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Consciência através da fala

No Instagram, o Dicionário Consciente mostra como nossas conversas estão cheias de preconceitos e escancara problemas estruturais da sociedade brasileira

por Artur Tavares Atualizado em 12 mar 2021, 10h35 - Publicado em 17 fev 2021 00h14
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Clube Lambada/Ilustração

esde que eu era um adolescente, me lembro de diversas vezes que corrigi meus pais e alguns dos meus familiares quando eles usavam algumas expressões duvidosas, como “isso é serviço de preto”, durante seus diálogos. Dava para perceber que não havia maldade nessas falas, nada que fosse além de um preconceito estrutural que está (até hoje) presente na nossa educação como seres humanos.

E, embora seja muito fácil corrigir os outros por falas que são claramente problemáticas, ainda que ditas sem intenção alguma de ferir, é muito complicado perceber que até o mais atento desliza. Não sei quantas vezes pedi para “tirar a nega” com meus amigos durante alguma disputa qualquer, ou quanto categorizei uma situação triste como uma “judiação”.

Não se trata de politicamente correto, e sim de praticar um pouco mais de empatia e respeito ao próximo em nosso cotidiano

“Ah, mas o mundo está politicamente correto e chato”, você pode dizer. Não se trata disso, e sim de praticar um pouco mais de empatia e respeito ao próximo em nosso cotidiano. Se o ditado diz que as palavras têm poder, a verdade é que elas são o primeiro meio de contato entre os seres humanos, e, através delas, reforçamos comportamentos e atitudes pouco favoráveis às nossas relações interpessoais.

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Dicionário Consciente/Reprodução

No ar há pouco mais de seis meses como uma conta no Instagram, o Dicionário Consciente é uma iniciativa de 11 jovens publicitários que vem jogar luz sobre construções linguísticas preconceituosas que temos, sejam elas racistas, gordofóbicas, xenofóbicas, homofóbicas ou transfóbicas. O que começou como uma tentativa de atenuar relações de trabalho e pessoais tóxicas tornou-se um processo de empoderamento e cura para Gabriel Damasceno, Gabriela Rodrigues, Walter Santos, Gabriel Sarti, Caroline Cardoso, Pedro Castro, Gabriela Bergantin, Bárbara Pires, Gabriel Mendonça, Glaucia Guerra e Leticia Araújo.

Produto de uma geração que está cada vez mais cedo incluída no mercado de trabalho, um mercado que busca diversidade para se reinventar, o Dicionário tem uma peculiaridade importante: a maioria de seus criadores ainda são estagiários, na casa dos 20 e poucos anos. São negros, LGBT, nordestinos, periféricos e mulheres que, até na branquitude privilegiada, sofrem com assédio moral e sexual. “Eu tinha um pouco mais de tempo na publicidade que o resto do grupo, e no início da minha carreira achei que o mercado as vezes um pouco excludente e não muito acolhedor. Ao mesmo tempo, quando eu tinha a idade deles, não tinha a consciência que eles têm hoje. Pra mim, era um absurdo deixar as coisas como estavam, e para eles já era um absurdo desde sempre, porque a consciência e o discurso que eles já têm é o que eu tenho hoje em dia. Foi uma troca muito igual entre nós. Eu não queria que o mercado continuasse assim, e eles me mostraram que não era só o mercado. Nada pode continuar assim”, explica Gabriela Bergantin, uma das mais velhas do grupo.

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Mercado e sociedade

Para aqueles pouco familiarizados com o mercado publicitário, há de se notar que o histórico de toxicidade nas relações interpessoais ali é altíssimo. Em 2020, circulou entre funcionários de agências paulistanas uma lista de pessoas que mais se parecia com um cardápio, no qual você pode comentar anonimamente coisas como “pegava”, “gostoso”, “você é a dona do meu coração”. Some isso a um abuso nas horas de trabalho e um histórico de campanhas midiáticas extremamente problemáticas, como todos os comerciais de cerveja com mulheres bonitas de biquíni como atrizes principais (para ficar no exemplo mais raso), e o que você tem é um caldeirão sempre em ebulição.

Bárbara Pires, Gabriel Sarti e Gabriela Bergantin
Bárbara Pires, Gabriel Sarti e Gabriela Bergantin Dicionário Consciente/Arquivo

Mas, embora seja fácil atacar os profissionais da publicidade, a verdade é que a vida no Brasil é tóxica do momento em que entramos na escola até o fim das nossas vidas. Somos uma sociedade extremamente estratificada, com pouca mobilidade social, com relações de trabalho que só não lembram mais o colonialismo porque deixamos de permitir a escravidão.

“A gente percebe que as agências querem trazer a diversidade para dentro do ambiente de trabalho. Mas, como trazer essa diversidade se você não sabe falar com uma pessoa trans ou travesti? É preciso preparar o terreno ”

Walter Santos

Nesse sentido, o Dicionário Consciente foi concebido como uma plataforma de reeducação dentro da agência que seus criadores trabalhavam, mas desde as primeiras conversas iniciais de seu planejamento ficou claro que o projeto caberia muito melhor se exposto a todo mundo. “A gente percebe que as agências querem trazer a diversidade para dentro do ambiente de trabalho. Mas, como trazer essa diversidade se você não sabe falar com uma pessoa trans ou travesti? É preciso preparar o terreno para receber essas pessoas. Porque senão estou em uma reunião e escuto ‘lista negra’, ou ‘trabalho de preto’. É você saber tratar essas pessoas para depois recebê-las, deixar o ambiente mais agradável para todo mundo”, explica Walter Santos.

“Para além de toda a potência de reparação que encontramos tanto no mercado publicitário quanto em todos os espaços, o projeto é importante para entender a empatia. Conforme íamos fazendo as pesquisas com os diferentes grupos de pessoas, entendemos que o básico é se colocar no lugar do outro, perceber que as coisas ferem, desvalorizam vidas”, diz Gabriel Mendonça. “Entendemos no processo de pesquisa que não é apenas reparar um vocabulário, e sim causar uma desconstrução social, criar empatia e respeito, tornar o ambiente ao seu redor mais empático e respeitoso para todo mundo.”

“Entendemos no processo de pesquisa que não é apenas reparar um vocabulário, e sim causar uma desconstrução social, criar empatia e respeito, tornar o ambiente ao seu redor mais empático e respeitoso para todo mundo.”

Gabriel Mendonça

Com pouco mais de 70 expressões problemáticas já discriminadas no Instagram e cerca de outras 100 já mapeadas, o Dicionário Consciente pratica a empatia explicando a problemática por trás de cada um dos termos exibidos, recomenda substituições quando possível, ou pede a abolição das frases ou palavras quando simplesmente não há um jeito melhor de serem faladas. Nesse último caso, se encaixam coisas como chamar alguém de “retardado” ou “demente”, dizer que um serviço mal feito é “baianagem”, ou dizer para uma mulher que ela “só é lésbica porque não conheceu o homem certo”.

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Dicionário Consciente/Reprodução

“Nossa intenção é regenerar o vocabulário das pessoas. Fizemos um estudo histórico, fomos atrás das lutas anteriores que nos fizeram chegar nesse ponto de revolta que vivemos atualmente para entender como podemos criar um momento de regeneração da nossa história. Porque não tem como apagar tudo o que já aconteceu, deixar tudo que é errado de lado”, diz Gabriela.

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A diferença entre ser e estar

Num ambiente social que exige reparação histórica (e cotidiana) a todos os momentos, existe uma linha tênue entre quem é claramente preconceituoso e quem está disposto a aprender e mudar seus comportamentos. Acontece que, muitas vezes, estamos tão de saco cheio de atitudes claramente erradas que confundimos as coisas, brigamos com os outros quando podemos conversar, cortamos relações de longuíssimas datas por discordâncias bestas. O Dicionário Consciente propõe essa mudança por meio da empatia: “No processo de construção das expressões, do planejamento de como começar, decidimos iniciar com termos que as pessoas tinham naturalidade em falar. Coisas que são tratadas como comuns, ditas sem a intenção de ofender. Existem as pessoas que falam certas coisas devido ao aprendizado que tiveram na vida, e tem aquelas que falam para ofender. Eu já ouvi coisas como ‘ah, você é negrinho’, mas também ‘cala a boca, você é viado’. O Dicionário ajuda muito a entender de onde essa expressão vem, e gera uma outra forma de comportamento”, conta Gabriel Mendonça.

“No processo de construção das expressões, do planejamento de como começar, decidimos iniciar com termos que as pessoas tinham naturalidade em falar. Coisas que são tratadas como comuns, ditas sem a intenção de ofender”

Gabriel Mendonça
da esquerda para direita: Gabriela Rodrigues, Glaucia Guerra, Pedro Castro e Letícia Araújo, membros do Dicionário Consciente
da esquerda para direita: Gabriela Rodrigues, Glaucia Guerra, Pedro Castro e Letícia Araújo, membros do Dicionário Consciente Dicionário Consciente/Arquivo

Gabriela concorda que bater de frente nem sempre é a melhor alternativa: “É nítido quando as pessoas não sabem o que estão falando. Até porque, as coisas que dizemos partem de uma construção histórica. Não é algo do dia para a noite. Assim como as pessoas não deixam de falar assim que aprendem que é errado. Escapa. Entender o sentido que a pessoa está dando para aquela expressão inclusive ajuda a educá-la. Mas um xingamento vem de um lugar consciente da pessoa, ela sabe que é errado.”

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Estruturas de ensino e de poder

Se todos os homens nascem como tábulas rasas, como postulam filósofos antigos como Aristóteles e John Locke, o que explica adquirirmos preconceitos ao longo de nossas passagens pela Terra? Se os preconceitos se dão pela fala, nós os absorvemos pela escuta, muitas vezes dentro das nossas casas, das escolas, dos lugares de culto religioso. Para entender o papel que a má educação tem em nossas vidas poderíamos ir longe, mas um erro de proporções históricas no ENEM desse ano serve para explicar.

Ao se referir a uma passagem do livro Americanah, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em que duas mulheres negras conversam em um salão de beleza e a cliente recusa a alisar os cabelos sob o argumento de que gosta deles “do jeito que Deus os fez”, o Ministério da Educação indicava que a atitude da personagem era fruto de uma “postura de imaturidade”. Bombardeado por participantes da prova e professores, o governo brasileiro prontamente alterou o gabarito, afirmando então que a atitude da personagem era “uma atitude de resistência.”

Ainda que vivamos em um dos países mais miscigenados do planeta, nossa educação sempre privilegiou apenas a visão de mundo eurocêntrica, e, por isso, vemos essas visões deturpadas em nossas salas de aula: “Acho errado como é ensinado história no Brasil nas escolas. Não é verdadeiro. Traz apenas o ponto de vista do português branco. Não faz com que entendamos nossas raízes. Acho que é por isso que batemos no peito dizendo que somos patriotas, mas não entendemos nem que patriotismo é esse. Não dá pra ter patriotismo se você não conhece sua própria história”, diz Bergantin. “É lei nacional você ter história indígena nas escolas, e não temos. Já existia gente morando no Brasil há muito tempo antes dos portugueses. Quais eram os costumes dessas pessoas? Como elas viviam? O que foi afetado na vivência dessas pessoas quando os portugueses chegaram? Precisamos entender de outros pontos de vista o que é a história brasileira. Temos a visão do homem branco que estuprou a mulher indígena e que trouxe povos escravizados, só isso já é conturbado o suficiente.”

A publicitária continua: “Isso faz com que a gente minorize indígenas e descendentes dos povos africanos, os negros brasileiros não sabem de que lugares da África eles vieram, isso é problemático, temos uma ancestralidade perdida muito forte. Por isso a construção da história do Brasil ensinada pelas escolas é falha.”

“Acho errado como é ensinado história no Brasil nas escolas. Não é verdadeiro. Traz apenas o ponto de vista do português branco. Não faz com que entendamos nossas raízes. Acho que é por isso que batemos no peito dizendo que somos patriotas, mas não entendemos nem que patriotismo é esse. Não dá pra ter patriotismo se você não conhece sua própria história”

Gabriela Bergantin

Para além da escola, temos exemplos de má educação não somente na figura do presidente Jair Bolsonaro e de muitas figuras execráveis que compõe atualmente nosso Poder Executivo, como também anônimos e celebridades do Poder Judiciário. No ano passado, discutiu-se muito o caso Mari Ferrer, vítima de estupro em uma casa noturna no Sul do país, quando os autos do processo foram divulgados, e o que se lia eram promotores (homens) culpabilizando a garota por ela ser uma mulher em um “ambiente de promiscuidade” – as aspas são deste repórter. Agora, no início de fevereiro, mais mensagens vazadas entre os promotores da Lava Jato e o então juiz Sergio Moro deixam claras a xenofobia e o classismo contra o ex-presidente Lula e sua esposa Marisa Letícia. Januário Paludo diz em uma das mensagens: “Sem dúvida, o sítio é do Lula, porque a roupa de mulher era muito brega. Decoração horrorosa. Muitos tipos de aguardente”. Já Laura Tessler confirma: “O sítio é mesmo do Lula: a 1ª foto mostra uma 51!!! Essas fotos da adega deveriam ser divulgadas”.

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Dicionário Consciente/Reprodução

Lembrando o caso da deputada estadual por São Paulo Isa Penna, que teve seus seios apertados pelo também deputado Fernando Cury em sessão plenária no último mês de dezembro, Pedro Castro diz: “O judiciário brasileiro é produto dessa sociedade elitista. É o tipo de coisa que se ensina desde cedo para as crianças. É uma consequência. [Os casos de Ferrer e de Lula são] iguais ao abuso sexual na Câmara dos Deputados. É bem básico para entender como as coisas estão no país hoje. O que não dá é para procurar uma solução definitiva, porque as soluções fazem parte de um processo de desconstrução que inclui essa barra elitista.”

“O judiciário brasileiro é produto dessa sociedade elitista. É o tipo de coisa que se ensina desde cedo para as crianças. É uma consequência. O que não dá é para procurar uma solução definitiva, porque as soluções fazem parte de um processo de desconstrução que inclui essa barra elitista.”

Pedro Castro

Gabriela concorda: “Tem o caso do ministro do Meio Ambiente chamando Rodrigo Maia de Nhonho em uma rede social. Quando alguém que está no poder fala dessa maneira, dá permissão para todo mundo que está embaixo falar. A partir do momento que o presidente do país é extremamente machista, racista e homofóbico, ele permite que as pessoas sejam também. Em 2019, dobrou o número de estupros em São Paulo. E, durante 2020, aumentou o número de homicídios. Quando alguém que está em um cargo de poder fale dessa forma, a sociedade está permitida a falar também. Se um cara branco eleito diz que o Nordeste é uma merda, todo brasileiro pensará assim também.” Para ela, “o povo tem que lutar sozinho o tempo todo. E, se alguém se sente minorizado, essa pessoa encontra não só o caminho da luta, mas também de querer fazer parte daquilo, se inferiorizando. Porque as pessoas querem se sentir aceita em seus círculos sociais.”

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“Preto que sabe seu lugar”

Em uma demonstração deplorável no último mês de outubro, o deputado estadual paulistano Fernando Holiday bateu boca com o rapper e ativista Ewerton Carvalho durante sessão na Câmara. Ferrenho ativista do fim das cotas raciais nas universidades brasileiras, Holiday ouviu a rima: “Navio negreiro veio carregando sangue negro. A alforria veio carregando muito desemprego. Preto não precisa de cota? Pera! Algo errado! Como nós vai ser igual, se nós está séculos atrasados? Cota pra preto sempre existiu, com toda a franqueza, na taxa de mortalidade e no índice de pobreza. Negar que existe racismo é hipocrisia”. Holiday cortou o microfone de Ewerton, que exaltado ainda concluiu: “seu bosta!” O que se seguiu foi Holiday aos gritos afirmando: “Preto de verdade você não representa. Eu represento preto de verdade! Preto que tem educação! Preto que sabe seu lugar!”

Holiday é um produto da minoria que quer sentir aceita em seu círculo social, alguém que nega cotidianamente todo o preconceito que sofre por ser negro e gay, mas não é o único exemplo no Brasil. Quantas vezes já vimos nas redes sociais, ou em nossos círculos de amizade, mulheres utilizando o bordão: “feminista não, feminina”, para descreditar um movimento legítimo de luta emancipatória? “É uma questão de conforto não combater aquilo que deve ser combatido. O Fernando Holiday está dentro de um lugar onde a maioria é branca. É uma galera que não quer escutar esse discurso antirracista e anti-homofobia”, diz Pedro Castro.

“Essas pessoas têm esse comportamento devido a um processo de educação e de entendimento. O pior é que elas acabam apagando todo um movimento que está se impondo cada vez mais, e também um movimento histórico, quando a luta era pior do que a de hoje. As pessoas tomam isso como verdade e tiram a credibilidade de um movimento, de pessoas que estão deixando de existir por apenas serem quem são”, diz Gabriel Mendonça. “Quando essas pessoas tomam isso como verdade, sendo pertencentes desses grupos, é muito mais difícil de desconstruir. É mais difícil mostrar que, cara, acorda, porra, você é preto, mulher, gay. O pior é que, nesses últimos anos, estamos acompanhando diversos artistas e outras pessoas famosas apoiando o governo e essas inúmeras barbaridades que estamos vivendo. Sinto muito por essas pessoas pensarem assim, por elas não se aceitarem, mas acho que informações como a que damos no Dicionário podem ajudar a mudá-las.”

“O pior é que, nesses últimos anos, estamos acompanhando diversos artistas e outras pessoas famosas apoiando o governo e essas inúmeras barbaridades que estamos vivendo. Sinto muito por essas pessoas pensarem assim, por elas não se aceitarem, mas acho que informações como a que damos no Dicionário podem ajudar a mudá-las”

Gabriel Mendonça

Sobre a questão feminista, Gabriela diz: “No final, todo mundo quer ser aceito. Uma mulher dizer que é contra o feminismo é uma necessidade de aceitação. Se você convive com um monte de homem que diz que feminista é tudo feia, ou isso ou aquilo, você não quer saber o que é o feminismo. Senão você vai ficar naquele lugar da mulher feia, da mulher indesejável. Se você tem um intelecto superior ao do homem, você já não é aceita. Se sua inteligência é superior à do seu namorado, ele pode te bater. A gente vê muitos casos de violência doméstica assim. Então, negar certas coisas é fazer parte de um ambiente. São pessoas que até se sentem mal, mas que não podem sair desses lugares porque deixam de ser aceitas.”

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Dicionário Consciente/Reprodução

Para além da educação, a mídia

E se ainda não superamos os comerciais de cerveja com as tradicionais “gostosas” como personagens, o que se espera da atitude das nossas celebridades? Jogadores de futebol, cantores sertanejos, funkeiros, rappers são alguns dos maiores promotores da objetificação feminina, enquanto nossas novelas e seriados ainda insistem em colocar negras no papel de empregadas domésticas. Quem procura, acha, e no caso da nossa mídia não se trata de uma agulha em um palheiro.

Para os criadores do Dicionário Consciente, há de se separar o joio do trigo. Se uma coisa é o autor branco Manoel Carlos perpetuar o estereótipo da doméstica ou do periférico que leva a vida no jeitinho, outra coisa são artistas que produzem suas músicas dentro de um contexto social e histórico já contaminado pelos preconceitos: “Antes de julgar o gênero musical, é preciso entender o âmbito social de onde aquela música foi criada, seja funk ou sertanejo. Acho que precisamos entender que, muitas vezes, vamos ouvir letras que se referem a coisas que não gostamos ou achamos certo, mas que, infelizmente, fazem parte de uma realidade que muitas vezes não somos capazes de entender. Em comparação com o sertanejo, acho que o funk tem um maior espaço de escuta e acaba sendo mais inclusivo para as mulheres e para LGBTQI+.”, diz Gabriela.

Walter Santos, Carol Cardoso e Gabriel Damasceno
Walter Santos, Carol Cardoso e Gabriel Damasceno Dicionário Consciente/Arquivo

Para ela, “quando músicas sertanejas diminuem as mulheres, tratam algumas como inferiores, outras superiores, abordam um relacionamento abusivo como base de uma relação, isso não só é ruim porque retrata uma realidade triste, mas também pode afetar o meio em que são tocadas. Existem bailes e coletivos LGBTQ+ de funk, enquanto que casas noturnas de sertanejo são exatamente conhecidas por não serem acolhedoras, além de excludentes.”

“Existem bailes e coletivos LGBTQ+ de funk, enquanto que casas noturnas de sertanejo são exatamente conhecidas por não serem acolhedoras, além de excludentes”

Gabriela Bergantin

Walter Santos ressalta a importância da conscientização nesses ambientes: “E aí você vê a diferença. O Gabeu, filho do Solimões, faz músicas sertanejas LGBT. Ao mesmo tempo, a dupla Pedro Motta e Henrique fez uma música chamada ‘Lili’, que dizia: ‘ô, Lili, você poderia ter me contado a verdade. O amor da minha vida era um travesti’. O pessoal fez um puta movimento nas redes sociais, até que a música foi retirada do YouTube. Essa é a importância da representatividade em todos os meios. Porque mostra que não aceitamos mais essas opressões escrachadas na música, e que estamos retornando para nós lugares que nos foram retirados. E isso também na televisão, no lazer, em todos os lugares da mídia.”

Sobre o funk, Gabriel Mendonça diz: “Os meninos que começam na música têm a percepção, até pelo meio machista e homofóbico das periferias, que eles precisam ser aceitos de alguma forma. Conheço vários meninos que não têm essa noção intelectual da importância de ocupar os espaços, de ir para a escola e de fato estudar, de entender que a necessidade financeira se resolve com um emprego. Senão, você tem mais um jovem sem oportunidades, ou com as oportunidades erradas. Então, reconheço que vários desses garotos têm essa percepção de que ser um funkeiro, um cantor, leva a ter coisas. Mas, o que são essas coisas? Mulheres, dinheiro, carros, motos. Eles entendem que para chegar no posto do funkeiro conhecido, precisam cantar sobre aquilo. E, para cantar sobre aquilo, precisam viver aquela realidade.”

A problemática se estende às mulheres: “Às vezes reproduzimos um discurso de que os caras vivem assim mas que as meninas também gostam de dinheiro, que elas querem estar com esses caras. Mas, não. Elas gostam de estar no rolê e gostam de beber os melhores drinks mas sem interesse. Não é sinônimo de passe livre para você transar com elas a hora que você quiser, nem de chamá-las de cachorras. São duas percepções que se batem muito. Esses meninos crescem com esse estereótipo já definido, e se comportam assim socialmente. E isso, infelizmente, dá margem para que outras pessoas propaguem isso. Para que pessoas digam que homens pretos periféricos são brutos, bandidos, raivosos. Que mulheres que saem à noite para curtir a balada são simplesmente meninas fáceis.”

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Dicionário Consciente/Reprodução

É preciso despolarizar

Enquanto continuam a publicar expressões problemáticas no Instagram, o Dicionário Consciente pensa em formas de atingir ainda mais pessoas com suas campanhas de conscientização. “Falta tempo”, afirmam os publicitários, mas já surgiram convites de marcas e até do poder público de expandir o projeto. Os onze ainda pensam em ações de guerrilha, como colar lambe-lambe nas ruas, ou até mesmo a produção de um documentário que fale sobre os preconceitos que temos em nossas falas a partir de uma análise da história brasileira.

“Vivemos em uma sociedade tão polarizada que também não abraçamos as pessoas que pensavam diferente mas que querem mudar. Quem tem a paciência de informar? Se acreditarmos que as pessoas não podem mudar, sempre vamos viver nesse mundo polarizado”

Gabriela Bergantin

Enquanto nada disso vê a luz do dia, eles sugerem empatia sempre, e determinação para ensinar e tentar mudar os comportamentos que vemos ao nosso redor. “Fazer parte do grupo de pessoas que utiliza esses termos também é difícil, porque eles não têm a quantidade de informações que as outras pessoas tiveram. Por mais que essas pessoas não tenham feito nenhum mal às outras, aquelas que têm a informação também não dão as mãos para tirarem aquelas pessoas desinformadas da situação. Hoje, vivemos em uma sociedade tão polarizada que também não abraçamos as pessoas que pensavam diferente mas que querem mudar. Quem tem a paciência de informar? Se acreditarmos que as pessoas não podem mudar, sempre vamos viver nesse mundo polarizado”, conclui Gabriela.

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