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Um papo com L_cio, um dos maiores nomes da música eletrônica brasileira

Underground, política, drogas e os novos nomes da cena que não podem faltar na sua playlist

por Artur Tavares Atualizado em 22 jun 2020, 11h12 - Publicado em 19 jun 2020 19h12
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redação/Redação

epois de quase 15 anos de carreira, você ainda se considera underground?
Estou no underground porque, como artista, circulo bastante. Rodo o Brasil inteiro e faço, pelo menos, uma turnê na gringa por ano, mas não deixei de fazer certas coisas. Não parei de tocar sem cobrar cachê em festas gratuitas, por exemplo. Eu não estou no mainstream. Ele acontece quando toco em um festival grande, como o Rock in Rio. Mas, financeiramente, o cachê desses festivais não é tão mais alto – ou não é mais alto – do que cachês que ganho em clubes. Também me considero underground porque eu ainda vivo a cena. Você me encontra em festas às sextas-feiras, em dias que eu não toco, conhecendo artistas novos. Mas ser underground ou não, isso não sou eu que tenho que dizer. Se eu toco no Warung, podem dizer que eu não sou undeground, porque é um clube caríssimo. Mas é um clube que, muitas vezes, sustenta o underground. Dá para você sobreviver do underground? Dá, mas muita gente não consegue, e aí xinga quem consegue por dizer que está vendido.

[Essa entrevista é continuação da matéria A Pista como Palco. Clique aqui para ler a primeira parte, ou dê um play abaixo e siga viagem]

Esse modelo tem dado certo, então, para você?
Eu não ganho tanto dinheiro assim. Não é um dinheiro que eu quero, é meu posicionamento. Estou vinculado a marcas underground de roupa. Por mais que eu não seja um cara do lifestyle, fui o primeiro artista a vestir a camisa da Pornograffitti, hoje a marca mais importante na cena da música eletrônica. Fui modelo do Bem Lixo, usei as roupas dele no Warung. E, tanto lá como no Time Warp, toquei vestido como um profissional de limpeza urbana, só que com os dizeres ‘Perfeitura’ no lugar de Prefeitura. A ideia é você usar desse glamour que existe no mainstream e fazer alguma coisa ali dentro. Não fui tocar de profissional de limpeza para sacanear e, sim, para mostrar uma teoria, a da invisibilidade. Fiquei rodando no clube a festa inteira e pouca gente me reconheceu. É a ideia de mostrar que a roupa te torna invisível. Isso é um doutorado da USP, o cara estudou isso, ficou de gari por nove meses. Aí, quando subi para tocar, ‘caralho, é o Laércio’. O povo acha que é deboche, mas… eu estudei, mano. Não vou fazer algo para provocar alguém ou meus contratantes. A única provocação é com a curiosidade das pessoas. Serve para gerar uma conversa, uma reflexão.

Teve alguma outra ocasião dessas que causou uma polêmica na cena?
Já usei uma camiseta escrita “Só Track Bosta” – e não tinha nada a ver com a festa Só Track Boa. Foi por causa de um colega que falou que minha track era uma bosta no meio da festa. Eu tirei sarro disso, fiz um burburinho, virou uma coisa, até ele ter percebido como a crítica tinha soado. Mas muita gente pensou que era uma crítica ao Vintage Culture, um cara que eu respeito demais. Para mim, ele é um exemplo, um artista bem-sucedido que leva 40 mil pessoas para uma festa no Mineirão. Já toquei quatro vezes na festa. O público do pop, do EDM, me recebe muito bem. E o contrário não acontece. Fico muito chateado por isso. Por isso, acho que a oportunidade de fazer algo dentro do mainstream é muito boa.

“Não fui tocar de profissional de limpeza para sacanear e, sim, para mostrar uma teoria, a da invisibilidade. Fiquei rodando no clube a festa inteira e pouca gente me reconheceu”

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Cabra/Divulgação

Esse techno político, combativo, de gente como a Mamba Negra, a Capslock, a ODD, tornou-se o desejável para o público. Eles estão no mainstream?
Não são considerados mainstream, mas são festas grandes, para cerca de 2 mil pessoas, têm patrocínio. Hoje, são as festas referência no Brasil inteiro. Está para acontecer Capslock em Fortaleza e no Recife. Já fizemos em Manaus, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. A Mamba já fez Bahia, Rio, um monte de lugares. Não vejo um problema nisso, embora tenha gente que ache. Todo esse discurso é legítimo, só não pode cair em contradição. A contradição acontece sempre, porque já nascemos morrendo, então é bom tentar não se contradizer tanto no meio do caminho. A Capslock tem uma crítica social mais subversiva do que combativa, mas isso não tira a legitimidade de outras formas de posicionamento.

Hoje, a cena de São Paulo é vista no mundo inteiro. Boiler Room, Cercle, as marcas de cerveja e outras bebidas estão todas investindo nisso. Isso gera emprego para muita gente. Os performers são valorizados nessas festas. A profissionalização não é ruim, é apenas uma evolução passível de crítica.

Você ouviu críticas indo para uma agência grande como a Entourage?
Sofri, sim. Como que um cara que tocava na Mamba Negra, Capslock, ODD, em festa de rua na Cracolândia, agora é da Entourage? Teve festival e festa que cancelaram minha participação por causa disso. Foi um processo difícil que durou um ano, até eles se adequarem ao meu perfil como artista. Mas, depois de um ano, me considero muito privilegiado de trabalhar em uma agência tão grande. Tenho cinco bookers, três pessoas cuidando da minha logística, os dois sócios estão no grupo do WhatsApp que cuida do meu projeto solo. É dedicado para mim. Toquei no Time Warp, fui o único artista a fazer dois Rock in Rio seguidos. Tem muito trabalho dessas pessoas nisso.

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Felipe Gabriel/Fotografia

Como é sua rotina hoje?
Em média, toco uma vez por semana durante todo o ano, mas tem semanas que faço mais de uma apresentação. Hoje, meu circuito é muito mais no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e depois São Paulo.

“Hoje, a cena de São Paulo é vista no mundo inteiro. Boiler Room, Cercle, as marcas de cerveja e outras bebidas estão todas investindo nisso. Isso gera emprego para muita gente”

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Felipe Gabriel/Fotografia

Qual o horário perfeito para tocar?
Gosto de tocar no horário principal, depois que alguém fez um warm up foda. Não gosto muito de fechar, mas toco em qualquer horário. Capslock é legal 6h da manhã, porque a festa acaba meio dia. Amanhecendo é o melhor horário para mim. Tem a flauta, elementos mais leves. Sou um produtor que segue a linha da noite. Gosto de pensar o amanhecer. Mas, no mês passado, toquei no D-Edge e fiz três horas de warm up de live. Comecei às 23h com músicas mais lentas, piano, um dub techno, e entreguei a pista 2h da manhã fervendo para o Gui Boratto. Fazia tempo que não fazia warm up com o live. Era algo que eu buscava como artista, ser como DJ, poder tocar qualquer horário.

Como é a relação da flauta com a sua música sintetizada?
Minha flauta me acompanha há 37 anos, é a mesma desde os tempos da igreja, mas hoje só toco uma a três músicas com ela por apresentação. Aprendi isso com o tempo. A galera não percebe que estou tocando porque ouviu, e sim porque me viu. A mix que faço é muito boa. Não é como quando você está de costas para o palco e ouve alguém cantar. No meu caso, não acontece isso. A pessoa tem que achar que é só a música. Isso é uma busca minha. Se ela me vir tocando, vai ficar doida. Esse é o primeiro impacto. Da segunda vez, quem não filmou, filma, avisa o amigo que vai rolar. Na terceira, todo mundo percebe. Aí você está tocando e tem o efeito contrário, pode causar rejeição. Meu apelido nas internas já era Dj Flautinha, então imagina se eu ficasse no excesso. Quando o Filipe Massumi foi tocar violoncelo comigo pela primeira vez, ficou bravo comigo porque só fez duas entradas com o instrumento, disse que as pessoas pediram mais… Que bom que pediram mais! Porque, da próxima vez, elas voltam para te ver tocar. Se você esgotar essa vontade, as pessoas já sabem o que vão ver.

Você se considera um intelectual, um erudito, na cena hoje?
Muitos da cena são intelectuais. A Laura [Diaz, da Mamba Negra] fez USP, a Cashu [também da Mamba] é arquiteta, o Tessuto [fundador da Capslock] e o Davis [da ODD] também estudaram, hoje são empresários de sucesso. Estamos rodeados de intelectuais. A música eletrônica em São Paulo é classe média alta. Damos acesso para todo mundo com promoções, entradas, workshops em ocupações. Não me considero intelectual, só sou mais velho. Independentemente da festa, no Brasil inteiro, eu chego na hora do soundcheck e só vou embora quando ela acaba. Sou valorizado por isso também. Ajudo a arrumar o som, dou feedback via Entourage.

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Cabra/Divulgação

Como o techno se tornou um dos lugares mais inclusivos para se estar na sociedade?
Hoje em dia, existe uma proteção imensa ao público do techno. Se um cara fala algo que uma mina não gosta na pista, ela pode chamar o segurança que ele é posto para fora na hora. Não tem o que discutir, nem explicar nada. Racismo, homofobia, sexismo, gordofobia: nada disso tem vez. Estamos no limite da intolerância em relação a essas coisas porque é necessário. Se você não tratar dessa maneira, não expulsar da festa, não tem reflexão sobre o assunto. Porque se você passa um pano, o agressor deixa de pensar no que fez. Já vi muito loucão, achando que está abafando, sendo mandado embora. E isso tem tudo a ver com a cultura do house e do techno, que nasceram nos clubes gays. É que, por um tempo, esse tipo de comportamento foi tolerado, os clubes ofereciam drink de graça para as mulheres, elas pagavam mais barato para entrar. Tá tirando onda? Elas não são produto. Nesse sentido, vale citar a Sangra Muta, que é uma festa em que a equipe inteira é LGBT. Só toca sonzeira.

Quais são os nomes que merecem serem vistos na cena hoje?
A DJ Due, de São Paulo, residente da Capslock. O Entropia-Entalpia, de Recife. O Ramenzoni, da ATK; o Martinelli, da ODD; Nallo, Mari Herzer são outros talentos. O Dbeat é o melhor warm up do Brasil, quem melhor recebe as pessoas na pista. E as minas estão tratando a cena da maneira que ela tem que ser tratada.

Por que?
Historicamente, faz parte de um processo de empoderamento que é muito rico. O processo de crescimento e de exigência é legítimo de todos os movimentos sociais, lutar pelo que você acredita e fazer as pessoas engolirem. O mais importante é o que elas estão fazendo com o empoderamento, porque não estão só tocando, mas produzindo eventos grandiosos. Como homem, estou aprendendo demais a lidar com a minha fala, meu comportamento, meus sentimentos.

“Racismo, homofobia, sexismo, gordofobia: nada disso tem vez. Estamos no limite da intolerância em relação a essas coisas porque é necessário”

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Felipe Gabriel/Fotografia

Sua família levou numa boa sua mudança para a música eletrônica?
Minha mãe, que nasceu em 1954, já foi no Green Valley, no D-Edge, em festa de rua, workshop da Capslock na Deocleciana [rua na região da Cracolândia]. Leva bolo para galera, curte pra caramba. Tenho pouco contato com meu pai hoje, ele não entendeu muito. Eu era professor universitário com mestrado e abandonei tudo. Socialmente falando, eu me tornei um DJ. É a visão dele. Hoje em dia, trabalho formalmente quatro vezes por mês e ganho mais do que um professor universitário. Acho uma injustiça com os professores universitários, eles deveriam ganhar muito mais. É um absurdo o que um professor com doutorado ganha hoje no Brasil, é ridículo.

O consumo de drogas está em alta na cena?
A redução de danos funciona, mas como as drogas são proibidas, é complicado de falar sobre o assunto, você não tem ambientes abertos de discussão. O abuso é um problema de saúde pública. Mas as drogas estão em todos os gêneros musicais, não só na música eletrônica. Nós, que somos associados ao uso de drogas, podemos fazer diferente. Cada vez mais existem dicas de como proceder em caso de se sentir mal nas festas – e as equipes de redução de danos estão mais presentes.

Você ainda é religioso? Acredita em Deus?
Deixei de ser religioso, mas não desacredito na existência de Deus. O que sei é que já nasci morrendo. Nessa perspectiva, quero viver bastante, e bem. Não é como no hedonismo, em que a pessoa procura o prazer a todo custo. Eu quero morrer velho e feliz. Para mim, é uma questão física, trato numa boa, não me preocupo com o que vem depois. E a música me proporciona isso, ser feliz.

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Felipe Gabriel/Divulgação
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