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“Envenenam a Terra por não acreditar que ela é um organismo vital”

O líder indígena e pensador Ailton Krenak recusa a ideia de humanidade como algo separado da natureza

por Eduardo Ribeiro Atualizado em 18 set 2020, 13h53 - Publicado em 20 jul 2020 09h52
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Clube Lambada/Ilustração

scritor e ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas, Ailton Krenak, 66 anos, andava um bocado ativo e requisitado, viajando pelo Brasil e outros países a participar de debates e promover seu “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”, livro adaptado de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal entre 2017 e 2019. De repente, por conta do novo coronavírus, o líder indígena nascido na região do Vale do Rio Doce, leste de Minas Gerais, teve de interromper bruscamente suas andanças e suspender compromissos. Segue, agora, isolado com a família na aldeia Krenak no Médio Rio Doce. Nesse ínterim, a urgência de chamar a atenção à necessidade de reencontrar o sentido de nossa existência e refrear nossa marcha autodestrutiva em direção ao abismo fez com que ele acabasse por lançar “O Amanhã Não Está à Venda”, livreto que pode ser baixado gratuitamente na internet e reflete, com lucidez e pertinência, sobre a pandemia que acometeu a sociedade global.

Em 2015, quando ocorreu a tragédia em Mariana (MG), causada pela enxurrada de lama após o rompimento da barragem da mineradora Samarco, que é controlada pela Vale e pela BHP Billiton, afetando duramente o distrito de Bento Rodrigues e deixando um rastro de destruição à medida em que avançou pelo Rio Doce, os engenheiros pediram a Ailton uma sugestão de como salvar o rio. Ao que ele deu um parecer de que não era necessária tecnologia alguma, e sim, interromper todas as atividades humanas até que a vida pudesse se recompor naturalmente. Sugestão a qual, conforme relata, teria sido refutada, pois “o mundo não pode parar”. E, vejam só a ironia, o mundo parou.

“Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover”, escreve ele, cuja filosofia critica principalmente a ideia de humanidade como algo separado da natureza.

Desde a década de 1980, Ailton Krenak dedica-se exclusivamente ao movimento indígena. Fundou, em 1985, o Núcleo de Cultura Indígena e, no ano seguinte, participou da Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição Brasileira de 1988. Foi durante seu memorável discurso na Assembleia de 1987, quando pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo como forma de protesto contra o retrocesso na luta pelos direitos dos índios, que ele se destacou como um dos mais relevantes pensadores brasileiros. Em face do desastre socioambiental e espiritual de nossa era, ouví-lo se faz necessário.

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A colagem que abre essa matéria é assinada por Mavi Morais, fotógrafa e artista visual de origem kariri-sapuyá. Seu trabalho consiste em criar narrativas visuais sobre espiritualidade, memória ancestral, identidade e resistência indígena, ressignificando imagens e utilizando das técnicas e elementos fotográficos.

O índio, jornalista e presidente das Nações Indigenas do Brasil, Ailton Krenak, sorrindo em foto posada, na década de 90.
O índio, jornalista e presidente das Nações Indigenas do Brasil, Ailton Krenak, sorrindo em foto posada, na década de 90. Alice Hattori/Grupo Abril

Como você tem passado esse período de isolamento e que tipo de reflexões tomam seus pensamentos quando você para e observa o cenário impactado da região?
A gente está fazendo a quarentena na aldeia. Aqui é uma reserva indígena que foi criada há quase 100 anos, exatamente para confinar os índios livres. Os índios perturbavam a ordem colonial. No começo do século passado, essa região da floresta do Rio Doce, aqui em Minas Gerais, divisa com o Espírito Santo, ainda não era ocupada, entendeu? Só 30 anos depois é que eles passaram a ferrovia na região e aquela Marcha para o Oeste começou. Na marcha para o oeste, os ingleses foram convidados a vir fazer uma ferrovia acompanhando a bacia do rio de lá de Itabira, a Itabira do Drummond, até o litoral do Espírito Santo. Então, toda essa região passou a ser esquadrinhada pela mineração já, desde a origem, como uma extração de um recurso daqui pra ser mandado a outro lugar. Extrativismo mineral que foi crescendo até transformar essa região, que era chamada de Floresta do Rio Doce, em Vale do Aço. Acho de um mau gosto ter saído de uma cartografia que nomeava esse lugar como Floresta do Rio Doce, no sentido que evoca uma diversidade, uma riqueza, uma coisa próspera, para “Vale do Aço”. O poeta Carlos Drummond de Andrade deve ter amargado o resto da vida dele, os últimos 50 anos, que aliás foi o período mais próspero da obra dele, com o constante desaforo e afronta que a atividade da mineração imprimiu na vida desse povo da região do Vale do Rio Doce.

E como foi para quem continuou morando aí?
Imagina para os índios ter que conviver com aquela ferrovia e com essa predação da paisagem? Porque a floresta foi retirada, inicialmente, para esquentar as máquinas. Na década de 1930, a máquina comia árvores. Era carvão, né. Só depois da Segunda Guerra Mundial é que foi substituído por diesel. Primeiro, eles devastaram a floresta. Enquanto isso, botavam essa plataforma de extração mineral lá em Itabira. Depois, começaram a se espalhar e a comer o Vale do Rio Doce, que, aliás, é o nome da maior estatal da mineração brasileira, que por um tempo chamou-se assim. No governo do Fernando Henrique Cardoso, deram uma passada de mão nela, roubaram o patrimônio nacional descaradamente, e perguntaram uma vez ao FHC como ele se desfazia de um ativo tão estratégico para o país, e ele falou: “Como uma empresa como a Vale é estratégica? A única coisa que ela faz é tirar uma pedra de um lugar e botar no outro.” Isso é tão absurdo, tão imoral, escandaloso, indecente, que ele deveria ter sido preso por isso. Não pelo que ele embolsou com a venda da Vale, que dizem que foi o filho dele que fez o leilão, mas pelo desdém, pelo desrespeito. As pessoas ouvem uma frase desse presidente ignorante que está governando o Brasil, e dizem: “Esse cara é grotesco!”. O Fernando Henrique é um sociólogo, mas se você comparar a consequência dos atos de cada um, vai ver que não há diferença nenhuma.

Talvez não seja exclusividade dos tecnocratas esse esvaziamento da vida, uma vez que a experiência da vida está necessariamente atrelada a todos os outros seres, toda a sociedade consumidora de bens e serviços.
Se isso não é uma visão exclusiva dos tecnocratas, então o que devemos olhar é o paradigma que sustenta esse tipo de mentalidade. Porque se são toleráveis governos que praticam e confessam, incitam esse tipo de violência contra a vida, a questão agora não é julgar a escolha que um ou outro desses tecnocratas faz do seu vocabulário ou da sua práxis, mas seria perguntar que paradigma civilizatório produz esse tipo de monstrengos. E se tem um paradigma civilizatório que produz e alimenta esses monstrengos, temos que considerar que a gente já criou uma seção do inferno previsível e programada para acontecer. E não deveria parecer que estamos indignados ou admirados com o que essa corja produz porque estamos coexistindo com essa realidade e dentro desse paradigma. Se estamos dentro desse paradigma, precisamos ser mais consequentes em nossa crítica e não fazer uma comparação entre um imbecil de direita e um idiota de esquerda. Chegamos num ponto morto no debate no Brasil em que as pessoas querem comparar idiotas de direita com imbecis de esquerda. Ou, três idiotas de direita com um imbecil de esquerda. Uma espécie, assim, de TeleCatch. Estamos perdidos, sem cachorro no mato.

“A indústria não só vem pescando demasiadamente como guardando, em algumas fossas dos oceanos, montanhas de lixo, garrafas pet, plástico, todo tipo de resto”

Você diria que, se chegamos ao século 21 com essa predação da vida social, essa alienação do sentido de cidadania e degradação das relações entre os povos, o buraco, as brechas que foram se constituindo nessas evitações, foram justamente o impulso originário para um vírus que está matando tanta gente?
Claro. Da mesma forma que a barragem de Mariana aparecia como um totem da mineração e, uma hora, apresentou uma rachadura e aquela rachadura foi sublimada, ignorada durante décadas, e em dado momento aquilo arrebentou e saiu matando gente, destruindo paisagem e degradando a biodiversidade dessa região. Ou, a diversidade biológica de duas bacias hidrográficas. Nós fomos ignorando uma realidade planetária até que surgiu uma brecha e um organismo que não era conhecido ainda se espalhou. Será que esse organismo esteve contigo? Será que ele já não preexistia e necessitou apenas de um evento, tipo alguém pegar o Superman e jogar uma kryptonita em cima dele? Nas HQs, quando o Superman entra em contato com a kryptonita, é criado um desequilíbrio, né. Mas, a princípio, se aquele mineral enfraquecedor ficar na dele, e o Superman, também, não dá problema. Será que a gente não andou esfregando kryptonita no Superman?

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Arte/Redação

A ideia distorcida do que é progresso como destino da humanidade foi um dos fundamentos dessa tragédia global que a covid-19 veio denunciar, mas não inaugurar. Antes disso explodir, já convivíamos com o aquecimento global, o desmatamento e a destruição dos oceanos. Como foi possível alcançarmos esse nível de abstração?
A primeira vez que vi a foto daquele urso branco esquelético andando feito uma assombração no Ártico, aquela imagem me cortou, porque pensei: “Nossa, se chegamos nesse ponto, não vamos mais conseguir voltar atrás.” Os últimos relatórios sobre o clima estão refletidos num livro intitulado “A Terra Inabitável”, do nova-iorquino David Wallace-Wells. Ele lançou o livro no Brasil na mesma ocasião em que saiu o meu “Ideias Para Adiar O Fim do Mundo” lá na Flip. E tivemos a oportunidade de falar dos nossos livros no Centro Cultural São Paulo juntos. Para mim, foi um privilégio, porque ele é um best-seller conhecido e um cara que documentou muito, que estudou todos os relatórios do clima, os IPCCs [sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] todos. Interpretou, analisou, viajou, andou pelos Estados Unidos, como num filme de aventura, porque ele foi caçar os cientistas da década de 1990, que produziram o primeiro relatório, e perguntou a eles por que resolveram largar projetos tão importantes e estratégicos para viver em ranchos. Aí um cientista vira pra ele e diz assim: “É que decidi passar os últimos anos da minha vida com meus filhos, minha família, plantando roça orgânica, porque já perdemos essa corrida.” Quando ele começou a encontrar esses cientistas muito admirados em sua juventude, dizendo, por volta de 2014, que estavam cuidando de si, justo cientistas que antigamente eram os caras mais radicais e confiantes de que seria possível restabelecer, de alguma maneira, a biodiversidade planetária… E considerando que os cientistas de agora são caras que querem botar uma plataforma em Marte, fazendo um público-privado com a Nasa… Fica complicado.

“Nós fomos ignorando uma realidade planetária até que surgiu uma brecha e um organismo que não era conhecido ainda se espalhou. Será que esse organismo esteve contigo? Será que ele já não preexistia e necessitou apenas de um evento, tipo alguém pegar o Superman e jogar uma kryptonita em cima dele?”

Esse negócio de querer colonizar Marte, ao invés de focar na preservação da vida na Terra, é uma loucura… Sem contar que isso só seria possível para 1% das pessoas…
Achei escandaloso a Agência Espacial, que era pensada como uma coisa não só exclusivamente americana, mas como um projeto comum, entre vários países… Nações e povos se entusiasmaram com aquela coisa das viagens espaciais, pesquisas e tudo… De repente, aquela super estrutura fica cooptada de tal maneira pelo sistema capitalista global, que eles aceitam um grupo de bilionários propor uma ocupação da Nasa. Isso é uma distopia total, fala a verdade. Isso é pior do que o Lex Luthor entrar na sala com o Superman numa coleira de kryptonita e falar com a gente, “E aí, pessoal!”.

Seria mais inteligente investir em esforços para recuperar a fauna e flora terrestres, não é? Visto que até os peixes dos oceanos já não conseguem recompor suas populações diante do volume surreal que é retirado dos mares atualmente.
A indústria não só vem pescando demasiadamente como guardando, em algumas fossas dos oceanos, montanhas de lixo, garrafas pet, plástico, todo tipo de resto. Achei muito significativo e revelador que, deixando fora dessa crítica os indivíduos, tivemos governos de países importantes que trataram essa questão da covid-19 como algo totalmente administrável. Enquanto alguns países, arrogantes, tiram a seguinte conclusão: “Nós somos ricos e temos equipamentos o suficiente para internar a população.” E, de maneira totalmente insolente, desprezando o fato de que pertencem, ao menos em tese, a uma humanidade, eles vêm declarar que são uma exclusividade. Aí esses caras, da exclusividade, são os mesmos que alimentam o barato de uma plataforma em Marte, em qualquer outro lugar do Cosmos, e um desprezo pela vida aqui na Terra. Eles não estão entendendo que a vida dessa variável predadora do homo sapiens que nos tornamos tem um aparelho vital programado para o planeta Terra.

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É muito cretino isso. Uma espécie de arrogância burra. Porque você pode chegar na frente do cara e dizer pra ele: “Pense bem, o seu organismo, apesar de toda a sua arrogância, de que você pode blindar ele com vários equipamentos e artefatos, só foi programado para existir neste planeta. Mas você está querendo saltar daqui para outro lugar dizendo que vai criar condição para viver em outra esfera. Isso é uma aberração.” A nossa anatomia, a nossa fisiologia, foi constituída para a gente viver, andar e respirar aqui. Nossa epiderme também. Tem gente cuja pele aguenta mais calor e gente que, se for exposta ao Sol de Copacabana, morre de câncer em alguns anos. Fomos distribuídos pelos diferentes biomas do planeta para nos adaptarmos, com outras espécies, a diferentes ecologias. A ecologia do jaguar, da pantera, da lhama, da hiena, do canguru… Entendeu? Então, assim, é uma cegueira tão escandalosa essa coisa desses homens arrogantes, bacanas, bonitões, com seus ternões de milhões… Eles acreditam, sinceramente, que serão capazes de criar uma atmosfera, ou uma biosfera extraterrena para si. Se entrássemos numa de fazer uma ficção junto com eles, fingir que não achamos que eles são doentes e conversar com eles, eu gostaria de perguntar até quando acham que seria possível ocupar qualquer outro planeta considerado mais interessante. Por que estão achando viável deixar um planeta no qual se sabe a duração de uma vida? Querem ir para um outro, em ambiente artificial, pretendendo fazer o quê? Por quanto tempo? Será que já descobriram um jeito de não precisar nem comer, nem cagar? [risos]

Sobre a questão da quebra econômica motivada pela pandemia, fico pensando que o ser humano escolheu o caminho do sofrimento. Caso escolhêssemos viver em harmonia com a natureza e na base da solidariedade, do respeito entre as muitas diversidades, não estaríamos passando por essas coisas. Por que, em sua visão, nós lutamos tanto para manter um sistema de vida como tal, quando tudo isso poderia ser erradicado?
A primeira vez que me encontrei com Davi Kopenawa Yanomami, aquele pajé querido que escreveu um livro junto com Bruce Albert, “A Queda do Céu“, foi 40 anos atrás lá na floresta, na terra do povo dele. Ele estava aprendendo a falar português, e somos amigos desde então. Continuamos cada vez mais admirados um pelo outro, querendo nos encontrar, conversar. A gente provoca a vontade de existir um do outro. Aí, ele vira pra mim naquele tempo e pergunta: “É verdade que os brancos são muitos?” Então, eu fiquei pensando em como explicar para um Yanomami, que só conta até os dedos da mão. Qualquer referência que eu desse pra ele, pra dizer se era pouco ou muito, seria em vão. A única forma que encontrei de passar para ele a ideia de emergência dessa humanidade foi dizer: “Os brancos são tantos quanto as estrelas do céu, as árvores da floresta, a areia dos igarapés…”. Ele foi arregalando o olho. Cara, não imaginei o impacto que aquilo teria no meu amigo. Ele encerrou a conversa comigo e se recolheu. No outro dia, ele me chamou e disse: “Se eles são tantos assim, o que eles comem?” Por isso, eu acho que, ao longo desses anos todos, encontrei umas duas ou três pessoas que fizeram perguntas para mim que valem a vida inteira.

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Arte/Redação

E o que você respondeu?
Eu respondi assim: “Eles comem tudo. Pedra, pau, bicho, as caças que vocês comem e as caças que vocês não comem, até os animais que são poupados por alguma razão, eles comem tudo. Comem, comem, comem.” Ele ficou me olhando com o mesmo horror do dia anterior, ao saber que eram tantos quanto as estrelas do céu, e nossa conversa foi ficando cada vez mais grave quando veio outra pergunta: “Se eles são tantos assim, e comem tudo o que tem na Terra, onde é que eles cagam?” [risos] Aí eu falei: “Eles cagam no mundo! Literalmente.”

Cagam até no espaço, basta ver o tanto de lixo que já existe na órbita da Terra…
Sim! Cagam também na galáxia! Vi aquela imagem na Bienal de dois anos atrás, onde um artista trouxe uma instalação que mostrava a imagem do nosso espaço sideral todo cheio de antenas, torres, tralhas, naves quebradas, quer dizer, um lixo de ficção científica flutuando sobre a nossa cabeça, em torno do corpo da Terra, do organismo vivo da Terra. Essa ocupação mecânica do entorno espacial terrestre mostra o tipo de prótese imbecil que tem na cabeça desses caras que patrocinam esses projetos. Chamo de prótese porque suponho que esses caras já tiveram alguma organicidade antes, que poderia ser o fundamento da física, da engenharia espacial, desses estudos, até que esses tecnocratas, esses tarados, conseguiram se apropriar dos mecanismos, controlar essas tecnologias e plataformas de produção e inovação… Essa gente que começou a dominar esses complexos, que são bélicos também, são uma prótese entre nós pelo seguinte: eles não têm mais nenhuma ligação com a Terra enquanto organismo sensível, vivo. Tanto que eles botam sucata em volta dela, tem um lixão em volta do planeta. Se tivessem um entendimento diferente dessa nave azul, não deixariam aquela sucata flutuando lá em cima. Iam levar para algum lugar, assim como os gatos escondem a bosta. Mas eles não têm a artimanha dos gatos, estão mais para ratos. São ratos espaciais! Esses ratos espaciais estão aí, roendo a atmosfera da Terra, enchendo o fundo dos oceanos de lixo.

“Por que estão achando viável deixar um planeta no qual se sabe a duração de uma vida? Querem ir para um outro, em ambiente artificial, pretendendo fazer o quê? Por quanto tempo? Será que já descobriram um jeito de não precisar nem comer, nem cagar?”

Lembro que, na primeira crise das usinas nucleares e produção de resíduos nucleares, lá no final da década de 1970, os países ricos começaram a perguntar para os países pobres quem queria pegar o lixo deles para enterrar. Aí tinha uma sacanagem que era de botar aquilo em caixas de bronze, em super contêineres, e enfiar em algum país miserável que ganharia uma grana pra virar a lixeira do ciclo nuclear deles. Houve uma vasta conscientização e uma briga contra isso, e se descobriu que eles estavam botando aquilo no fundo dos oceanos. Isso não é nem burrice, é maldade. Esses caras que envenenam a Terra por não acreditar que ela é um organismo vital, jogarão lixo nela até a hora em que ela vai saturar. E a hora que isso acontecer, eles vão fazer igual aquele personagem do “Dr. Fantástico”, do Kubrick. Eles acreditam nisso, que vão montar num foguete e fugir. São muito podres.

Isso é muito triste, pois a Terra é um planeta tão bonito em sua origem, tão vibrante e colorido. A vida que brotou aqui é uma verdadeira poesia.
O épico da Terra, sua narrativa, é maravilhosa, nasceu das explosões solares. Depois de bilhões de anos vieram metamorfoses, os organismos todos plantadores da vida… É a vida performando no Cosmos. E a vida performa no Cosmos fazendo como a borboleta, a lagarta, as folhas, o orvalho, a água em estado líquido, sólido, isso tudo é vida. As montanhas, as lavas de vulcão saindo, derretendo, virando composições na atmosfera da Terra, desenhando paisagens, geleiras, isso é a vida performando com os materiais da Terra. A Terra não é uma coisa uniforme, uma laranja, uma banana. É uma complexidade que junta todas as possibilidades e se manifesta em vida. É vida! Esse grande ser vivo se move e cria fenômenos de puro êxtase no Cosmos. Aí vem um bando de loucos insensíveis e começa a detonar, cagar esse planeta todo, predando o planeta, querendo virar donos dele, aí eles enjoam de virar donos. Aquele primeiro ciclo do capitalismo, de colonizar o planeta, era quando esses tarados estavam fissurados em virar donos das coisas. Saíram transformando a Floresta do Rio Doce em Vale do Aço, detonando toda a poética preexistente do mundo e transformando isso tudo num lixão. Agora que esses tarados transformaram tudo por onde passaram num lixão, estão dizendo: “Ah, vamos embora!”

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Arte/Redação

Quando essa sacanagem do PPP com a Nasa estava rolando, o Obama era o presidente dos Estados Unidos. Para você ver que não faz diferença essa coisa de direita e esquerda. E parece que quem apadrinhou essa conversa colateral foi o Al Gore, que queria ser presidente dos EUA e perdeu para o George Bush. O Al Gore, ricão, bacanão, ecologicão, que fez “Uma Verdade Inconveniente”, ele, assim como o Obama e todo mundo, é associado com esse projeto futurista. Eles acreditam nisso. Então, qual a diferença entre eles e o imbecil do Trump? É que o Trump não tem capacidade intelectual de entender o que é um projeto de plataforma fora da Terra [risos]. Ele é tão grotesco que o negócio dele não supõe pensar. O máximo que ele vai perguntar é se dá pra botar uma conveniência de sanduíche lá. Ele quer comprar já o ponto, um shopping só pra vender hambúrguer, essas coisas assim. Esse é o tipo de gente que está governando a Terra.

Muitos dos que devastaram a Terra e a pluralidade cultural fizeram e o fazem em nome de Deus. Em contraponto, a espiritualidade ancestral, das tribos, seguia uma linha de pensamento de conexão com a natureza. Como você vê essa questão?
Esses imbecis, que nem sei se dá para chamarmos de religiosos, apelam para alguma seita, digamos assim… Os caras que fazem o jihad, do Estado Islâmico, também não acreditam em nada, mas na hora de convocar a guerra, apelam para o islamismo. A apropriação contemporânea do sagrado é feita para manipular as pessoas exatamente pela potência que isso representa ao longo de toda a nossa história. Convocar esse tipo de potência para manipular e fazer uso dirigido é coisa de bandidos muito refinados. Não é brincadeira, não é qualquer um que consegue transformar o fundamentalismo evangélico numa força fascista para apoiar governos como o que invadiu a Bolívia, os países vizinhos, e está ocupando o Brasil hoje. De cima a baixo, ocupando as agências do Estado, aparelhando tudo, dominando como uma força de ocupação. Estamos vivendo uma experiência objetiva na América Latina em que a invocação de uma seita religiosa serve para fazer a guerra interna nos países. Para manter todo o mundo desestabilizado e meio louco. Porque foi isso o que fizeram no Oriente Médio. Chegou uma hora que transformaram o Oriente Médio num lugar impossível para qualquer coletivo existir com dignidade, já que todos estavam se acusando mutuamente. Me lembro de uma entrevista do escritor israelense Amós Oz, falecido em 2018. Ele dizia que foi o último intelectual de sua geração que ainda conseguia debater a questão palestina sem transformar o debate numa arena de xingamento e acusações desrespeitosas. Porque tanto do lado favorável a Israel como do lado favorável à Palestina, chegou um momento em que estavam acusando o Amós Oz de ser traidor, ameaçando a vida dele. Ele acreditava na possibilidade da humanidade ser outra coisa diferente dessa merda que nos tornamos. E começou a perceber que era odiado pelos judeus e pelos árabes. Que era combatido dentro e fora de Israel. Chegou uma hora que até na Europa ele tinha que tomar cuidado, pois numa simples ida a um restaurante poderia encontrar antigos amigos transfigurados em inimigos.

“A nossa anatomia, a nossa fisiologia, foi constituída para a gente viver, andar e respirar aqui. Nossa epiderme também. Tem gente cuja pele aguenta mais calor e gente que, se for exposta ao Sol de Copacabana, morre de câncer em alguns anos”

Quando ele disse que acreditava ser possível, um dia, existir um Estado palestino, decretou o fim do mundo para si mesmo em relação a Israel. Porque para Israel a Palestina tem que ser destruída. Não sei que lição os judeus tiveram de quando Hitler dizia que para ele o povo judeu tinha que ser exterminado, porque eles falam a mesma coisa dos Palestinos. Por isso eu afirmo que antes de discutir qualquer coisa, precisamos discutir o paradigma de uma humanidade que se descolou da experiência da vida no planeta de maneira tão remota que agora não se pensa na Terra como nosso habitat, como nosso lugar comum, no sentido de horizonte no longo prazo. Se a Terra não é esse lugar pra gente habitar, compartilhar no futuro sem limite, porque agora você pode ir embora para outro planeta, então isso é que eu ponho em questão. Tenho tido muitas oportunidades de dar entrevistas e participar de debates, mas procuro, desde o começo da conversa, convidar meu interlocutor a pensar esse paradigma, de uma humanidade devorando o planeta Terra, competindo entre si e com ameaça mútua. É isso que temos que refletir antes de qualquer coisa, seja saúde, educação, política, meio ambiente, tudo. Precisamos ter mais consciência nas coisas que a gente faz, ao invés de ficar só emoldurando a cena que a bandidagem global, planetária, imprimiu nas nossas vidas, no sentido de pertencermos a outros sistemas de existência.

Tenho observado uma disposição temporária de muita gente, em vários continentes, de procurar essa reconexão com a Terra. Seja por meio de suas práticas cotidianas de produzir alimento, criar os abrigos, lugares saudáveis para a vida, e mudando também comportamentos, uma série de vícios de consumo, mas acho que essas milhares, ou milhões de pessoas, que já fazem isso, num planeta com sete bilhões de habitantes, ainda é uma amostra grátis.

Poxa, mas então o que será de nós?
Aí eu lhe respondo com um poema daquele pernambucano, o Manoel Bandeira: 

“Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

Não é brincadeira, não é qualquer um que consegue transformar o fundamentalismo evangélico numa força fascista para apoiar governos como o que invadiu a Bolívia, os países vizinhos, e está ocupando o Brasil hoje 

[risos] O tango, de tão dramático, seria mesmo uma trilha certa para o nosso réquiem.
Os caras bons do mundo estão cheios de más intenções. Na década de 1960 teve o movimento de contestação da ordem global toda, o movimento hippie, paz e amor, toda aquela declaração de renunciar um mundo podre e criar um mundo de amor e flor. Flower power. Ao mesmo tempo, tinha os Panteras Negras botando pra quebrar e denunciando aquela arrogância racista americana. Olhando agora, em retrospecto, vemos que o sonho foi capturado por uma máquina de fazer tudo virar mercadoria. O modo de vida foi apropriado. Até hoje, você vê algumas semanas de moda em algum lugar do mundo, e o que aparece na passarela é uma apropriação daqueles signos, daquelas imagens, a ideia de liberdade. E com a imbecilização geral da humanidade, de todo o mundo ficar meio babão, as mercadorias podem ir e voltar numa frequência de décadas. Não tem esse negócio de lançar novos modelos de carros que já existiram? Outro dia estava andando na rua, tinha umas meninas com sandália de salto alto e calça boca-de-sino. Isso existiu 60 anos atrás. Os caras embaralham tudo e devolvem o vômito para todo o mundo comer de novo. Nas décadas de 1920-30 já haviam sido trabalhadas essas percepções de como a indústria cultural, o consumo e a comunicação de massa poderia se constituir num campo de permanente disputa e manipulação entre os poderes, tendências e ideologias. Foi nesse contexto que nasceu a Guerra Fria, que foi engendrado que um lado do mundo estava atrás de um muro e o outro, do outro, cada um maquinando como matar uns aos outros. E o mundo ficou naquela baixaria da polaridade entre os Estados Unidos e União Soviética, cada um deles influenciando seus satélites. Estivemos sempre sobre algum tipo de ação suspeita desse grande sistema global. Um povo que vive numa ilhazinha lá em Tuvalu, perdida no Pacífico Sul, e não sabe nem que dia do mês é, essas pessoas poderiam estar a salvo dessa grande cagada global. Mas até eles já estão ameaçados agora, porque o aquecimento da Terra, os eventos radicais que estão por acontecer, vão banir essas ilhazinhas com todos que vivem lá.

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