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Um adeus à era dos Superstar DJs

Encerrando uma carreira de 28 anos, o Daft Punk sacramenta a separação entre fãs da música eletrônica e de outros gêneros musicais

por Artur Tavares 24 fev 2021 00h02

Na última segunda-feira, 22, a dupla francesa Daft Punk anunciou sua separação, e quem parece ter mais lamentado o fim da carreira de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter foram os fãs do indie rock. É claro que a cena da música eletrônica também reagiu com tristeza, mas o que assisti nas redes sociais foram pessoas completamente alienadas ao gênero chorando por baladas que nunca nem curtiram. Gente que abomina desde os mais pops do gênero, como o garoto prodígio Alok, até as raves underground – sempre taxadas como festas de doido com som intragável.

Mas, embora pareça uma reação completamente dicotômica, isso parece explicar muito sobre a importância do Daft Punk no imaginário popular de uma geração que cresceu ouvindo “One More Time” e chegou na casa dos trinta embalada pelo hit chiclete “Get Lucky”, que tem Pharrell Williams nos vocais.

O Daft Punk surgiu na primeira metade dos anos 1990 na França e fez parte de um movimento de artistas que ficou conhecido mundialmente como Superstar DJs – termo maximizado pelo duo britânico Chemical Brothers naquela que talvez seja a música mais conhecida da geração, “Hey Boy Hey Girl”. Os Superstar DJs eram quase todos britânicos, entre eles Carl Cox, a dupla Underworld, e Fatboy Slim, enquanto os franceses aproveitaram o bonde do sucesso e ajudaram a impulsionar o house music ao mainstream. Todos faziam parte da geração que gastou sua juventude nas pistas de dança das raves europeias do final dos anos 1980 e chegaram na maturidade com estofo para produzirem suas próprias composições.

Daft Punk e os outros Superstars DJs fazem parte da geração que gastou sua juventude nas pistas de dança das raves europeias do final dos anos 1980 e chegaram na maturidade com estofo para produzirem suas próprias composições

Se naquele tempo os queridinhos dos fãs de música eram os heróis do grunge e do indie rock, Nirvana, Sonic Youth, Smashing Pumpkins, Oasis e Blur, as primeiras notas musicais de “Born Slippy” caíram como pedra e revolucionaram a música mundial. Era 1996, e o ator Ewan McGregor acordava em uma cama ao lado de seus amigos viciados em heroína na cena final do filme Trainspotting. Ele rouba uma mala cheia de dinheiro e abandona os colegas, todos fodidos – um deles baleado –, e foge para uma vida longe das drogas.

O impacto causado pelo livro de Irvine Welsh, levado às telas por Danny Boyle, ajudou a impulsionar a carreira de quem queria viver de música eletrônica. O grito entalado na garganta de que todos tinham contra a estrutura social do capitalismo moderno ecoou forte. “O trabalho, a família, a porra da televisão gigante, a lavadora de roupas, o carro, o disco compacto e a lata de lixo eletrônica, a boa saúde, o baixo colesterol, o plano odontológico, a hipoteca, casas no subúrbio, roupas casuais, bagagem, ternos, DIY, game shows na televisão, junk food, filhos, caminhadas no parque, horários de trabalho, ser bom no golfe, lavar o carro, escolher suéteres, Natal em família, poupança, pagamento de impostos, limpeza de calhas, pensar no futuro, até o dia que você morre”, diz Renton, o personagem principal do romance, vocalizando as angústias que todos nós temos. Por que viver assim? A solução parecia ser dançar em comunhão em pistas de dança até todas as preocupações sumirem completamente.

O Daft Punk já tocava no underground francês desde 1993, e quando lançou seu primeiro álbum, “Homework”, em 1997, ainda não se apresentava caracterizado como uma dupla de robôs vinda de um futuro cyberglam. Em vez de tocar músicas que puxavam para o hard techno e para o eurotrance da época, como o Underworld, ou para o acid, como o Chemical Brothers, eles apostaram em composições totalmente fáceis para ouvintes nada acostumados com sintetizadores. “Around the World”, que teve clipe dirigido por Michel Gondry, o cineasta de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, caiu como uma luva nas tardes da MTV, seu compasso com linhas de baixo do funk norte-americano, uma repetição fácil das palavras que dão título ao som. “Burning” brincava com scratches do rap, “Alive” evocava o industrial tão característico dos anos 1980, e “Rock ‘n Roll”, bem… não tinha nada de rock na música.

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Senhores do pop

De certa maneira, “Homework” inaugurou um Daft Punk eclético que só retornaria aos palcos em “Random Access Memories”, último álbum de estúdio do duo, lançado em 2013. No entanto, a identidade sonora de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter havia ganho o mundo para muito além das gigantescas festas em praias ensolaradas promovidas por Norman Cook (o Fatboy Slim) ou pelos palcos com projeções e vídeo mappings completamente inovadores do Chemical Brothers.

O ano era 2001 e praticamente todas as rádios do planeta tocavam “One More Time” sem parar. Olhando para trás em retrospecto, ouvir a música em 2021 faz ela soar totalmente rasa em termos de composição musical, digna de um palco de Tomorrowland, mas naquela época ela marcou o auge da adolescência de muitos – da minha, com certeza –, e foi pedra fundamental para que os clubbers que chegaram à vida adulta antes de nós afirmarem seu lifestyle como totalmente normal.

“One More Time” abre “Discovery”, o segundo álbum do Daft Punk. Uma homenagem ensolarada para o synthpop, o álbum não demorou para estourar nas paradas mundiais, e o movimento apenas se amplificou mais quando, dois anos depois, o duo francês lançou o longa-metragem em animação “Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem”, um anime japonês dirigido por ninguém menos que Kazuhisa Takenouchi, responsável por boa parte dos episódios de “Dragon Ball”. Pode parecer uma parceria estranha, mas vale lembrar que a França foi uma das maiores responsáveis para a popularização dos desenhos animados japoneses ao redor do mundo, ainda nos anos 1980, e que “Cavaleiros do Zodíaco” só foi exibido aqui no Brasil devido a essa influência.

“Discovery” é um pouco disso, uma homenagem a animes de mechas (os robôs japoneses) e de viagens interestelares, como “Gundam”, “Macross”, “Capitão Harlock e a Nave Arcádia” e “Patrulha Estelar”, esses dois últimos trabalhos de Leiji Matsumoto, que também esteve envolvido com “Interstella 5555”. O filme era tudo que o Daft Punk para se tornar os reis do pastiche, e então Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter nunca mais tiraram suas máscaras robóticas em público.

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Sobre guitarras e pirâmides

Das coisas que mais tornam uma composição de música eletrônica em uma canção pop, estão solos de guitarra e vocais – saxofones conseguem estragar quase que quaisquer tracks produzidas do gênero, mas isso fica para outro dia. O grupo israelense se aproveitou dessa mistura cruel para explodir na cena do trance em 2003 com a música “I Wish”, e, dois anos depois, o Daft Punk lançava “Human After All”. O terceiro álbum do duo tinha um conceito estranho, mas que colou: e se os robôs do Daft Punk se tornassem uma banda de rock?

Diferente dos beats limpos, espaciais e etéreos apresentados em “Discovery”, as músicas de “Human After All” são sujas, pesadas, com compassos repetitivos em vez de melodias harmoniosas. O rock vivia uma renovação promovida pela turma dos Strokes e do Franz Ferdinand, que olhavam para as origens da guitarra, e o Daft Punk surfou bem nessa onda. De repente, os robôs começaram a vestir artigos de grifes de luxo, e desembarcaram no Tim Festival 2006, em pleno calor do outubro brasileiro, com pesadas jaquetas de couro Dior. Parecia mesmo que eles eram os verdadeiros rockstars daquela edição, que contou também com Patti Smith, TV on the Radio e Yeah Yeah Yeahs.

Foi a única apresentação do duo no Brasil, um show que vai ficar na minha memória para sempre. Aqui em São Paulo, a edição do Tim Festival aconteceu na apertada casa de shows Tom Brasil, que não estava preparada para comportar um público incandescido para assistir aos franceses. Um verdadeiro encontro de tribos, aquele domingo foi também a data da reeleição de Lula à presidência do Brasil, um resultado anunciado minutos antes da entrada do Daft Punk no palco, levando a galera a uma catarse generalizada.

A noite abriu com os pernambucanos do Mombojó e seu macaratu pop, teve uma viagem pelos quatro cantos do mundo com o Thievery Corporation, as apresentações poderosas do TV on the Radio e do Yeah Yeah Yeahs, e então… as cortinas vermelhas se fecharam. Pelas sombras que se formavam com as luzes que vinham lá de trás, o Daft Punk estava montando uma pirâmide no palco.

“E então… as cortinas vermelhas se fecharam. Pelas sombras que se formavam com as luzes que vinham lá de trás, o Daft Punk estava montando uma pirâmide no palco”

De repente, as luzes se apagaram, e, quando acenderam de novo, tudo estava vermelho. Uma voz robótica repetia instruções: “Buy it, use it, break it, fix it, trash it, change it, mail, upgrade it…”. Com a hipnotizante “Technologic” eles abriram uma apresentação potente, que passou com a velocidade de uma bala (contém ironias). Das raras vezes que vi uma pista de dança conhecer absolutamente todas as músicas que estão sendo tocadas pelos artistas no palco, essa foi uma delas. E, nunca depois, vi roqueiros dançarem tanto.

A pirâmide toda coberta por neon foi um show a parte, mas impressionava mesmo ver como Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter encarnavam seus papéis como robôs (cujos capacetes tinham telas com vida própria). Eles pouco se mexiam ali no centro da nave espacial, não chamavam a animação do público – não que precisassem –, não passavam calor com aquele figurino completamente impróprio. A turnê foi um sucesso estrondoso, e virou um álbum ao vivo lançado em 2007.

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A volta ao pop

Depois da turnê de “Human After All”, não parecia haver barreiras para o Daft Punk. Em 2008 tocaram junto com Kanye West nas premiações do Grammy, em 2009, cederam 11 de suas músicas e suas próprias imagens para o game DJ Hero, e, em 2010, a dupla foi admitida na Ordre des Arts et des Lettres, uma ordem de mérito francesa, com Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter sendo nomeados cavaleiros de seus países. De humanos, finalmente, foram alçados ao posto de lendas.

Era um momento em que os Superstar DJs estavam em baixa – hoje já nem se ouve falar do Chemical Brothers e do Underworld, embora Fatboy Slim continue tocando muito bem –, e que uma segunda geração começava a surgir, entre eles o duo também francês Justice (que nunca deu em nada) e os ingleses do Disclosure, que no finalzinho de 2020 lançaram um disco perfeito, mas o Daft Punk continuava no auge. Não foi surpreendente que o duo tenha sido convidado pela Disney para compor a trilha sonora do filme “Tron: Legacy”, continuação do clássico oitentista “Tron”.

Logo depois, o Daft Punk assinou com a Sony Music para lançar seu álbum “Random Access Memories”, de 2013. Com uma sonoridade que poderia ser base para um disco de Michael Jackson, se o rei do pop ainda estivesse vivo, o disco não tem absolutamente nada de música eletrônica, se encaixando muito melhor nos termos do synth pop. Além de Pharrell Williams, Julian Casablancas, do Strokes, e Nile Rodgers, do Chic, também participaram do álbum. No mesmo ano, o duo ajudou Kanye West a produzir seu álbum tão megalomaníaco quanto, “Yeezus.”

“Além de Pharrell Williams, Julian Casablancas, do Strokes, e Nile Rodgers, do Chic, também participaram do ‘Random Access Memories’ . No mesmo ano, o duo ajudou Kanye West a produzir seu álbum tão megalomaníaco quanto, ‘Yeezus’”

Depois da turnê de “Random Access Memories”, o Daft Punk foi aos poucos desaparecendo. Os rumores de um novo disco ao vivo não se tornaram realidade e, no ano passado, eles não toparam compor a trilha sonora do novo filme do mestre italiano do terror Dario Argento. Sem muita explicação, o duo anunciou no dia 22 que estava se separando, mas de maneira silenciosa. Eles publicaram em seu canal do YouTube um vídeo intitulado “Epilogue”, com uma cena de seu filme “Electroma”, de 2006, em que um dos robôs explode no deserto. O porta-voz do duo confirmou a separação logo depois, sem dar motivo algum para tal.

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Em um universo em que a música eletrônica se distancia cada vez mais do mainstream, se torna mais uma vez extremamente combativo às amarras sociais que vivemos, e que uma indústria por trás do gênero se consolidou completamente, é difícil imaginar quando músicos tão pop quando o Daft Punk venham a surgir novamente para romper as barreiras e conquistar os mais diversos corações. Nem mesmo os artistas do EDM mais chacota, headliners de festas como o Tomorrowland, conseguem transcender essas amarras. Tampouco a cena caminha para beats tão palatáveis a serem absorvidos por uma nova geração de não-iniciados.

O que resta da separação do Daft Punk é um legado de 28 anos que moldou as últimas três gerações da música mundial, a certeza de que a criatividade é o limite para se fazer algo tão inovador, e as saudades que mataremos deles cada vez que um remix novo pintar nas pistas de dança.

Aos mestres, obrigado por manterem a música eletrônica no auge, hoje e sempre. E até logo.

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