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Doente de estudar

Em meio à pandemia de Covid-19, pós-graduandos se esgotam física e mentalmente para finalizar seus trabalhos

por Henrique Santiago Atualizado em 15 abr 2021, 10h07 - Publicado em 14 abr 2021 22h50
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Clube Lambada/Ilustração

o início de dezembro passado, Elizabeth* recebeu um e-mail da Comissão de Bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) informando que sua bolsa de mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) seria prorrogada até 31 de junho de 2021. O espanto foi tamanho que ela nem percebeu que a data estava errada, pois o sexto mês do ano é encerrado no dia 30.

Isso porque Elizabeth, que recebe um benefício mensal de R$ 1.500, esperava que o prolongamento fosse de, no mínimo, 12 meses, como consta no programa. Em plena pandemia de coronavírus, ela teve que tomar uma difícil decisão: correr contra o tempo para entregar a tese enquanto sua bolsa do Programa de Excelência tiver validade.

Os estudos foram ressignificados com a chegada da Covid-19 no Brasil. Desde que a quarentena foi instaurada no país, muitos estudantes tiveram o privilégio de estudar de casa. Ao mesmo tempo, descobriram que as aulas à distância vinham acompanhadas de uma série de empecilhos, como trabalho, tarefas domésticas e cuidados com a família, por exemplo.Para Elizabeth não foi nada diferente. A mestranda buscava entender a justificativa de “rotatividade das bolsas” para o seu problema ao passo que acumulava uma série de reuniões, aulas e projetos na tela do computador. A pandemia acentuou nela o esgotamento físico e mental acadêmico que já sentiu em outras ocasiões.

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João Barreto/ Colagem/Ilustração

Quando a ansiedade dá as caras

Em 2020, pesquisadores lançaram um estudo sobre o impacto da pandemia nos pós-graduandos (mestrado e doutorado) da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, centro de São Paulo. Entre os 295 participantes, 84,3% disseram que adoeceram psicologicamente nesse período, com destaque para transtornos de ansiedade, depressão e insônia.

Antes do coronavírus, Elizabeth dizia que as relações na academia eram marcadas pela ausência de seu orientador, silenciamento por ser mulher e sensação de não pertencimento. Mestranda desde 2019, ela planejava entregar seu trabalho final em novembro deste ano, mas agora tem que lidar com o prazo encurtado – e sem uma resposta esclarecedora.

Ela faz acompanhamento psicológico justamente para tratar de questões que envolvem a Academia. “A ansiedade e o estresse aumentaram bastante por saber que não estou rendendo. Não consigo focar para escrever como antes, pois sei que a minha bolsa vai até junho. Eu não tinha essa preocupação [do tempo de prorrogação] porque todo mundo que conheço conseguiu. Fiquei bem mal, minha ideia era emendar o doutorado em 2021. Isso também mexeu com meu planejamento, traz uma sensação de insegurança gigantesca”, desabafa.

“A ansiedade e o estresse aumentaram bastante por saber que não estou rendendo. Não consigo focar para escrever como antes, pois sei que a minha bolsa vai até junho. Eu não tinha essa preocupação [do tempo de prorrogação] porque todo mundo que conheço conseguiu”

Elizabeth*

Em agosto de 2020, a pró-reitoria da USP reconheceu aos alunos, por meio de uma circular, as dificuldades impostas pela pandemia e estendeu o prazo de até 12 meses para qualificação e defesa de dissertação e teses. No entanto, a Faculdade de Direito não tem acatado essa medida.

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João Barreto/ Colagem/Ilustração

Cultura do adoecimento

Para a pesquisadora, mestre e doutoranda em Direitos Humanos pela FDUSP Janaína Dantas, a pandemia de covid-19 jogou luz à cultura do adoecimento institucional, isto é, a romantização historicamente atribuída a estudantes que chegam ao seu limite físico ou mental por conta dos estudos.

Ela reconhece que essa adversidade atinge nesse caso um grupo privilegiado de pessoas majoritariamente brancas, de classe média e com alto nível acadêmico. Contudo, ela alerta que os infortúnios enfrentados pelos pós-graduandos estão longe de ser um white people problem (meme que brinca com a expressão “problema de gente branca”).

“Se os alunos ‘padrão’ não estão conseguindo lidar, imagine aqueles que pertencem às bordas de proteção da sociedade: a mãe, o aluno que depende de bolsa, o desempregado. [A FDUSP não prorroga os prazos] porque acredita na cultura de pesquisa jurídica, já vi docente rir quando ouviu falar em saúde mental. Quem está no poder faz a leitura de que falta vergonha na cara dos pós-graduandos. Negligencia, moraliza e diminui o sofrimento dos outros.”

“Já vi docente rir quando ouviu falar em saúde mental. Quem está no poder faz a leitura de que falta vergonha na cara dos pós-graduandos. Negligencia, moraliza e diminui o sofrimento dos outros”

Janaína Dantas

Embora a pesquisa que conduziu fosse direcionada à FDUSP, Janaína diz que as respostas apresentadas podem ser aplicadas a outros cursos e outras instituições. Ela e os demais pesquisadores defendem o tempo de prorrogação por mais 12 meses aos pós-graduandos de Direito.

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João Barreto/ Colagem/Ilustração

Mãe, esposa e doutoranda

Valéria* também tem olhado para o relógio para cumprir o prazo que considera irrisório. A doutoranda da Faculdade de Direito da USP deve defender sua tese ainda no primeiro semestre de 2021, mas tem argumentado pela extensão de seis meses. Antes do início da pandemia, deu à luz seu primeiro filho e teve que escolher prioridades, como parte dos 21,7% estudantes da pesquisa que exercem parentalidade.

No meio desse turbilhão, ela deixou de advogar para se dedicar à maternidade e aos estudos. Entretanto, a sensação é de incompletude. Valéria devota praticamente 24 horas por dia ao bebê e deixa para estudar apenas quando a criança dorme, geralmente depois da meia-noite. 

Ela e o marido se revezam em turnos para dividir os cuidados com o pequeno. “A ansiedade paralisa, não consigo nem raciocinar. Eu evito pensar no prazo porque isso tudo atrapalha meu processo de escrita. O medo de entregar uma tese ruim ou até mesmo de não entregar está sempre presente. A sensação de que poderia fazer algo melhor existe”, lamenta.

“A ansiedade paralisa, não consigo nem raciocinar. Eu evito pensar no prazo porque isso tudo atrapalha meu processo de escrita. O medo de entregar uma tese ruim ou até mesmo de não entregar está sempre presente”

Valéria*
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João Barreto/Colagem/Ilustração

Valéria dorme, em média, quatro horas por noite. Para lidar com a sobrecarga, a doutoranda recorreu a tratamentos alternativos, como aromaterapia e meditação. “Eu fazia acompanhamento psicológico e, ironicamente, decidi que não tinha mais tempo para me dedicar, tive que parar”, complementa.

A sensação de solidão acadêmica a qual Elizabeth se refere pôde ser traduzida quando tentou reverter a situação sobre a bolsa que garante sua sobrevivência em São Paulo. Como resposta, recebeu um e-mail que informava o seguinte: “recomendo que recorra da decisão”. Ela conta que mudou, literalmente, sua vida para defender seu mestrado.

Com tantas dificuldades e poucas soluções, Elizabeth pensa em arrumar um emprego dentro ou fora da sua área caso não consiga entregar a tese dentro do prazo forçado. O momento só não é pior porque os pais a ajudam a pagar o aluguel onde vive na capital paulista. Ela se diz completamente decepcionada com a Faculdade de Direito da USP. 

“Eu definitivamente não indicaria a faculdade para alguém que quer se formar pesquisador. É desgastante, a sensação de insegurança é enorme e não há apoio da instituição. Ali se tem um exemplo do que não fazer com alunos”, encerra.

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*As pessoas entrevistadas abaixo só concordaram em conversar com a Elástica sob condição de anonimato, pois temem por represálias da Faculdade de Direito da USP

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