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A dualidade de um herói real

Documentário "Chorão: Marginal Alado" mostra ambas as faces de um artista que marcou sua época sendo muito em todos os âmbitos de sua vida

por Giuliana Mesquita 8 abr 2021 00h12
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Clube Lambada/Ilustração

alar sobre o Chorão é falar sobre a voz de uma geração. E eu falo com isso com a certeza de quem viveu, de perto, o sucesso do Charlie Brown Jr. no Brasil, no fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000. A banda que misturava rock, reggae, ska e pop punk californiano, criando um som completamente novo para a época, falava, de forma democrática e fácil de entender, sobre as agruras, as dores, os questionamentos e os amores de boa parte dos jovens marginalizados e igualmente sonhadores do país. Quem já foi em um show do CBJr entende a intensidade do amor de uma legião de fãs que não só se via representada pelas letras, mas pelos discursos de Alexandre Magno Abrão entre uma música e outra – apesar dos inúmero sucessos, parece que suas inquietações não cabiam nas letras que ele mesmo compunha. Era preciso extravasar, conversar, deixar seus pensamentos fluírem e tomar o mundo durante seu contato com o público.

Essa reportagem fica ainda melhor se a trilha sonora for essa playlist:

O documentário Chorão: Marginal Alado, dirigido por Felipe Novaes, é um retrato fiel e muitas vezes duro de um jovem sonhador, que veio de skate de Santos e conquistou grande parte de seus sonhos ao ser o frontman de uma das maiores bandas do país. O longa, que estreia nesta quinta-feira, 8 de abril, em cinemas e nas plataformas de streaming, é fiel porque não endeusa nem demoniza o homem à frente do Charlie Brown Jr, mas mostra a dualidade intensa entre suas qualidades e seus defeitos, ambos levados sempre às últimas consequências. “Percebi, de cara, que ele não era diferente de todos nós. A gente enxergava isso muito mais porque ele era um rockstar, mas ele é uma pessoa como todos nós, por isso foi tão fascinante retratar ele”, explica o diretor em entrevista à Elástica. “O personagem era muito rico, muito controverso. O arco dramático dele é fortíssimo: um skatista desacreditado que virou essa potência que ele virou, com todas as dificuldades, os conflitos, os ciúmes e as disputas”, completa Hugo Prata, produtor e co-roteirista do doc.

“O personagem era muito rico, muito controverso. O arco dramático dele é fortíssimo: um skatista desacreditado que virou essa potência que ele virou, com todas as dificuldades, os conflitos, os ciúmes e as disputas”

Hugo Prata
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Eduardo Biermann/Grupo Abril

Eu vim de Santos, sou Charlie Brown

Apesar de não ter nascido em Santos, Felipe Novaes se mudou para a cidade litorânea ainda criança e lá ficou até se mudar para São Paulo para cursar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero – o que fez com que a figura de Chorão estivesse muito presente na sua vida. “Eles moravam lá, então a gente via eles na rua, nas hamburguerias, nas pistas de skate. E o Chorão conseguiu captar um espírito muito santista, a mistura do caiçara com o paulistano, com um quê de Califórnia. A gente se sentia representado. Pouquíssima gente passou incólume por ele”, lembra Novaes. A ideia de produzir um documentário sobre o cantor nasceu em 2013, logo após sua morte, em março. “O que me chamou a atenção foi como a discussão estava sempre situada em dois extremos. Ou as pessoas o endeusavam ou o demonizavam. E eu queria saber o que havia por trás daquela figura tão conflituosa. Queria saber quem era aquele homem mais a fundo”, completa. 

Falar sobre uma figura tão polêmica carrega em si uma linha tênue: não mostrar os defeitos, as brigas e a violência de um homem que sempre esteve à margem da sociedade seria como não retratar parte essencial do que o fez ser quem ele é, ao mesmo tempo em que focar nesses traços dissonantes também não retratava a generosidade, o carinho com os fãs e a paixão pelos seus sonhos que o acompanhou durante toda sua carreira. Isso só foi possível por conta da extensa pesquisa e decupagem de todo um material de audiovisual feito por Felipe e sua equipe ainda no começo da montagem desse documentário. “Começamos procurando por vídeos no YouTube e pelas imagens que a gente pedia para as emissoras, mas foi quando o filho do Chorão nos forneceu quase 700 horas de filmagens caseiras que o documentário se transformou”, lembra. Desde o começo da sua carreira, o cantor fazia questão de registrar a rotina da banda em vídeos feitos por cinegrafistas jovens que os acompanhavam na estrada, nos hotéis e nos camarins – em um exercício bastante parecido em alguns pontos, mas completamente diferente em outros, com a rotina mostrada pelos artistas hoje na internet. “Não é sobre ganhar, é sobre quem domina a narrativa a ponto de controlá-la. A gente não tinha Stories no Instagram, então ele teve uma sacada muito legal de registrar a vida da banda de uma perspectiva mais pessoal, de dentro mesmo”, pontua Novaes.

“Ou as pessoas o endeusavam ou o demonizavam. E eu queria saber o que havia por trás daquela figura tão conflituosa. Queria saber quem era aquele homem mais a fundo”

Felipe Novaes

Esse retrato mais próximo do Charlie Brown Jr. fez com que fosse possível captar de perto um dos momentos mais emocionantes do documentário, quando a van da banda encosta para que Chorão fale com uma fã, a Carol, na porta de um show – e a aconselha a não comprar os CDs se ela não tivesse dinheiro. Essa cena, de apenas alguns minutos, é o retrato puro de sua personalidade: apesar de empresário da banda e de ganhar dinheiro com os direitos autorais de sua música, a proximidade com os fãs e a importância dada a eles nunca foi deixada de lado. Abro um parênteses aqui para contar que, no alto dos meus treze anos, eu tentei invadir o camarim da banda, praticamente apanhei de um segurança e fui ‘salva’ pelo próprio Chorão, que me acalmou, conversou comigo e me deixou entrar no backstage por alguns minutos. Acho que isso exemplifica e explica muito do fervor e da intensidade do amor das pessoas pela banda. Gostar dele era gostar de uma pessoa real.

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Chorão: Marginal Alado/Divulgação

O errado que deu certo

É importante lembrar o cenário do Brasil na época em que o Charlie Brown Jr. estourou. O skate e o rock ainda eram contra culturas – fortes, mas à margem da sociedade –, o que fez com que toda uma imagética de ‘pedregulho do rock’ fosse criada em torno de Chorão, imagem que ele adorava ressaltar sempre que possível. “Ele era um menino que realmente gostava de coisas mal vistas pelas pessoas, o que fazia com que os outros olhassem ele como um zé ninguém”, completa o diretor. As letras da banda falam sobre a hipocrisia de um sistema capitalista falido. Existem, sim, músicas mais pop, que falam sobre amor e foram parar nas aberturas de novelas da Globo, mas a essência do CBJr era cantar sobre essa sociedade tão desigual na qual eles estavam inseridos. Em uma passagem do documentário, Chorão fala no palco: “eu tatuei ‘Marginal Alado’ no braço porque eu tô à margem de muita coisa que eu considero hipócrita”. 

E é daí também que vem toda a violência em algumas das letras de Chorão – um homem que, apesar de não ter concluído o ensino fundamental, era culto, amava arte, cultura, música e moda, mas tinha meios não tão palatáveis de expressar suas indignações. “Mesmo a gente tendo atravessado muitos preconceitos e mudado a nossa visão, é intrigante ver como ainda ficam vestígios desses preconceitos. Como ele ainda é visto como um cara ogro, apesar de ser super inteligente. A gente tá um pouco mais aberto a entender isso hoje, já que as pautas identitárias ajudaram a gente a reaprender o arranjo semiótico que a gente sempre esteve acostumado”, completa Felipe. Essa semiótica associada à sua imagem também reforçou muitos dos comportamentos mais extremos do cantor. A imagem do homem que briga, bate boca e xinga é encorajada em uma indústria que, até hoje, ainda é composta quase que majoritariamente por homens. “Escolhemos ter a Grazi [Gonçalves, esposa do Chorão] como a única mulher entrevistada para reforçar esse dado. Ele estava cercado de homens que não foram ensinados a lidar com seus próprios sentimentos, a se fechar, a não aceitar a feminilidade. Hoje, assistindo ao filme, eu vejo que ele também fala muito dessa masculinidade tóxica que a gente discute tanto atualmente”, pontua Felipe. 

“Mesmo a gente tendo atravessado muitos preconceitos e mudado a nossa visão, é intrigante ver como ainda ficam vestígios desses preconceitos. As pautas identitárias discutidas hoje nos ajudaram a reaprender o arranjo semiótico a que a gente sempre esteve acostumado”

Felipe Novaes
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Andrea Marques/Grupo Abril

Vícios e virtudes

É impossível falar do Chorão e do documentário sem citar Champignon. O baixista, que foi apadrinhado pelo cantor e entrou na banda com apenas 12 anos, foi protagonista do CBJr e de uma das relações mais difíceis mostradas no filme – a de dois parceiros de banda que se amavam e brigavam na mesma intensidade. Em uma entrevista exclusiva após a morte do parceiro, ele fala sobre as dificuldades de convivência e o tempo que passou longe da banda apenas sete dias antes de cometer suicídio. “Eu que fiz essa entrevista e foi a mais dura. Não por nada, mas eles são treinados a falar com a imprensa. Eu perguntava uma coisa e ele começava a me responder outra. Em um momento, fui muito honesto, falei que estava adorando o papo, mas que o documentário era sobre o Chorão e que eu queria entender como se dava essas dificuldades todas na relação deles”, lembra o diretor. Vale ressaltar que, à época, saúde mental, suicídio e drogas não eram temas tão trabalhados na sociedade – e que muita coisa horrível e pouco empática foi dita sobre ambas as mortes. “A linha é muito tênue entre o sensacionalista, o piegas e o over dramático, mas aquelas mortes se conectam ao fio condutor do documentário e precisavam ser mostradas.”

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Chorão: Marginal Alado/Divulgação

”Quisemos tirar o estigma de que quem morre de overdose morre na festinha, curtindo com os amigos. A situação foi completamente oposta nesse caso. A gente tem sempre que relembrar as pessoas que não devemos resumir ninguém a partir da morte delas”

Felipe Novaes

O assunto do vício e das drogas é abordado de forma não moralista no documentário. Há um cuidado especial, segundo Felipe, em não causar um gatilho nos muitos adolescentes que hoje são fãs do Charlie Brown Jr. “Também quisemos tirar o estigma de que quem morre de overdose morre na festinha, curtindo com os amigos. A situação foi completamente oposta nesse caso”, completa. A presença e as falas de Graziela Gonçalves são de suma importância para amarrar essa história, mas vale dizer que o uso de drogas não é termômetro e nem colocado como foco no filme. Entender seus erros é entender a dimensão desse artista e de sua dualidade humana. “A gente tem sempre que relembrar as pessoas que não devemos resumir ninguém a partir da morte delas.

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Chorão: Marginal Alado/Divulgação

O preço

Após oito anos entre o começo do projeto e seu lançamento oficial nas plataformas de streaming, que acontece nesta quinta-feira, o documentário Chorão: Marginal Alado tomou distância da morte que causou reações tão exacerbadas. O tempo de maturação, apesar de necessário, também foi causado pela dificuldade de captação de dinheiro para o cinema no Brasil. “Se a gente já teve dificuldade de captar, lá atrás, hoje a cultura no país está completamente atrofiada diante do cenário desolador e de uma indústria sufocada”, explica Felipe. Em 2013, mais de 500 pessoas doaram para um crowdfunding para ajudar na montagem do documentário, confirmando que a importância e o fervor do amor pelo cantor e pela banda não mostram sinais de cansaço. 

Falar sobre Chorão hoje é falar sobre um nome que marcou sua época e a música brasileira, mas também sobre um cara no auge da sua carreira que cantava sobre política, sobre desigualdade social e sobre jovens marginalizados sem papas na língua e sem medo, apesar das amarras comerciais. Em tempos de Brasil de Bolsonaro, um artista desse tamanho com esse discurso faz falta. “O Chorão é um cara que passou a fazer sucesso pautado pelo analógico. Tinha internet, mas as redes sociais não determinavam as carreiras. Hoje em dia, tá todo mundo treinado para falar com a mídia. Faz falta o não tão amigável, um posicionamento mais assertivo, mais combativo. Lógico que a gente não advoga pelas atitudes errantes, mas tudo isso reflete em uma figura que faz falta em sentidos mais comportamentais da sociedade de hoje”. E como.

Chorão: Marginal Alado

Duração: 78 min
Estreia: 08 de abril nas plataformas NOW, Google Play, Apple TV, Vivo Play, Looke e Youtube e em alguns cinemas

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