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Casas de acolhimento são refúgios para pessoas LGBTQI+ em situação de rua

Jovens gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais são frequentemente expulsos de casa. As casas de acolhimento são portos seguros em situações assim

por Giuliana Mesquita Atualizado em 11 jun 2020, 17h58 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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Estúdio Lambada/Ilustração

colher. Esse é, de fato, o verbo mais adequado para descrever os espaços que recebem homens e mulheres, cis ou trans, da população LGBTQIA+ expulsos de casa pelas suas famílias que não aceitam sua orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Os dados não são animadores. Em tempos de ascensão do ódio, do preconceito e da violência sendo legitimados pelas falas de quem está no maior cargo de poder no país, todo cuidado é pouco. Viver na rua não é uma opção. Uma estatística divulgada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) em maio de 2019 mostra que o Brasil registra uma morte por homofobia a cada 23 horas. A FGV também divulgou que, em 2018, São Paulo e Rio de Janeiro receberam o maior número de denúncias relacionadas à população LGBT. Ainda sobre estatísticas, estamos falando do país que mais mata travestis e transexuais em todo o mundo, em estudo publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) em janeiro de 2020.

Em meio a esse caos generalizado no qual as minorias históricas vivem no Brasil, há iniciativas privadas para tentar proteger e ajudar essas pessoas que são expulsas da própria casa. Um dos espaços mais conhecidos do país é a Casa 1, fundada por Iran Giusti em 2016 na capital paulista. “Foi quando comecei a receber jovens expulsos de casa no meu apartamento mesmo. Assim que fiz a postagem disponibilizando meu sofá-cama, ela viralizou e eu recebi 52 pedidos em 24 horas”, relembra.

Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016.
Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016. Rick Andrade/Arquivo

O número alto e assustador é só uma prova da necessidade desse tipo de espaço. No mesmo ano, Giusti abriu um financiamento coletivo a fim de alugar uma casa por um ano. Na Casa 1, os moradores podem ficar por até 4 meses e são incentivados a participar dos cursos e workshops que o espaço oferece. “Temos uma dezena de atividades: bordado, canto, ioga, costura, teatro, crochê, maquiagem profissionalizante, inglês, espanhol, entre outras, além de muitas atividades pontuais”, conta. Essas atividades têm como finalidade profissionalizar os moradores e incentivar que eles atinjam a independência emocional e financeira.

“Temos uma dezena de atividades: bordado, canto, ioga, costura, teatro, crochê, maquiagem profissionalizante, inglês, espanhol, entre outras, além de muitas atividades pontuais”

Iran Giusti, fundador da Casa 1

Desde 2016, a Casa 1 já recebeu mais de 250 moradores e, hoje, conta com o Galpão Casa 1, onde acontecem essas atividades culturais. “Nossa maior dificuldade é o dinheiro. Sempre, né? Fazer assistência social no país é uma luta, o Estado cada vez menos investe neste trabalho e as poucas políticas públicas existentes estão minguando”, explica o fundador do espaço.

“O período inicial na república de acolhida da Casa 1 costuma ser intenso. É uma fase de adaptação a uma nova experiência e de convivência extrema com outros moradores que vivenciaram questões muitas vezes semelhantes. Essa identificação pode gerar momentos de solidariedade entre eles, assim como de competição e reproduções de violências vividas”, explica Lívia Santos, uma das coordenadoras da clínica social da casa. “Muitos chegam à casa com 18 anos recém-completados e iniciam vários processos durante seu período na casa, como busca pelo primeiro emprego, volta aos estudos, contato com profissionais de saúde, entre outros. Todas essas vivências podem disparar momentos de bastante ansiedade e dificuldades no convívio. Tendo isso em vista, o trabalho da equipe multifuncional que atua junto aos moradores e moradoras é no sentido de desenvolver estratégias singulares de promoção da autonomia”, completa.

Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016.
Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016. Rick Andrade/Arquivo

Ainda em 2016, também abriu as portas a Casa Florescer, focada em atender mulheres travestis e transsexuais. “Nosso espaço foi inaugurado com o objetivo de fazer uma articulação de rede, garantindo os direitos a essa população”, explica Álberto Silva, gerente de serviços da Casa. “Até hoje, passaram por aqui 282 mulheres e, deste grupo, tivemos a saída qualificada de 76, levando em consideração autonomia, emprego ou retorno à família”, pontua. A Casa Florescer conta com uma equipe de dois cozinheiros, quatro agentes operacionais, um assistente social, uma psicóloga e oito orientadores sócio-educativos – tudo para criar uma experiência não só de moradia, mas de aprendizado e saúde para as moradoras.

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Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016.
Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016. Rick Rodrigues/Arquivo

Combate à LGBTfobia

Iniciativas parecidas rolam em todo o país. Fundado em 1993 no Rio de Janeiro, o Grupo Arco-Íris é o mais antigo de combate cotidiano aos preconceitos de orientação sexual e identidade de gênero. Em sua agenda, ações para acolhimento e acompanhamento da comunidade LGBTQIA+ são apenas algumas das atividades – o grupo é também o principal organizador da Parada do Orgulho LGBT de Copacabana.

Longe dali, em Sergipe, a CasAmor, criada pela militante transfeminista Linda Brasil, fornece um espaço parecido. Inaugurada em 2017, ela se inspirou em iniciativas de sucesso, como a Casa 1. Na página de Facebook, um recado que serve para todos, em qualquer lugar do país: “Você não está sozinhx. A CasAmor existe”. A trajetória de Linda é de aplaudir de pé: além da CasAmor, ela ainda disputou o cargo de deputada estadual no Sergipe pelo PSOL e teve mais de dez mil votos, chegando perto de ser eleita.

“Até hoje, passaram por aqui 282 mulheres e, deste grupo, tivemos a saída qualificada de 76, levando em consideração autonomia, emprego ou retorno à família”

Álberto Silva, gerente da Casa Florescer

De norte a sul do país, a situação do Brasil mostra que iniciativas como essas são cada vez mais necessárias e a ajuda de todos que apoiam também. “A Casa surgiu junto com a gestão de João Doria na prefeitura e depois no Governo do Estado e passa pela entrada de Bolsonaro no Governo Federal. Os dois políticos têm trabalhado diariamente para extinguir as políticas e os avanços dos direitos humanos. Com isso, a demanda da sociedade civil têm aumentado cada vez mais”, completa Iran. Por isso, todo o apoio é imprescindível para que elas continuem a existir.

Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016.
Ilustração da série “Tudo o que não invento é falso”, 2016. Rick Rodrigues/Arquivo

Como doar:

Casa 1 (SP): Instagram / Facebook / Doações
Casa Florescer (SP): Instagram / Facebook
CasAmor (SE): Facebook / Instagram
Grupo Arco-Íris (RJ): Facebook / Instagram

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