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O audiovisual na era da pandemia

Uma distribuidora de sucesso do cinema nacional, uma executiva de uma grande produtora e um roteirista apontam alternativas para este momento de incertezas

por Bruna Bittencourt Atualizado em 31 ago 2020, 15h26 - Publicado em 15 jul 2020 10h21
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Clube Lambada/Ilustração

alvez nunca tenhamos assistido a tantas séries, filmes e programas de TV quanto neste período de confinamento. E, como não poderia deixar de ser, todo o segmento do audiovisual foi profundamente impactado pela pandemia, como provam a onda de reprises na TV aberta, festivais de cinema cancelados pelo mundo todo, estreias de filmes postergadas e produções interrompidas. Mas toda a crise traz, além de problemas, soluções – ou pelo menos alternativas. Elástica conversou com Silvia Cruz, à frente da Vitrine Filmes, distribuidora que lançou filmes como Bacurau e A Vida Invisível; Renata Brandão, CEO da Conspiração Filmes, uma das maiores produtoras do país; e Thiago Dottori, roteirista de longas como VIPs e Turma da Mônica: Laços, sobre os caminhos do audiovisual neste momento de tantas incertezas.

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Conspiração Filmes/Divulgação

Outras histórias

Equipes enxutas, atores que não podem se beijar, protagonizar cenas de sexo ou de festas. “É meio surreal o que vai acontecer. Algumas produções vão ser filmadas mais para frente para que cenas não sejam excluídas e o roteiro não seja alterado”, diz Silvia, da Espanha, onde conclui um mestrado em curadoria de cinema. Na Europa, conta, alguns sets já vão reabrir. “A verdade é que talvez você tenha que mudar seu filme para que ele esteja de acordo com as normas que serão impostas a um set.” Thiago conta que tem conversado com vários amigos roteiristas sobre escrever histórias mais “realizáveis”, diante das limitações que estão enfrentando.

“Para o roteirista, a grande dificuldade é criar histórias sem saber se farão sentido daqui um mês ou após o período de confinamento. Escrever sem a perspectiva de produção neste cenário incerto também é complicado, ainda que também seja uma realidade do roteirista fora da pandemia – ele nunca sabe se sua história vai chegar, de fato, ao público”, diz ele.

Enquanto isso, a Conspiração vem estudando, com sindicatos e associações, diretrizes a serem aplicadas nos sets ao fim do isolamento, para garantir a saúde de todos. Renata aponta caminhos: “Produzir com equipes menores, focar em não-ficção e, incorporar, no caso da ficção, o uso de telas nas próprias narrativas”. A executiva conta que, desde o início da quarentena, a Conspiração adotou novos modelos de trabalho. “Neste momento, temos seis salas de roteiro acontecendo remotamente. Também instalamos ilhas de edição nas casas dos nossos editores e estamos montando quatro séries e um longa-metragem.”

“Alguns caminhos possíveis são produzir com equipes menores, focar em não-ficção e incorporar, no caso da ficção, o uso de telas nas próprias narrativas”

Renata Brandão, da Conspiração Filmes
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Arthur Nobre/Divulgação

Entre as novas produções da Conspira que surgiram nesse contexto, há dois programas de não-ficção sendo gravados remotamente neste momento – um deles é Santa Ajude-se, um desdobramento do programa sobre organização Santa Ajuda (GNT) –, além da animação adulta, Os Lockdowns, criada por Claudio Torres (A Mulher Invisível), com o ator Ravel Andrade. “As leituras de roteiro são feitas por hangouts.” Já a Hysteria lançou a série A Quarentena de Cada Signo. “As reuniões de roteiro acontecem pelo Zoom e a filmagem é feita com celular de cada uma das seis atrizes convidadas.” O núcleo também está produzindo remotamente duas webséries, uma sobre futuros possíveis a partir deste “novo normal”.

O que podemos esperar, talvez, seja um maior número de documentários, já que a produção destes pode ser menos complicada neste período. “Muitos foram feitos durante a pandemia porque são equipes menores, sem interação de atores”, diz Silvia. Vale lembrar que o coronavírus também inspirou filmes. Spike Lee produziu um curta durante o isolamento, New York New York, uma homenagem à cidade, que inclui cenas de hospitais durante a pandemia. Na série da Netflix Feito em Casa, 17 cineastas do mundo todo o mundo – entre eles, o italiano Paolo Sorrentino (A Grande Beleza), o chileno Pablo Larraín (Jackie) e a atriz americana Kristen Stewart – filmaram curtas em meio ao isolamento.

Salas virtuais e drive-ins

A sala de cinema também pode ser virtual. No começo da pandemia, distribuidores se juntaram na Espanha para criar uma delas, conta Silvia. As estreias acontecem ali, os espectadores podem indicar em quais salas de cinema iriam assistir a esses filmes e a renda é compartilhada com os exibidores. “É importante nunca esquecer das salas de cinema, mesmo na estreia digital”, diz. O modelo foi adotado no Brasil pelo Cinema Virtual, uma plataforma de streaming desenvolvida por exibidores e distribuidores, que apresenta toda semana filmes inéditos e exclusivos.

Já os cinemas físicos devem retornar, com taxa de ocupação em torno de 30%, calcula Silvia – algumas salas podem não reabrir, depois de tanto tempo fechadas. No Brasil, o segmento se prepara para a reabertura das salas, ainda sem data: o Ingresso.com anunciou mapa de assentos com distanciamento social em que poltronas próximas serão bloqueadas de forma automática, além de vendas totalmente digitais de ingresso e itens de bomboniere. “As salas são realmente uma caixa preta com pessoas respirando. A gente não sabe se o público vai querer ir. Aqui na Espanha, a regra é que entre uma cadeira e outra haja dois metros de distância. Vão ter que surgir alternativas de outros espaços, ao ar livre, drive-ins.” Estes, aliás, renasceram nos EUA e em alguns pontos do Brasil. Em São Paulo, drive-ins já ocuparam o Centro de Tradições Nordestinas, o Memorial da América Latina, o Allianz Parque, a Ponte Estaiada e o Tom Brasil, entre outros locais.

Neste retorno das salas, há um receio por parte do cinema independente. “A gente entende que, quando os cinemas reabrirem, vão ter que fazer dinheiro rapidamente porque ficaram muito tempo fechados e podem preferir um cinema mais comercial, que tem um apelo maior com o público”, diz Silvia.

Festivais digitais

Entre o cancelamento de festivais pelo mundo, 21 deles – uma lista que inclui Cannes, Sundance e Berlim – uniram forças no We Are One, a Global Film Festival. Durante dez dias, entre o fim de maio e o início de junho, a iniciativa exibiu, com transmissão gratuita pelo YouTube, mais de cem filmes e conversas com importantes cineastas como Francis Ford Coppola, David Cronenberg e Alejandro Iñárritu. 

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“Um festival não acontecer é o pior cenário”, diz Silvia. Há, primeiro, a questão do patrocínio. “Muitos apoiadores são anuais, há dinheiro do governo envolvido. O cancelamento implica em devolvê-lo”, explica. Há também a longevidade do evento: “Tem festival que acontece desde 1958”. Ela acredita que o cancelamento desses eventos só aconteceu no pico da pandemia, como foi o caso de Cannes, que deveria ter ocorrido em maio, na França. “Os festivais podem ter uma exibição na sala, com poucas pessoas, e uma digital; ter debates on-line com os realizadores que não poderão estar presentes.” Silvia conta que participou recentemente de um festival francês que aconteceu inteiramente digital, incluindo os encontros de coprodução. “As pessoas se encontraram, fizeram negócios, tive várias reuniões. É muito melhor do que não ter acontecido, mas é bem diferente.” 

“As salas são realmente uma caixa preta com pessoas respirando. A gente não sabe se o público vai querer ir. Por isso, surgem alternativas de outros espaços, ao ar livre, drive-ins.”

Silvia Cruz, da Vitrine Filmes

Para os diretores, o cancelamento de um festival também não é nada positivo. “O festival representa muito para a carreira de um cineasta, para o próximo filme que ele fizer. Se Cannes não acontecer este ano, ele vai ter que esperar pelo próximo, ou vai estrear o filme em Toronto, sendo que era para estrear em Cannes. Ele tinha que ter o selo do festival, ele quer falar que teve um filme exibido em Cannes. Neste sentido, não importa se o festival foi presencial, on-line, se teve mil pessoas na sala, se teve tapete vermelho…”

Para Silvia, os festivais devem contar com menos convidados internacionais neste período. Um evento como Cannes reúne gente do mundo inteiro em uma sala de cinema, algo impensável em tempos de coronavírus. “Poderá ir quem está na cidade ou, no máximo, numa cidade vizinha. Isso pode influenciar a curadoria e ter mais filmes locais.” Na Europa, imagina-se que os festivais só contarão com europeus. Primeiro grande festival a ser realizado desde o início da pandemia, Veneza – que acontecerá entre 2 e 12 de setembro –, terá um programa menor de filmes, exibições ao ar livre e responderá várias indagações.

Estreias adiadas

Desde o início da pandemia, há pelo menos 30 filmes brasileiros que deixaram de estrear, calcula Silvia. Protagonizado por Regina Casé e dirigido por Sandra Kogut, Três Verões é um deles. A campanha de marketing foi para as ruas, houve a pré-estreia, mas veio o isolamento. Estrear diretamente no streaming, na TV paga ou aberta seriam opções, mas, aqui no Brasil, filmes feitos com apoio de leis de incentivo precisam, obrigatoriamente, ser exibidos no cinema primeiro – Três Verões teve apenas uma pré-estreia on-line em junho.

“A grande questão é: o que fazer com esses filmes?”, pergunta Silvia. “Três Verões não vai mais ter um lançamento de 80 salas. A gente não sabe como os cinemas vão reabrir, com quanto de ocupação permitida. Haverá uma concorrência muito grande, vão ter muitas outras estreias. O dinheiro da campanha, que foi ao ar, já foi gasto.” Neste mês, a Ancine autorizou o lançamento em drive-ins de filmes feitos com recursos públicos.

Silvia lembra que em países como Portugal e Espanha esta mesma regra foi invalidada neste momento de pandemia. “O cinema nacional já estava enfrentando grandes dificuldades por conta da crise da Ancine, que começou ainda em 2018. A pandemia só aumentou”, diz Thiago.

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Juan Sarmiento/Divulgação

Independentes na TV

Se os longas nacionais enfrentam barreiras, filmes internacionais podem estrear no Brasil diretamente no digital, no VOD (vídeo sob demanda), na TV paga. Foi o caso de Aeroporto Central, premiado documentário de Karim Aïnouz (A vida invisível, Praia do futuro), filmado na Alemanha, onde ele mora, com subsídio estrangeiro.

“Havia uma mentalidade de que o filme que foi direto para a TV não deu certo. Acho que depois da pandemia, o distribuidor vai escolher quais filmes vão para o cinema, porque o gasto é muito mais alto, e quais vão para outras plataformas. O cinema independente pode ganhar mais plataformas. Pode ser mais fácil para democratizar o acesso do público e também mais lucrativo”, diz Silvia. “O cinema também já não dava conta de estrear tanto filme. É um forma de repensar um modelo, o que era muito difícil. Durante um século, de certa forma, sempre foi igual.”

Em uma época de muitas reprises pela TV aberta e produções paradas, o cinema independente pode se beneficiar. “Temos falado bastante com Globo, Netflix, Telecine, Canal Brasil, todos nossos parceiros, que estão comprando o que a gente pode estrear.”

A exibição na Globo do premiado Benzinho, dirigido por Gustavo Pizzi e protagonizado por Karine Teles, em maio, em uma quarta-feira à noite, destinada à exibição de jogos de futebol, interrompidos pela pandemia, é um exemplo disso. “Foi um dos assuntos mais comentados no Twitter. É o poder da TV aberta, ainda mais em um momento como este em que está todo mundo com a TV ligada”, diz Silvia.

TikTok, games e realities

Para Renata, é hora de estar ainda mais atento às novas necessidades do público. A Conspiração, conta, gravou remotamente dois pilotos de programas de variedades para a TV sobre culinária e decoração, “temas que estão super em alta na nossa ‘nova vida’ em isolamento.”

A produtora também tem investigado outros universos – e novas oportunidades. “A popularidade do TikTok explodiu. Foram 28,8 milhões de espectadores únicos usando o aplicativo em março nos Estados Unidos. A Bloomberg informou recentemente que a plataforma está trabalhando para ampliar seu apelo e teve discussões sobre a produção de originais da própria plataforma.” Os games também podem representar um novo mercado. “Com histórias cada vez mais complexas, há uma onda de jogos narrativos. Com estruturas similares às dos roteiros de cinema e televisão, esses jogos têm como principal atrativo a interferência do jogador nos rumos dos personagens, fazendo com que cada decisão altere os eventos subsequentes.” Renata conta que a busca por realities e conteúdo de não-ficção já estava crescendo e deve aumentar no segundo semestre e nos primeiros meses de 2021. “É algo que conseguimos produzir neste momento com equipe reduzida, por exemplo, e veicular com mais agilidade — suprindo a demanda por conteúdo que as TVs e players terão com o cancelamento de filmagens maiores.” 

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