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“A rua é a Bienal dos pixadores”

Cripta Djan reflete que a ocupação do espaço público vai de encontro à lógica capitalista e que a arte urbana funciona como desobediência civil

por Beatriz Lourenço Atualizado em 4 fev 2021, 10h52 - Publicado em 3 fev 2021 22h10
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Clube Lambada/Ilustração

isseminada pelo Brasil todo, a pixação faz parte da história do país por evidenciar a disputa espacial e simbólica entre as periferias e os centros urbanos. Para começar, é preciso lembrar que os termos “pichação” e “pixação” são diferentes: o primeiro significa qualquer tipo de letra nas paredes, enquanto o segundo é o nome do movimento organizado por aqueles que têm o objetivo de ocupar a cidade.

No Brasil, as primeiras inscrições nos muros apareceram nos anos 1960. Políticas e contra a ditadura militar, as marcas geralmente eram realizadas por integrantes de organizações estudantis durante manifestações ou comícios. Frases como “abaixo a ditadura” e “terrorista é a ditadura que mata e tortura” eram as mais comuns da época. A partir dos anos 1980, essa corrente se consolidou e passou a desenvolver uma tipografia inspirada em capas de discos heavy metal, punk rock e hardcore, como KISS e Iron Maiden.

É nesse contexto que começa a aparecer o nome de Cripta Djan, um dos pixadores mais respeitados de São Paulo. Ele começou a pintar as paredes em 1996, com apenas 12 anos de idade. Ao longo de sua carreira, participou e concebeu ações que lançaram luz à importância dessa discussão. Em 2009, foi convidado a participar da exposição Né dans la rue, na fundação Cartier, em Paris, e também esteve na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, e na Bienal de Arte Contemporânea de Berlim, em 2012. Além disso, desde 2006 se dedica a documentar a produção do pixo.

“Quando pixam, as pessoas são notadas. O que vale não são os bens materiais, mas sim a qualidade das criações”

Cripta Djan

Djan acredita que o movimento representa uma luta identitária e uma forma de expressão que contesta a lógica capitalista. “Quando pixam, as pessoas são notadas. O que vale não são os bens materiais, mas sim a qualidade das criações”, explica. Ou seja, se na sociedade contemporânea um jovem adquire status por ter uma roupa de marca ou um relógio caro, no pixo o que importa é como esse indivíduo se expressa nos muros. É preciso lembrar que muitos interventores são adolescentes que, em um mundo de desigualdade social, racismo e desencontros culturais, conseguem se expressar de forma anarquista ao se apropriar do espaço urbano. “Há muitos jovens que poderiam se dar bem no campo das artes, mas não têm como pagar um curso e nem como seguir carreira. Até para ser grafiteiro exige mais investimento. Assim, eles encontram acolhimento, valorização e reconhecimento em um circuito próprio e independente como o nosso”, afirma.

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Cripta Djan/Fotografia

O papel social dos muros

Para o pixador, o papel da arte urbana é ressignificar o sentido do espaço público. “Estamos reivindicando um lugar que foi tomado pelo poder privado para que só uma minoria pudesse intervir. A história de São Paulo já é baseada em um processo de gentrificação. As pessoas estão cada vez mais construindo barreiras para distinguir as classes sociais. Aí agimos como uma resposta a isso – é a retomada da cidade pelos excluídos”.

Esse posicionamento simbólico ganha força pois, para as periferias, o acesso a espaços privilegiados, como museus, monumentos históricos, praças e parques é limitado. Na prática, quando o indivíduo escreve seu nome em uma parede, ele ressalta que sua marca está ali, mesmo sendo um ambiente que o afasta estruturalmente. A relação dos jovens com a cidade torna-se ainda mais estreita por conta dos encontros nos points. Lá, eles se reúnem para conversar, trocar as folhinhas – um tipo de autógrafo valioso entre os artistas – e distribuir convites para festas. “Os pixadores criaram seu próprio circuito artístico e a rua é o espaço de consagração e reconhecimento. Isso é uma forma de resistência, pois as pessoas que são esquecidas pela sociedade criaram um meio de valorização e memória”, declara Djan.

“Os pixadores criaram seu próprio circuito artístico e a rua é o espaço de consagração e reconhecimento. Isso é uma forma de resistência, pois as pessoas que são esquecidas pela sociedade criaram um meio de valorização e memória”

Cripta Djan
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Cripta Djan/Fotografia

Mas ainda que o pixo seja, de certa forma, político, seus integrantes agem sem apoio de qualquer movimento social. Cripta percebe, ainda, que o governo atual tem dizimado a cultura, a educação e a economia. “Nesse momento, toda classe artística está se sentindo um pouco pixadora. Não temos mais o Ministério da Cultura e está cada vez mais difícil ascender socialmente. Isso é fruto de um trabalho de emburrecer as pessoas: se as classes mais baixas tivessem acesso à educação, nunca iriam eleger esse presidente. É triste ver que, em nosso país, fomos despolitizados para que as elites entrassem no poder”.

Ainda que o protesto coletivo se destaque, há outros fatores que motivam os artistas, como o lazer e a adrenalina. Junto a isso, o desafio de transgredir as regras é o que leva a busca do indivíduo por lugares mais difíceis de acessar — consequentemente, com maior destaque e prestígio. “É uma sensação de desafio às normas da cidade, como se fosse uma desobediência civil. Você vai contra todo um sistema para fazer sua arte. Sabemos sobre a polícia violenta que está nas ruas e por isso é sempre uma missão – com consequências às vezes mortais”, conta o ativista. “Ao contrário do que pensam, a repressão não abala a gente, pelo contrário, cria um combustível que estimula a gente a pixar mais. O pixador não quer aparecer no programa da Fátima Bernardes, ele fica feliz quando aparecem xingando a gente nos jornais ou no Datena. É o que nos dá visibilidade”.

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Cripta Djan/Reprodução

Uma forma de expressão artística

O perigo é só uma parcela da profundidade do movimento, que entende a marca dos nomes como uma representação da formação do status social de um sujeito. “Criamos nosso próprio circuito artístico. A rua é a Bienal dos pixadores”, evidencia Cripta. Entretanto, ao contrário da arte legalizada, as ações feitas com spray demoraram para serem reconhecidas, até mesmo por eles próprios. “Nenhum pixador tem a intenção de sujar a cidade, ele tem intenção artística. Quando vamos nos apropriar do espaço, estamos preocupados em fazer algo bonito. Se um cara tem um pixo feio, ele é criticado”.

A performance na rua é quase como uma dança: é preciso se mover de maneira rápida e ensaiada para realizar uma intervenção. Diferenciar uma letra das outras também é fundamental, assim como criar uma harmonia com a arquitetura dos muros e prédios. Porém, o título de artista não é um consenso entre os integrantes dos grupos. Segundo Djan, isso ocorre pela falta de conhecimento entre eles sobre os conceitos de arte. “Fomos educados a entender que somos criminosos e vândalos. Se a sociedade dissesse que somo artistas, teria que pagar pelo nosso trabalho”.

“Fomos educados a entender que somos criminosos e vândalos. Se a sociedade dissesse que somos artistas, teria que pagar pelo nosso trabalho”

Cripta Djan
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Cripta Djan/Fotografia

Esse reconhecimento institucional e a transgressão são os elementos que diferenciam esse tipo de arte do graffiti, criticado pelos pixadores por se aliar aos poderes público e privado na disputa espacial. É por isso que, quando o artista pinta de forma autorizada, ganha a fama de que está contribuindo com o sistema opressor. “É muito cômodo para os grafiteiros pintarem empenas de prédios e apagarem os registros dos pixadores que tiveram muito trabalho para alcançar aquele lugar. Eles se aliam aos proprietários a fim de valorizar seus empreendimentos”, afirma o artista.

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Cripta Djan/Fotografia

Novos rumos da pixação

A pandemia de Covid-19 mudou o cotidiano de muitos moradores, fazendo com que o trabalho remoto se tornasse uma nova realidade. Dessa forma, a baixa circulação de pessoas nas ruas potencializou os trabalhos dos pixadores — que conseguem explorar mais superfícies e alcançar novas alturas. Aqueles que estavam parados também voltaram à ativa junto com as novas gerações, que chegam o tempo todo com inovações tecnológicas, mas sem deixar a tradição e o propósito de lado. “A rua está sempre em constante evolução, assim como as formas de produção. Na modalidade de escalada, por exemplo, as pessoas já estão usando cordas e equipamentos de segurança”, diz Cripta. “A pixação é uma espécie de guerrilha: a cada nova invenção (como câmeras e cercas elétricas) criamos uma forma superar e seguir com nosso trabalho”.

As ações majoritariamente masculinas também estão em um processo de evolução de gênero e superação de preconceitos. “Hoje existem mais mulheres pixadoras e isso é bom. Acredito que a pixação nunca atraiu muito o público feminino, mas elas sempre estiveram presentes em grupos menores. Num país machista e com pouca educação, é muito difícil para uma mulher virar pixadora. Mesmo assim, na história do pixo muitas se destacaram e deram conta do recado”.

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Cripta Djan/Fotografia

“Num país machista e com pouca educação, é muito difícil para uma mulher virar pixadora. Mesmo assim, na história do pixo muitas se destacaram e deram conta do recado”

Cripta Djan

Apesar da valorização da arte urbana em forma de exposições em galerias e museus, o pixo ainda está iniciando sua trajetória em espaços de consagração da arte. “Pensamos em formas de fazer uma representação do pixo no circuito das artes. O desafio é que a galera não tem uma boa condição financeira ou educacional para atuar nesse campo de conhecimento. Mesmo assim, estamos fazendo o possível para que o pixador possa ser reconhecido como artista fora das ruas”, conclui Cripta. Confira abaixo nosso bate-papo completo com ele:

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Cripta Djan/Reprodução

O que significa o pixo para você?
Ele representa várias coisas. Há alguns anos, eu não saberia explicar, mas agora é mais fácil. Ele é uma “promoção existencial” e tem um contexto identitário para quem faz. Ele demonstra o valor da existência do que as pessoas estão fazendo na rua. Com ele, você acaba se tornando uma pessoa notada. É quase como um submundo, você faz parte de uma sociedade alternativa onde o que vale não são seus bens materiais mas sim, a qualidade de seu trabalho.

No pixo, o que importa é o ser, não o ter. A condição social é irrelevante. O que vai legitimar alguém é como essa pessoa se expressa na cidade. Nos dias de hoje, isso é uma inversão de valores, já que vai na contramão da sociedade capitalista.

“Não é só rabisco. O cara não pensa “vou sujar a cidade”, como muitas pessoas acham. Ele pensa como vai fazer o pixo dele, se vai ficar bom ou não. E pixar exige técnica, habilidade e precisa praticar”

A gente expõe nosso corpo e nossa integridade física para se expressar na rua. Nessa lógica em que vivemos, faz muito sentido matar uma pessoa para defender um muro branco. Assim, o que queremos é só marcar nossa missão, dar visibilidade para a nossa arte.

Apesar de ser um movimento da periferia, as pessoas não conseguem ver a perspectiva do pixador. Nós percebemos a cidade como suporte, o que fazemos é apropriação de um espaço urbano. Quando alguém vai pixar algum lugar, a pessoa também avalia aquele “material” assim como um artista escolhe seus instrumentos quando vai criar uma obra.

Você percebe o pixo como uma forma de arte?
Sim. Não é nem só uma questão de opinião. Quando estudamos o conceito de arte percebemos que ela não é uma coisa definida. Só de falar da tipografia nas artes visuais, já colocamos o pixo nessa expressão artística até mesmo sem que o pixador saiba. Ele é aquele artista instintivo – faz a arte e não tem a dimensão do que ele está produzindo. O pixador também tem uma intenção artística. Quando vamos nos apropriar do espaço, estamos preocupados em fazer algo harmônico com a arquitetura. Também há uma crítica estética dentro do movimento. Se uma pessoa tem um pixo feio, as pessoas do movimento vão criticar. Além disso, tem a questão da originalidade. A gente não pode copiar a letra de ninguém, todo mundo tem que criar uma estética singular, mesmo que parecida, até para se diferenciar. Então além da disputa radical, há essa disputa estética.

Não é só rabisco. O cara não pensa “vou sujar a cidade”, como muitas pessoas acham. Ele pensa como vai fazer o pixo dele, se vai ficar bom ou não. E pixar exige técnica, habilidade e precisa praticar. Esse lance de fazer a expressão na rua sob pressão também exige habilidade com o corpo. Muitas vezes uma pessoa fica nas costas da outra, é preciso subir nos lugares, ficar de ponta cabeça… Não é só chegar ali e escrever o nome. Há um processo performático.

É muito diferente de pintar no ateliê, por exemplo, onde a pessoa está pintando em um ambiente controlado. Até agora já falamos de vários elementos artísticos, como a performance, a caligrafia e os processos criativos… Mas eu só fui descobrir isso depois de estudar sobre arte e contribuir para trabalhos acadêmicos.

Há um consenso entre os pixadores sobre isso? Todos consideram o pixo como arte?
Os caras não têm esse conhecimento. A gente não tem educação para isso. O pixador é educado a entender que ele é um criminoso, um vândalo, e esses são os estereótipos que somos obrigados a engolir porque se a sociedade dissesse que somos artistas, iam ter que pagar por isso. É mais fácil criminalizar do que reconhecer e valorizar.

Mas o pixador não tem esse conhecimento, assim como eu não tinha. Até mesmo o conceito de transgressão está diretamente ligado com a arte. Ele é até um fator de legitimação.

Eu vejo muitos artistas contemporâneos consagrados falando sobre isso, mas são pessoas que nunca tiraram a bunda do ateliê. Não tem um artista mais transgressor do que o pixador.

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Cripta Djan/Fotografia

O pixo tem um papel dentro da sociedade?
Eu acho que ele tem um papel fundamental na discussão sobre direito à cidade, já que ela se tornou um ambiente que só atende aos interesses do patrimônio privado. O conceito de espaço público está cada vez mais distorcido e voltado para os interesses privados.

Se a gente pedisse para pixar, por exemplo, ninguém deixaria. Vivemos em uma sociedade que está retrocedendo. É uma era das muralhas: construímos muros, grades, cerca elétrica… As pessoas estão cada vez mais construindo barreiras para distinguir as pessoas por classes.

Sempre tivemos esse lance de ser da periferia, mas pixar as regiões centrais. Isso representa um movimento de retomada de uma cidade que não foi construída para nós. Os centros urbanos não foram construídos para as pessoas de baixa renda. Inclusive, os processos de especulação imobiliária procuram retirar esses indivíduos de lá e empurrá-los para as margens.

“Hoje você é livre conforme adquire bens. Se o ‘cara’ não tem grana ele vira um prisioneiro já que não consegue pegar um ônibus, um trem ou até se alimentar direito.”

A história de São Paulo já é baseada nisso, ela começou nesse processo de gentrificação. Aí o pixo acaba sendo uma resposta: é a retomada dos excluídos que querem ocupar a cidade de alguma forma. Estamos reivindicando esse uso público da cidade. E é simplesmente um uso, não é uma apropriação definitiva daquilo. E o que é mais autoritário, o muro ou o pixo? O muro é uma intervenção privada no espaço público e o pixo é uma intervenção efêmera, estamos reivindicando aquela superfície de forma temporária.

Além disso, o pixo cuida da autoestima dessa galera da periferia que nunca ia conseguir se destacar socialmente se fosse pela questão econômica. Eles encontram uma forma de valorização da existência nesse movimento. Isso afeta a saúde mental do pessoal, eles se sentem acolhidos e reconhecidos.

Quais são suas considerações sobre o espaço urbano?
Ele deveria ser feito para atender o público heterogêneo. Mas essa o capital vem mudando e ressignificando conceitos de tudo. Não só sobre o espaço público mas também sobre o conceito de arte e liberdade. Hoje você é livre conforme adquire bens. Se o “cara” não tem grana ele vira um prisioneiro já que não consegue pegar um ônibus, um trem ou até se alimentar direito.

A arte urbana é acessível?
Os pixadores criaram seu próprio circuito artístico. A pixação é a Bienal dos pixadores. A rua é um espaço de consagração e reconhecimento desse circuito. Se um artista reconhecido internacionalmente for no “point” (ponto de encontro dos pixadores) do centro, ninguém vai saber quem é. Mas se chegar um pixador que faz uma obra legal, vai ser aclamado por todos.

Temos nosso próprio circuito de consagração, reconhecimento e glória. Nós, as pessoas que são esquecidas pela sociedade criaram seu próprio meio de valorização e memória.

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Cripta Djan/Reprodução

Como você percebe o pixo em São Paulo?
São Paulo é uma cidade ideal para o pixador, já que tem muitos muros e prédios. Ela tem tudo o que o pixador deseja. Até a forma como ela é construída, as vias que ligam até o centro são como vitrines.

Quais são os momentos mais importantes que você teve no meio da pixação?
Eu fiz parte do movimento dos escaladores e já escalei um prédio de 30 andares logo no começo da década de 2000 — eu tenho esse recorde, que foi único. A invasão da Bienal também foi importante, passamos a entender a pixação como um movimento coletivo e resgatamos uma identidade como grupo.

Também fui para Paris apresentar meu trabalho e fui aplaudido. Isso foi emocionante. Na hora pensei que sempre fui xingado na rua e naquele momento tive reações contrárias. Foi muito marcante pois foi a primeira vez que me senti prestigiado e reconhecido.

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O que você sente enquanto está pixando?
É uma sensação de desafio às normas da cidade. É uma desobediência civil, praticamente, já que você vai contra todo um sistema para fazer sua arte. Um artista, só de produzir já se sente bem. Mas quando você tem um sistema completamente capitalista e genocida é muito complicado. Sabemos sobre a polícia violenta que está nas ruas, por isso é sempre uma missão — com consequências às vezes mortais. É algo que temos que levar em consideração.

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O que você pensa sobre as pessoas que não entendem e até criticam o pixo?
Eu respeito porque ninguém é obrigado a gostar. Acho que as pessoas deveriam entender para ter uma visão mais ampla sobre o assunto. Eu já dei muitas palestras nas quais ouvi no final que as pessoas continuavam não gostando, mas agora entendiam o que significava. Isso já é bem legal.

Há uma questão social por trás do pixo. São jovens que têm um potencial artístico e que a “Belas Artes” deles são a rua. Se eles tivessem a oportunidade de estudar, seriam grandes artistas, mas a única coisa que encontraram para suprir essa necessidade de expressão foi a pixação.

“O pixador tem esse comportamento de ser ‘antiartista’ justamente porque foi educado a entender que são criminosos. A ‘arte’ que eles conhecem é algo comercial e vendido — e eles não gostam disso”

Até para ser grafiteiro é mais difícil porque eles precisam ter acesso ao material — é mais fácil comprar uma lata de tinta do que ter um arsenal de cores e técnicas. Não temos apoio nenhum do Estado, mas talento temos de sobra nas periferias, o que falta são as ferramentas.

Quais são suas considerações finais?
Um ponto importante para você ter na sua reflexão é que apesar do pixador ser artista, da pixação se enquadrar em diversos tipos de arte, os pixadores não sabem disso.

O pixador tem esse comportamento de ser “antiartista” justamente porque foi educado a entender que são criminosos. A “arte” que eles conhecem é algo comercial e vendido — e eles não gostam disso. Eles veem isso como algo do interesse do poder privado.

Como a pandemia afetou os pixadores? O que mudou nesse período?
Só potencializou nosso trabalho. Conseguimos explorar mais espaços à noite e aqueles que estavam parados há algum tempo puderam voltaram a pixar… Tudo isso pelo fato da rotina de todo mundo ter mudado durante esse período e as ruas estarem mais livres.

Como você percebe o movimento nos últimos anos? Há novas gerações chegando e ocupando espaço? Elas agregam novas ideias?
A pixação sempre mantém uma proporção: há momentos em que pouca gente pixa e outros em que há mais pessoas… A rua sempre está em constante evolução, assim como os processos de produção. As novas gerações agregam ideias porque as tecnologias vão avançando ao passar do tempo. Na modalidade de escalada, por exemplo, as pessoas já estão usando cordas! Esse é um “rolê” mais sofisticado do que o meu, que foi da primeira geração. Mesmo assim, todos os pixadores têm um processo de amadurecimento — eles começam de baixo até chegar em níveis mais avançados.

A pixação é uma espécie de guerrilha, a cada nova invenção de segurança (como câmeras e cercas elétricas) os pixadores conseguem superar e fazer seu trabalho. Ao mesmo tempo, os novos nunca deixam de lado a tradição e a base das gerações anteriores.

“O pixo é uma política autônoma das ruas. É um movimento de resistência que existe há mais de 30 anos e tem um circuito próprio, sem depender de outros”

E diante de toda a repressão que sofrem, há uma ligação dos pixadores com movimentos sociais? uma organização para participar de debates que defendem a periferia e o direito dos artistas?
Não, o pixo é uma política autônoma das ruas. É um movimento de resistência que existe há mais de 30 anos e tem um circuito próprio, sem depender de outros. Em relação à repressão, a galera está acostumada e já criou um senso de resistência. Nós funcionamos como uma luta direta com o Estado uma vez que a polícia é cada vez mais truculenta.

Ao contrário do que pensam, isso não abala a gente, pelo contrário, cria um combustível que estimula a gente a pixar mais. O pixador não quer aparecer no programa da Fátima Bernardes, ele fica feliz quando aparecem xingando a gente nos jornais ou no “Datena”. É o que dá visibilidade para o movimento.

O pixo é majoritariamente masculino, mas há diversas mulheres que estão conseguindo mais espaço e visibilidade com o tempo. Você percebe algum tipo de feminismo crescente na pixação? Há algum tipo de preconceito com as mulheres pixadoras?
Hoje existem mais mulheres pixadoras e isso é bom. Acredito que a pixação nunca atraiu muito o público feminino, mas elas sempre estiveram presentes no movimento em grupos menores. Num país machista e com pouca educação, é muito difícil para uma mulher virar pixadora já que o fato de pixar já é criminalizado.

Além disso, já tem todo um preconceito das pessoas que não fazem parte desse círculo social. Aí para elas que já sofrem fora disso, pixando é muito pior. Um momento que tira muitas delas das ruas é a maternidade. Os filhos se tornam uma grande responsabilidade e elas acabam saindo do movimento. Mesmo assim, na história do pixo muitas mulheres se destacaram e deram conta do recado.

Você já fez parceria com marca de roupas e vende sua arte para diversos lugares. Isso tira a marca transgressora do pixo? ou quando você comercializa, deixa de ser pixação?
Eu faço uma proposta diferente para esse campo mercadológico. Eu criei um trabalho com a minha identidade visual que explora o potencial criativo e é inspirado na tipografia do pixo. Mas o meu próprio, não comercializo. Para mim isso é uma questão ética com o objetivo de não banalizar as assinaturas do grupo e do coletivo. Na minha proposta, o pixo não está à venda e é da rua. Quem vende corre o risco de esvaziar de potência da luta.

As exposições de arte urbana estão crescendo ao longo do tempo, há a mostra OSGEMEOS na Pinacoteca, por exemplo. Isso abre caminhos para uma maior visibilidade da pixação como forma de arte?
Sem dúvida. Em 2008, houve a nossa invasão na Bienal; em 2009, fomos convidados pela Fundação Cartier, em Paris, para uma retrospectiva sobre a história da arte e, em 2010, participamos da Bienal como convidados… Esses três episódios abriram um campo novo para o pixador desbravar.

A partir daí, pensamos em formas de fazer uma representação do pixo no circuito das artes. O desafio é que a galera não tem uma boa condição financeira ou educacional para investir na produção e atuar nesse campo de conhecimento. No entanto, estamos fazendo o que é possível para que o pixador possa ser reconhecido como artista fora das ruas.

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Cripta Djan/Reprodução

Os pixadores estão atentos ao que acontece na política? Como você percebe o papel dela em relação aos artistas?
A política sempre afeta tudo e estamos em um momento em que toda classe artística está se sentindo um pouco pixadora. Hoje não temos o Ministério da Cultura, por exemplo, e ele foi muito importante para nós quando invadimos a Bienal e uma integrante do movimento foi presa. Nesse momento, houve um diálogo que foi essencial para o reconhecimento do pixo como parte da cultura brasileira.

No governo atual é muito difícil para o artista ascender socialmente. Mas isso é fruto de um trabalho de emburrecer as pessoas que deu certo. Se as classes mais baixas tivessem acesso à educação nunca iriam eleger esse presidente. É triste ver que, no nosso país, o lance de despolitizar as pessoas deu certo para que as elites entrassem no poder.

Qual você acha que é o papel do artista de rua no cotidiano da cidade?
É um papel de ressignificar o sentido do espaço público, que foi transformado pelo poder privado para que só uma minoria pudesse intervir. Isso aparece tanto em forma de empreendimentos imobiliários, quanto em forma de arte com a questão dos graffitis nas empenas dos prédios, por exemplo. Resumindo, aparecemos para ocupar física e simbolicamente a cidade e os centros urbanos, os quais são planejados para excluírem as periferias.

Cripta Djan

Você citou os graffitis das empenas, qual é a questão dos pixadores com isso?
O que legitima o trabalho de um pixador e de um grafiteiro nas ruas é a transgressão. Aí quando ele se alia ao poder público ou privado, não está mais fazendo parte dessa disputa. O problema surge quando um grafiteiro se diz das ruas mas se alia aos proprietários dos prédios para pintar uma empena que era toda pixada por pessoas que tiveram muito trabalho para alcançar aquele lugar. É muito cômodo para eles.

Se um graffiti foi feito de forma autorizada, deixa de ser transgressão. Essa é uma tensão que sempre existiu entre os dois movimentos. O que acontece é que o pixo não é interessante comercialmente para a cidade, já o graffiti sim e pode ser usado para valorizar novos empreendimentos, por exemplo.

CRIPTOGRAFIA URBANA_CRIPTA DJAN_LEG from NEVERLAND ESTUDIO on Vimeo.

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