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Destruindo Knispel

Antiga sede das TVs Tupi e MTV, o prédio tombado na rua paulistana Alfonso Bovero sofre de descaso em suas fachadas

por Artur Tavares Atualizado em 17 jun 2020, 18h10 - Publicado em 17 jun 2020 09h52
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Lambada/Ilustração

esde que vim para a Elástica, um prédio bastante importante da arquitetura paulistana voltou a conviver com a minha rotina. Antiga sede da rádio Difusora e das emissoras de televisão Tupi e MTV, ele tem status de obra de arte devido aos dois murais feitos pelo artista alemão Gershon Knispel em sua fachada. Tombado pelo patrimônio público e aparentemente mal conservado, ele me desperta analogias curiosas com momento atual da comunicação.

O prédio que fica no número 52 da Avenida Professor Alfonso Bovero parece que foi construído sobre um cemitério indígena da comunicação brasileira. Quando toda a região de Perdizes ainda tinha horizonte no céu, foi fundada ali a Rádio Difusora, em 1934. Era uma casa que seria derrubada somente anos depois, mas que revelou nomes importantes do nosso imaginário popular, como Hebe Camargo.

Comprada 13 anos depois pelo magnata Assis Chateaubriand, a Difusora continuou existindo até os anos 1980 e, enquanto durou, disputou com unhas e dentes uma audiência enorme contra a Excelsior e a Record – que na época não era de um pastor, e tocava muito samba do bom. Chatô era malandro, viajado, e percebeu que um aparelho novo, que transmitia imagens e sons, ganharia espaço no coração dos brasileiros. Fundou a TV Tupi em 1950 e a instalou no mesmo prédio de sua rádio.

O tempo foi passando e o pioneirismo da Tupi forçou Chatô a repensar as sedes de suas empresas de comunicação. Maravilhado pelo trabalho do arquiteto paranaense David Libeskind no Conjunto Nacional, inaugurado na Avenida Paulista em 1955, ele convidou o paulistano Gregorio Zolko para tirar seu prédio do papel. Formado em Chicago e fortemente influenciado por Ludwig Mies van der Rohe e Frank Lloyd Wright, ele levantou um colosso de concreto que serve de sustentação para uma grande antena de transmissão, algo digno do poder de Chateaubriand, em 1960.

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Fabrizio Lenci/Animação

E como concreto aparente é um troço feio pra cacete, Chatô e Zolko decidiram realizar um concurso para encontrar artistas que interfeririam na fachada do prédio. Alemão de ascendência judia que fugiu do nazismo e foi viver na Palestina ainda criança, presenciando a fundação do estado de Israel, Knispel já era um grande nome do realismo artístico soviético quando conquistou os corações do empresário e do arquiteto.

Knispel teve a ideia de retratar cenas da vida dos indígenas em dois mosaicos na fachada, um acima da entrada e outro na parede ao lado. Pode soar como ideia de aluno de publicidade quando ouve que o cliente precisa de algo para uma emissora que tem o nome de uma etnia brasileira nativa, mas isso tinha tudo a ver em uma época em que os grandes monumentos paulistanos ainda homenageavam bandeirantes mártires de revoluções integralistas, enquanto artistas como Di Cavalcanti e muitos outros modernistas tentavam cravar uma nova (e menos europeia) identidade nacional.

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Fabrizio Lenci/Animação

Com o golpe militar, Knispel fugiu do Brasil em 1964 e se exilou na cidade israelense de Haifa. A própria Tupi sofreu com incêndios criminosos nos primeiros anos de chumbo, e viu seu prestígio e poder econômico caírem vertiginosamente com o apoio dos concorrentes, até ter sua concessão cassada em 1981.

Não demorou muito até a Editora Abril decidir trazer a MTV para o Brasil. Eu era uma criança quando a emissora começou por aqui, em 1990, marcando toda uma geração por ser feita para jovens e com uma proposta única: transmitir música e falar sobre ela durante 24 horas por dia. Seria mentira e uma licença poética bem idiota dizer que aquele momento me influenciou para sempre, mas as coincidências da vida me levaram até um curto período de trabalho por lá muitos anos depois. Foi aí que conheci a história do prédio em primeiro lugar.

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Isso já faz uma década, e de lá para cá tanto o jornalismo quanto o prédio entraram numa pior. A internet devorou a MTV, que, na tentativa de se renovar, acabou deixando a qualidade de lado para falar com uma garotada emo nada a ver. Da mesma maneira, a rede mundial de computadores engoliu a comunicação. As televisões e o rádio perderam avassaladoramente suas audiências, enquanto os jornais e as revistas em papel tornaram-se mais obsoletas do que locadoras de videocassetes. E isso me causa melancolia toda vez que passo por lá. Porque aquele prédio tão bonito representa, para mim, o descaso que nosso poder público e nossa sociedade lidam com questões importantes.

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Fabrizio Lenci/Animação

A primeira delas é a conservação do espaço em si. Embora o tombamento seja público, é de responsabilidade dos atuais donos do prédio a manutenção – que aparentemente não é bem realizada. E, se ninguém está usando o espaço atualmente, porque não tornar o prédio em um museu dedicado às telecomunicações, ou então algo aos moldes do MIS (Museu da Imagem e do Som)? Afinal de contas, trata-se de um lugar bastante central da cidade, próximo de uma estação de metrô, de restaurantes e bares descolados das regiões da Pompeia e da Vila Madalena.

O segundo problema tem a ver com a preservação das identidades indígenas nativas brasileiras, principalmente quando o ano começou com o presidente falando que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”, bem como a preservação do legado de Knispel, uma história que por si só é enredo perfeito para fake news: “judeu comunista que fugiu do nazismo, morou na Palestina, e queria implantar o realismo soviético no Brasil pré-‘intervenção’ militar de 64.”

E, por fim, há o desafio da comunicação. Começamos a década de 20 desiludidos. Acreditávamos que a internet nos daria mais público, que abriríamos um leque de acesso a conteúdo jornalístico de qualidade para o país, mais diverso e menos centralizado no eixo Rio/São Paulo. O que aconteceu, no entanto, foi o surgimento de vozes que entendiam melhor como manipular algoritmos para ganhar audiência, com táticas menos éticas do que as regras que seguimos (ou que deveríamos seguir) na nossa profissão.

Mesmo assim, me anima saber que aquele prédio estará todo dia no meu caminho, pelo menos o tempo todo em que esse lance com a Elástica rolar. Porque tenho certeza que ainda vou vê-lo em tempos melhores do que os atuais, e que isso será reflexo de um cuidado maior com o funcionamento da sociedade nessas bandas de cá.

Fachada do edifício da TVA e da MTV, na Av. Dr. Arnaldo.
Fachada do edifício da TVA e da MTV, na Av. Dr. Arnaldo. Arquivo/Fotografia
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