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Sobre ler e ser livre

À frente do Bookster, perfil literário com mais de 300 mil seguidores, Pedro Pacífico mostra a transformação que a leitura pode proporcionar

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 12 fev 2021, 11h30 - Publicado em 11 fev 2021 23h30
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Redação/Arquivo

m um cenário dominado por challenges de dança do TikTok, tutoriais de maquiagem ultra coloridos e uma vastidão de memes que só Brasil pode oferecer, Pedro Pacífico encontrou um nicho diferente para produzir conteúdo. Formado em Direito pela Universidade de São Paulo e advogado praticante, pode ser que você não o conheça pelo nome de batismo, mas seja seu fiel seguidor no Bookster, perfil literário criado por ele há quatro anos. Em um país com 11,3 milhões de analfabetos – de acordos com dados do IBGE de 2018 – e onde o hábito da leitura não é forte nem entre a elite, parece uma façanha conseguir construir uma carreira de produtor de conteúdo dentro do universo dos livros. E é. Entre resenhas feitas em vídeo no YouTube e no Instagram, além de reviews em texto que Pedro faz no site próprio e em outras plataformas especializadas no assunto, como o Skoob, o Bookster já conta com mais de 300 mil seguidores ao somarmos os números das plataformas.

“Criar conteúdo é uma responsabilidade, ocupa tempo, tem que tomar conta das parcerias, organizar calendário… isso tudo é bem puxado. Precisei entender que era uma segunda carreira para deixar mais profissional e criar uma estrutura bacana”

Além de falar sobre livros – de forma independente e também em parceria com editoras –, Pedro recentemente topou abrir mais sobre sua vida pessoal nas páginas do Bookster. Em janeiro, assumiu-se gay e reforçou um discurso importantíssimo de representatividade. O resultado da coragem e do engajamento com a causa foi o aumento do número de pessoas que o seguiam e uma leveza que, até então, ele não havia experimentado. “Demorei 27 anos para me aceitar, foi um processo de perder meus próprios preconceitos. A partir do momento que eu me aceitei, tudo ficou mais fácil. Percebi que vivia a minha vida para os outros e não queria mais perder esse tempo”, conta.

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Bookster/Divulgação

Batemos um papo com Pedro sobre o hábito da leitura, a educação no Brasil, seus papéis como advogado e criador de conteúdo e sobre o papel da representatividade em sua jornada. Olha só:

Queria começar falando sobre o surgimento do Bookster: de onde veio a vontade de falar sobre livros – no Instagram, ainda por cima? Você sempre foi um cara muito leitor ou foi um hábito adquirido?
Bookster nasceu como uma ideia não muito planejada. Pensando no Pedro leitor, eu era uma criança que gostava de ler, mas não devorava livros. Na adolescência, tive fases de ficar um tempão sem ler. Hoje vejo que isso aconteceu porque eu ficava meio sem saber como escolher, achava que os best sellers iam ser os bons, o que eu gostaria. Tinha pouco conhecimento sobre a literatura, não tinha referências – meus pais não são muito leitores, então me sentia um pouco perdido. Ninguém fala sobre livros quando a gente está crescendo. Na faculdade, entrei nas leituras técnicas e fui perdendo isso da leitura por prazer. Há uns 5 ou 6 anos, descobri que existiam perfis literários e me tornei um seguidor fiel. Comecei a entender o que é um livro comercial, qual tipo de livro me agrada mais e a importância de diversificar gêneros e temáticas na hora de escolher a leitura. A partir disso, percebi que comecei a ler mais, estava amando assuntos que eu nunca pensei em gostar, e tudo isso foi crescendo aliado a uma vontade de ter com quem compartilhar essas experiências, por isso tive a ideia de criar um perfil no Instagram. E o Bookster nasceu anônimo, porque eu tinha medo de virar blogueiro e isso impactar na minha profissão. Um amigo acabou descobrindo, aí contei pros meus amigos e pra família, e todo mundo adorou. Mesmo que no início eu evitasse associar o Bookster ao Pedro advogado, hoje essas duas figuras estão muito misturadas. Já aconteceu de eu estar no tribunal e o juiz ser meu seguidor, ou algum seguidor do Bookster que é também advogado se tornar um parceiro de negócios. São figuras que se misturam e foi libertador unir as duas coisas – ainda mais num contexto como o dessa geração mais nova, que não se importa com essas múltiplas facetas.

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Bookster/Divulgação

Falando em ser advogado, você ainda exerce a profissão, certo? É difícil conciliar essas duas vidas tão diferentes? A carreira de influenciador, que está crescendo, atrapalhou ou atrapalha em algum momento seu lado advogado?
No início, eu achava que atrapalhava, mas acho que foi mais uma questão minha. Teve uma ou outra brincadeirinha sobre ser blogueiro, mas acho que o fato de eu falar sobre livros é menos polêmico – o que tá errado, se eu quiser falar sobre moda ou qualquer outro assunto, ainda assim isso não me faria um advogado menos competente. Se alguma coisa atrapalhou foi quando o Bookster começou a me demandar mais. Aí que eu comecei a reconhecer que era um trabalho: criei uma equipe para conseguir dar conta de tudo. Criar conteúdo é uma responsabilidade, ocupa tempo, tem que tomar conta das parcerias, organizar calendário… isso tudo é bem puxado. Precisei entender que era uma segunda carreira para deixar mais profissional e criar uma estrutura bacana. Afinal, continuo trabalhando em um escritório de advocacia, onde estou há 7 anos. Comecei lá como estagiário e adoro, porque me dá estabilidade e flexibilidade para tocar os dois negócios. Se eu vou largar o direito? Hoje em dia, eu gosto, não penso em deixar de lado. o bookster está crescendo, mas eu também continuo crescendo como advogado, uma profissão que me recompensa e me remunera. Não depender financeiramente do Bookster me dá uma liberdade maior. O que me deixa com receio de pensar em largar o direito, quando eu olho a carreira de influenciador, é ser tudo novo, sabe? Não sei o que vai ser do Instagram daqui um tempo, nem se ele vai entender. A gente depende de ferramentas que são instáveis, não tem a tranquilidade do longo prazo. Quando eu tiver 50 anos, como é que vai ser? O direito me dá essa projeção de futuro

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Instagram @book.ster/Reprodução

Você falou sobre parcerias e não posso deixar de te perguntar: como você escolhe seus parceiros de publi e concilia isso com seu gosto e sua opinião?
Recebo centenas de livros e vem muita coisa que não tem nada a ver comigo. Muita coisa eu não mostro como “recebidos” – mas tem uns que, mesmo sem ser muito a minha cara, acabo mostrando quando é o próprio autor que me manda, escreve uma cartinha fofa, que eu percebo que teve muito cuidado e dedicação ali. Sobre as parcerias, ou seja, quando eu sou contratado para fazer uma resenha, isso é construído a quatro mãos. Escolho algo que tem a ver comigo, com os meus seguidores, porque precisa ser interessante para o meu público, além de ser legal para a marca. Eu deixo bem claro que a minha opinião é o que vale, independentemente da parceria ser paga ou não. O que eu faço, normalmente, é antecipar esse livro na minha lista de leitura. Meu maior ativo é minha credibilidade e minha opinião. Se eu perder isso, perco todo meu trabalho. Nunca vou deixar isso de lado por uma parceria, pagando muito ou não. 

O mercado editorial vem passando por uma crise severa e que parece só se agravar. Ao mesmo tempo, vemos no seu perfil várias parcerias com editoras – grandes ou independentes – e até marcas enormes como a Amazon. Qual é o papel da internet e de profissionais como você em uma possível retomada desse mercado?
Estamos passando por uma crise de ver as principais livrarias fechando, falindo. Acredito que essa retomada já esteja acontecendo, a quarentena mesmo alavancou a venda de livros online. Mas acho que o que motivou editoras, lojas que vendem livros, a procurar parcerias nesse meio foi começar a reconhecer os influenciadores como aliados importantes para ajudar nas vendas. Elas foram praticamente obrigadas a ver isso. O mercado editorial é muito conservador e, no que diz respeito a estratégias de venda, estava ficando obsoleto. Existe um público novo, crescente nas redes sociais, as novas gerações não têm o hábito do jornal ou da televisão para se informar. Atingir essas pessoas é pelas redes sociais. Por isso que eu, um perfil literário que incentiva as pessoas a sair das redes para ler, estou também nas redes.

“Existe um público novo, crescente nas redes sociais, as novas gerações não têm o hábito do jornal ou da televisão para se informar. Atingir essas pessoas é pelas redes sociais. Por isso que eu, um perfil literário que incentiva as pessoas a sair das redes para ler, estou também nas redes”

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Bookster/Divulgação

E que falta para o Brasil ser um país mais leitor? É claro que temos milhares de déficits na educação, mas, mesmo entre as classes mais altas, percebemos que muita gente não lê. Ao que você atribui esse comportamento?
Em paralelo ao incentivo à educação e à leitura – facilitar o acesso de livros à população carente, por exemplo, já ajudaria muito –, a gente vê que mesmo quem pode comprar livros, não lê. Um dos maiores fatores é o livro e a leitura não serem um assunto do nosso dia a dia. Você não vê, no trabalho, por exemplo, um colega puxar um assunto sobre um livro. Por conta disso, as pessoas acabam não lembrando de ler. Quando você não tem o estímulo diário, fica muito mais difícil mesmo. Não falar sobre ler é o grande vilão. Quando alguém me escreve dizendo que eu incentivei essa pessoa a ler mais, eu lembro a pessoa que eu só estou trazendo o assunto “leitura” à tona: você vai ver meus stories e vai lembrar que isso é algo que você gosta. O bom leitor não é só o que lê muitos livros, mas o que passa isso adiante, que serve de ferramenta para disseminar a leitura. O leitor tem que ter consciência desse papel dele, porque as pessoas acabam deixando isso de lado, se apegando à ideia de que a leitura é um ato solitário. Não precisa ser um perfil literário para falar que você está lendo. Você não mostra que está na academia? Mostrar o que você está lendo também vira um incentivo.

“Mesmo quem pode comprar livros, não lê. Um dos maiores fatores é o livro e a leitura não serem um assunto do nosso dia a dia. Quando você não tem o estímulo diário, fica muito mais difícil mesmo. Não falar sobre ler é o grande vilão”

Você sentiu em algum momento – ou ainda sente – uma pressão para ler mais? Sinto que essa coisa de mostrar na internet pode trazer um lado meio competitivo para isso…
No começo, posso ter sentido mais uma pressão, mas hoje eu tô tão bem resolvido com isso… É importantíssimo a gente lembrar que leitura nunca é uma competição. Não leio para impressionar ninguém, leio porque eu gosto e porque eu quero. Claro que é meu trabalho também, preciso produzir conteúdo sobre isso, mas não cedo a nenhuma pressão. Isso é tão óbvio, mas importante de falar, porque quem costuma se pressionar é o próprio leitor. Se a pressão for externa, coitada da pessoa que está me pressionando. Até pouco tempo, não tinha lido nada de Charles Dickens e as pessoas ficavam dizendo “como não?”. Vejo as pessoas sentindo vergonha de falar o que elas não leram, mas acho que a gente tem que normalizar não ter lido alguma coisa ou não gostado de algum livro, clássico ou não. Precisamos de liberdade na hora de escolher o que vamos ler.

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Existe algum truque para inserir mais a leitura no cotidiano?
A primeira dica, que é uma tecla em que eu bato muito, é tornar a leitura um hábito diário. Separar um pouquinho do tempo do seu dia, nem que sejam 10 ou 15 minutos, mas manter isso como um hábito, ter a constância. Não tem nada pior do que começar a ler um livro, super animado, aí ficar três dias sem ler porque chegou em casa cansado, por exemplo, e, quando você vai ver, não lembra muito da história, não sabe onde parou e… abandona o livro. Um dos pontos principais para ser um leitor é ler um pouquinho todo dia, acabar com essa história de que precisa ler muito. Entender o que funciona melhor para você também ajuda demais: se é melhor ler pela manhã ou à noite. Outra coisa que funciona para mim é ler mais de um livro ao mesmo tempo, porque me ajuda a melhorar o ritmo. E acho que, por mais óbvio que pareça, escolher livros que realmente te interessam. Querer ler alguma coisa só porque todo mundo está lendo costuma ser uma roubada. Acho que a gente precisa desmistificar essa regra de que livro só serve para te trazer um benefício imediato: seja de business, empreendedorismo, autoajuda, o que for. Sempre falo para as pessoas: dê uma chance para a ficção, porque isso vai te fazer aprender sobre humanidade, sobre a vida. Tirar o imediatismo da leitura – esses best sellers todos podem ser chatos, aí não é que você não gosta de ler, você só não escolheu um livro bom pra você.

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Instagram @book.ster/Reprodução

Qual foi a melhor coisa que a leitura e os livros te trouxeram?
Quando a gente pensa em leitura, é comum pensarmos nesses efeitos mais imediatos: escrever melhor, ter mais vocabulário. Para mim, isso é um efeito secundário – importante, mas secundário. O que eu aprendo muito com os livros, e é por isso que insisto em ficção e livros biográficos, é entender sobre o ser humano. É um conhecimento que vai além do técnico, do prático, é um conhecimento sobre o outro. Conhecer personagens diferentes te dá a oportunidade de se aproximar do outro, enxergar situações de uma perspectiva que não a sua. Claro, você nunca vai viver o que o outro viveu, mas a leitura te aproxima do diferente, e isso é fundamental, porque compreender o diferente é o passo que antecede o respeito. Ler para compreender o diferente e compreender para respeitá-lo. Acho que a leitura permite muito isso  é por meio dela que eu vou entrar na cabeça de um personagem que viveu em épocas e situações que eu não vivi e não tenho como viver. Li um livro sobre as mulheres da Coréia que foram usadas como prostitutas durante a invasão japonesa: eu nunca ia saber como é isso, o que elas sentiram, se não fosse esse livro. O mesmo vale para livros sobre periferias, que eu, privilegiado, nunca iria experimentar. Isso é o que mais me modificou e me modifica. 

Pensando nessas vivências que a gente não teve acesso, até por conta do tempo, o que você acha dessa onde de falar que muitas obras, do cinema à literatura, “envelheceram mal”?
É um assunto polêmico, não sei se tem uma resposta correta. Na minha crítica pessoal, vai muito de pensar que existem livros que foram escritos em determinadas épocas e refletem aquela situação, aquela realidade. Acho importante a gente não invalidar o trabalho das pessoas, mas ler ciente que aquilo pode conter falas racistas, como no caso do Monteiro Lobato. Ler tendo o senso crítico de enxergar isso, que isso esteja explícito quando você tem acesso à obra. Mas me dificulta pensar dessa forma quando falamos de autores contemporâneos que repercutem discursos racistas, xenofóbicos, homofóbicos, machistas. São pessoas com acesso às discussões que a gente tem, então fica muito mais difícil separar a obra do autor nesses casos.

“Acho importante a gente não invalidar o trabalho das pessoas, mas ler ciente que aquilo pode conter falas racistas, como no caso do Monteiro Lobato. Ler tendo o senso crítico de enxergar isso, que isso esteja explícito quando você tem acesso à obra”

Falando nisso, você se abriu sobre a sua sexualidade no Bookster e se posicionou de uma forma super bacana, falando da importância da representatividade. Como foi o retorno dos teus seguidores sobre isso?
Posso ser advogado, ter um perfil literário e posso ser gay. Essa representatividade talvez tenha faltado na minha infância e adolescência, só via gays ligados a estereótipos. Acho importante que as pessoas vejam que os gays podem ser qualquer coisa. Para mim, a questão da sexualidade, por conta de vivermos numa sociedade homofóbica, causou muito na adolescência. Vejo que muita gente tenta levar uma vida mentirosa e eu mesmo tentava levar uma vida hétero, mesmo sabendo que tinha alguma coisa “de errado”. Não me arrependo, vivi muito, tive relacionamentos bons com mulheres, mas não estava vivendo por completo. Demorei 27 anos para conseguir me aceitar: terminei um relacionamento com a minha ex-namorada, comecei a buscar minha sexualidade, experimentar, e percebi que era aquilo que eu queria pra minha vida. Foi um processo de perder meus próprios preconceitos e, a partir do momento que eu me aceitei, tudo ficou mais fácil. Percebi que vivia a minha vida para os outros e não queria mais perder esse tempo. Aconteceu tudo em 2020: contei para os meus pais, para minhas irmãs, comecei a namorar no início do ano e, no meio do ano, todas as minhas pessoas já sabiam. E eu sempre tive certeza que eu ia falar disso no Bookster, porque não era algo que eu queria esconder. É também uma forma de agradecimento, já que muito desse meu processo de aceitação veio por conta dos livros, conhecer a diversidade. Isso me ajudou MUITO. Quando você se aproxima do outro pela leitura, você passa também por um processo de autoconhecimento. Queria contar e agradecer, fazia meses que eu queria fazer isso, mas enrolei. Meus pais tinham um pouco de receio, eles sempre querem proteger a gente de um possível cenário ruim, mas eu tinha certeza. Estava tranquilo com hate e tenho haters, mas o feedback foi impressionante. Não recebi nenhuma mensagem de ódio. Perdi seguidores, mas ganhei mais do que perdi, o que reforça o quanto precisamos falar sobre isso. Senti muito amor, pessoas mandando mensagens, pessoas que passam, passaram e estão passando por isso. A quantidade de homens e mulheres que ainda vivem uma relação de fachada e sofrem diariamente… não precisava ser assim. O feedback segue sendo ótimo, não me arrependo em nada. Se eu puder incentivar outras pessoas, vou continuar falando abertamente sobre isso.

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