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Quem vai salvar Ubirajara?

A quem culpar pela petição de miséria na qual se encontra a maioria das obras de arte e monumentos espalhados pelas ruas de São Paulo

por Daniel Salles Atualizado em 20 jun 2020, 15h45 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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Estúdio Lambada/Ilustração

escultor paulista José Resende é um artista fora da curva. Ele obteve a façanha, por exemplo, de apoiar sobre um dique à beira do Lago Guaíba, em Porto Alegre, duas vigas de ferro de 30 metros que se projetam para o vazio. Entrelaçadas, elas formam uma passarela que conduz a lugar nenhum. Intitulada “Olhos Atentos”, a obra foi doada à capital gaúcha pela Bienal do Mercosul de 2005 e, por conta da reurbanização do entorno do Guaíba, passou a fazer parte do dia a dia da cidade.

Mas o que o destaca entre seus pares não é só sua extensa e monumental produção. É o fato de aprovar que atirem pedras em suas obras — ou pelo menos nas que se encontram em espaços públicos. Não, não é maneira de dizer. Depois de instalar uma obra no Jardim das Esculturas, em frente ao Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), no Parque do Ibirapuera, descobriu que a diversão de muitas crianças é alvejá-la. Sem título, a escultura é formada por uma placa de aço corten recortada que se sustenta como uma parede. Quando atingida por algum objeto, emite um som curioso, o que explica o inocente vandalismo da criançada. “É um uso maravilhoso, uma aproximação bem-vinda com meu trabalho que não tinha previsto”, diz ele, que no ano passado inaugurou em São José do Barreiro, a 270 quilômetros de São Paulo, um instituto que leva seu nome e concentra sua produção. “Não basta colocar uma obra na rua para ela se tornar pública. A população precisa se apropriar dela”.

“Não basta colocar uma obra na rua para ela se tornar pública. A população precisa se apropriar dela”

José Resende, artista

Já o uso que deram para a escultura dele instalada na Praça da Sé, no centro paulistano, ele provavelmente não vê com bons olhos. Dá para resumi-la como um grande quadro negro sustentado por dois pilares — ou como uma enorme tarja preta. Criada em 1979, inicialmente virou lousa para manifestações espontâneas e pichações políticas, certamente previstas por Resende. Hoje esquecida, a obra faz as vezes de varal para moradores de rua e biombo para quem precisa responder aos chamados da natureza. A instalação faz parte do Jardim das Esculturas da Sé, plantado a pedido do prefeito Olavo Egydio Setubal. Um dos donos do Itaú, o banqueiro governou a cidade entre 1975 e 1979 e decidiu repaginar a praça depois que a estação do metrô embaixo dela ficou pronta. A obra de Resende ganhou a companhia de treze outras esculturas, idealizadas por Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Felícia Leirner e Sérgio Camargo, entre outros. O atual estado delas? Não muito diferente da de Resende.

No total, cerca de 380 obras de arte e monumentos em espaços públicos pertencem à prefeitura. O item mais antigo do conjunto, repleto de bustos em homenagem aos mais variados políticos e esquecidos, é o Obelisco da Memória, que fica numa das pontas da Rua 7 de Abril, no Largo da Memória. Chamado originalmente de Pirâmide do Piques, data de 1814.

Movimento às Bandeiras, próximo ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Movimento às Bandeiras, próximo ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Fabrizio Lenci/Animação

Também faz parte do acervo, por exemplo, o Monumento à Independência, no Ipiranga, inaugurado no centenário do basta dado por Dom Pedro I em relação a Portugal. Vizinho ao Parque do Ibirapuera, o Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932, do qual a maioria dos paulistanos só conhece o obelisco de 72 metros de altura, e a estátua em homenagem a Giuseppe Verdi, que decora as escadarias que dão acesso à rua Líbero Badaró, são dois outros representantes célebres. Os mais conhecidos talvez sejam o Monumento às Bandeiras, a poucos metros do obelisco, e o indiscreto Borba Gato, em Santo Amaro, com seus treze metros e look do século XVII. Quatro anos atrás, um mês antes das eleições municipais, os dois amanheceram pichados com tinta colorida – capturados, os autores alegaram motivações ideológicas.

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“Toda obra deixada ao ar livre será afetada pela chuva, pela areia trazida pelo vento, pelos fungos e outros fatores”, diz a arquiteta Isabel Ruas, com a experiência de quem coordenou a restauração do painel de Di Cavalcanti no Teatro Cultura Artística. “Não dá para instalar e não fazer nada depois”. Segundo ela, a conservação deve ser periódica, desde que supervisionada por especialistas. “Já vi mármore de monumento público sendo lavado com água sanitária, o que é inadmissível. Era só usar sabão neutro”. Outra sugestão da arquiteta, fundadora de uma oficina especializada no restauro de mosaicos: “Não adianta recuperar um monumento e deixar o entorno abandonado. Senão, a população não se apropria dele e não se engaja para impedir que o destruam”.

Estátua do Borba Gato, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo.
Estátua do Borba Gato, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Fabrizio Lenci/Animação

A conservação do acervo municipal a céu aberto – uns dirão ao deus-dará – está a cargo do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Instituído em 1975, ele é vinculado à Secretaria Municipal de Cultura (SMC), atualmente chefiada por Alexandre Youssef. Raquel Furtado Schenkman Contier é a mandachuva do DPH. É de atribuição do órgão permitir ou não a instalação de novas esculturas nas calçadas, praças e parques da cidades – inúmeros itens do acervo foram doados à prefeitura –, restaurar o que é preciso e definir critérios e normas de limpeza. Para ajudar nessas últimas tarefas, a prefeitura criou, em 1994, na gestão de Paulo Maluf, o programa “Adote uma obra”, cujas normas foram redefinidas pelo atual prefeito, Bruno Covas, três anos atrás. A iniciativa, similar ao “Adote uma praça”, almeja convencer empresas da iniciativa privada a custear o restauro em troca de uma singela plaquinha com o registro da colaboração e a permissão para divulgar produtos nos tapumes montados durante o restauro. Graças ao programa, foram retirados do abandono, por exemplo, a réplica do avião 14 Bis, estacionada na praça Campo de Bagatelle, a escultura de Tomie Ohtake em homenagem aos 80 Anos de imigração japonesa, que rouba a cena na Avenida 23 de maio, e o Monumento às Bandeiras. Somente em 2008, o grupo Votorantim deu vida nova a trinta monumentos.

Se muitos dos contemplados pelo programa voltaram ao abandono é porque cada convênio firmado dura no máximo três anos, um período desproporcional ao descaso de parte considerável da população e à idade avançada de muitos monumentos. Hoje, só dois estão protegidos pelo “Adote uma obra” e, nos últimos cinco anos, só outros três ganharam padrinhos. “O problema é que as empresas só querem se engajar com as obras situadas em regiões de grande visibilidade, como o Ibirapuera”, diz Alice Américo, coordenadora do núcleo de monumentos e obras artísticas do DPH. “Nas localizadas em regiões afastadas, ninguém quer investir”.

“Não adianta recuperar um monumento e deixar o entorno abandonado. Senão, a população não se apropria dele e não se engaja para impedir que o destruam”

Isabel Ruas, arquiteta

Tome-se de exemplo o caso do Ubirajara. Falamos da escultura de bronze e granito instalada numa ponta do Largo Ubirajara, no bairro do Belém. Talhada pelo escultor Francisco Leopoldo e Silva (1879-1948), foi amealhada pela prefeitura em 1926 e afixada originalmente numa esquina da Avenida Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio. Em razão da ampliação da avenida, nos anos 1970, foi transferida para o atual endereço. Representa a vitória do índio Jaguarê, depois conhecido como Ubirajara, contra Pojucã, no livro clássico de José de Alencar. É de imaginar que Ubirajara, ou melhor, sua estátua, foi deixada à própria sorte. Recuperada pela prefeitura em 2008 depois de anos de negligência, não demorou a precisar de novo restauro. Em agosto de 2018, a Secretaria de Cultura publicou um edital de chamamento para empresas interessadas em custear a nova recuperação. A contrapartida oferecida, nas palavras do documento: “Durante as obras de restauro o proponente poderá instalar 4 placas indicativas, uma em cada face do tapume, e posteriormente caso haja o interesse em adotar o monumento, durante este período o proponente poderá instalar uma placa com informações relativas à cooperação (sic)”. Tentador, não?

Escultura do índio Ubirajara no bairro do Belém, em São Paulo.
Escultura do índio Ubirajara no bairro do Belém, em São Paulo. Fabrizio Lenci/Animação

Na falta de interessados em assumir a missão, a Secretaria de Cultura arcou ela mesma com os custos. Em novembro de 2018, contratou, sem licitação, a companhia Julio Moraes Conservação e Restauro, que embolsou R$ 147.500 pela empreitada. Uma manutenção constante não sairia mais em conta? Se agora a obra está a salvo das intempéries, do descaso da população e da falta da atenção dos órgãos competentes só o futuro dirá. Da próxima vez, quem vai salvar Ubirajara?

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