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Mão na massa

Sensação da música popular, o pernambucano JS, o Mão de Ouro, explica porque o bregafunk é o gênero do momento

por Artur Tavares 19 jun 2020 18h52
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Clube Lambada/Ilustração

ão vasto para quem ouve, o universo do funk parece limitado a todas as pessoas que ainda tenham preconceitos com o gênero musical. Aquilo que surgiu como proibidão, uma forma de se expressar nas comunidades cariocas, evoluiu nas quase três décadas em que se consolidou como identidade nacional. Sim, grandes cantoras tiveram sua parcela na popularização o funk, mas são os produtores independentes que ainda lançam os grandes hits da cena.

Desde que o paulistano Kondzilla encontrou no funk uma mina de ouro, seu exemplo de sucesso ficou intocado. Ele era o detentor dos principais compositores, cantores, produtores de videoclipes e novos talentos da cena, uma máquina que monopolizou o gênero e o alavancou para ares nunca vistos antes. O mundo tem cerca de 8 bilhões de seres humanos, mas seu canal no YouTube já superou a marca dos 25 bilhões de views.

É de estranhar que um pernambucano venha tomando silenciosamente – nem tanto assim, para falar a verdade – o posto de grande estrela do funk nacional. Na verdade, com um twist. Com apenas 23 anos, Jonathan Santos fez o inimaginável ao misturar o brega, gênero tão querido dos nordestinos, ao produto carioca. Da terra do lendário Reginaldo Rossi, Pernambuco, ele assina suas produções musicais como JS, o Mão de Ouro, e hoje é dono de quase 50 hits, todos eles bombados no Spotify e no YouTube. Com o bregafunk, JS vem popularizando toda uma nova geração de MC’s, um movimento que inclusive começa a cruzar fronteiras e criar versões para músicas internacionais. Elástica conversou com JS sobre sua vida e sobre esses hits que ultrapassam o verão.

Para entrar no clima dessa entrevista, dê play nos hits produzidos por JS:

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Kondizilla/Divulgação

Pra começar, eu queria que você me contasse um pouco das suas origens, de como a música entrou na sua vida.
Eu vim do bairro de Jardim Paulista Baixo, uma comunidade em Recife. Tive uma infância tranquila, com pais trabalhadores que não deixavam faltar nada em casa. Minha mãe trabalhava em um salão e meu pai é pedreiro até hoje. Era uma vida sem luxo, mas bem tranquila. Também trabalhei desde cedo para ajudar nas contas, em um lava-jato e como ajudante do meu pai. E foi graças a ele que a música entrou na minha vida. Ele ficava na sala ouvindo rádio bem alto, e gostava de tudo: Reginaldo Rossi, Joe Arroyo, Zeca Pagodinho. Eles serviram de referência para mim.

Você é de Recife, um lugar que nunca teve história nacional com o ritmo do funk, até um passado bem recente. Quando você notou que o gênero estava se aproximando do brega?
Olha, em Recife já existia o funk e os bailes de comunidade, assim como no Rio e em São Paulo. Só que o som era mais local, feito pelos próprios MC’s de lá. Nos anos 2000, o funk sofria a mesma criminalização do Rio, com alguns bailes sendo proibidos. Por isso, o jeito para os MC’s continuarem vivendo da música foi juntar o funk com um som mais comercial e com uma letra mais romântica. O brega funk já existia por volta dos anos 2010. O sucesso veio em 2018, graças à internet e à atenção que as grandes gravadoras deram à nossa cultura.

“O jeito para os MC’s continuarem vivendo da música foi juntar o funk com um som mais comercial e com uma letra mais romântica”

JS, o Mão de Ouro
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Kondzilla/Divulgação

Muitos dos produtores musicais do brega e do funk são autodidatas tanto no que diz respeito ao estudo musical quanto nos programas de computador usados para fazer sintetização de sons. Como você aprendeu a fazer música?
Vendo tutorial no YouTube. Tive a sorte de nascer nesta época em que a internet já era um sucesso e que muitos produtores compartilhavam os seus trampos por ali. Eu comecei fazendo de brincadeira, montando batidas em casa e levando o laptop para a escola para os meus amigos versarem em cima. Outras vezes, levava a rapaziada para o meu quarto para passar o tempo produzindo. E, com os anos, vi que podia profissionalizar esse meu hobby. Comecei a trabalhar fazendo a produção de músicas de MC’s da minha região. E por aí foi…

Em pouco tempo de carreira, você conseguiu montar uma estrutura semelhante à dos grandes produtores americanos de rap e de uma figura bastante conhecida aqui no Brasil, o Kondzilla. Como funciona essa rede de artistas que você mantém, compõe para, participa como o “cabeça” dessa estética?
Tudo o que eu conquistei, embora tenha sido muito rápido, foi a passos de formiguinha. Comecei com um estúdio bem simples em casa e fui evoluindo, aos poucos, com o dinheiro que ganhava. O boom veio mesmo depois de ter lançado a versão brega funk de “Evoluiu”, do Kevin O Chris, que chamamos de “Hit Contagiante”. A parceria com o Felipe Original e o nome do Kevin que alavancaram o meu trabalho. Graças a essa música, consegui despertar o interesse de mais gente por essa nova batida. Hoje, consigo ser amigo dos meus ídolos de até tão pouco tempo atrás.

Aliás, falando em estética musical, o que você aponta como suas marcas registradas na hora da composição musical e das letras também?
O que eu fiz de diferencial no brega funk foi inserir o som de lata, aquela batida que marca o passinho da coreografia. Coloquei uma pegada do trap e do ragga também para misturar.

“Tudo o que eu conquistei, embora tenha sido muito rápido, foi a passos de formiguinha. Comecei com um estúdio bem simples em casa e fui evoluindo”

JS, o Mão de Ouro

Realmente, sobressalta aos ouvidos esses elementos pouco comuns na música, como sons de batidas em panelas e latidos de cachorros. Você fica prestando atenção nas coisas ao seu redor para encontrar esses detalhes que combinam e enriquecem os sons?
Eu me inspiro muito ouvindo outras músicas. Eu ouço de tudo, desde a época do meu pai. E presto atenção nos detalhes de outros estilos, como o trap e o reggaeton, que podem complementar o brega funk. O que eu faço é estudar bastante o que está em alta para pegar as referências.

O bregafunk já dá sinais de cruzar fronteiras musicais, trazer artistas de outras vertentes para participações ou mesmo começar a traçar uma caminhada para fora do Brasil, como Pabllo Vittar e Anitta fizeram?
Com certeza. As grandes gravadoras já pensam em fazer esse cruzamento. Eu mesmo recebi um convite da Warner Music Brasil para fazer um remix brega funk do hit ‘Dance Monkey’, da australiana Tones and I. Essas versões podem despertar a curiosidade de algum artista lá fora.

Tem pelo menos 45 músicas produzidas por você no Spotify, e todas elas são um sucesso estrondoso. Qual o segredo para se manter uma máquina de hits em ritmo tão acelerado?
Desde 2019, eu estou em São Paulo, depois de receber o convite da produtora Los Pantchos para vir morar aqui. Toda a estrutura que eles me proporcionam e o próprio estilo de vida corrido da capital me mantém em um ritmo intenso de produção. Eu me sinto em um parque de diversão, fazendo o que eu amo em um espaço que me dá todas as ferramentas que preciso para criar e em uma cidade que me abre portas para ideias novas.

“quando o cantor vem sem a música, eu posso apresentar algumas que eu já tenho prontas no meu computador ou, como acontece na maioria dos casos, começo a produzir uma do zero”

JS, o Mão de Ouro

Você cria suas músicas pensando já nos artistas que vão interpretá-las ou você tem uma série de produções em andamento e os músicos vão escolhendo o que tocar?
Tem vezes que os artistas já chegam com a letra pronta e eu só coloco a minha ideia em prática com a deles. Mas quando o cantor vem sem a música, eu posso apresentar algumas que eu já tenho prontas no meu computador ou, como acontece na maioria dos casos, começo a produzir uma do zero.

Tem diferenças na criação de uma música interpretada por uma mulher e outra interpretada por um homem? Como você lida com temáticas como a do sexo nesses casos?
Tem, sim. Tem letras que são de duplo sentido, outras que são mais do proibidão… não depende muito do sexo, mas, sim, do artista e do segmento em que ele está. De acordo com o público que ele ou ela quer atingir, a gente pensa no melhor jeito de compor a música.

Quem são os principais artistas que gravam suas músicas? O que você pode falar sobre eles?
O principal artista é o Thiaguinho MT, um amigo que fiz na produtora. Quando assinei o contrato com a Los Pantchos, me mudei para São Paulo e conheci esse cara incrível. Fizemos um trabalho excelente com a música “Tudo OK”, composição dele e produção minha, que gerou toda a repercussão que sabemos. Só tenho que agradecer a ele por essa parceria. Mas também tenho que falar aqui do MC Tocha, que gravei em ainda Recife, outro cara de muito talento. E a dupla Keko e Nino, duas pessoas que começaram a acreditar no meu trabalho quando eu estava começando. Esses me ajudaram a chegar onde estou, acreditaram no meu potencial e me chamaram quando eu ainda não era nada. As parcerias de hoje apareceram pelo sucesso que fiz, graças a Deus. Mas foram eles que começaram tudo.

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Kondzilla/Divulgação

Você é um cara muito jovem. O que já conseguiu alcançar com o sucesso? Realizou seus sonhos? O que ainda falta?
Eu fico muito feliz em poder fazer parcerias com novos artistas e com grandes nomes do funk hoje. Chegar em São Paulo a convite de uma grande produtora e ter o seu trabalho reconhecido é muito gratificante. O que estou com desejo agora é de gravar com artistas internacionais e com novos DJs que estão vindo no segmento do brega funk. Esses serão os meus próximos passos para realizar o meu maior sonho e objetivo de tudo isso: comprar a minha casa própria e poder ajudar a minha família e os meus amigos.

O que vem por aí na sua música ainda esse ano? Tem um planejamento bem delineado já? Qual vai ser seu próximo “hit do verão”?
Sim. Com essa quarentena, estamos pensando em cada passo que daremos daqui pra frente. Tem novo remix com a Pabllo Vittar, tem música nova com o G15, tem outro hit com o Thiaguinho MT… tenho muitas músicas finalizadas já e, em breve, elas estourarão na pista.

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