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Ouvindo umas verdades com bell hooks: o feminismo é para todos

A intelectual que escreve sobre o amor, feminismo, negritude, classe social, mídia, educação e faz críticas afiadas ao capitalismo, Spike Lee e Beyoncé

por Júlia de Miranda Atualizado em 15 dez 2020, 11h42 - Publicado em 14 dez 2020 23h31
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Clube Lambada/Ilustração

obra da intelectual norte-americana bell hooks tem um efeito comum e notável em muita gente: ela é arrebatadora, um chacoalhão daqueles que te deixa tonta; pouco provável que alguém leia suas escritas e permaneça num posto imutável. Vale lembrar que tal responsabilidade não é exclusiva da autora: dá trabalho pensar criticamente, assimilar, conectar com a própria realidade e estabelecer laços afetivos, e subjetivos, com as ideias de uma pensadora; precisamos estar presentes e abertos para uma leitura ativa. Tem que ter disposição quando se depara com uma mulher tipo bell hooks. Ela provoca, toca em inúmeras feridas e parte de si e do seu contexto para realizar seus estudos. Sua escrita, assim como a produção de outras intelectuais negras, salvou a minha vida (penso no salvar como a possibilidade da construção de um espaço físico e emocional seguro dentro da gente e com a comunidade que escolhemos fazer parte). É importante, e acolhedor, saber que existem mulheres produzindo conteúdo relevante, atual e de base para descolonizar o pensamento histórico dos projetos escravocrata e capitalista que restringem ainda hoje nossos corpos à sexualização e ao trabalho braçal. bell hooks sabe a importância de se defender um feminismo acessível para todo mundo (mulheres, homens e crianças), que se distancie do elitismo acadêmico a fim de se comunicar através de novas e plurais linguagens que não universalizem a nossa existência numa limitada narrativa.

Quem é, da onde surgiu e como vive Gloria Jean Watkins aka bell hooks?
Escritora, teórica feminista, professora, crítica cultural e ativista, essa senhora de 68 anos nasceu em Hopkinsville, uma cidade rural do estado de Kentucky, no sul dos Estados Unidos. Batizada Gloria Jean Watkins, adotou o nome pelo qual é conhecida em homenagem à avó paterna, uma mulher indígena, e a grafia se dá minúscula, pois segundo a própria “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”. Ao mesmo tempo em que escreve bastante, bell é uma leitora assídua e cresceu (na infância estudou em escola pública no contexto da segregação racial) sabendo que seria escritora.

Formada em literatura inglesa na Universidade de Stanford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia, bell narra que optou conscientemente por tornar-se uma intelectual e, tal busca se deu como auxílio para que ela, ainda jovem, conseguisse sobreviver à uma infância dolorosa vivida em um lar disfuncional. Criada numa comunidade segregada sulista pobre e operária, onde a educação era valorizada especialmente como um meio de mobilidade de classe, o trabalho mental (considerando que vivemos numa sociedade fundamentalmente anti-intelectual) era desvalorizado e não estimulado por não ser visto como algo útil, principalmente para mulheres negras e indivíduos de grupos marginalizados.

“O trabalho intelectual é uma parte necessária da luta pela libertação, fundamental para os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou exploradas que passariam de objeto a sujeito que descolonizariam e libertarem suas mentes”

bell hooks no texto “Intelectuais Negras”

bell seguiu firme em sua caminhada vocacional e de sagaz observadora da realidade estadunidense, marcada muitas vezes como a “negra única” nos espaços racistas, classistas e sexistas (predominantemente brancos e masculinos) das universidades, reconhecendo que antes de exigir que os outros a ouvissem, precisou ouvir a si mesma para descobrir a sua identidade.

Teórica respeitada e premiada autora de mais de trinta livros (entre eles de poesia e infantil) e diversos ensaios e artigos, é uma das vozes mais relevantes do feminismo contemporâneo ao discorrer com profundidade sobre raça, gênero e classe e às relações sociais opressivas, com destaque em temas como o amor, espiritualidade, arte, história, feminismo, masculinidade educação e mídia de massa.

Criticada por muitos, inclusive feministas brancas que não a consideravam “acadêmica o suficiente”, bell levou uma fama de má (pensamento comum de interlocutores que têm preguiça de sair da caixinha) por sua escrita radical que usa o feminismo como referência para apontar o sexismo, racismo e estereótipos desumanizastes inclusive no trabalho artístico de pessoas brancas e negras. Ela chamou atenção do cineasta Spike Lee por criar experiências confortáveis para o público branco, sem despertar a consciência dos negros que ele exibe na tela, e o álbum visual “Lemonade” da Beyoncé não foi poupado de suas análises que observou a mercantilização do “empoderamento” feminino como fonte capitalista de fazer milhares de dólares para o império da cantora. Usando a crítica em seu trabalho intelectual como poderosa ferramenta para transgredir fronteiras discursivas, bell nos ensina que criticar sem um amplo olhar interseccional e decolonial é raso e não produz incisivas reflexões.

Longe de ser um ícone pop, título que o feminismo hegemônico mainstream adora dar para intelectuais negras, reduzindo assim seus trabalhos e a importância de suas obras às superficialidades da modinha “girl power” e do politicamente correto “selo antirracista”, usado apenas nas redes sociais, mas sem práticas e leituras diárias, bell hooks demorou, entretanto foi traduzida em boa hora para o público brasileiro e pode nos proporcionar fantásticas trocas.
Fã do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, bell escreve como um ato político acreditando que a educação, o aprendizado de um pensamento crítico, o acesso de todos ao pensamento feminista e o amor podem não apenas nos ajudar a reinventar nossas histórias e existência, como também nos curar.

Para conhecer ainda mais o pensamento dessa mulher tão elucidativa, conversei com duas grandes especialistas: Rosane Borges, que é jornalista, pesquisadora colaboradora do Colabor, da ECA-USP, e doutora e mestre em Ciências da Comunicação pela USP; assinou o prefácio da edição brasileira do livro Olhares negros: raça e representação de bell hooks. E Mariléa de Almeida, doutora em história pela Unicamp realizou pesquisas na Universidade de Columbia, em Nova York, enfocando as experiências teóricas interseccionais dos feminismos negros estadunidenses entre as décadas de 1980 e 1990. É autora do prefácio da edição brasileira do livro de bell hooks Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. Confira:

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Arquivo/Divulgação

Por que o pensamento da bell hooks é relevante e tão necessário para se pensar novas práticas políticas no presente e futuro?
Rosane Borges – Porque é um pensamento atemporal e que responde as demandas, as complexidades do passado, mas também do presente e do futuro. O pensamento da bell hooks é complexo, é pluriversal, se insere numa dimensão anticapitalista, antipatriarcal, antisexista, pensa formas de sociedade emancipada, ou seja, ela traz tudo o que hoje a gente vê reeditado num mundo em termos de destituição, exclusão e desigualdade. O pensamento dela é fundamental porque como todo pensamento que é clássico, sempre oferece ferramentas pra gente pensar sobre o nosso tempo e intervir no nosso tempo e transformar o nosso tempo.

Mariléa de Almeida – bell hooks é uma das mais importantes intelectuais da atualidade. Ao lermos os seus textos, somos chacoalhados pela forma corajosa como ela se utiliza de suas experiências pessoais para produzir teorizações e criar conceitos. Trata-se de uma escrita produzida rente ao corpo. Desde a década de 1980 até os dias atuais, ela já publicou mais de 30 livros que, por meio de uma linguagem acessível, exprimem um pensamento complexo, avesso ao binarismo, ao maniqueísmo e às formulações simplistas. Uma produção que denuncia, sem subterfúgios, as atávicas conexões entre imperialismo econômico, supremacia branca e o patriarcado. Para mim, suas obras são referências incontornáveis para compreensão de como as dinâmicas de raça, classe e gênero se exprimem nas práticas culturais, acadêmicas, subjetivas e cotidianas. Sua obra articula passado, presente e futuro porque ela se vale de uma abordagem em que teoria pode ser uma prática de autorrecuperação, especialmente quando é usada para recuperarmos as partes que foram fragmentadas pelas opressões de raça, classe e gênero. Nesse processo, hooks avalia que é fundamental conhecermos nossa história, e não apenas aquelas que estão nos livros, mas, sobretudo aquelas transmitidas em nossas casas. Segundo hooks, esse processo de autorrecuperação favorece a construção de um devir que é a subjetividade negra radical, cuja construção não é moldada pela narrativa de dominação, mas ancorada em nossas existências.

“bell hooks é uma das mais importantes intelectuais da atualidade. Ao lermos os seus textos, somos chacoalhados pela forma corajosa como ela se utiliza de suas experiências pessoais para produzir teorizações e criar conceitos. Trata-se de uma escrita produzida rente ao corpo”

Mariléa de Almeida

“Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão”, essa é a definição que bell nos apresenta para a pergunta “o que é feminismo”. O posicionamento anticapitalista também norteia os caminhos da autora. Qual a importância disso em seu trabalho?
RB – Hoje em dia falamos muito sobre interseccionalidade. Embora a bell hooks não use necessariamente esse termo, acho que é fundamental porque ela já nos coloca dentro de uma dimensão abrangente macro, ou seja, as estruturas que moldam o mundo, as estruturas capitalistas, ela vai pensar essas formas de destituição o patriarcado, o sexismo, como categorias e práticas que andam juntas com a produção com o sistema capitalista. O posicionamento dela é algo que é fundamental para todas nós que queremos ver o fim do patriarcado. E falar em patriarcado é falar em capitalismo, embora nós tenhamos presente a consciência que o patriarcado ele não começa com o capitalismo, mas o capitalismo ele se apodera dessas forma de destituição já existentes para explorar e ampliar o seu raio de atuação e os seus objetivos que é a manutenção da desigualdade e da exclusão.

MA – Você tocou em um ponto que para mim é central na obra de bell hooks, mas que em geral as pessoas não falam muito. Ela é uma crítica ferrenha do capitalismo. Nos inúmeros livros que já pude ler de bell hooks, ela critica de alguma forma o imperialismo econômico, mesmo nos seus trabalhos que tratam de amor, autoestima e espiritualidade. Nessas obras, em geral, ela aproveita para denunciar a naturalização dos modos de subjetivação capitalista, construídos sob o hedonismo, a competição e o individualismo. Por isso, ela cunha o conceito “patriarcado capitalista supremacista branco imperialista” [imperialist white supremacist capitalist patriarchy], a fim de tornar visível as interconexões que sustentam a dominação e a produção de subjetividades. Subjetividade compreendida como uma construção histórica, mas também como uma criação ética do indivíduo. Para hooks, uma prática feminista que tenha compromisso com a transformação da sociedade não pode ficar restrita à ideia de igualdade baseada em oferecer às mulheres as mesmas oportunidades que os homens no mercado de trabalho. É preciso ir além do sujeito de direitos do modelo liberal. Trata-se, para ela, de transformar radicalmente as relações de poder e modos de vida. E isso passa pela crítica à opressão capitalista que historicamente tem se utilizando de subsídios raciais para sua acumulação.

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Nós, pessoas negras, somos feitas para sermos corpos faltantes. Só neste ano de 2020 muitos acontecimentos deixaram evidente tal afirmação: a morte do menino Miguel no Recife, o adolescente João Pedro assassinado durante ação policial no Rio de Janeiro, o homicídio covarde filmado de George Floyd em Minneapolis (EUA), entre muitos outros casos. A sensação que me dá é que só não enxerga a realidade aniquiladora das estruturas racistas quem não quer ou quem se beneficia dela e opta por ignorar. bell hooks defende a importância de se pensar “da margem ao centro” como uma postura emancipatória, pois o lugar da margem é o lugar da autonomia e emancipação para pessoas negras (a margem é tanto um local de repressão quanto um local de resistência). Poderia explicar com mais profundidade como isso acontece e como os edifícios teóricos da bell se aplicam nesse caso?
RB – Normalmente, a gente pensa a margem como o lugar da falta, a margem sempre está precisando ser protegida, ser cuidada. A gente tem que sair das margens. O que a gente aprende? Na margem, além da falta, da exclusão, da destituição, da pobreza e da carência, é o lugar também que a gente se insurge e constrói a nossa história de autonomia e de emancipação. Esse edifício eu acho fundamental porque o nosso caminho, não é necessariamente o caminho da margem ao centro, é bom que a gente vá ao centro, chegue até o centro. Mas se a gente não chega porque a exclusão capitalista, racista e patriarcal ela é tão cruel que ela sempre está nos expelindo da margem. Como é que a gente faz? A gente não vai viver? A gente não vai tentar ser feliz e construir a nossa história? Acho que aí que está a questão. É pensar a margem também como esse lugar difícil, mas como um lugar que a gente também refaz a nossa história, a gente busca autonomia, a gente se emancipa, a gente agencia nossas biografias e reinventa o mundo das margens. A base teórica de bell hooks nos leva pensar esse lugar não só do ponto de vista negativo, mas algo que pode acolher uma positividade do ponto de vista da nossa autonomia.

MA – Enxergar é uma escolha. Há aqueles que escolhem não enxergar porque de alguma forma se beneficiam com as hierarquias raciais. E muitas vezes isso não é um ato consciente, mas expressa como o racismo é uma racionalidade que estrutura a cognição das pessoas. Mas há aquelas pessoas oprimidas pelo racismo que escolhem não olhar porque a dor é insuportável. É aqui que a abordagem de bell hooks sobre a margem, como um espaço de abertura radical, transforma-se em uma poderosa ferramenta de resistência coletiva.

“A gente pensa a margem como o lugar da falta, a margem sempre está precisando ser protegida, ser cuidada. A gente tem que sair das margens. O que a gente aprende? Na margem, além da falta, da exclusão, da destituição, da pobreza e da carência, é o lugar também que a gente se insurge e constrói a nossa história de autonomia e de emancipação”

Rosane Borges

A defesa de hooks sobre a potencialidade de falar a partir das margens, não se trata de uma noção mítica ou romântica da marginalidade. Diz respeito de uma posição discursiva que expressa uma vivência. Essa abordagem surge de sua experiência pessoal. Ela nasceu em 1952, em Hopkinsville, uma pequena cidade segregada do estado de Kentucky, no sul dos Estados Unidos. Criada naquele ambiente, hooks percebe que a resistência negra ocorria nas margens daquela sociedade segregada. Ao circular com medo pelos espaços, ela foi aprendendo que sua sobrevivência dependia da conscientização pública e contínua sobre a separação entre a margem e o centro, bem como o reconhecimento de que nas margens as pessoas negras existiam e resistiam. Por isso, a margem para hooks é tanto um lugar da repressão como também da resistência. Ela aponta que é mais comum sermos silenciados quando falamos das margens como um espaço de resistência. Contudo, quando falamos da margem com um espaço de privação e falta, temos mais chance de sermos ouvidos porque essa narrativa reforça a ideia sobre de nossa fraqueza e inferioridade. Em sua obra, falar da dor pessoal é importante quando esse dizer está a serviço de denunciar opressões que ressoam na coletividade. Em suma, a margem para bell hooks pode ser uma posição estratégia de existência para aqueles que resistem à colonização.

O conceito de “lugar de fala” tem sido muito comentado nos últimos tempos. No livro “Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra” publicado em 1989, bell diz que o ato da fala, de “erguer a voz”, não é um mero gesto de palavras vazias, “ é uma expressão de nossa transição de objeto para sujeito – a voz liberta”. Como fazer essa transição de subalterno para um sujeito ativo que é ouvido?
RB – Essa transição só se dá numa relação dupla, fala e escuta. Ou seja, quando nós falamos, a fala supõe escuta, portanto eu digo que a escuta é uma decisão política. Essa transição se dá de um sujeito ativo, que é ouvido quando essas duas categorias vêm juntas. Nós estamos falando desde sempre, mas quase nunca nós somos escutadas, a fala pra gente é um lugar, não é apenas o lugar de fala, mas a fala como um lugar que pode nos instaurar e nos levar para lugares outros que também não são fixos. Eu acho que essa transição do subalterno se dá quando ela é de fato ouvida, quando a nossa fala importa, quando a nossa fala afeta o outro ou a outra.

MA – Em linhas gerais, o conceito lugar de fala informa que toda pessoa fala de um lugar social situado. Em recente debate público, eu levei um susto ao ler que intelectuais brancas e brancos estavam associando o conceito a uma prática de silenciamento das pessoas brancas. Costumo dizer que, enquanto usávamos a expressão lócus de enunciação, estava tudo certo, mas bastou o conceito ser popularizado por meio de um livro escrito por uma mulher negra que as pessoas se incomodaram, demonstrando que não leram o livro da Djamila Ribeiro. A fala é o tema central do livro Erguer a voz, de bell hooks. Vale lembrar que o título do livro em inglês faz uso da expressão Talking back, um verbo frasal que significa o ato de responder uma figura de autoridade, quebrando hierarquias, atrevendo-se a discordar e, às vezes, a simplesmente ter uma opinião. Então, o Erguer a voz não se refere em simplesmente dizer coisas, mas de práticas cujos conteúdos questionam a ordem vigente. Nesse trabalho, hooks mostra como estereótipos machistas e sexistas sobre as mulheres negras, descritas como barulhentas, mal educadas, autoritárias, favorecem a falsa ideia de que nós não sofremos a opressão machista do silenciamento como as mulheres brancas. Questionando essa abordagem, hooks enfatiza que, apesar de muitas mulheres negras não serem socializadas no silêncio ou mesmo para serem discretas, isso não significa dizer que nossas vozes, sobretudo aquelas que denunciavam as opressões, sejam ouvidas. hooks mostra que as hierarquias construídas sob as diferenças de raça, classe e gênero, ou seja, os “sistemas interligados de dominação”, definem não apenas quem pode, como e onde falar, mas principalmente o conteúdo desse dizer. Nessa direção fazer a transição de objeto para sujeito, diz respeito de não nos calarmos diante das opressões, mesmo correndo o risco com esse dizer. Em tempos sombrios, quando dizer a verdade tornou-se sinônimo de ganhar no grito, é preciso ter coragem e erguer a voz contra o genocídio da população negra, a transfobia, o feminicídio, o aumento da população em situação de rua, o avanço do agronegócio nos territórios indígenas e quilombolas, a criminalização dos movimentos sociais, o ataque ao conhecimento. Esse é o significado profundo do erguer a voz em bell hooks.

Durante os protestos mundiais diante do assassinato do George Floyd, uma grande onda de reivindicações também atingiu o Brasil: a retirada dos monumentos racistas, como a estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo. bell hooks nos convoca a sermos radicais e nisso surge o convite para a necessidade de tensionar ideias de representação. A socióloga Patricia Hill Collins trabalha com o conceito de “imagens de controle” que também dialoga com essa tomada de consciência que a população negra deve analisar profundamente a fim de determinar qual o nosso lugar no mundo. Se hoje vemos um maior número de pessoas negras em propagandas, programas de televisão e ocupando lentamente cargos de chefia nas empresas, percebemos que na esfera política nacional temos poucos representantes, e esse número diminui ainda mais quando se aplica às mulheres negras. Como driblar e romper com esses condicionamentos tão arraigados em práticas coloniais ainda em voga na atualidade?
RB – A gente não é reconhecido se não mudarmos os imaginários. O tema do reconhecimento supõe o tema da visibilidade e da representação. E aí eu acho que o debate George Floyd traz junto tudo isso, pois é um debate que aprofunda ainda mais as tensões entorno desse reconhecimento, ou seja, “eu sou humano (a), portanto ninguém pode me matar pela minha condição racial, gênero ou orientação sexual”, e ao mesmo tempo esse debate que é um debate limite que a vida que está em jogo, é um debate que traz em si as possibilidades da gente ver como essas vidas elas são descartáveis, como esses corpos se tornam matáveis. A gente só chega nesse estágio de mortandade porque do ponto de vista das imagens e das representações nós sempre fomos vistos como coisas, como objetos, como subalternizados. Então eu acho que driblar e romper com esses condicionamentos que tem raiz na prática colonial, é o caminho pra gente instituir, construir outro instituto para os escravizados, os herdeiros, os descendentes dos escravizados. Não acho que há outro caminho senão esse caminho, ao mesmo tempo é reconhecimento da humanidade e representação, ambas andam juntas nesse sentido.

“É imprescindível que pessoas negras estejam representadas nas instituições e nos espaços de decisão. A representação é um tema recorrente nas obras de bell hooks, mas é bom lembrar que ela faz críticas contundentes a um modelo de representação em que a negritude é transformada em mera mercadoria, cuja implicação é deixar a merda capitalista burguesa da branquitude palatável, maquiada com uma fachada inclusiva”

Mariléa de Almeida

MA – De fato, é imprescindível que pessoas negras estejam representadas nas instituições e nos espaços de decisão. A representação é um tema recorrente nas obras de bell hooks, mas é bom lembrar que ela faz críticas contundentes a um modelo de representação em que a negritude é transformada em mera mercadoria, cuja implicação é deixar a merda capitalista burguesa da branquitude palatável, maquiada com uma fachada inclusiva. Esse processo, hooks define como comodificação da negritude. Commodity é um termo da economia usado para descrever produtos de baixo valor agregado. São bens que não sofrem processos de alteração ou que são pouco diferenciados. Por que o uso da palavra commodity por bell hooks? Ela, descrevendo a experiência dos Estados Unidos, avalia que, depois dos anos 1960, o mercado cultural capturou o slogan de luta “Black is beautiful”, passando a usar diferença negra como forma de aquecer vendas. Em suma, para bell hooks a comodificação da negritude ocorre quando nossas singularidades são esvaziadas para atender aos interesses do mercado. E o que vende são representações negras estereotipadas ou aquelas que imitam os valores da branquitude.

São centenas de anos produzindo imagens sobre nós que naturalizam a violência sobre nossos corpos, representando nossas existências como disfuncionais e, portanto, não merecedoras de sermos amadas e cuidadas. Por isso, não é de estranhar que não tenha ocorrido um levante no Brasil depois de assistir pelo telejornal um homem negro sendo espancando até a morte, mas que existam manifestações contrárias à retirada do espaço público de homenagens aos escravocratas. No rastro de bell hooks, afirmo sobre a necessidade de construirmos espaços de críticas dessas práticas colonizadores, bem como fazermos circular imagens outras sobre a negritude. hooks lembra que descolonizar é um processo complexo que envolve colonizador e colonizado. Isso porque vivendo em uma sociedade dominada pelos valores da supremacia branca capitalista, é muito difícil resistir ao desejo de sermos reconhecidos nos termos do colonizador. Para isso, ela alerta que precisamos descolonizar o nosso olhar e nosso desejo, expandindo nossa imaginação e nossa criatividade.

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Colagem sobre foto Divulgação/Arquivo

“A gente não é reconhecido se não mudarmos os imaginários. O tema do reconhecimento supõe o tema da visibilidade e da representação. E aí eu acho que o debate George Floyd traz junto tudo isso, pois é um debate que aprofunda ainda mais essas tensões, ou seja, ‘eu sou humano (a), portanto ninguém pode me matar pela minha condição racial, gênero ou orientação sexual'”

Rosane Borges

No livro “Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade”, bell discorre sobre o impacto da obra do educador brasileiro Paulo Freire em sua produção. Sabemos que nos ambientes acadêmicos pouco se reconhece sobre os trabalhos de intelectuais negras. Nomes como Beatriz Nascimento, Vilma Reis, Sueli Carneiro, Nilma Lino Gomes e Lélia Gonzalez ainda não são conhecidas pelo grande público. Como se dá essa exclusão dos saberes produzidos por pessoas negras e quais são os benefícios, em sua opinião, de ter a sala de aula como uma ambiente onde o pensamento crítico e a inclusão de novos e diversos saberes são bem-vindos?
RB – A bell hooks é uma pedagoga no sentido forte do termo, ela nos conduz e nos inicia a partir da autoridade e da experiência. Esse lugar das intelectuais negras desconhecidas do grande público revela como a exclusão de saberes outros no Brasil é uma política, forma de controle para que pessoas negras elas não participem de “pensar o comum” na construção do país. O conhecimento a gente sabe que é uma forma das elites se imporem, e a gente vê como a sala de aula é um espaço importante porque nela que se diz o que é hegemônico em termos de currículo, ali que se constrói o pensamento crítico, e como é fundamental que pela educação institucionalizada, mas não só, a gente construa referências outras de tal forma que a inclusão desse saberes possa ser vista como um nexo prioritário pra gente pensar a própria educação. É fundamental que a gente tenha outros ecossistemas de saberes, é pela educação que a gente já vai tomando conhecimento do que a boa rotina do mundo, do que é normal, do que é desviante, do que é belo, do que é feio, do que é certo e do que é errado. Pensar na educação na sua concepção transgressora como prática de liberdade, é pensar como a gente ouve (fala e escuta) a voz de pessoas indispensáveis para a construção do conhecimento técnico, teórico, mas também para a nossa emancipação enquanto seres humanos.

MA – Recentemente escrevi um artigo sobre o racismo acadêmico, apontado que prática exprime uma relação de poder e materializa-se pelas escolhas epistemológicas, pela inexistência de um corpo discente e docente diverso em termos raciais e pela criação de entraves meritocráticos/burocráticos/financeiros que dificultam o acesso e/ou a permanência de pessoas negras no espaço. Muitas vozes têm denunciado o racismo acadêmico, alertando para a necessidade de descolonizar as epistemologias, incluindo na formação cursos, leituras de obras de pessoas negras, indígenas, trans, quilombolas, entre outras vozes que estiveram ausentes desses espaços. Ler bell hooks colabora para que eu observe esse movimento descolonizador com entusiasmo e desconfiança. Entusiasmo pelo fato de ser inadmissível que toda formação acadêmica continue sendo moldada pela visão de uma meia parcela de homens brancos do norte global. Desconfiança porque a distância entre o que se lê e o que se vive é uma prática corriqueira nos meios acadêmicos. Nos trabalhos de bell hooks sobre educação, ela destaca a necessidade de articularmos teoria e prática em nossas vidas, a fim de que isso ressoe em nosso cotidiano. E Paulo Freire é uma inspiração para ela. Repetidas vezes bell hooks narra como o encontro teórico com o educador brasileiro funcionou como uma espécie de epifania, especialmente quando ela se torna professora. Naquele momento, ela buscava construir práticas pedagógicas democráticas que, sem fugir dos conflitos, valorizassem a diferença e a dignidade humana. Citar e ler autoras como Beatriz Nascimento, Vilma Reis, Sueli Carneiro, Nilma Lino Gomes e Lélia Gonzalez deve servir para transformar as relações raciais vivenciadas nos espaços acadêmicos. O que aprendemos com bell hooks é que uma prática pedagógica libertadora faz da diferença um espaço de abertura e de encontro. É descolonizador porque está ancorado na promoção da dignidade humana.

Falar sobre “amor” também faz parte da seara de bell hooks. Dentro da categoria analítica de afeto (na definição do filósofo Spinoza como “aquilo que nos move”), a teórica nos convida para refletir sobre o amor na dimensão política: amor é potência e ao mesmo tempo em que me liga ao outro, pode me auxiliar na cura de feridas e numa vida mais independente e autônoma. Diante da conjuntura de Covid-19 que vivemos nesse ano e nas tantas mudanças cotidianas que nos vimos obrigados a tomar (tanto na esfera pessoal quanto coletiva), no que essa sabedoria amorosa de bell hooks pode nos provocar para se pensar no “novo normal” daqui pra frente?
RB – Em relação ao amor, que é uma categoria importante da sua produção, ela vai pensar o amor como uma força de mediação, portanto é aquilo que me vincula, é aquilo que nos cura. Eu acho que ela nos provoca inclusive a não pensar que a gente vive no “novo normal”, mas pensar que a gente vive no pós-anormal, pois não havia normalidade. Normalidade de um país que as pessoas andavam, e continuam andando, de ônibus cheio, metrô cheio feito sardinha em lata, isso não é normal. Quando a covid diz “tem que ter distância social”, quando a gente descobre que mais da metade da população brasileira não tem saneamento básico, isso não é normal. Eu acho que a sabedoria amorosa da bell hooks nos leva a gente tomar uma atitude de perplexidade em relação ao que era o mundo da produção pré-covid e dizer esse mundo ele era absolutamente anormal. E o que a gente tem no pós anormal? É tentar construir as relações humanas a partir do vínculo, a partir da solidariedade, porque também a covid suscitou em nós e o mercado da forma como o mundo estava sendo moldada, a solidariedade é uma palavra que não convinha. Com muita gente desempregada, com postos de trabalhos sendo alienados, a solidariedade se tornou uma virtude fundamental para os seres humanos. Veja, a gente tem a partir do amor, não é apenas o gostar do outro, mas essa força de mediação, esse vínculo com o outro, possibilidades da gente imaginar o outro mundo e não aquele marcado por um capitalismo desamoroso, não solidário, individualista e excludente.

“O mais importante é lembrar que, para além de tomarmos suas obras como objeto de consumo e deleite pessoal, possamos usá-las como possibilidade de encontros. E que a transformação pessoal ressoe na coletividade”

Mariléa de Almeida

MA – Vivendo em uma sociedade capitalista, dominada pela violência, falar de amor soa para muitas pessoas como um tema ingênuo. Para bell hooks, ao contrário, o amor é uma prática e não um sentimento abstrato. Ainda que até esse momento eu não tenha encontrado na obra de bell hooks referência ao trabalho de Spinoza, podemos dizer que sua abordagem sobre amor alinha-se com a filósofo, do século XVIII, já que ambos defendem que amor é um afeto que potencializa a capacidade de agir. Não por acaso, nos escritos de bell hooks amor e autoestima caminham em paralelo. Ela, valendo-se da definição de autoestima do psicólogo Nathaniel Branden, considera que autoestima é confiança na nossa capacidade de pensar, confiança em nossa habilidade de lidar com os desafios da vida e confiança em nosso direito de sermos bem sucedidos e felizes. Enfim, o sentimento de que temos valor. Logo, nos primeiros meses da pandemia, observamos como os coletivos das periferias e das favelas, antes mesmo do poder público, organizaram-se para cuidar das pessoas. Esse gesto é um gesto político de amor pelos seus e pela sua comunidade. Essa é a dimensão política e coletiva do amor que hooks explora em suas obras sobre o tema.

Finalizando, para quem quer ler bell hooks, por qual livro começar?
RB – A primeira leitura é sempre a mais difícil. Vou recomendar A teoria feminista: da margem ao centro.

MA – bell hooks é uma escritora generosa. Minha sugestão é que cada pessoa escolha um livro cujo tema esteja conectado com o seu desejo e sua necessidade de transformação. Várias obras delas, inclusive livros infantis, já foram traduzidas no Brasil. Para citar algumas: Ensinando a transgredir: educação como prática de liberdade; Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática; Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra; Anseios: raça gênero e políticas culturais; Olhares negros: raça e representação; E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e o feminismo; Teoria feminista: da margem ao centro; O feminismo é para todo mundo; Meu cabelo é de rainha; Minha dança tem história.

O mais importante é lembrar que, para além de tomarmos suas obras como objeto de consumo e deleite pessoal, possamos usá-las como possibilidade de encontros. E que a transformação pessoal ressoe na coletividade.

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