, entre outras expressões de caráter feminista, mas com um tom mais purista e superficial.

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Para Antonia, a mercantilização do feminismo empobreceu questões importantes, que acabaram despolitizadas. “Vira um feminismo chá entre amigas, e não é”

Mas, ao mesmo tempo, reconhece que esse movimento gerou um efeito positivo, de ampliar o acesso à informação. “Tem um efeito viral importante”, pondera, citando inclusive o Big Brother Brasil, cuja edição de 2020 trouxe à tona discussões sobre igualdade de gênero e raça.

“Temos muitas coisas a fazer, evidentemente que sim. Mas a gente de fato conseguiu avançar muito. Não é mais uma coisa acadêmica, como já foi. Está na vida das pessoas, está colocado. As novas gerações estão se apropriando disso a sua maneira. Não é uma coisa de mulheres brancas de elite. Ganhou muita força com mulheres negras periféricas, que falam do feminismo do seu próprio jeito, com sua linguagem”.

Em um país como o Brasil, que tem mais da metade da população formada por mulheres e metade formada por negros, com uma herança racista e escravocrata muito forte, é impossível levantar discussões de gênero sem falar, também, de raça.

Não dá para falar de feminismo sem pensar de forma interseccional, é impossível. Tem que sempre buscar o olhar de raça também, não dá para desconsiderar isso”, opina Antonia, que diz preferir ler feministas negras, como a americana Angela Davis e a brasileira Djamila Ribeiro. “Elas trazem contribuição para mim, que sou uma mulher branca com privilégios muito grandes. Elas ampliam o meu mundo e isso é muito importante”.

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Divulgação/Reprodução

Os desafios do coronavírus para as mulheres

A luta de Antonia Pellegrino ganha bastante eco com o uso das redes sociais. Fundadora, curadora e editora do Agora É Que São Elas, a escritora agora está à frente de um movimento que busca proteger mulheres em situação de violência doméstica, cujos casos aumentaram durante o isolamento social provocado pelo coronavírus.

O movimento incentiva o simples ato de colocar uma fita num local visível de casa, mas traz uma mensagem forte: “vizinha, você não está sozinha”. Um laço amarrado numa porta, numa varanda ou numa janela poderia passar despercebido aos olhares masculinos. E a ideia talvez seja justamente essa.

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Segundo um balanço divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, cresceu em 35,9% o número de denúncias de violência registradas no Ligue 180 em abril, em comparação ao mesmo mês de 2019. Foram 9.842 casos, um número recorde.

“A ideia é mobilizar mulheres para estarem atentas ao que está acontecendo na casa ao lado, para ter atenção. A gente acredita que possa ter um efeito intimidador no agressor. Enquanto sociedade, é o que nos cabe fazer neste momento: se apresentar de maneira vigilante. Como governo federal, caberia um reforço emergencial, tanto de equipe para receber ligações, quanto de efetivo, para atender a essas demandas”, avalia.

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Antonia tem experiência em criar mobilizações pelas redes sociais. Foi uma das responsáveis por articular a campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas. E, hoje, é considerada uma das vozes do feminismo no Brasil. Dirigiu, ao lado de Isabel Nascimento Silva, o documentário Primavera das Mulheres, lançado em 2017, sobre movimentos feministas do ano anterior, premiado pela ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteiristas) e pela New York Festivals. O contexto retratado no filme já parece distante do Brasil de hoje, que passou por incontáveis plot twists políticos que nem mesmo ela, escritora e roteirista, poderia imaginar.

Do governo que ocupa o Palácio do Planalto atualmente, Antonia espera muito pouco – para não dizer nada. “A gente está vendo um governante que tem alma genocida, que é admirador de tortura, que não tem empatia. Dizer que Bolsonaro está sendo irresponsável é muito pouco. Ele nunca demonstrou que tinha responsabilidade para o cargo que ocupa. É presidente de ocasião, emerge num contexto muito específico. Em qualquer outro, não teria sido eleito”.


“No curto prazo, o que a gente tem é muito sombrio. Tem uma crise econômica sem precedentes, uma instabilidade política gigantesca, um governante que não sabe liderar uma nação numa crise tão profunda. O que vai ser de nós depois é chute”

Para ela, o desafio do país hoje é de união, de juntar forças. “Tem uma questão de uma sociedade que precisa se reconstruir, como num pós-guerra. Não adianta a minha primeira identidade ser feminista. A gente vai ter que encontrar um lugar comum como cidadãos. […] É um momento, por causa da conjuntura política, em que é preciso, na minha opinião, ter um olhar em busca do comum. Que desejo de sociedade eu tenho em comum com alguma pessoa que possa ser muito diferente de mim, que não represente meus valores como feminista, mas que, no entanto, compartilha uma série de outros valores importantes, como apreço à democracia? A gente é capaz de construir algo juntos? Não é um momento de superação do feminismo, mas temos um problema hoje que é maior, que está colocado para a sociedade brasileira como um todo. Olhar dessa forma me parece que é mais urgente”, opina ela.

E completa: “Nunca encarei o feminismo como uma agenda identitária. Quando você trata dessa maneira, perde o olhar para o que é estrutural, assim como a luta antirracista é uma luta estrutural, porque a sociedade patriarcal tem essa estrutura machista e racista”.

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