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A vida depois da capa

Com uma conta bombada no Instagram, o jovem artista ELOI ressignifica as identidades de gênero e corpos dos super-heróis

por Artur Tavares Atualizado em 11 jun 2020, 17h56 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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Estúdio Lambada/Ilustração

uem passou toda a vida lendo histórias em quadrinhos se acostumou desde criança com aqueles personagens e suas identidades secretas. O Superman é mais forte que uma bala, e, por isso, tem que ser musculoso. O Homem-Aranha, ágil, é esguio. Já a Mulher-Maravilha… como ela consegue lutar com aquele corpete apertado, os peitos praticamente pulando para fora?

Parece fazer muito sentido pensar nisso hoje, mas isso só acontece porque, na última década, o debate sobre a representação de corpos, gêneros e até de religiões aumentou muito no universo das HQs – isso depois de 70 anos que Clark Kent apareceu em Action Comics #1, dando início a esse boom de super-heróis. De 2010 para cá, a Ms. Marvel se tornou muçulmana, a Poderosa teve seu decote coberto e a Garota-Aranha ganhou um capuz. Além disso, alguns X-Men saíram do armário e Peter Parker foi momentaneamente substituído por um adolescente negro chamado Miles Morales – isso só para ficar nos poucos exemplos.

Mas, tudo isso ainda gira no campo das ideias norte-americanas, em que outras nacionalidades têm pouco espaço no cotidiano dos leitores, a não ser em personagens hiper estereotipados, como o Soviete Supremo – herói russo que usa uma armadura que lembra um míssil. Mesmo heróis como a brasileira Fogo, da DC Comics, e a egípcia Tempestade, da Marvel, ainda se encaixam em padrões distantes de suas realidades.

Garoto-prodígio da ilustração brasileira, o jovem Vitor Eloi Batista Santos vem conquistando o Instagram com um trabalho que tenta ressignificar corpos, identidades de gênero e padrões de beleza dos super-heróis. Natural de Ilhéus e com apenas 20 anos, ele já conta com 193 mil seguidores na rede social, um público ávido por ver seus personagens favoritos em imagens mais reais. Nessa conversa com a Elástica, ele conta um pouco de sua história.

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Vitor Eloi/Ilustração

Seu trabalho é um retrato de muitas questões que estão hoje postas na sociedade – e você ainda é bem novo. Está estudando arte?
Estudo design gráfico no Instituto Federal da Paraíba. Sou baiano, saí de casa quando estava para completar 18 anos porque passei na universidade e, desde então, moro aqui. Sinto muitas saudades da Bahia. Apesar de não ser muito distante, tenho voltado muito pouco para lá, coisa de uma ou duas vezes por ano.

Como você começou a desenhar?
Tenho lembranças vivas de rabiscar as paredes quando criança e sempre assisti muitos desenhos animados na televisão, era o que eu tentava reproduzir – me lembro de desenhar sereias, sempre inspirado pela Pequena Sereia. E, porque sou baiano, todo ano desenho Iemanjá no dia 2 de fevereiro, data em sua homenagem. É mesmo como uma oferenda.

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Jovens Titans / DC comics / Reprodução / Vitor Eloi/Reprodução

De onde vem a inspiração para mudar os corpos de personagens tão famosos?
Não se trata só de formas. Sempre percebi uma enorme carência de representatividade de corpos que não fossem brancos, que não fossem magros, de pessoas que não fossem tão enquadradas em padrões com seus cabelos, suas maneiras de se vestir. Acho que, por sempre ter morado com a minha mãe e com uma família muito grande, nunca consegui me expressar direito. Não me vestia diferente, nunca deixei meu cabelo crescer. Meus desenhos se tornaram uma válvula de escape da minha auto expressão, sem que eu precisasse alterar nada em mim.

“Não se trata só de formas. Sempre percebi uma enorme carência de representatividade de corpos que não fossem brancos, magros, ou que estivessem fora dos padrões”

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Vitor Eloi/Reprodução

Sua família é muito tradicional?
Não é só sobre a minha família. Acho que eu também tinha medo de me expressar. Minha infância foi tranquila. Mas minha educação foi bem tradicional, bastante católica. Estudei durante oito anos em escola militar. Foi horrível, a pior época da minha adolescência. Eles são muito fechados, não deixam os jovens se expressarem, e meus colegas não eram tão legais assim. Era um ambiente bastante hostil. Mas, não consigo dizer que minha fase de formação foi traumática, ou que teve momentos tristes. Somente me fez ter mais vontade de emancipação, de seguir a vida da minha maneira. Tenho dois irmãos, eu sou o do meio.

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Hera Venenosa / DC Comics / Reprodução / Vitor Eloi/Reprodução

Seu Instagram é bombado, com milhares de seguidores. Como tudo começou?
[Ele ri] Às vezes não entendo porque tanta gente me segue, mas acho massa. Tenho essa conta há três anos. Vejo o que a galera gosta, o que ela sente falta de ver e acabo incluindo nos meus desenhos. Além disso, tenho um trabalho profissional paralelo, que não posto, mas realizo para muitos clientes fora do Brasil.

Você desenha tudo no meio digital?
Faz pouco tempo que comprei um tablet, que ajudou muito a soltar meu traço. Hoje, quase tudo que desenho é digital. Só quando sinto muita necessidade eu volto para o papel. É uma facilidade, principalmente porque venho me ocupando cada vez mais com faculdade e estágio. A mesa ajuda muito porque poupa tempo.

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Vampira - X-men / Marvel Comics / Reprodução / Vitor Eloi/Reprodução

A escolha de desenhar heróis do “segundo escalão”, como os Novos Titãs, é proposital?
Acho que são personagens que têm mais a ver comigo, e percebi que meu público prefere também. Heróis como o Superman ou o Batman são muito padronizados, não dão tanta chance para alterações. Eles não ficam bem em trajes mais tropicais ou mais descolados.

Seu trabalho surgiu junto do momento em que as HQs americanas passaram por ressignificação semelhante, algo que causou pouca aceitação do leitor tradicional de quadrinhos. Você enfrenta resistência de leitores com o seu trabalho?
Não, a galera que me segue pensa como eu. Temos que ocupar esse espaço vazio e representar todos os tipos de corpos.

Você faz HQs próprias?
Tenho alguns personagens próprios, mas tenho desenhado muita fan art (material baseado em alguma história ou personagem já existente feito por fãs), e nem sei muito bem o porquê. As minhas criações são mais antigas, mas nunca foram para frente. Talvez esse seja o ano de mudar essa situação. Eu desenvolvi alguns super-heróis LGBT para um nova iorquino, Connor Catalano, que tem um alterego e uma publicação chamados de Alt Male – já está na segunda edição!

Seu público tem uma grande parcela LGBT?
Pelo que vejo nos seguidores, tem uma galera LGBT, mas puxando as informações que o Instagram fornece de público, a maioria do público é de mulheres negras que moram fora do Brasil. Mesmo nos meus trabalhos além das ilustrações, a maioria das minhas clientes são pequenas empresárias negras que têm salões de beleza e lojas de produtos para o cabelo, perfumarias… Historicamente, as mulheres foram muito mal-tratadas nesse universo das ilustrações. Tento tomar bastante cuidado porque as mulheres sempre foram hiperssexualizadas no meio do desenho, isso é um problema sério.

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Tempestade / Marvel Comics / Reprodução / Vitor Eloi/Reprodução

Como você vê a situação brasileira em relação à identidade, gênero e corpo? Acha que seu trabalho contribui para o debate?
Estamos em um momento muito crítico. Antes mesmo de conversarmos, estava assistindo um vídeo que está circulando na internet de duas trans que foram expulsas de um Uber. Representar essa galera ajuda na autoestima. Elas se veem como objeto de arte.

É diferente no Nordeste, ou por aí há um pouco mais de liberdade nos costumes?
Olha, acho que essas questões de inclusão não são muito diferentes. É uma grande luta em todo o Brasil. O que acontece é que o Nordeste pode passar uma impressão de ser um pouco mais aberto por ter mais pessoas negras, mas acho que a discussão e a luta são as mesmas.

Você entrou na faculdade, que é federal, antes da eleição do atual presidente. Mudou alguma coisa em termos de gestão?
Durante a eleição, foi difícil quando colegas meus começaram a expor suas posições a favor do Bolsonaro. Passamos a ver muitas pessoas de maneira diferente. Em termos de gestão da universidade, isso ficou bastante abalado. Cortaram muitas bolsas, por exemplo. E não só isso. Com o corte de verbas, pioraram até os ares-condicionados. Parece pequeno, mas faz toda a diferença na hora do aprendizado, da interação entre alunos no cotidiano.

Como você pretende ampliar seu trabalho fora do mundo digital?
Minha meta esse ano é defender meu trabalho de conclusão de curso na universidade. O TCC envolve meus desenhos, porque gira em torno da criação de uma linha de produtos. É uma coisa que as pessoas pedem muito para eu fazer: peças como camisetas, bolsas, cartazes. Querendo ou não, sou um artista muito autônomo, que pensa diferente da maneira que os professores ensinam na faculdade. Quero vender a minha arte para o público, porque, hoje, eles só consomem digitalmente.

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Vitor Eloi/Reprodução

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