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Revolucionários de luvas

Academia Boxe Autônomo conta com alunos de todos os níveis de habilidades nas lutas: a marcial e a política

por João de Mari Atualizado em 17 jun 2020, 12h59 - Publicado em 10 jun 2020 09h49
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Clube Lambada/Ilustração

undada pelos amigos Breno Macedo, Raphael Piva e Guilherme Miranda, a academia antifascista Boxe Autônomo, que dá treinos a preço popular em São Paulo para os aficionados por lutas — a marcial e a política —, nada ficou a dever aos conselhos do movimento político criado para se opor ao regime de Benito Mussolini, na década de 1920, na Itália. “Lutar contra o machismo, a homofobia e a xenofobia significa muito para a gente, pois demonstra os princípios da nossa ação”, diz Macedo, que é um dos treinadores do projeto, elencando seus conceitos.

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Daniella Origuela/Fotografia

Macedo conheceu o movimento político no esporte quando viajou à Itália, em 2015. Ele teve contato com academias de boxe antifascista italianas, as Palestras Popolare, que serviriam de inspiração para criação do Boxe Autônomo no mesmo ano. “Minha família é do boxe, sou filho e irmão de treinadores e também já fui atleta, mas eu não tinha um engajamento político forte, embora eu já me identificasse como de esquerda”, explica.

“Tem gente que começa o projeto mal sabendo o que é direita e esquerda, que não sabe o que é fascismo, que não percebem como as violências, como machismo e o classismo, estão tão naturalizadas”

Raphael Piva, treinador do Boxe Autônomo

Quando retornou da viagem, Macedo convidou alguns amigos “politizados e lutadores”, como ele mesmo diz, para dar treinos de boxe para quem se interessasse pela modalidade. “A gente quis criar um espaço respeitando a individualidade de cada pessoa para que todos se sentissem bem, independentemente da orientação sexual, religiosa, da origem social e de qual país ela vem. E sabemos que não é dessa maneira em todo lugar. Assim como na Europa o pessoal não podia treinar em uma academia com o retrato de Mussolini na parede, por exemplo, aqui é a mesma coisa com os nossos ditadores”, destaca Macedo, referindo-se a Jair Bolsonaro.

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Daniella Origuela/Fotografia

Hoje, eles se reúnem toda semana na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo, para treinar — lutando sempre contra todas as formas de discriminação. Os treinos costumavam acontecer duas vezes por semana e contam com pessoas de diversos níveis de habilidades no boxe, na política — claro —  e de regiões diferentes da cidade. As atividades presenciais foram suspensas no início de março por conta do novo coronavírus, mas continuam virtualmente. 

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Daniella Origuela/Fotografia

“Tem gente que começa o projeto mal sabendo o que é direita e esquerda, que não sabe o que é fascismo, que não percebem como as violências, como machismo e o classismo, estão tão naturalizadas”, diz Raphael Piva, que também é treinador do Boxe Autônomo. 

Segundo ele, a decisão em manter uma mensalidade de R$ 30, muito abaixo da média das academias de artes marciais da cidade, também é política. “Lutamos contra a mercantilização do esporte. Hoje em dia, se você não tem dinheiro para praticar uma modalidade, você não é ninguém”.

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Daniella Origuela/Fotografia

De fato, ter dinheiro quando se trata de esporte é fundamental. O Brasil conquistou sua primeira medalha de ouro olímpica no boxe apenas em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, ano em que houve o maior número de investimentos da história. As expectativas, no entanto, são desanimadoras na questão de formação de esportistas, sobretudo para atletas pobres no início de carreira. Em 2018, no pós-olimpíada, o então presidente Michel Temer cortou quase metade dos beneficiários do Bolsa Atleta, que tinha como objetivo incentivar potenciais campeões a se dedicarem só aos treinos e se aproximarem do pódio de competições nacionais e internacionais. “Hoje estamos na região na central da cidade mais rica do país e vimos que atividade física é inacessível do ponto de vista econômico, apesar de constar como um direito social. É mais um dos direitos que são violados”, resume Piva.

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Daniella Origuela/Fotografia

A história política recente no mundo das artes marciais, assim como em outras áreas, tem se mostrado conservadora. Uma série de vídeos de lutadores de Artes Marciais Mistas, ou MMA, declarando apoio ao então candidato Jair Bolsonaro já circulavam pela internet, antes mesmo da campanha presidencial de 2018. Em um deles, Paulo Borrachinha, hoje atleta do Ultimate Fighting Championship, o UFC, maior liga da modalidade de artes marciais mistas do mundo, mostra uma camiseta com a foto de Bolsonaro com os dizeres “o Brasil precisa de mais justiça” e pede apoio da torcida. “O Brasil está cheio de corruptos”, disse à época. O vídeo foi publicado no Facebook pelo atual deputado federal Eduardo Bolsonaro.

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Daniella Origuela/Fotografia

“Jair Bolsonaro continua recebendo uma série de apoios públicos. Ele é quase hegemônico no meio do esporte de contato. Por esse motivo também que resolvemos criar um ambiente que foge da regra”, descreve Piva.

Parte de quem treina no Boxe Autônomo já praticava algum esporte de contato, como pode ser chamado a modalidade, mas deixou a antiga academia por não se sentir confortável com o ambiente. “Hoje, temos com a gente moradores de todas as regiões da cidade que se identificam com os valores que a gente carrega. Somos capazes de atrair pessoas que pensam semelhante, pessoas que não se deslocariam se fosse outro ambiente”, acredita Piva.

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Daniella Origuela/Fotografia

“Nas academias tradicionais, os profissionais ficavam mais interessados em xavecar as meninas do que passar um treino efetivo”

Juliana Pinheiro, aluna do Boxe Autônomo

Quem concorda é a programadora Juliana Pinheiro, 27, que vestiu as luvas do Boxe Autônomo depois de não se sentir mais confortável na antiga academia. “Os profissionais do lugar ficavam mais interessados em xavecar as meninas do que passar um treino efetivo”, diz. 

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Daniella Origuela/Fotografia

A gota d’água foram os comentários lançados por seus colegas “machões” e “bolsominions”, como ela mesma diz, não aceitando que uma mulher estivesse em um nível mais alto que o deles. “O ambiente das academias de luta, no geral, é de masculinidade excessiva e, ainda mais se você é mulher, os caras não têm humildade”, lamenta. “Os professores não me levavam a sério”. 

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Juliana iniciou os treinamentos em 2018, quando participou de uma palestra sobre o boxe como projeto social, promovida na Casa do Povo, onde acontecem as aulas. “Me interessei pelo lado político do projeto”.

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Daniella Origuela/Fotografia

Boxe na favela

O Bom Retiro nem sempre foi o bairro que abrigou o Boxe Autônomo. O projeto se instalou na Favela do Moinho, nos Campos Elíseos, em São Paulo, onde ficou por cerca de um ano em 2018. Foi assim que Kelvy Trindade Alecrim, 14, conheceu o boxe. “Comecei a fazer as aulas com meus amigos nesse dia mesmo”, relembra Alecrim, que mora na favela com sua família desde que chegou de Presidente Dutra, na Bahia.

Alecrim se interessou pela luta antifascista ao conhecer o projeto. “Antes, eu não sabia o que era fascismo, minha matéria favorita na escola é ciências”, afirmou o estudante da oitava série do ensino fundamental. “Sempre antes de começar os treinos, fazemos uma roda e conversamos. Os treinadores me explicam muitas coisas. Falamos sobre antifascismo, perguntamos e eles respondem”, diz. “Mas eu nunca perguntei nada, porque tenho vergonha”. 

“Tenho vontade de ser boxeador profissional quando crescer”

Kelvy Trindade Alecrim
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Daniella Origuela/Fotografia

Não é só a vontade de combater o fascismo, no entanto, que o Boxe Autônomo aflorou a Alecrim, que é o atual campeão paulista de boxe na categoria infantil. “Tenho vontade de ser boxeador profissional quando crescer”, diz. A luta para disputar o cinturão do bicampeonato foi desmarcada por conta da pandemia do novo coronavírus – Alecrim detém o título desde 2019. 

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Daniella Origuela/Fotografia

“Tentamos plantar uma semente na cabeça dos meninos que são invisíveis para o Estado, que convivem com a violência diariamente, e estão alheios às questões políticas. É você ver uma piada homofóbica e chamar para perguntar o motivo disso, explicar o que significa falar desse jeito”

Breno Macedo

“Tentamos plantar uma semente na cabeça dos meninos que são invisíveis para o Estado, que convivem com a violência diariamente, e estão alheios às questões políticas. É você ver uma piada homofóbica e chamar para perguntar o motivo disso, explicar o que significa falar desse jeito”, analisa Macedo quando perguntado sobre a importância do projeto para jovens das periferias da cidade. “A principal diferença dos nossos treinos acontece nos bastidores, no comportamento de quem treina com a gente, porque não adianta nada ter um treino com respeito e no grupo de WhatsApp fazer piada racista, homofóbica e xenofóbica”.

Piva reforça a ideia de que o Boxe Autônomo cria relações de amizade que vão além dos treinamentos. “Tem pessoas que militam em várias questões e que fazem parte do grupo. É um ambiente que a política está junto com o boxe”, acredita.

Ao subir de escadas os três andares até a laje da Casa do Povo, onde acontecem os treinamentos do Boxe Autônomo, é difícil não reparar nos adesivos com os dizeres “boxe antifascista” colados nas portas das salas que guardam os equipamentos. “Quem chega já percebe isso logo de início. Se não gosta muito, se afasta; quem se identifica, fica”, finaliza Piva. 

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Daniella Origuela/Fotografia

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