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Periferia levada a sério

Embrazado leva música periférica ao centro da análise

por Debora Pill Atualizado em 9 nov 2020, 15h58 - Publicado em 9 nov 2020 00h09
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Clube Lambada/Ilustração

eiradão, arrochadeira, forró de favela, piseiro. A música periférica brasileira segue vibrante e em constante reinvenção, apesar da surdez e negligência de parte da sociedade ainda pautada por preconceitos raciais, sociais, geográficos e estéticos.

Embrazado nasceu como festa em 2017 na cidade de Recife a partir das pesquisas dos jovens GG Albuquerque e Igor Marques. A ideia era apresentar o percurso histórico e contemporâneo das diferentes vertentes da música popular periférica do Brasil, frequentemente invisibilizada pela crítica musical e documentada de forma superficial.

Para sistematizar e dar vazão à pesquisa, o projeto hoje inclui um podcast e também um portal. “Nosso trabalho fica numa interface entre jornalismo e pesquisa acadêmica. Assim a gente pode produzir conteúdos mais longos e apurados”, explica GG, que em seu mestrado analisou porque o funk não aparecia nas listas das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras entre 2016 e 2019.

“A gente segue uma linhagem que começa a construir esses contrapontos, mostrando a diferença gigantesca entre o Top 100 das rádios do Instituto Crowley, onde só apareciam dois funks, e o top 10 do YouTube, onde esses ritmos alcançam números impressionantes. A internet foi fundamental para essa quebra”, analisa GG.

Troquei uma ideia com os fundadores do Embrazado: GG Albuquerque é jornalista e doutorando em Estéticas e Culturas da Imagem e do Som pela UFPE, já escreveu para a Vice Brasil, Portal Kondzilla, UOL Tab, Outros Críticos, Jornal do Commercio, apresentou um documentário sobre bregafunk no Spotify, e desde 2015 edita o blog Volume Morto.

Igor Marques é comunicador visual na Escola Técnica Estadual Professor Agamemnon Magalhães – ETEPAM e graduando em ciências sociais na UFPE. Suas pesquisas são focadas nas músicas periféricas das regiões norte e nordeste do país. Produziu reportagens sobre bregafunk para o portal internacional Vice, mediou debates sobre o mesmo tema no Porto Musical e na mostra Periferia Invenção do Sesc Santo Amaro (SP).

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André Soares/Fotografia

Como começou a relação de vocês com a música periférica?
Igor: Fui criado em comunidades periféricas ao longo da minha vida inteira. Essas músicas que a gente pesquisa sempre fizeram parte do meu dia-a-dia. Eu estava almoçando em casa e tocava brega na vizinhança. Quando fui crescendo, na juventude, rebeldia e tal, busquei outras referências, mas com o tempo passei a me questionar por quê a música que eu escutava não estava no centro da análise que as pessoas faziam sobre música.

“Na juventude, rebeldia e tal, busquei outras referências, mas com o tempo passei a me questionar por quê a música que eu escutava não estava no centro da análise que as pessoas faziam sobre música”

Igor Marques

Um exemplo prático: eu gosto muito do Cidadão Instigado, banda do Ceará que flerta com música brega. Sei que Catatau (líder da banda) tem essa vivência de pequeno. E eu ficava pensando por que Cidadão é pautado como banda cult pela mídia hegemônica? E o Conde Só Brega, que é aqui do Recife, um cara que tem uma banda histórica apesar de recente (anos 1990), por que não tem a mesma relevância?

GG: Minha história é parecida com a de Igor. Sempre vivi em regiões mais afastadas da cidade. Me criei entre o Janga (Região Metropolitana Norte de Recife) e Imbiribeira, que já é no Recife mas é uma área muito permeada por favelas. Eu vivia com gente ouvindo brega. Foi bem na época que o bregafunk estava começando a explodir. Fazia parte da minha vida, eu estava próximo, conhecia as músicas todas, mas não consumia conscientemente.

Minha mãe sempre foi fã de música, ela ouvia Caetano mas também tinha DVD do Calcinha Preta. Meu pai era muito do pagode, era fã de Fundo de Quintal e também de Metallica. Daí eu decidi ser jornalista de música, participei de um monte de fóruns e comecei a ouvir de tudo, de Elton Medeiros a Miles Davis, Black Metal e tudo. Mas comecei a perceber que eu não ouvia aquela música que estava ao meu redor, no meu cotidiano. E comecei a buscar mais o funk. Minha primeira atitude foi do tipo “Funk é radical, é uma afirmação política. É equivalente ao punk”, pensei. Tive primeiro essa ideia social, digamos.

“Comecei a perceber que eu não ouvia aquela música que estava ao meu redor, no meu cotidiano. E comecei a buscar mais o funk. Minha primeira atitude foi do tipo ‘Funk é radical, é uma afirmação política. É equivalente ao punk'”

GG Albuquerque

Depois mais adiante, já estudando jornalismo e trabalhando no Jornal do Commercio, comecei a sentir um incômodo justamente por essas músicas serem tratadas sempre pela chave do social. Achava aquilo uma coisa meio condescendente, sabe? Em um discurso do tipo: “Essa música do pobre e do preto fala essas baixarias… Mas tirou fulano do crime. Essa música é a voz da favela”. Achava que essa percepção castrava, represava e tirava o foco do que pra mim passou a ser a grande chave, a beleza que são os procedimentos artísticos criados por esses sujeitos. E isso de enviesar sempre pelo social, eu via como uma espécie de preconceito, talvez estético, que olhava pros sujeitos da favela simplesmente como pessoas subalternizadas e não como agentes criativos.

Isso tudo foi se tornando mais claro pra mim conforme fui consumindo outros tipos de música eletrônica. Fui entendendo como no funk os parâmetros musicais são outros. Existe uma renovação absurda porque eles não vão tratar de harmonias, melodias e ritmo. Eles vão tratar de frequências do som, o grave, o agudo, da percepção temporal do som, que são os BPMs, a dinâmica das acelerações dos BPMs, a questão técnica, como vai soar nas caixas de som. Isso tudo foi muito impressionante pra mim. E ainda me estimula muito.

Afinal, por quê Cidadão Instigado toca na rádio e Conde não?
Igor: Acho que tem diferenças sociais muito marcantes. GG estava falando de como tem diferenças estéticas, que também são importantíssimas. Mas o Conde é assumidamente música brega. Cidadão já flerta com outras coisas, Catatau transita em outros cenários. O Conde é brega, ele transita no circuito de músicas bregas, principalmente aqui do Recife. E acaba sendo esquecido pela própria mídia local. Se você procurar no Google informações sobre ele, em jornais e tal, você vai encontrar pouquíssima coisa. Porque ele acaba virando só “o cara que toca no brega”, sabe? Inclusive para um público mais velho.

E isso acaba matando toda criatividade estética do Conde. Já vi show dele e a banda é formada por músicos que tocaram com Reginaldo Rossi e Carlos Alexandre, que são grandes ídolos pra música brega. Ou seja, são pessoas que têm muita experiência. E a mídia hegemônica deixa eles de lado, considera essa história desinteressante, enquanto pra muitas pessoas é diferente. Eles atingem muita gente nas favelas, o Conde é super popular no Recife, as músicas são hinos pra geração da gente e não está pautado, sabe? É uma coisa que sempre incomodou. Sem desmerecer o Cidadão Instigado.

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Igor Marques/Fotografia

Vocês buscam jogar luz nesse apagamento.
GG: Sim. Outra questão fundamental do Embrazado é que a gente está lidando com memória. Quem tem direito a memória? No livro “Eu não sou cachorro não”, do Paulo Cesar de Araujo, ele toca muito nessa questão: por quê a música política brasileira durante a repressão na ditadura era apenas essa MPB de Caetano e Chico? E artistas como Odair José, que eram tão censurados e não são considerados subversivos hoje?

Então a gente está lidando com a construção de memória. Humildemente, claro. Não vamos mudar o mundo. Não somos os primeiros nem os únicos, tem muitas iniciativas nesse sentido, que buscam reafirmar a importância dessa música das camadas populares na história da nossa cultura. Mas tem muito trabalho a ser feito.

“Por quê a música política brasileira durante a repressão na ditadura era apenas essa MPB de Caetano e Chico? E artistas como Odair José, que eram tão censurados e não são considerados subversivos hoje?”

Igor Marques

Como Igor falou, tem certa surdez e negligência, por diversas questões: raciais, sociais, geográficas. Lembro de um texto de 2009 que o Andre Lemos fez e que mostrava isso muito claramente. Nessa época estava surgindo o Myspace e os “artistas da internet” e ele comparou a Mallu Magalhães que tinha 79 entrevistas na grande mídia e o Fantasmão que tinha só 4. Só que o Fantasmão tinha muito mais acessos no YouTube e no Orkut… Então por que a Mallu era a artista da internet e ele não? Ele é da Bahia e tem um publico majoritariamente negro. Acho que é isso. Esses apagamentos são de diversas ordens, mas a gente está interessado em construir uma memória.

Muitas cenas musicais periféricas criaram seus próprios circuitos em paralelo ao mercado fonográfico tradicional. O que pode ser considerado parâmetro de sucesso? Tocar na novela? Assinar contrato com major? Virar uma plataforma como Kondzilla?
(Igor) Acho que isso tem a ver com a dinâmica própria dessas cenas, não é a gente que vai dizer como eles devem reagir ou produzir. Eles têm provado ao longo de todo tempo que sabem o que estão fazendo. Não é a toa que estouram localmente. E hora ou outra conquistam o Sudeste e o Sul com impacto nacional.

Digo isso porque estava escrevendo sobre forró esse dias. Tem se falado muito que o piseiro “conquistou o Brasil” em 2019 e 2020. Mas que Brasil é esse? O piseiro conquistou o Nordeste há algum tempo! O Nelson Nascimento é um cara que já roda aqui faz tempo, o Frank Aguiar, o cara que faz o forró de teclado… Mesma coisa quando Os Barões da Pisadinha chegam no Sudeste e fazem muito sucesso. Eles já fazem parte da vivência aqui no Nordeste e no Norte – que juntos são inclusive a maior parte do território brasileiro.

As pessoas precisam estar mais atentas ao processo que esses artistas estão realizando nos lugares de onde eles vêm, como esses processos funcionam, o que estão criando, quais foram os meios que eles encontraram para se produzirem, para se divulgarem. E aprender com eles ao invés de tentar ensinar algo, ir lá e cortar o que estão fazendo, propor algo totalmente diferente.

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O rolê que a gente quer quando a vacina sair 😍

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O que é sucesso pra um pode não ser pra outro…
GG: Tem a ver com transformar ou diversificar os parâmetros de mensuração de um sucesso. É difícil dizer qual seria o caminho porque o que eles fizeram constante e historicamente foi criar um caminho novo. Acho que os caminhos eles próprios inventam mas também acho que tem a ver com um esforço político. A gente fez há pouco um podcast sobre o coronavírus e a Aldir Blanc. Pra quem vai chegar essa lei? Qual a relevância da lei para esses produtores mais pobres? Porque senão houver um trabalho de divulgação e de capacitação específica para os editais que vão surgir a partir da Aldir Blanc, a lei vai se tornar mais um dispositivo elitista.

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É também uma questão de interesse, de pesquisa. Não gosto de ficar apontando o dedo pra trabalho alheio mas falta atenção pra alguns movimentos, pra isso que Igor está falando, que o Brasil é imenso. Pensar melhor de onde vem essas histórias. E tem trabalhos fantásticos sobre isso, que estão acessíveis, como o “Música do Brasil”, do Hermano Vianna, que está no YouTube. Você vê que tem muita tradição que as pessoas tratam como algo menor.

“Senão houver um trabalho de divulgação e de capacitação específica para os editais que vão surgir a partir da Aldir Blanc, a lei vai se tornar mais um dispositivo elitista”

GG Albuquerque

Do ponto de vista jornalístico é preciso ter mais consideração, sensibilidade e interesse mesmo. Do ponto de vista político, é preciso pensar como democratizar, dialogar e aprender. Não só ensinar. A gente não vai moralizar as pessoas. A gente não quer ensinar, como você disse eles criaram seu próprio circuitos e embora seja paralelo a indústria fonográfica tradicional continua sendo mainstream e muitas vezes até se relaciona com essas gravadoras.

Pra mim sucesso é o MC Bin Laden tocar no Lolapalooza sem servir de escada pro Diplo. Ou o Kevin O Chris tocar sem servir de escada pro Post Malone. Ou a MC Carol, que tocou no festival Conter Flows de vanguarda… Enquanto aqui nenhum festival de música experimental tipo o Novas Frequências tem artista de funk. Outro caminho é ter sensibilidade em quem está fazendo isso. Você não pode por exemplo dizer – como eu já li em alguns lugares, quando o 150 BPM estourou – que o Dennis DJ é um grande expoente do novo funk 150 BPM. Porque é mentira. Ele se apropriava de musicas já gravadas, fazendo apenas limpeza dos palavrões, tornando a sonoridade mais palatável para a radio. E a discriminação a gente vê quando Rennan da Penha vai fazer uma live e ela é cancelada por uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) e o Dennis DJ faz uma live no Cristo Redentor sem maiores problemas. Qual a cor da pele do Rennan? E do Dennis? Como um fez sucesso? E o outro? Eu falei da questão social, que é importantíssima. Mas não só. Também precisamos colocar como foco que ali são artistas produzindo arte.

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André Soares/Fotografia

E como o investimento de fato acontece.
GG:
O dinheiro não é distribuído de forma igualitária. Em uma reportagem do Diário do Nordeste do Ceará, fizeram uma pesquisa que uma live de sertanejo custava entre 12 e 14 mil. O Gusttavo Lima foi quem mais ganhou dinheiro no período das lives, ele ganhou milhões. E o funk e o bregafunk ficaram bem longe dessa realidade. Quem vê de longe acha que é algo amador, que não é do mercado.

A Iasmin Turbininha, por exemplo, não estava conseguindo dinheiro pra fazer live.
Os integrantes dos Magnatas do Passinho, um dos principais grupos do Recife, foram trabalhar de cabeleireiro e pedreiro. É muito desigual.

Igor: É o mesmo tratamento com a cultura popular, uma música tratada como exótica. Ou a musica da “moda”, que já dá a entender que vai passar.

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Saudade de vocês pedindo musica no baile 😢

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O hit do verão, o hit do carnaval.
GG: Isso. Muitas vezes me perguntam “Qual a próxima parada que vai estourar? Qual é a música do verão?” Eu sei lá! Se você vai entrevistar um pesquisador de jazz, você vai perguntar isso? A gente acaba incorporando essa lógica da sazonalidade que o mercado inventou pra tratar todos esses fenômenos populares. E essa lógica não é inerente aos fenômenos dessas culturas. Ela é inerente ao mercado.

Igor: Qual próximo sucesso do maracatu? (risos)

Falem um pouco de cenas musicais que vocês tem encontrado pelas periferias do país.
Tem um bocado de coisa acontecendo no Brasil o tempo todo. No YouTube tem uma parte “em alta”, que são as musicas mais acessadas. E o Conde do Forró, que é uma banda de forró de favela do Ceará, originária do Alagoas mas que se mudou pro Ceará, eles já emplacaram em um mês duas músicas lá. E não tem nenhuma matéria sobre isso. Existe esse movimento do forró de favela que surgiu em 2014 e com bandas de forró um pouco mais lento que o comum, muito românticas, trazem temáticas bem comuns de serem associadas ao brega.

“A gente está lidando com a construção de memória. Não vamos mudar o mundo. Não somos os primeiros nem os únicos que buscam reafirmar a importância dessa música das camadas populares na história da nossa cultura. Mas tem muito trabalho a ser feito”

GG Albuquerque

Outro ponto é o Beiradão, que gera uma discussão se é ou não um gênero musical do interior do Amazonas. Tem uma galera produzindo essa musica há algum tempo com características, linguagens e sotaques próprios. Tem também as arrochadeiras na Bahia… GG pode falar do Sudeste, que também tem periferias que não são pautadas.

GG: Essas cenas que eu vou falar já estão sendo pautadas em sites de rap e até na Rolling Stone. O grime é uma vertente que surgiu principalmente na Inglaterra, vem de linhagens da música eletrônica como o UK garage, com uma certa tradição dos toasters jamaicanos, imigrantes que habitavam na Inglaterra, o equivalente aos MCs aqui. Tudo isso aporta no Brasil, no Nordeste principalmente. Chega com dois caras, o Vandal que é um rapper de Salvador e o Bakkari que é um rapper de Fortaleza. Mas toma uma consistência maior e coletiva assim como uma operação de cena musical mesmo no Rio com artistas como SD9, N.I.N.A., KBRUM. E uma galera também em torno de um lance que se chama Brasil Grime Show, programa de YouTube que também segue a lógica dos sound systems jamaicanos, com DJ tocando e os MCs rimando. Isso vai se espalhando pelo país e logo você tem um cara em BH misturando com o funk local e já produzindo uma nova sintaxe desse grime.

E é interessante porque todas essas cenas formam uma rede. Você percebe quando começa a ter uma visão panorâmica. Você vê como uma influencia a outra em sonoridade, visual, nas técnicas de filmagem do videoclipe. Você vê uns cortes diferentes e como isso passa pro funk de BH, depois começa a ser usado em Recife. Ou como os planos sequência que os dançarinos do passinho do Recife fazem começam a ser incorporados por outros dançarinos e entra nos clipes oficiais… Isso tudo é muito legal. Acho que a riqueza da música periférica também tem a ver com isso, já que ela está toda no YouTube, começam a se estabelecer essas conexões.

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Igor Marques/Fotografia

É possível definir música periférica?
(Igor) Muito difícil essa pergunta, de tentar definir periferia por uma característica geral. Eu arrisco dizer que seria pluralidade de coisas que são desenvolvidas. No caso do Rio, por exemplo, tem o grime surgindo, tem o funk 150, o funk 170. Em BH tem uma cena de trap muito forte mas também tem o funk minimalista, meio espacial.

No Ceará tem o forró de favela que é mais lento, mais romântico. Tem também o forró do Safadão, que já tem outra pegada. E também tem o piseiro. Ou seja, do meu ponto de vista, se tem uma característica de todas essas cenas é a pluralidade, a diversidade de produções sendo feitas por artistas, produtores, trabalhadores de música no geral.

(GG) A ideia de periferia não é fixa, estática, fechada em si. A gente começou a pensar: periferia é um ideia relacional. Depende de com o que você compara. Pode inclusive ter uma periferia central e um centro periférico. Por exemplo, o Safadão tem contrato com Som Livre, toca nas rádios, faz shows, tem até cruzeiro. É branco e tal. Mas gravou uma música com dois artistas do mainstream, o Nego do Borel e Anitta “Você partiu meu coração” e essa música foi cortada em algumas rádios ditas pop, do Rio. Cortaram a voz dele! A justificativa é que essas rádios não tocavam “gêneros regionais, forró e sertanejo”. Essa foi a justificativa. Então a gente começa a ver que ele está numa periferia central, né?

Mesma coisa o Rennan da Penha, cara preto que também assinou contrato com a Sony mas foi preso em um processo visivelmente ilegal, criticado inclusive pela OAB. Tem umas sutilezas aí.

Sobre as coisas em comum: a cultura periférica tem muitos afetos ali circulando. Incluindo a tristeza, tanto é que a sofrência é algo recorrente. Mas me parece que essa mentalidade do estar “embrazado” atravessa muitas práticas musicais. Tem a ver com o ambiente da festa, da dança. O embrazado é um estado de alegria irrefreado mesmo, um sopro de vitalidade, tem a ver com a ideia de axé das religiões de matrizes africanas, que é a energia vital primordial. É você se tornar mais forte para viver o mundo, a realidade. Se tornar mais capaz para viver isso.

Falem sobre a convocatória pública que vocês criaram.
(Igor) A gente abriu uma convocatória para produtores de conteúdo, jornalistas e pessoas que querem e conseguem escrever sobre cenas de Belém, Belo Horizonte, Recife, Rio de janeiro e Salvador, incluindo as regiões metropolitanas dessas cinco cidades. A gente está em busca desses produtores de conteúdo dessas localidades, pra que eles participem com a gente, pra que eles construam pautas remuneradas, que é importante esclarecer. Porque tem muito disso de “vamos chamar você pra colaborar com a gente e vamos te ajudar com divulgação”.

Sem falsa modéstia, a gente tem um empenho, tem responsabilidade de pesquisar as coisas pelo Brasil inteiro mas eu não sei o que uma pessoa que mora em tal cidade sabe sobre a cena de lá. Esses atores vão saber, eles acompanham de perto então vão ter muito a acrescentar. Faz parte desse processo da gente de colocar como o jornalismo é importante também pra se pensar, pra se refletir sobre essas cenas.

Porque não é só falar das cenas e dizer assim “A gente quer que o Rennan da Penha ganhe dinheiro, tenha fama, seja reconhecido”. A gente quer que o trabalho de Rennan da Penha também seja processado, pensado, analisado, seja tratado como se deve ser e não é.

Então o jornalismo tem esse papel também. Quando a gente chama esses atores a gente também está querendo incentivar isso. Estudar essas cenas, conhecer os atores, tratar aquilo como algo sério. Da forma que é. A gente brinca dizendo que o Embrazado é a putaria levada a sério (risos).

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