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Cancelar ou não cancelar: será que essa é a questão?

As muitas camadas da cultura do cancelamento

por Carolina de Marchi 23 set 2020 01h41
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Clube Lambada/Ilustração

e a cultura do cancelamento foi um dos assuntos mais hypados em 2019, foi em 2020 que a prática se acirrou, impulsionada pelo contexto da pandemia. É bem provável que o distanciamento social, além provocar o aumento das horas de interação online, esteja represando emoções, fazendo com que todo mundo fique mais à flor da pele. Ou intolerante. A agência Mutato realizou uma pesquisa que analisa cerca de 8 mil comentários em redes sociais (com foco no Twitter) e constatou que o fenômeno tende a continuar sendo tópico relevante por um bom tempo. O estudo também aponta que 79% das pessoas são fortemente contra a Cultura do Cancelamento, apesar de seguirem participando dela. Mas será que a questão é tão simples quanto ser contra ou a favor?

Nos Estados Unidos, o assunto ganhou maiores proporções quando a prestigiada Harper’s Magazine publicou a Carta sobre Justiça e Debate Aberto, assinada por 153 jornalistas, artistas e acadêmicos – entre eles Noam Chomsky e J.K. Rowling. Nela, expressam a preocupação com os cancelamentos, cada vez mais recorrentes, especialmente dentro do campo dos movimentos identitários e de outras lutas da esquerda, tensionando os limites entre debate e discurso de ódio. Ironicamente, os “anti canceladores” foram amplamente criticados e… cancelados. A carta teve tantas réplicas e ataques que houve quem quisesse “desassinar” ou pedir desculpas por ter apoiado o editorial. 

Enquanto o debate por lá gira principalmente em torno de censura e liberdade de expressão, no Brasil a cultura do cancelamento vem incorporando ainda mais camadas. Um dos últimos episódios marcantes no país foi um comentário da cantora Marília Mendonça, considerado transfóbico. E quem não acompanhou a repercussão do polêmico texto da historiadora Lilia Schwartz sobre Black is King de Beyoncé? Há poucos dias, muitos  bolsonaristas pediam a cabeça da jornalista Maju Coutinho no Twitter. Esse ano também teve cancelamentos da cantora Jojo Todynho e da influenciadora fitness Gabriela Pugliesi por conta da quebra da quarentena, resultando no fim de alguns contratos comerciais. E não para por aí: a lista de cancelados aumenta a cada semana, pelos mais variados motivos. 

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Kareen Sayuri/Redação

O que é? De onde vem? Do que se alimenta?

Apesar de esse texto ter a intenção de fomentar a discussão e não de trazer verdades, busquemos alguns contornos como ponto de partida. Em poucas palavras, o cancelamento costuma ser aplicado a pessoas que tenham feito ou dito algo considerado condenável, preconceituoso, ofensivo ou até potencialmente criminoso. Seria uma espécie de boicote. A atitude de alguém é reprovada por determinado grupo de seguidores e é exposta na internet, gerando uma onda de comentários negativos, críticas duras e unfollows. Pronto: é decretado seu cancelamento. A essa altura, é fácil se tornar uma bola de neve: uma multidão de pessoas está multiplicando o ataque, muitas vezes sem saber ao certo quem está sendo cancelado ou checar o porquê. Dependendo da situação, a pessoa pode ser alvo de várias mensagens de ódio e ridicularizações. Por alguns, o cancelamento é visto como uma versão de linchamento virtual.

“Cancelar significa interromper uma existência. Quando uma viagem ou um evento são cancelados, eles deixam de acontecer. Isso, aplicado a pessoas no mundo não-virtual, não é possível – a não ser que você mate essa pessoa. Por isso, o cancelamento acaba tendo mais sentido no virtual”, explica a psicóloga, doutora em psicologia social e professora da UERJ Alice Pereira de Souza, autora do livro Modulações militantes por uma vida não fascista (Ed. Criação Humana, 2018). Ela aponta que a prática é coerente com a chamada “avatarização da vida” e com o que Paul B. Preciado denomina como a era da sociedade ciber oral, uma vez que as existências na internet não contemplam a complexidade das existências fora da rede.  Em sua opinião, o cancelamento hoje está mais próximo da eliminação do que da problematização.

O youtuber Spartakus Santiago – que já foi cancelado mais de uma vez – ressalta, em vídeo publicado em seu canal, que a violência é iniciada digitalmente, mas pode ter implicações sérias nas vidas da pessoas, como perda de empregos e oportunidades, traumas emocionais e até suicídio. Ele relata que entrou em depressão e teve episódios de pânico quando foi cancelado pela primeira vez. Precisou de muita terapia e foi a um retiro espiritual para lidar com a violência que sofreu no Twitter. “Muitas pessoas contra uma só nunca é uma luta justa. Acaba sendo desproporcional. A internet, ao contrário do direito, é uma terra sem lei e as pessoas viram júri, juiz e executor. Todo mundo se sente no direito de fazer justiça com as próprias mãos”, complementa.

“A internet, ao contrário do direito, é uma terra sem lei e as pessoas viram júri, juiz e executor. Todo mundo se sente no direito de fazer justiça com as próprias mãos”

Spartakus Santiago

Os cancelados têm, contudo, oportunidade de redenção. A pesquisa da Mutato indica que, em alguns casos, a prática do descancelamento também existe e está aumentando. “Ela não é efetiva se não gerar discussões e principalmente se não gerar mudanças de comportamento”, afirma Bruno Honório, analista de pesquisa e estratégia no Planilhas de Pretos e na Mutato, onde é responsável por criar estudos baseados em comportamento em redes sociais. A questão é se nossa sociedade dá espaço e tempo para que essas pessoas mudem. “Não há desconstrução do dia para a noite, é um processo diário”, comenta, citando o descancelamento de Felipe Neto como um caso efetivo que provocou transformação. No ritmo acelerado da internet, assim como o julgamento é instantâneo, o perdão pode vir de maneira igualmente automática e superficial, o que impede o crescimento e o aprendizado genuínos. Há cancelamentos tão leves e rapidamente revertidos que nem se sabe se de fato chegaram a existir. Resta identificar também quando o pedido de desculpas do cancelado é real ou apenas uma estratégia para ser aceito novamente. Inclusive, o impacto do cancelamento pode ter o resultado reverso e aumentar a fama e o número de seguidores do cancelado.

A cultura tem um efeito cascata, não só o de manada”, afirma Bruno. Ou seja, embora tenha iniciado com figuras públicas e celebridades, o fenômeno foi se desdobrando até chegar a outras camadas sociais. Isso significa que pessoas comuns também caem no tribunal da internet e podem ter suas vidas arruinadas, como foi o caso do americano filho de migrantes mexicanos Emmanuel Caffery, cujo cancelamento por conta de um gesto mal interpretado culminou na sua demissão e uma alardeada reputação de racista.

“Cancelar significa interromper uma existência. Quando uma viagem ou um evento são cancelados, eles deixam de acontecer. Isso, aplicado a pessoas no mundo não-virtual, não é possível – a não ser que você mate a pessoa”

Alice Pereira de Souza
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Kareen Sayuri/Redação

A relevância do incômodo

É importante ressaltar, no entanto, que a prática nem sempre se mostra leviana. Em 2017, o movimento #MeToo, iniciado nos Estados Unidos, por exemplo, foi essencial para denunciar homens poderosos por abusos e assédio sexual. “Há legitimidade em expor pessoas inatingíveis pela seletividade do sistema judicial ou do próprio campo cultural e simbólico”, ressalta Alice Pereira de Souza. “Nas lutas, há muitas estratégias. As mais pedagógicas e problematizadoras têm uma função importantíssima, é com elas que a gente consegue mudanças mais profundas e a longo prazo. Existem as estratégias mais de choque, de chamar a atenção. Ambas têm seus limites.” Toda prática não é boa ou ruim em si, depende das relações que ela estabelece. “Quando essa prática se banaliza, é de se questionar o quanto que, ao fazer isso, estamos reproduzindo o que queremos combater”, alerta Alice, relembrando que, no momento em que pedimos o fim da impunidade, esquecemos que o Brasil é um dos países que mais encarcera – de maneira seletiva.

“Precisamos separar os cancelamentos por questões de opinião daqueles por questões criminosas. A Cultura do Cancelamento às vezes esvazia denúncias de agressão, misoginia, xenofobia, racismo”

Bruno Honório

Para Bruno, o fenômeno surgiu com o intuito de punir, mas também de transformar comportamentos na sociedade. “Precisamos separar os cancelamentos por questões de opinião daqueles por questões criminosas. A cultura do cancelamento às vezes esvazia denúncias de agressão, misoginia, xenofobia, racismo. Essas devem ser direcionadas às autoridades responsáveis.”

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Kareen Sayuri/Redação

Dedos apontados para todos os lados

Se já houve uma época em que existia mais critério, parece que agora identificar quem é o próximo cancelado em potencial é um desafio. À primeira vista, qualquer um pode ser cancelável por algum deslize, mas há recortes interseccionais (de gênero, raça e classe) evidentes. A pesquisa da Mutato observa que, entre os 35 grandes cancelados nos últimos três anos, quem lidera a lista são homens brancos heterossexuais, seguidos de mulheres negras. “Homens brancos seguem tendo mais poder na internet e na sociedade como um todo, então, embora sejam mais cancelados, se recuperam mais facilmente, pois têm o apoio de seus pares. Diferente de mulheres negras”, sinaliza Bruno. “Quanto mais na base da pirâmide você estiver, mais destrutivo será o cancelamento.”

As nuances interseccionais foram sentidas por uma das principais porta-vozes do conceito no Brasil. Em julho, a filósofa Djamila Ribeiro foi alvo de ataques no Twitter depois de fazer um post publicitário no Instagram para a 99 (aplicativo de transporte individual). Internautas fizeram um vídeo criticando sua atitude, argumentando que ela estaria contra a greve dos motoboys e, portanto, contra a classe trabalhadora e “inimiga das empregadas domésticas”. O vídeo viralizou e se transformou numa bola de neve de cancelamento. A filósofa não só deixou o Twitter como também assinou uma representação contra a rede social ao Ministério Público Federal. Ela alega que o Twitter se tornou uma ambiente tóxico para a comunidade negra, especialmente para mulheres negras, em virtude do incômodo gerado pelo protagonismo que assumiram nos últimos anos.

Djamila afirma que é alvo de ataques tanto de conservadores quanto de progressistas, mas expressou em sua conta do Instagram que a preocupação é com a lentidão das redes sociais na ação de “derrubar perfis que espalham notícias falsas ou promovem assassinato de reputações.” Ela se uniu ao movimento Stop Hate for Profit (Pare de lucrar com o ódio, em tradução livre), uma forma de pressão para que empresas de tecnologia como Twitter e Facebook tenham uma política efetiva contra a disseminação de fake news e discursos de ódio. “Liberdade de expressão não é discurso de ódio. Liberdade de expressão não é direito absoluto.” Na dinâmica das redes sociais, os algoritmos recompensam e estimulam as polêmicas para que os usuários fiquem presos às discussões.

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No centro do fenômeno do cancelamento brasileiro também está a política, como era de se esperar. Se direita cancela esquerda e vice-versa, esgarçando ainda mais a polarização, os jovens progressistas são os campeões de cancelamento. Isso porque são cancelados não só pelos conservadores como também pelo próprio campo progressista – especialmente dentro dos movimentos identitários. Quem já teve sua carteirinha de feminista apreendida porque estava rebolando até o chão ao som de um ‘funk objetificador de mulheres’? Ou foi banido do movimento negro porque ‘palmitou’?

“Liberdade de expressão não é discurso de ódio. Liberdade de expressão não é direito absoluto”

Djamila Ribeiro

“Acredito que é possível descolar o cancelamento dos movimentos identitários, mas não dá para negar que são bolsões do comportamento”, afirma Stefanie Cirne, jornalista e produtora de conteúdo que se declara uma ex-canceladora no universo dos grupos feministas do Facebook. Segundo ela, que já chegou a participar de 15 grupos e foi moderadora do grupo Think Olga, a dinâmica se tornou o modus operandi dentro de muitas comunidades. Mergulhar no burburinho das redes era um vício que realmente me mobilizava,” discorre com detalhes num depoimento pessoal escrito em 2018 sobre sua experiência. “Lembro também da satisfação que sentia ao detectar um deslize machista em alguém ou alguma coisa, e expô-lo nos grupos para secar. Ou quando lograva uma réplica lacradora ainda que pouco substancial. Quando as curtidas e comentários começavam a contar, era preenchida pelo prazer de que sim, eu estava certa na minha problematização – e o eco da minha revolta causava uma sensação inédita de poder e retidão moral.”

“Acredito que é possível descolar o cancelamento dos movimentos identitários, mas não dá para negar que são bolsões do comportamento”

Stefanie Cirne

As coisas começaram a mudar quando, à medida que estudava mais as temáticas, mais perguntas surgiam. “Lia os comentários moderados ou com dúvidas e as pessoas eram simplesmente silenciadas. Comecei a perceber que não havia espaço para diálogo dessa forma.” Aí veio a culpa de se questionar. “Fiquei mais ou menos um ano me debatendo nessa culpa, como se eu estivesse traindo o movimento feminista”. Passada a fase, começou a ser mais seletiva nos debates e, aos poucos, foi abandonando o ativismo na internet. Hoje, Stefanie segue sendo feminista, mas já não tem medo de ter sua carteirinha confiscada. Atribui o próprio comportamento na época à falta de maturidade e ferramentas psicológicas e intelectuais. Observa, ainda, que para muitos jovens, a militância em movimentos identitários supre jornadas de autoconhecimento, mas que não devem ser encerrados em si. 

Em vídeo sobre o cancelamento, a influenciadora Nataly Nery também aponta os limites da representatividade afirmando que “há um certo endeusamento de quem a gente acha que nos representa.” Isso acaba desumanizando as pessoas, que já não podem errar. As expectativas colocadas em certas figuras são muito altas e superficiais, o que dá margem a grandes decepções.

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Esquerda x direita, conservadores x progressistas

Para entender a origem dos movimentos identitários e seu papel no debate público no Brasil, é preciso voltar às jornadas de junho de 2013. “Entre as muitas forças que estavam na ruas, estavam movimentos à esquerda da esquerda mais tradicional, assim como anti-petistas e a gestação do fascismo, que é mais fácil de se identificar”, lembra Alice. Movimentos críticos de esquerda dentro da própria esquerda são históricos e podem ser resgatados desde a Guerra Civil Espanhola, passando pelo movimentos de Direitos Civis nos Estados Unidos e Maio de 68 na França. “A esquerda mais tradicional é que tem esse desejo – para alguns, delírio – de unificação”, afirma a psicóloga.  Na esteira da ascensão dos movimentos autônomos de 2013, ocorre a derivação dos movimentos identitários como críticos de uma esquerda mais conservadora, além de uma massa politizada lutando por seu lugar na mesa. “De poucos anos pra cá, a fragmentação se acentuou”, diz Alice, que atribui o comportamento cancelador também a um certo esgotamento da militância que já está cansada de ser pedagógica. “Escuto muitas pessoas dizendo que não aguenta mais educar macho branco.” 

Há uma noção de inversão: de repente a direita é o campo em que cada um pode se expressar livremente e a esquerda é o campo que quer ditar comportamentos, como sugere também a Carta da Harper’s magazine? “A direita tem feito um ótimo trabalho pintando a esquerda como um campo doutrinador, aproveitando os tempos em que estes conceitos estão à deriva”, observa Stefanie. “Mas é preciso considerar também o espectro libertário versus conservador nesse cenário caótico. No meio disso ocorreu a guinada do bolsonarismo populista e autoritário, alinhado a uma certa irreverência tóxica, que permite que as pessoas façam e falem o que bem quiserem sem se preocuparem se ofenderam alguém”, diz a jornalista. Uma vez que na esquerda as pessoas estão mais preocupadas com o coletivo, há uma atitude mais vigilante da conduta. Acaba sendo terreno fértil para a crítica. Segundo Bruno, conservadores de direita “não cancelam tanto porque são mais individualistas, não entendem os recortes que os progressistas entendem, não querem fazê-lo e, na verdade, não estão nem aí.” Basta olhar para as últimas eleições presidenciais.

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Kareen Sayuri/Redação

As estratégias da discórdia

Como podemos, em meio a tanta vigilância, impulsionar uma atitude mais transformadora e menos violenta, sem esterilizar o debate? “Se por um lado a cultura do cancelamento levanta discussões importantes, também gera entrave do debate. Faz com que a gente não consiga reciclar nossas estratégias”, opina Stefanie. “Existe um desafio para os progressistas: sermos mais propositivos e não apenas reativos”, sugere. Provocado sobre a questão no “Mude Minha Ideia”, no canal GNT + Quebrando o Tabu, Spartakus dispara: “Entre cancelar e passar pano, tem uma coisa no meio que é o diálogo”. Para ele, é preciso seguir criticando ideias, não pessoas.

“Entre cancelar e passar pano, tem uma coisa no meio que é o diálogo”

Spartakus Santiago

Já Alice retoma um lema feminista para oferecer uma pista ao conceito de alteridade, ao invés da tão citada empatia: “Diversas porém não dispersas”, destacando a ideia de que é preciso, sim, reconhecer e acolher diferenças, sem que isso acentue a segregação. “Talvez devêssemos criticar com uma postura mais ética e não tão moral – que presume respostas fechadas e prescreve comportamentos. Na militância, temos uma grande dificuldade de nos criticarmos e sobretudo de nos cuidarmos, porque desatrelamos um do outro. Estou falando do cuidado enquanto trabalho e transformação. Um cuidado de si e do mundo – por isso, ética.” O exercício da ética é diário e parece ainda mais difícil no contexto brasileiro atual que, além de polarizado politicamente, é permeado pela lógica da arena da internet, cheia de fórmulas prontas e instantâneas. Um exercício que está mais interessado em manter o debate aceso através de perguntas, menos focado em cancelar pessoas a qualquer custo.

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