expressão

Fantasia de Carnaval

Brasileira que cresceu na Suíça, a artista Alexia Hentsch encontrou na festa uma reconexão com seu país

por Artur Tavares Atualizado em 11 jun 2020, 17h58 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
-
Estúdio Lambada/Ilustração

calor de fevereiro não permite muita roupa no corpo, mas isso não impede que foliões exagerem na montação quando o assunto é Carnaval. Festa de caracterização das mais exóticas, os dias que antecedem a quarta-feira de cinzas são os preferidos de Alexia Hentsch – e também boa parte do seu ganha-pão. Quando os blocos estão nas ruas e o samba se torna a língua universal do povo, a artista se lembra que aqui é o seu país. Hoje, ela é responsável por disputados e exóticos acessórios para fantasias das classes artísticas e da alta sociedade carioca, e também por coleções de moda que lembram tempos que não voltam mais.

Brasileira filha de pai suíço, ela viveu no abastado país europeu toda sua juventude, mas vinha sempre visitar a família no Rio de Janeiro durante as festas de final de ano. Pode-se dizer que teve uma infância como a de muitos de nós, assistindo Xou da Xuxa e lendo gibis da Turma da Mônica. Sua mãe, ela lembra, dava a ela e à sua irmã aulas de samba em casa.

Criação de Alexia para a La Vie en Rose
Criação de Alexia para a La Vie en Rose Alexia Hentsch/Divulgação

De lá, Alexia assistia a um Brasil fascinante, que saía da ditadura e começava a encontrar seus caminhos em meio à liberdade. Ano após ano, esperava ansiosa o verão, o momento em que voltaria para sua terra natal, para depois voltar para seu cotidiano na Suíça. “Crescemos falando português em casa e, quando eu vinha para o Brasil, comprava aqueles biquínis bem cavados para trazer de volta para a Europa”, ela conta. “Isso fazia eu me sentir a maior gata!”

“Eu já conhecia bastante do Rio, mas essa imersão como moradora mesmo foi só naquele ano. Me amarrei e, desde então, metade do meu ano de trabalho acontece aqui”

Alexia Hentsch

O olhar sensível e a busca pelo belo levaram Alexia a estudar Desenho Gráfico nos Estados Unidos, profissão que a levou para a moda. Na época da faculdade, sua relação com o Brasil aumentou. Seus pais se separaram e sua mãe voltou para o Rio, onde a garota passaria um tempo ainda maior. “A primeira vez que passei um Carnaval aqui eu tinha uns 20 anos, desfilei na Mangueira, e a escola de samba ganhou. Me tornei mangueirense de coração”, ela lembra. “Hoje, me arrependo de, quando terminei a faculdade, não ter vindo para o Brasil para trabalhar em uma escola de samba por um ano. Ainda hoje é um sonho fazer um Carnaval de avenida.” A carreira distanciou Alexia da sua paixão e de seu país. Por uma década, ela trabalhou com moda masculina em uma marca própria, que fazia desde jeans e camisetas até camisas e ternos, em Londres. “É um espaço em que a criatividade floresce mais no marketing, porque não há muito para onde correr em termos de design.”

Continua após a publicidade
Peça da estreia da La Vie en Rose
Peça da estreia da La Vie en Rose Alexia Hentsch/Divulgação

Foi na Inglaterra que conheceu a equipe da Film Master Group, empresa italiana especializada na realização de grandes eventos mundiais que havia ganho a concessão para cuidar das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. “Vieram 400 pessoas da Itália para trabalhar e eles precisavam de uma pessoa para fazer a ponte com os brasileiros. Foi assim que entrei para a equipe de produção dos figurinos e que vim morar de fato no Brasil pela primeira vez. Eu já conhecia bastante do Rio, mas essa imersão como moradora mesmo foi só naquele ano. Me amarrei e, desde então, metade do meu ano de trabalho acontece aqui.”

Tigres floridos ou rosas brancas, algumas das cabeças feitas por Alexia
Tigres floridos ou rosas brancas, algumas das cabeças feitas por Alexia Alexia Hentsch/Divulgação

Cabeça e corpo no samba

Única brasileira responsável por uma operação de guerra que acabou por produzir mais de 10 mil figurinos apenas para a abertura dos Jogos, Alexia entrou de cabeça no universo das fantasias durante o trabalho. Encontrou alfaiates e costureiras nas comunidades dos morros cariocas, nas quadras das escolas de samba, e se apaixonou por senhoras que davam expediente no Theatro Municipal. “Acabei conhecendo todo esse setor de produção de figurino muito bem, as pessoas que fazem plumas, paetês, saltos para samba. Descobri essa mão de obra toda, que é muito específica. Existe no Rio devido ao Carnaval, é a melhor do mundo. Depois de um ano intenso com essa gente toda, percebi que havia algo que eu poderia fazer aqui.”

As peças criadas para a La Vie en Rose não são vendidas. Alexia empresta para amigos durante o Carnaval e depois guarda em seu acervo
As peças criadas para a La Vie en Rose não são vendidas. Alexia empresta para amigos durante o Carnaval e depois guarda em seu acervo Alexia Hentsch/Divulgação

Quando as Olimpíadas passaram, no segundo semestre de 2016, ela voltou a bater à porta no Municipal. A artista sabia que as costureiras que trabalhavam lá estavam se aposentando e ficariam sem trabalho em breve. Especializadas em figurinos para balés, elas eram exatamente aquilo que Alexia precisava para levar um pouco do Carnaval brasileiro para o mundo: “Por um ano, ficamos trabalhando dentro das instalações do Theatro fazendo meus primeiros bodies, peças que elas já costuravam há 40 anos. A qualidade específica delas com essas peças não existe em lugar nenhum do mundo. Depois, tivemos que sair de lá, mas eu havia voltado à minha paixão, essa linha entre moda e figurino”, conta, orgulhosa.

La Vie en Rose mostra sua primeira coleção
La Vie en Rose mostra sua primeira coleção Alexia Hentsch/Divulgação

Há quem diga que, quanto menor um biquíni, mais sensual a mulher que está vestindo fica, mas a verdade é que os maiôs levam o imaginário para um outro lugar. Alexia se aproveitou disso para levar a peça para o cotidiano da moda europeia: “Comecei com peças para o Carnaval de rua, ocasião em que as meninas saem todas peladas. Mas, isso não tem espaço no resto do mundo, nem ocasião para usar um tule transparente. Quando fui contratada pela Brown’s, em Londres, comecei a fazer adaptações para deixar a peça mais perto do fashion. Coloquei mangas compridas, trouxe detalhes para que ficasse mais sofisticado, menos pelado”, conta. “Não desagradou. As pessoas gostavam daquilo mesmo, aquela identidade que vinha do Brasil.”

Suas peças se tornaram um sucesso aqui e lá fora, e as duas costureiras aposentadas hoje chefiam mais cinco mulheres que vivem em comunidades no Rio de Janeiro, todas com mais de 70 anos. Com tanto talento disponível, Alexia decidiu dar um passo a mais na carreira, e no ano passado lançou seu projeto La Vie en Rose. “Resolvi fazer uma coleção de figurinos de Carnaval puxando para uma estética anos 1940, o Carnaval da minha avó. É como eu imaginava esses bailes de antigamente, muito chiques.” As peças, todas extremamente conceituais, não são vendidas pela artista, apenas emprestadas a amigos e pessoas-chave durante a festividade, como um showcase de seu trabalho. “Percebi que nunca havia assinado um figurino meu. Precisava disso para poder me identificar de fato como figurinista”, ela diz. Ao mesmo tempo, passou a fazer adornos de cabeça em sua própria casa, um hobby de fazer inveja ao abacaxi vestido por Carmen Miranda, e que hoje são disputados a tapa.

“Resolvi fazer uma coleção de figurinos de Carnaval puxando para uma estética anos 1940, o Carnaval da minha avó. É como eu imaginava esses bailes de antigamente, muito chiques.”

Alexia Hentsch
Do Carnaval ao balé, Alexia tem os corpetes como uma de suas marcas registradas
Do Carnaval ao balé, Alexia tem os corpetes como uma de suas marcas registradas Alexia Hentsch/Divulgação

E mesmo passando pelo menos seis meses em Londres atualmente, a moda deu projeção para Alexia expandir ainda mais seus horizontes. No ano passado, a escola de balé infantil It Ballerina a convidou para produzir sua apresentação de encerramento de aulas. “Achei que seria uma coisa pequenininha, mas foi gigante. Vesti 150 crianças. Comecei fazendo apenas os desenhos, mas depois tive que vir acompanhar produção, prova de roupa. Foram três viagens para o Brasil apenas para fazer esse projeto.”

Um estudo para os figurinos infantis produzidos por Alexia
Um estudo para os figurinos infantis produzidos por Alexia Alexia Hentsch/Divulgação

“Eu tinha vindo para cá passar o verão, com poucas roupas e muitos biquínis na mala”

Alexia Hentsch

Nesse ano, La Vie em Rose cresceu, saltando de 12 figurinos experimentais para 24. “Virou uma coisa menos Carnaval, mais figurinos sofisticados. Se tornou menos óbvio, e mais autoral, artístico”, ela conta. As peças lembram pierrôs, colombinas, palhaços, tudo em tons de rosa, que chamaram a atenção de galeristas franceses: “Fui contratada por uma galeria na França para uma exposição em conjunção com o Centre National du Costume de Scene, um museu dedicado a figurinos. Eles estão fazendo uma mostra sobre o Carnaval do Rio de Janeiro. Vieram pessoas de lá procurar acervo nas escolas de samba, mas sobra muito pouca coisa, porque as roupas ficam com quem dança. Me encontraram, escolheram sete looks para levar”, ela conta. A mostra iria de maio até novembro, mas foi postergada por enquanto.
Decida a passar mais tempo no Brasil para aproveitar a companhia de seu namorado, o empresário Arturo Isola – um italiano radicado em São Paulo –, Alexia foi pega de calças curtas com o início da epidemia do covid-19. Ou melhor, de biquíni: “Fiquei mais tempo depois do Carnaval, mas estava voltando para Londres quando começou a quarentena. Eu tinha vindo para cá passar o verão, com poucas roupas e muitos biquínis na mala. Tive que pedir roupas emprestadas para minhas amigas!” A situação se tornou oportunidade, o projeto Meu Arraial é de Papel. “Iniciei um projeto de festa junina. É outro tipo de festividade, outra linguagem de figurino”, ela conta.

“Como estou trancada em casa, comecei a falar com a Papelaria. É uma empresa que faz de tudo com papel, eles têm muito bom gosto. Vamos fazer seis looks no material com essa temática folclórica. Alguns vestidinhos de bandeirinha puxando para referências como Volpi, outras peças mais para o lado sertanejo, bumba meu boi. Quero pintar à mão de novo, fazer no máximo cinco peças de cada look.” Tudo isso, esperamos, deve levá-la a realizar seu maior sonho, que é finalmente fazer figurinos para uma escola de samba. Donc la vie continue.

A era de ouro do Rio de Janeiro dá o tom das criações da La Vie en Rose
A era de ouro do Rio de Janeiro dá o tom das criações da La Vie en Rose Alexia Hentsch/Divulgação
mais de
expressão
imagem_destaque – julia rebello-gif

Dramas da vida real

Por
Ao comandar a releitura de um clássico Shakespereano, Júlia Rabello repensa o amor nos tempos atuais e conta sua experiência com a covid-19
mapa-museus

Cinco museus em doze meses

Por
Há exatos 50 anos, São Paulo ganhou o Museu de Arte Sacra, o MIS e outras de suas instituições culturais mais conhecidas. E nos dias de hoje?
É o que o artista plástico Jorgge Menna Barreto propõe com a revista “Enzyme”, o desdobramento do “restaurante-obra” apresentado na 32ª Bienal de São Paulo
luana_carvalho_imagem_destaque

Coisinha tão bonitinha da mãe

Por
Com uma delicadeza que inspira, Luana Carvalho fala sobre música e maternidade, dor e cura no processo de perda da mãe, a eterna Beth Carvalho
O-sambista-Toinho-Dub-(Merylin-Esposi)_destaque

Negro, nordestino e sambista

Por
Aos 70 anos, o veterano Toinho Melodia é descoberto pela nova geração com sambas que denunciam as muitas mazelas da sociedade brasileira