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Que tipo de pai você está sendo?

Homens trans com filhos questionam preconceitos e redefinem o que é paternidade

por Bruna Santamarina Atualizado em 7 ago 2020, 14h28 - Publicado em 7 ago 2020 01h51
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Clube Lambada/Ilustração

m um país com 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento, é de se estranhar que um dos assuntos mais polêmicos em pauta no momento seja um homem trans que protagonizou uma campanha publicitária de Dia dos Pais. A base patriarcal e machista na qual se estrutura a sociedade ainda impede que todas as famílias, não importa como são formadas, sejam naturalizadas e, mais do que isso, festejadas.

“Parece que vale mais ter um nome no registro de um cara que não fez mais que doar o esperma do que valorizar homens que realmente se dedicam a cuidar dos seus filhos. Paternidade para mim tem muita relação com a disponibilidade que se tem de cuidar de alguém com afeto e dedicação para que essa pessoa se torne autônoma e consiga viver ao máximo as possibilidades da vida”, opina Apollo Arantes, um homem trans de 31 anos, que iniciou o processo de transição com 26 anos e que hoje está grávido.

Esperando seu primeiro filho, ao lado da esposa, Amanda Palha, o morador de Recife ressalta a importância da criação de políticas públicas de saúde mais inclusivas. Ele relata a gestação como um processo “horrível”, uma “experiência médica traumática”. Por orientação clínica, a administração equivocada de progesterona, um hormônio feminino, o fez desenvolver hiperêmese gravídica, que é a ocorrência severa de vômitos incontroláveis durante a gravidez.

“Paternidade para mim tem muita relação com a disponibilidade que se tem de cuidar de alguém com afeto e dedicação para que essa pessoa se torne autônoma e consiga viver ao máximo as possibilidades da vida”

Apollo Arantes
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Apollo Arantes/Arquivo

“O sistema de saúde não tem nenhum preparo para lidar com a gestação de um homem, além de seguir protocolos que não são pautados em evidências científicas. Ainda é preciso lidar com as transfobias que se estendem não só no serviço de saúde, como em qualquer outro espaço que meu corpo se faça presente. Se a gestação já não é um processo fácil de lidar, com todas as alterações hormonais que ocasionam mil mudanças, imagine ter que lidar com tudo isso e uma grande quantidade de violências cotidianas? A ideia de conceber um bebê, meu e da minha esposa, é incrível. Mas dizer que está sendo um processo gostoso, infelizmente essa não é nossa realidade” lamenta Apollo, militante do MOVIHT-PE (Movimento Independente de Homens Trans e Transmasculinidades) e do Movimento LGBT Leões do Norte.

Ele mesmo cresceu sabendo apenas o nome do pai, que abandonou a mãe quando Apollo tinha apenas seis meses. Foi conhecê-lo propriamente apenas aos 20 anos. “No momento que nos conhecemos, ele me falou que na época não conseguia se aproximar por não ter nenhuma relação de amor comigo, pois eu era muito bebê. A sociedade tem como foco potencializar a cis heteronormatividade e, para isso, afirma que, para ser pai, é preciso ter pênis. Isso por si só justifica a paternidade. Nenhum outro valor é incorporado”.

Na maturidade

O mesmo aconteceu com Jordhan Lessa, um homem trans de 53 anos, escritor e palestrante. Ele sabia que era adotado, mas só anos depois foi entender realmente a história da família. O pai dele, na verdade, era quem ele conheceu como avô a vida inteira. Por ser considerado um “bastardo” pela família, Jordhan foi registrado como filho pela própria irmã, que passou a ser sua mãe no papel. “É essa coisa da família tradicional brasileira. Nasci em 1967. Não podia ter filho bastardo, era uma vergonha. O que se fazia era que alguém da própria família registrava como filho”, conta ele, que teve a história confirmada por uma tia, muitos anos depois.

“A gente tem que ter em mente que a vida é uma só, e é uma para cada um. Ninguém vai viver a tua vida, ninguém vai escrever a tua história, nem sentir as tuas emoções. É injusto que você abra mão dos seus sonhos para realizar o dos outros. Se você tem vontade de constituir família, construa. Têm tantas novas formações familiares hoje. É surreal a gente ainda estar discutindo o sexo dos anjos em pleno século 21, com tanta coisa para fazer nesse planeta”, indaga Jordhan, que, além de pai, hoje ainda é avô de um menino de três anos.

O servidor público, primeiro transgênero da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, fez sua transição há apenas cinco anos. “Sempre fui homem, só não sabia, até meus 46 anos, que tinha essa possibilidade, pois não tinha informação. Não era tão fácil na época. Em 2013, assisti uma palestra do João Nery e, na história dele, me reconheci. Passei dois anos pesquisando a respeito, conhecendo pessoas, lendo, até eu me entender. Em 2015, comecei a fazer os procedimentos da transição. Foi o que a gente chama de uma transição tardia.”

“É injusto que você abra mão dos seus sonhos para realizar o dos outros. Se você tem vontade de constituir família, construa. Têm tantas novas formações familiares hoje. É surreal a gente ainda estar discutindo o sexo dos anjos em pleno século 21, com tanta coisa para fazer nesse planeta”

Jordhan Lessa
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Jordhan Lessa/Arquivo

Jordhan sempre soube, no entanto, que não se encaixava nos padrões impostos pela sociedade. Cresceu numa família de classe média alta em Copacabana, no Rio de Janeiro. Com 12 anos, percebeu que gostava de meninas. Contou para a mãe, que imediatamente o levou a médicos para receber um suposto “tratamento”. Foi internado em dois manicômios e até mesmo na Funabem, antigo espaço para apreensão de menores infratores, até ser expulso de casa e ficar em situação de rua. Aos 16 anos, sofreu um estupro corretivo, prática criminosa que tem como objetivo supostamente “curar” a orientação sexual de um indivíduo. Permaneceu em silêncio diante do trauma até que, 21 semanas depois, descobriu a gravidez.

“Foi duro chegar até aqui. Tenho privilégios que não caíram do céu. Hoje posso dizer que vivo uma vida tranquila e feliz, como jamais imaginei ser possível, com a paz se reconhecer em você mesmo. É muito louco dizer isso para quem não consegue imaginar. Não é uma cirurgia no nariz, não é um corte de cabelo. É muito mais complexo do que isso. É muito bom poder se ver no espelho e se reconhecer. E não só no espelho de casa, mas no espelho da vida”.

A história de Glauco Vital também é de uma transição tardia. Confundia gênero com orientação sexual. Passou a vida toda se perguntando quem era. “Fiquei na caixinha da orientação sexual da lésbica”. Só aos 44 anos, conheceu pela internet a história de alguns homens trans de fora do Brasil e passou a pesquisar a respeito. Assim como Jordhan, viu em João Nery (1950-2018) um exemplo. O psicólogo e escritor brasileiro foi o primeiro homem trans a realizar a cirurgia de redesignação sexual no Brasil e, durante muitos anos, atuou como ativista da causa.

“Comecei, então, a fazer a transição. Muitos acham que a transição começa quando começa o uso de hormônios, mas não. Ela começa a partir do momento que você se entende como trans. É um processo que vem de dentro para fora”, explica Glauco.

“A paternidade trans é igual a todas as paternidades, não tem diferença. Eu sou homem com outro qualquer outro homem. Talvez seja diferente para a sociedade, mas eu tenho os mesmos direitos”

Glauco Vital
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Glauco Vital/Arquivo

Quando conheceu a atual esposa, Marcela, “foi amor à primeira vista”. Tinham interesses iguais de constituir uma família. Marcela sempre quis ser mãe e Glauco, pai. “Sempre quis ser pai. Tanto que nunca tive uma criança, nunca adotei, porque eu não queria ser mãe”, explica ele. Fizeram o processo de inseminação artificial e acabaram perdendo o primeiro bebê, no terceiro mês de gestação. “Ainda é difícil falar sobre isso, porque foi uma gravidez muito planejada e desejada. A gente nem esperava mais nada, mas tentou assim mesmo a segunda vez. Então, a Giovanna veio”, conta, enquanto a pequena de oito meses brinca em seu colo.

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“A paternidade trans é igual a todas as paternidades, não tem diferença. Eu sou homem com outro qualquer outro homem. Talvez seja diferente para a sociedade, mas eu tenho os mesmos direitos”, afirma o carioca de 49 anos, servidor público e o primeiro homem trans a disfrutar do direito de licença-paternidade na Prefeitura do Rio.

Mudança dentro de casa

Apesar de fazer a transição mais novo, Cézar Sant Anna, um homem trans de 32 anos, morador de São Paulo, teve que lidar com outra questão: a adaptação da filha, Fernanda, que na época tinha 9 anos. O processo foi feito de forma bem “calculada”, para dar condições e estruturas para que ela pudesse entender tudo da melhor forma, ele conta.

“Foi algo que fui trazendo para a minha filha aos poucos, até para que ela pudesse ter outras referências de pessoas trans e que não tivesse a sensação de que ela era a única que estava passando por isso. Referência ajuda a entender que é normal, que pode acontecer. Trouxe isso para a nossa rotina, além de toda a educação dela que sempre foi diversa. Mesmo que eu não fosse da sigla LGBT, sempre proporcionei a ela todo tipo de vivência, pois é importante para que se crie um ser humano que esteja preparado e que entenda que o que acontece dentro de casa não reflete tudo que acontece no mundo”, explica Cézar.

Na hora de contar para a filha, veio o medo. “Mas não era um medo meu, era um medo que foi colocado em mim”. Ao contar para a Fernanda, a resposta foi a mais surpreendente de todas: “Ah, sim, você vai ter barba”, disse, com a sinceridade que só pode ser mesmo de uma criança. Ele insistiu no tópico, questionando sobre as mudanças e perguntando como a filha se sentia. “Ela prontamente respondeu que eu sempre fiz tudo para que ela fosse feliz e sempre proporcionei tudo que ela precisava. Disse que eu também precisava ser feliz. E que, se essa era a maneira que eu tinha que ser feliz, para ela estava tudo certo”.

De todas as pessoas com as quais Cézar conversou sobre o assunto, Fernanda foi a única que não teve resistências, questionamentos ou estranhezas. “Foi a que mais me acolheu. De tempos em tempos, eu sempre chamo ela para conversar sobre isso, porque uma coisa é quando você tem 9 anos, outra é agora que ela tem 14 anos”.

Hoje, ele vê a filha se posicionando diante de colegas para naturalizar a questão. “Ela diz: ‘meu pai é meu pai e tá tudo bem, ele não é um alienígena. Ele dá afeto, dá carinho, mas também dá bronca’. Até porque eu não vou compensar minha filha pelo fato de eu ser trans.”

Para ser pai, segundo ele, é preciso ter disposição e interesse. “Não é algo obrigatório, se reproduzir, mas tem que ter interesse, porque precisa se dedicar. É algo transformador. Esse tipo de orientação no desenvolvimento dela é algo que me dá um prazer enorme. Estar perto dela, orientando e mostrando para ela o que deve ser prioridade”, afirma Cézar.

“Ela diz: ‘meu pai é meu pai e tá tudo bem, ele não é um alienígena. Ele dá afeto, dá carinho, mas também dá bronca’. Até porque eu não vou compensar minha filha pelo fato de eu ser trans”

Cézar Sant Anna
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César Sant Anna/Arquivo

Foi quando o filho nasceu que Julio Augusto Ferreira Viana, morador de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, percebeu que havia algo faltando. “Vi que era dentro de mim que estava faltando. Pesquisei bastante e entendi. Demorei um pouco a me aceitar de fato, é uma nova realidade. Fui atrás de psicólogo para entender melhor e, depois de alguns meses, ficou tudo mais esclarecido. Já demonstrava sinais desde pequeno”.

Hoje um homem trans de 23 anos, pai do pequeno Ezel, de um ano e sete meses, ele conta que a gestação foi complicada, mas por motivos diferentes dos relatados por Apollo Arantes. “O relacionamento que eu tinha com o pai do meu filho era abusivo. Agora, meu filho tem o melhor pai do mundo. Não vou ser tão machista como alguns homens por aí”, garante ele. E completa: “Ser pai é estar presente, dar amor, carinho, caminhar lado a lado sempre. Ser pai não precisa do órgão genital, não tem nada a ver. É estar com a criança, é entender a criança.”

A dura realidade por trás de uma polêmica superficial

Quando um homem trans como Thammy Miranda sofre com discursos de ódio na internet simplesmente por celebrar e redefinir a paternidade, é na base da estrutura social que os ataques reverberam de forma mais latente. Se o ator, filho da cantora Gretchen, tem condições financeiras de contratar uma segurança pessoal e garantir que as agressões verbais não sejam transformadas em agressões físicas, o mesmo não acontece, por exemplo, em favelas e periferias. Isso porque, afinal, além de ter milhões de crianças sem pais, o Brasil ainda é o país que mais mata transsexuais no mundo.

“Enquanto a gente está aqui discutindo Dia dos Pais, a travesti negra que mora na Baixada [Fluminense] está lutando para comprar um pão de manhã e para estar vivo de noite. Quando o Thammy, que tem condições para pagar sua segurança, que está numa posição social em que vai ter proteção, é atacado, essa mesma fala que foi direcionada a ele vai ser repetida na periferia. E aquela pessoa trans negra que vive numa situação adversa é que vai sofrer. E ninguém vai saber que a travesti morreu ou que o homem trans foi espancado. É isso que as pessoas precisam entender. Eu, que estou aqui no meio termo, tenho que fazer esse alerta: as pessoas precisam ter responsabilidade no que elas falam. Não é uma opiniãozinha, assim como não é uma gripezinha. Você está tirando o direito de viver das pessoas”, afirma Jordhan.

“Ser pai é estar presente, dar amor, carinho, caminhar lado a lado sempre. Ser pai não precisa do órgão genital, não tem nada a ver. É estar com a criança, é entender a criança”

Julio Augusto Ferreira Viana
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Julio Augusto Ferreira Viana/Arquivo

“É algo para a gente refletir no macro, sabe? Todos os dias os corpos trans são invisibilizados e violentados de uma maneira extremamente agressiva. O Thammy foi a bola da vez e por ser um homem trans de grande visibilidade, além dos ataques, existiu grande comoção, mas vale lembrar que existe uma população trans marginalizada que está constantemente sendo atacada e que não é lembrada. É lastimável a percepção que se tem sobre o que é a paternidade”, explica Apollo, e completa: “Mas também não é de assustar, tendo em vista o quanto temos de pessoas conservadoras no Brasil”.

O otimismo de Jordhan extrapola as duras lembranças que o assunto inevitavelmente traz. “A gente tem que aprender a fazer limonada dos limões que nos dão. Como pessoa trans, a gente acaba ficando expert nisso. Olhando pelo lado bom, gerou polêmica e fomentou o assunto. Se eu pudesse falar alguma coisa para os homens cis que estão tão afetados, tão preocupados com qualquer um que nos coloca no lugar de pai, seria: aproveite esse momento para fazer uma reflexão profunda. Que tipo de pai você está sendo?”

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