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Extinção pelo fogo

Passados os incêndios na Amazônia e no Pantanal, especialistas contam corpos e animais já ameaçados lutam para sobreviver em terra arrasada

por Ricardo Ampudia Atualizado em 19 jan 2021, 15h10 - Publicado em 19 jan 2021 01h51
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ilustração/Redação

cuíca-de-colete é um marsupial, uma espécie de primo do gambá. Tem cauda longa, olhos arregalados, dedos longos e uma mancha escura que se estende pelo dorso, braços e mãos, que dá origem ao seu nome. Os avistamentos confirmados do animal no mundo não passam de dez, todos na Amazônia. Na parte brasileira da floresta, foi vista apenas três vezes. No alto do Rio Jarú, em Rondônia, em 1951, em Guajará-Mirim (RO), em 1995, e em Paranaíta (MT), em 2013. Por isso, é considerado um dos animais mais ameaçados de extinção do país. Apesar da distância entre os pontos de avistagem ainda intrigar os pesquisadores, uma coisa une os três: todos tiveram focos de incêndio na maior temporada de queimadas da última década nos biomas brasileiros.

Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), durante a temporada de seca de 2020, entre junho e setembro, foram registrados 38.625 focos de incêndio na Amazônia, sustentando o crescimento dos últimos anos. Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, foram 36.625; em 2018, haviam sido 18.069. O aumento do desmate nos últimos anos pode ter contribuído para o que vimos em 2020. Ainda segundo o Inpe, entre agosto de 2019 e julho de 2020, o desmatamento no bioma cresceu 9,5% em comparação com o mesmo período anterior. O aumento entre 2018 e 2019 foi de 34%.

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João Barreto/Ilustração

“Desde o ano passado há aumento considerável tanto de desmate como de queimada, mesmo não sendo em anos tão secos como os de El Niño. Olhando o monitoramento, você vê o aumento expressivo de queimadas, até batendo os números de anos de extrema seca. A gente percebe que tem a ver com o cenário”, comenta Carlos Durigan, diretor da World Society Conservation.

“Desde o ano passado há aumento considerável tanto de desmate como de queimada, mesmo não sendo em anos tão secos como os de El Niño. Olhando o monitoramento, você vê o aumento expressivo de queimadas, até batendo os números de anos de extrema seca. A gente percebe que tem a ver com o cenário”

Carlos Durigan

O que mais afeta os animais ameaçados na Amazônia, segundo Durigan, é esse pacote “desmatamento & fogo”, que diminui a área de habitat e, por vezes, coloca as espécies em contato direto com o homem.

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João Barreto/Ilustração

Os sem-floresta

Manaus (AM) é uma das cidades que mais cresce no país. A maior cidade da Amazônia Legal tinha 1.45 milhão de habitantes em 2001 – hoje, são 2.21 milhões de pessoas, segundo estimativas do IBGE. Esse salto em uma cidade não verticalizada tem pressionado a cidade contra a floresta.

É aí que Manaus cruza o caminho do saruim-de-coleira, uma espécie de primata que só ocorre na região, cuja população passou a declinar por ameaças bem urbanas, como atropelamentos, eletrocussão em postes e ataque de cachorros.

Não bastariam esses problemas para o simpático primata de cara preta e uma pelagem branca ao redor do pescoço que dá origem ao seu nome entrar para a Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) como espécie Criticamente Ameaçada, o último nível antes da extinção na natureza. Ainda era preciso a competição por alimento e habitat com um parente de visual igualmente pitoresco, o sagui-de-mãos-amarelas. O saruim-de-coleira vive pressionado entre Manaus e seus inimigos e está perdendo para os dois.

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João Barreto/Ilustração

Ele não é o único primata em perigo na região. Em 2015, foi anunciada a descoberta de uma nova espécie de macaco na divisa entre Amazonas e Mato Grosso, o Callicebus miltoni que, por ironia do destino, ganhou o nome popular de zogue-zogue rabo-de-fogo devido à sua pelagem. A região onde se acredita que a espécie é endêmica, entre os rios Roosevelt e Aripuanã, é considerada um arco de desmatamento, em especial pela extração de madeira, e tem a previsão de construção de uma grande usina hidrelétrica. O rabo-de-fogo já “nasceu” ameaçado.

Mas, na Amazônia, apesar de o fogo ter dizimado o habitat de muitos animais e aberto espaço para a agricultura e a cidade, ele não é um risco direto aos animais, diz Carlos Durigan, da WCS: “Em relação a morte de animais pelo fogo, não temos visto acontecer tanto na Amazônia, não da forma como ocorreu no Pantanal, lá tem regiões inteiras, muitos animais cercados, uma catástrofe”.

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A catástrofe

Uma série de grandes incêndios atingiu o Pantanal em julho de 2020, queimando 30% do bioma, uma área do tamanho do estado do Rio de Janeiro, segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA), da UFRJ. Os ventos fortes e o tempo seco colaboraram para que o fogo se alastrasse rápido e de forma descontrolada, obrigando os animais a fugirem às pressas. A imagem de onças, antas, tamanduás, veados, cobras e lagartos carbonizados em um cenário desolador circularam o mundo.

Alguns dos incêndios tiveram proporções imensas, como na Serra do Amolar, em setembro, onde o fogo destruiu 33 mil hectares após, segundo investigações da Polícia Federal, fazendeiros colocarem fogo na mata para aumentar a área de pasto.

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João Barreto/Ilustração

Biólogos ainda tentam contabilizar o tamanho do estrago na fauna. O projeto Mogu Matá, que reúne as universidades federais do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e uma série de instituições de conservação da região, ainda está em campo coletando e identificando animais, mas os números certamente não darão conta do impacto no bioma. É que apesar de as imagens de onças e tamanduás chocarem, é no microcosmo do Pantanal que a devastação é maior.

“Além de o fogo ter sido muito rápido, ter consumido quase toda a área continuamente, ele era subterrâneo, um fogo não só nas árvores, mas superficial ao solo, baixo. Aí você pega todo tipo de animais pequenos, sobre os quais conhecemos pouco, besouros, roedores, lagartos e até microrganismos que vivem no solo, que são fundamentais para a floresta, esses perdemos todos”, lamenta o biólogo Thadeu Sobral de Souza, da Universidade Federal do Mato Grosso.

“Além de o fogo ter sido muito rápido, ele era subterrâneo, um fogo não só nas árvores, mas superficial ao solo, baixo. Todo tipo de animais pequenos, sobre os quais conhecemos pouco, besouros, roedores, lagartos e até microrganismos do solo, fundamentais para a floresta, esses perdemos todos”

Thadeu Sobral de Souza

O biólogo, que é doutor em ecologia, explica que cada animal tem sua função no bioma e a ausência dele pode impactar inclusive os humanos. Ele usa de exemplo algumas espécies de vespa que botam seus ovos dentro das lagartas de borboletas. Se as vespas somem, as lagartas proliferam e vai ser preciso mais agrotóxico para salvar a lavoura.

Esses pequenos animais, como besouros, roedores, rãs e cobras, que se locomovem de forma mais lenta, tiveram menos chances de escapar de um fogo tão rápido, como fizeram as onças, veados e antas. Mas fugir também não é garantia de sobrevivência. O dia depois de amanhã importa. “Se todos fugirem para um mesmo fragmento de mata preservada, eu afeto toda a dinâmica do lugar. Onde se alimentavam dez, agora são 100, aumenta a competição por recursos. E em outros fragmentos isolados, ilhas verdes, se os animais não voltarem, você vai ter floresta vazia, vegetação sem nada vivendo dentro”, conta Souza.

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O dia depois de amanhã

Os incêndios de julho chegaram ao Refúgio Ecológico Caiman em pleno início da época de reprodução dos animais. O lugar é o maior centro de reprodução de araras-azuis no Pantanal, com 98 ninhos. A arara-azul, um dos símbolos do Pantanal, já foi considerada como espécie ameaçada de extinção pela lista vermelha da IUCN, mas foi promovida para vulnerável pelos esforços de preservação e combate ao tráfico.

Segundo o Instituto Arara Azul, o incêndio começou no dia 10 de setembro e só foi controlado 16 dias depois, com a chegada da chuva. Dos 39 ninhos ativos na época, só dois se perderam, mas o pós-incêndio pode ser um problema. Durante todo o ano, o principal alimento da arara-azul é o acuri, fruto de uma palmeira baixa nativa da região. Um relatório do Instituto diz que grandes áreas de palmeiras foram consumidas pelo fogo e devem impactar a próxima temporada de reprodução do bicho.

As aves do Pantanal não são as únicas espécies impactadas. O bioma é rota de passagem para dezenas de aves migratórias, algumas vindas de longas viagens desde o Canadá. Usam os alagados da região para descansar e se alimentar antes de seguir para o sul. Esse ano encontrarão um cenário bem diferente. “As queimadas já eram um dos vetores que colocam as espécies em risco de redução de população, mas não só por queimar os animais, mas por perda de habitat. Quem escapou, vai retornar para uma área onde não tem nada e vai demorar muito tempo para se recuperar. Para algumas espécies podemos ter perdido toda uma temporada reprodutiva, uma geração.” diz a bióloga Rosana Subirá, oficial de Lista Vermelha da IUCN, que atuou por sete anos no ICMBio, de onde saiu em 2019.

Subirá, que participa de conferências sobre conservação com especialistas do mundo todo, conta que a política de conservação de espécies brasileira sempre foi muito elogiada. O país faz periodicamente sua própria lista vermelha – coordenada por ela em 2018 – e cria planos de ação a partir dali. Mas nos últimos anos os financiadores externos, governos e organismos internacionais, foram interrompendo seus acordos com o Brasil, reagindo às políticas implementadas pelo atual governo na área ambiental, dificultando o trabalho de institutos e ONGs de conservação.

“O Brasil era um dos líderes nessa área, nós puxávamos as discussões sobre conservação de espécies no mundo. Agora isso está se revertendo, o Brasil se apequenou”, ela conclui.

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João Barreto/Ilustração
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