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As pessoas com deficiência, que representam quase 1/4 da população brasileira, ainda sofrem com o capacitismo, a invisibilidade e a falta de acessibilidade

por Alana Della Nina 12 ago 2020 02h13
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Clube Lambada/Ilustração

uando você olha para uma pessoa com deficiência, o que pensa primeiro? Como a vida dela deve ser mais difícil do que a sua? Ou se ela consegue se virar sozinha? Ou se ela consegue fazer coisas básicas, como trocar de roupa, cozinhar, se comunicar? Claro, é natural existir um certo nível de curiosidade a respeito de pessoas que vivem com algum tipo de limitação, como não enxergar, não ouvir, não ter uma perna ou um braço, precisar de uma cadeira de rodas. Porque a vida parece, à primeira vista, muito mais complicada mesmo para elas. Mas, para o bem da nossa santa ignorância, vale fazer outra pergunta: por que nunca nos damos o trabalho de olhar para além da deficiência? 

“Eu não tenho problema em ser cega. Sou cega como sou mulher, como sou negra, como sou periférica”, diz a jornalista Nathalia Santos. “Só enxergo de uma outra maneira, mas a sociedade desde cedo me mostrou que não estava preparada para o diferente, seja qual for a diferença que as pessoas têm.”

Fato é que viver em um mundo que marca essa diferença o tempo todo, que te exclui da sociedade, da cultura, do mercado de trabalho, representa um desafio maior do que lidar com as limitações que a deficiência impõe. E a gente nunca fala disso. O discurso da diversidade está aí, mas o quanto realmente aceitamos essas diferenças? Principalmente quando muita gente ignora que o “diferente” vai além das minorias raciais e LGBTs.

“A sua capacidade está totalmente vinculada ao seu corpo e, se esse corpo não responde ao padrão, você é vista como menos capaz. As pessoas acham que tudo o que você faz é ‘inspirador’, sem se darem conta do quanto isso é ofensivo. Como se conseguir cortar uma cebola fosse como subir o Everest”

Mariana Torquato

Essa é uma briga que Nathalia, Mariana, Matteus, Lorrayne e Kitana compram diariamente. Seja produzindo conteúdo que informe e eduque as pessoas sobre as PcDs (sigla para pessoas com deficiência), seja para compartilhar suas paixões, rotinas, angústias e alegrias, esses cinco influenciadores mostram que a vida deles não é tão diferente assim das nossas – e que eles não são suas deficiências. “As pessoas com deficiência estão tentando ganhar voz na internet, utilizando plataformas para falar sobre suas questões, ou então para não falar sobre suas questões, mas para mostrar que elas sabem fazer make, cozinhar, que são boas no que fazem, e isso é muito bom para desmistificar toda essa ideia preconceituosa que existe em torno das PcDs”, diz Mariana Torquato.

Lorrayne Carolyne está no segundo time: cadeirante, ela nasceu com uma doença rara, chamada Osteogênise Imperfecta, mas a atenção da paulista de Franca mora, principalmente, em seus cabelos: entre os posts da influenciadora de beleza, se destacam os de looks do dia, testes de produtos para os cachos e valorização da beleza da mulher negra. “Fico muito feliz de ver tanta gente com deficiência nesse universo de influenciador, mostrando que temos nosso lugar e que isso independe da nossa condição”, diz. 

Há também quem atue nas duas frentes, como a drag queen Kitana Dreams, que, surda de nascença, faz sucesso entre surdos e ouvintes com seus vídeos divertidos de montação e make. A carioca grava em LIBRAS e legenda seus vídeos. Para ela, a internet é uma forte aliada contra a invisibilidade. “As redes são meios que permitem a nós, pessoas com deficiência, transformarmos esse problema, é uma ferramenta poderosa na nossa luta por um espaço na sociedade e para mostrar que não somos coitadinhos, somos pessoas normais com algumas limitações.”

Para o economista Matteus Baptistella, trabalhar a própria imagem, usar sua voz e achar seu público foi fundamental para se aceitar e mudar o olhar sobre sua deficiência. “Hoje sei que meu nanismo não me define, ele é apenas uma parte minha. Mas a gente ainda têm que viver o tempo todo com o preconceito e a exclusão. Então, trabalhar a aceitação é importante porque o mundo não facilita”, diz. “Se eu não me aceitar como anão, vou ficar mal de ter que pedir para alguém pegar um produto em uma prateleira mais alta no mercado, por exemplo. E ninguém tem que sentir vergonha por isso. É apenas uma limitação física, não é nada demais.”

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Fonte: IBGE – Censo 2010

“Quantos like essa guerreira merece?” 

Se ainda não tem contaram, aí vai a bomba: as pessoas com deficiência não vieram à Terra com o único propósito de mostrar o quanto você, pessoa sem deficiência, é privilegiada. Ou, como diz Mariana em um dos seus vídeos mais recentes – compartilhado, inclusive, pelo Mídia Ninja –, “Será que o mundo está preparado pra entender que pessoas com deficiência não estão aqui pra inspirar pessoas sem deficiência a darem mais valor a sua vida ou corpo?”

Aquelas centenas de posts que você vê na internet sobre “força”, “superação”, “capacidade de lidar com desafios” de uma pessoa com alguma deficiência têm nome: capacitismo – que é a discriminação contra PcDs. Embora a conceituação seja relativamente nova, é uma realidade que as pessoas com deficiência vivem desde… sempre. 

E se você nunca ouviu falar sobre capacitismo – eu mesma, confesso, só fui apresentada ao termo durante a apuração desta reportagem –, parte do problema mora aí. Afinal, repetimos, sem saber, esse preconceito estrutural que coloca as pessoas com deficiência em uma caixa fora do mundo “normal”, que os embala como pessoas sofridas, incapazes e dignas da nossa pena, e que, ao fazerem qualquer atividade comum – de caminhar sozinha na rua a tocar violão –, são vistas como um enorme exemplo de superação. “A sua capacidade está totalmente vinculada ao seu corpo e, a partir do momento que esse corpo não responde ao padrão, você é vista como menos capaz. E aí tem essa questão de as pessoas acharem que tudo o que você faz é ‘inspirador’, sem se darem conta do quanto isso é ofensivo. Como se realmente a gente fosse tão incapaz que conseguir cortar uma cebola fosse como subir o Everest”, fala Mariana.

Para Nathalia, o elogio é outra forma de capacitismo que a gente comete o tempo todo.”‘Nossa, a Nathalia é uma ótima jornalista’, ponto. Se você falar ‘a Nathália é uma ótima jornalista cega’, está sendo capacitista” diz. “E tem que parar de achar que só existem duas categorias de deficientes: o coitadinho e o super-herói. Somos humanos, com qualidades e defeitos. A gente não se supera porque quer, mas porque precisa, é a vida.”

E as garras do capacitismo são longas, interferindo na rotina das PcDs em todas as suas vivências. “A pessoa que compartilha posts de capacitismo na internet é a mesma que não vê necessidade de fazer uma calçada acessível, é o dono de restaurante que acha um absurdo ter que fazer um banheiro que atenda a esse público, é o empresário que não quer contratar uma PcD porque acha que ela vai ser um gasto”, diz Mariana. 

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Terra dos invisíveis

No Brasil, segundo último censo do IBGE (2010), são aproximadamente 45,6 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, o que representa quase 24% da população do país. Apenas cerca de 440 mil estão empregados – ou seja, menos de 1% das PcDs têm um trabalho com carteira assinada. 

Em um país onde as maiores populações são largamente marginalizadas, como a população negra, não chega a espantar a invisibilidade em torno das PcDs. Mas deveria. Grande parte das empresas brasileiras nem sequer cumpre com a cota mínima de funcionários com deficiência. De acordo com dados do Ministério do Trabalho de 2017, apenas 25% das organizações do país obedecem a lei de Cotas (nº 8.123/91), que estabelece percentuais de 2% a 5% de PcDs em empresas privadas com 100 a 1000 ou mais funcionários – 31% delas sequer contrataram PcDs. Ou seja, 75% das companhias brasileiras preferem arcar com uma multa, que pode variar entre R$ 1.925,81 e R$ 192.578,66, do que incluir pessoas com deficiência no seu quadro de colaboradores. E vale destacar ainda: daqueles menos de 1% que estão trabalhando, 93% só foram contratados em cumprimento às obrigações legais. 

A inclusão de pessoas com deficiência em todas as esferas ainda é muito incipiente no Brasil e o mercado de trabalho é um reflexo preciso da questão do capacitismo na sociedade, já que muitas empresas repetem esse olhar viciado e não conseguem ir além da deficiência e dos possíveis custos que ela vai trazer para, por exemplo, adaptar o ambiente de trabalho e eventualmente treinar aquele colaborador e seus colegas diretos. Pessoas e empresas não conseguem perceber aquele profissional em seus talentos, experiência, bagagem acadêmica, capacidades; barram na deficiência, seja ela física ou mental. “Somos um público que trabalha, consome, paga suas contas e seus impostos, mas não somos considerados”, diz Nathalia. “A sociedade tem que, primeiro, nos enxergar como pessoas e não deficientes, doentes. A partir disso, considerar as nossas particularidades para tentar entender e promover mudanças que nos favoreçam.” 

Para Mariana, a raiz dos maiores problemas sociais que as PcDs enfrentam hoje no Brasil está justamente na falta de reconhecimento de uma pessoa com deficiência como qualquer outra, além da grave questão de representatividade. “A gente não vê gente com deficiência apresentando jornal, como personagem de novela, fazendo atividades normais. Só somos lembrados em eventos específicos, como Teleton ou Jogos Paralímpicos”, explica. “E não é só na mídia, somos ignorados em toda a sociedade. Com quantas pessoas com deficiência você já ficou, namorou, transou? Quantos amigos com deficiência você tem? Com quantos colegas com deficiência você trabalha? Não estamos em lugar nenhum.”

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Fonte: Ministério do Trabalho, 2017

Quer conhecer mais esses cinco influenciadores? Confira aqui nosso papo com eles.

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