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O último cantor do vozeirão

Entrevistei Agnaldo Timóteo em 2018, mas apenas à luz de sua morte vejo essa conversa sobre homossexualidade e homofobia publicada

por Bruno Azevêdo Atualizado em 14 abr 2021, 18h16 - Publicado em 9 abr 2021 01h16
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Clube Lambada/Ilustração

cantor Agnaldo Timóteo se estende no sofá do hotel Costa Atlântico, em São Luís e, antes que eu me apresente direito, dispara:

– Você por acaso conhece a minha obra?

Só alguém muito burro poderia responder o que respondi:
– Conheço.
– Você conhece uma ova!

Hoje é 9 de abril de 2021. Agnaldo morreu há seis dias. Há alguns dias, 5 de abril de 2021, foi a primeira vez que ouvi a entrevista que fiz com ele na noite de 28 de junho de 2018. Por algum motivo, a história que eu tinha pra contar de um dos meus cantores prediletos não fazia mais sentido e aquele arquivo de 23 minutos e 54 segundos tinha ficado enterrado no meu telefone.

– Eu já gravei 72 discos. Você conhece quantos? Você conhece uns 3, 4, 5!

Antes de sair de casa naquele dia, conferi 14 discos do cantor. Passei a semana relendo o que tinha sobre eles e não posso dizer que desconhecia a postura sempre agressiva que ele apresentava. A questão é que se Agnaldo, com aquela voz tamanha, me diz que eu não sei porra nenhuma da obra dele, ora, eu não sei porra nenhuma da obra dele.

Mas Agnaldo Timóteo is dead e acho que já posso levar de novo, com menos dor, o bogue no olho que ele me deu após descer do palco do Arraial dos Aposentados. Não entendo nada de Agnaldo Timóteo, mas entendo um bocado da minha relação com ele.

Ele que me perdoe.
Ou não. Problema dele.
Tá aqui minha vingança.

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Ramon Rodrigues/Grupo Abril

Um amigo editor tinha me encomendado um livro sobre brega. O tema da música cafona está no centro de muito do que escrevi e é difícil negar que, pra mim, o mundo é mais bonito pelo charme que a obra desses caras me evoca. No livro, eu pretendia escrever sobre uma série de discos de Timóteo que não saíam da minha cabeça, três bolachas de meados dos anos 1970 que foram posteriormente batizadas de “Trilogia da Noite”: Galeria do Amor (1974), Perdido na Noite (1975) e Eu, Pecador (1976). Se você lembra de Agnaldo como aquele cantor carola que sua avó gostava e cantava “mamãe, mamãe, mamãe”, vai ficar surpreso ao saber que esses três são claramente discos de qualhira.

Discos de qualhira assinados por um dos maiores cantores do brasil em meados dos anos 1970!

Se Caetano Veloso e Chico Buarque precisavam da fresta pra pincelar a homossexualidade em suas obras, Agnaldo posava de cara dura com um crucifixo no peito e um baque de orgulhar o Ralf Konig num disco que jogava nas FMs as noites livres da Galeria Alaska, reduto dos encontros de homossexuais na capital carioca. E não era um reduto secreto, de bacana, onde a noite esconde a bobagem que acontece, como diria Dolores Duran. Na Alaska transitavam michês, prostitutas e bichas em caça constante de clientes e sexo. Não tinha nada ali pra deixar muita dúvida de que era uma crônica do mundo gay. Não cabe no proibidão dos generais.

Paulo Cesar de Araújo já tinha me ensinado que não é porque um cantor era brega que a ditadura não ia atrás dele: Odair José, Waldick Soriano, entre outros, passaram pela tesoura do censor sem dó. Mas Agnaldo passou batido, sem tesouradas nas letras ou no black power que ostentava, sempre muito alinhado, no alinho de quem sabe que é melhor andar distinto pra esconder sua óbvia distinção étnica. No auge do sucesso, mantinha ótima relação com os milicos: “nunca tive problema com a censura. Era o regime militar. Nunca se meteram comigo, nunca os desrespeitei”, me falou na entrevista de 2018. Vamos ficar ligados aqui no que Timóteo chama de respeito. É importante.

“Nunca tive problema com a censura. Era o regime militar. Nunca se meteram comigo, nunca os desrespeitei.” Vamos ficar ligados aqui no que Timóteo chama de respeito. É importante.

Não só ficou limpo com os militares, como é um defensor do regime. Pra ele, nem houve ditadura. Como assim?

– Se tivesse ditadura, estavam todos mortos, como em Cuba. Em Cuba, o Fidel Castro matou todos os adversários dele, aqui no Brasil, não, estão todos vivos, mandando no governo. O que nós tivemos foi uma intervenção militar cobrada pela sociedade, como cobram hoje, mas não tem liderança militar. Não sei quanto pagaram pra cassar a Dilma, e você acha que não tem motivo pra entrar um militar e fuzilar um bocado desses filho da puta?!

– …

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– Tamo gravando?
– Tamo gravando

– Ótimo!

Em 2018, negar ou elogiar a ditadura ainda não era tão modinha quanto é hoje. Agnaldo era um conservador avant la letre. Se não houve ditadura, não houve nada de extraordinário nos discos.

– Tu enxerga esses três discos como uma trilogia?
– Não! Eu não sou um poeta, eu não sou um compositor.

A fresta de Agnaldo era, como toda fresta, malandra. O cantor escolhia a dedo o repertório ou compunha suas letras com uma estratégia que ele chama de duplo sentido.

O que Agnaldo chama de duplo sentido não é a mesma coisa que o Genival Lacerda chamaria. Enquanto o cantor da “Severina Xique Xique” fazia qualquer coisa soar como sacanagem, Agnaldo curtia tudo no comum-de-dois, aquela classe gramatical que diz que um vocábulo ou mensagem vale pros dois gêneros. O amor de Agnaldo Timóteo era deliberadamente construído pra caber em toda sorte de relação, um amor sem elemento distintivo de gênero, sem eles ou elas, prêt-à porter a qualquer coração numa voz de machão poderosa.

Acontece que, independentemente do duplo sentido, a imagem de Timóteo é há muito associada à homossexualidade. Os discos com temática gay não são crônicas distantes, mas são lidos por um bocado de gente como a experiência gay do cantor, que sempre refratou fortemente qualquer tipo de comentário. O intrigante aí é que esse dado parecia só ser mesmo relevante pro próprio Agnaldo. Livros, matérias e outras fontes sobre a música brasileira tomam de barato que o cantor era homossexual e via de regra sua reação explosiva parecia a pauta, uma espécie de Pedro de Lara da viadagem. Perguntei sobre a trilogia ser uma crônica dos homossexuais e o cantor se eriçou:

– São discos comuns. Não tenho a menor ideia de qual era o comportamento dos gays em 1970, eu sei que hoje são muito audaciosos, são, às vezes, desrespeitosos, porque acham que todo mundo tem que concordar com seus excessos. Dois homens se amarem é uma coisa, mas se beijarem em praça pública é uma provocação!
– Mas tu não acha que é contraditório pra alguém que é importante por causa desses discos?
– Nesse disco tem alguma coisa dizendo que homem deve se beijar em praça pública?
– Não tem.
– Então, pronto! Aqui fala de um ambiente que era receptivo para os gays naquele tempo. Nessa música não tem nenhuma mensagem de agressão, de desrespeito, “na Galeria do Amor é assim, muita gente à procura de gente”, isso é o que acontece a cada minuto na vida de milhões de pessoas mundo a fora. Eu fiz esse disco achando que ia fazer sucesso, mas não aconteceu nada.

Agnaldo Timóteo no programa “Buzina do Chacrinha”.
Agnaldo Timóteo no programa “Buzina do Chacrinha”. Keiju Kobayashi/Grupo Abril

O que eu não saquei naquela época é que Agnaldo Timóteo opera numa lógica própria e nunca é contraditório. Consegue numa mesma frase dizer que Lula foi o melhor presidente do país e pedir que os militares fuzilem uma galera, consegue ser pró-gay e homofóbico com três consoantes de distância. Timóteo, como diria Manoel de Barros, não sai de si nem pra pescar.

Daí que eu tava procurando um ativismo histórico por liberdades civis e encontrei um defensor das liberdades individuais privadas, desde que se mantenha um espaço público “limpo”, um conservador. Agnaldo detesta a ideia da homossexualidade exposta. Quando perguntado sobre sua sexualidade em entrevistas, respondia coisas tipo “eu não sou heterossexual, nem homossexual, eu sou sexual”, ou “eu sou Agnaldo Timóteo”.

Numa entrevista polêmica ao Pasquim, em 1972, chamou Caetano Veloso de boneca, “agora vem com esse negócio de imitar viado e os caras dizem que ele é um gênio?” Em 2018, apesar de ter me dito que foi deselegante com Caetano no Pasquim, mandou essa: “O Chico Buarque uma vez falou que fez troca-troca, ele com um outro cantor da velha guarda que já morreu”.

“Eu não sou heterossexual, nem homossexual, eu sou sexual. Eu sou Agnaldo Timóteo”

– Imagine se Agnaldo Timóteo fala uma merda dessa? Imagina se eu falo que eu tenho um namorado, que puta que pariu, que merda!

Quando digo que Agnaldo não é contraditório é porque, hoje, acho que ele operava em dois eixos: a família tradicional, que está até o talo nessa ideia do machão brasileiro, e o valor atribuído a si mesmo como expoente de um troço que hoje em dia faz ainda menos sentido que o machão brasileiro, o cantor de vozeirão. E aí vai minha Teoria Geral de Agnaldo Timóteo. Todas as falas do cantor convergem pra esses pontos.

Ele mesmo adiantou isso na entrevista pro Pasquim, quando falou que não tinha orgulho de nada além de sua voz e sua conduta moral, daí o aparente homossexual homofóbico capaz de chamar as obras de Caetano Veloso e Chico Buarque de lixo. Mas deixa eu explicar melhor, começando pelo que me trouxe aqui.

– Eu sou um homem de família, fui criado no mais requintado modelo de família. Papai dizia nove horas em casa, nós chegávamos em casa nove horas.

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Vida

Agnaldo nasceu em 1936, no interior de Minas Gerais, foi torneiro mecânico, motorista e cantor de picadeiro até se firmar como intérprete de canções internacionais. Saiu de casa aos 16 anos e, segundo ele mesmo, só cursou até o terceiro ano primário. Desde o começo, seus temas mais cativos foram o amor e a devoção.

Era um cara um bocado religioso e respeitoso às tradições, que, a despeito de ter essa persona agressiva com a imprensa e seus colegas, era reverente à figura da mãe, do pai, da família e de Deus. Junto à Galeria do Amor, Os brutos também amam e Perdido na Noite estavam discos como Agnaldo Timóteo Presente, de 1994, no qual aparece de branco diante de um altar (e contém uma Ave Maria digna de fechar a programação de uma AM às seis da tarde), Presente de Deus, Obrigado, mãe e Minha Oração. Se você acha que Roberto Carlos é um carola é porque não parou pra ver a beatice de Agnaldo Timóteo. Mesmo a transgressão é vista por esse prisma. Não à toa, acho eu, o nome do disco que fecha a trilogia é Eu, Pecador. Adivinha aí de qual pecado que ele fala quando diz que “foi tudo uma loucura, mas eu gostei”.

“Galeria do Amor”, “Perdido na Noite” e “Eu, Pecador”, as três faixas-título da trilogia são composições de Agnaldo. Raras, por sinal.

Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo e Roberto Ribeiro no programa “Clube dos Artistas” nos anos 70.
Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo e Roberto Ribeiro no programa “Clube dos Artistas” nos anos 70. Arnaldo Silva/Grupo Abril

O cantor mineiro também era, como Djavan, obcecado pela figura da mãe, centro da família. Em entrevista à cineasta Ana Rieper (diretora de Vou Rifar Meu Coração), falou o seguinte: “Eu acredito que a minha preocupação com a família foi muito importante no alicerce da minha carreira. Porque quando eu fiz sucesso, e foi muito sucesso cantando músicas deslumbrantes, fui a Caratinga e comprei a casa mais bonita que estava à venda para a minha mãe, e continuei morando numa quitinete alugada”.

Tá que é fácil falar isso, mas essa devoção à mãe, espelhada sempre em Maria, tá na obra do cantor, e façam o favor de juntar ao panteão de Dona Canô e Lady Laura Dona Catarina, que morreu aos 90 anos. “Ninguém homenageou as mamães com mais dignidade do que Agnaldo Timóteo, ninguém”, emendou à cineasta. Agora, me diga você, se é fácil ser católico, machão devoto da tradicional família mineira da metade do século XX e ir pro palco da Luciana Gimenez ser chamado de viado e achar bonito. Mamãe pode estar vendo. Não vale.

E não é que Agnaldo negue a homossexualidade como parte da vida, ele era esse tipo de pessoa pública que falava por mantras e detestava que alguém tocasse nesse assunto.

O cara não tinha nenhum interesse em ofender essas instituições, porque essas instituições o formaram e formaram essa moral da qual se orgulhava. Quer ser bicha? Beleza! Quer casar na igreja? Não rola. Se o desejo expresso por artistas homossexuais como Renato Russo era o de estar conforme, com festa bolo e brigadeiro, era justamente essa a parte negada pela moral que Timóteo carregava. Você é livre pra ter seus desejos e me importa falar deles, mas nem vem com essa de chutar o pau da barraca.

Em Perdido na Noite (segundo volume da trilogia) há uma versão de “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, uma música de fossa braba com aquele tom de revanchismo I will survive e o twist buarqueano de usar um eu lírico feminino. “Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você”, escreveu e cantou Buarque em Meus Caros Amigos, seu disco de 76. Timóteo dá à sua versão o desespero absoluto que era seu feitio, mas se recusa a se travestir. Perguntei o porquê.

– Eu não posso gravar “quantos homens me amaram”. Que merda é essa?! No cu, Jaburu! Eu, hein!

O disco tem vários momentos dessa mistura de moralismo e sexualidade, observação e crítica ao mundo da noite. “Verdadeiramente, eu nunca fui notívago, eu não gosto da noite, eu gosto de televisão.”

– Mas o Agnaldo dos anos 1970 também era assim?
– Nunca! Eu não tenho nenhuma afinidade com a noite. Não bebo, não fumo, não cheiro.

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Carlos Fenerich/Grupo Abril

A rejeição à noite anda lado a lado com uma postura sexual predatória. Em entrevista a Paulo Cesar de Araújo em “Eu não sou cachorro, não”, Agnaldo se identificou com a figura do aventureiro de sua canção: “Eu continuo sendo um aventureiro, eu continuo querendo transar cada dia com uma pessoa diferente, eu continuo perdido na noite, buscando, buscando…” Quando o entrevistei, ele tinha 82 anos e disse que ainda saía para paquerar.

Em “Vida de Bailarina”, Agnaldo olha a prostituição como um oficio solitário, triste. “O Conquistador”, clássico da cantada vagabunda, Timóteo wandeia ao redor de uma figura anônima que acaba levando pra cama:

“Olha, que tal a gente dar uma volta pra se conhecer melhor?
Ora, vamos caminhar, trocar ideias
e quem sabe solidificar uma amizade?”

Outra faixa intrigante do disco é “Aventureiros”, sobre essa caça por corpos fáceis na noite e o sofrimento de não poder estabelecer laços duradouros:

“Existem milhões de aventureiros,
que não se identificam com ninguém,
que buscam em aventuras passageiras,
o momento de encontrar alguém.
Pagando amor a qualquer preço
Pagando para se sentir feliz
Mas guardando sempre a esperança
De não viver a vida inteira assim
Esses milhões de aventureiros sabem
Que todos esses romances são falsos
Que após momentos de felicidade
A frustração volta a ser realidade
E a tortura infinita recomeça
Correndo atrás de uma nova ilusão
Aventureiros como eu são tantos
Todos marcados pela dor da solidão”

Ainda assim, eu ali, diante daquele homem, não dava conta de resolver o que tinha me levado a ele. “Entende uma ova!”. Na minha cabeça, havia um artista subversivo no meio daquela cafonice toda, cuja obra devia ter abalado alguma estrutura em meio a um ambiente repressivo. Eu imaginava aqueles três discos como parte do catálogo essencial das canções que levantaram o moral dos homossexuais no Brasil e brincava que se um dia fizesse um show como transformista (esse termo chulo e horroroso que me lembra o Silvio Santos) queria cantar Agnaldo a plenos pulmões.

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Agnaldo nem enxerga a trilogia como trilogia, não vê nada demais naquilo.

Mas eu vejo. Abro o livro História Sexual da MPB, de Rodrigo Faour, procurando uma ode à obra subversiva de Agnaldo, e descubro que o historiador deu uma página à Galeria do Amor, sem muita empolgação. Faour escreve com uma paixão enorme e desce do salto nos adjetivos em seu livro, mas fala de Agnaldo como se fosse qualquer artista cafona.

Falei com Faour por telefone na noite de segunda. Pra ele, Timóteo estava no limbo escuro que existe dentro do armário, que o impedia de ser reconhecido como um artista gay tanto pela comunidade gay (que o abraçaria?) quanto por seu público nativo de tiazinhas românticas: “pra maioria do público, a Galeria do Amor não tinha nada a ver com a Galeria Alaska. Ele nunca foi um ícone gay. Ele frequentava esse meio, todo mundo sabia, o pessoal mais do bafão, mais do baixo bafão, sabia que ele era gay, mas acontece que ele não se misturava com a música daquela época. Quem ia assistir show do Timóteo era outro público. Quem consumia os discos do Timóteo nem sacava que essas músicas falavam de homossexualidade”.

“Ele nunca foi um ícone gay. Ele frequentava esse meio, todo mundo sabia que ele era gay, mas ele não se misturava com a música daquela época. Quem ia assistir show do Timóteo era outro público. Quem consumia os discos do Timóteo nem sacava que essas músicas falavam de homossexualidade”

Rodrigo Faour

Ainda em 2018, entrei em contato com o João Silvério Trevisan, um romancista brilhante que tinha me tirado do prumo um ano antes com seu Em Nome do Desejo. Trevisan também é autor de um belo livro sobre a história da homossexualidade no Brasil, Devassos no Paraíso, e era um ativista exaltado nos anos de chumbo, tentando enfiar na cabeça da esquerda mais obtusa que questões superestruturais também deveriam ser abordadas. Fundou o grupo Somos, primeiro grupo de liberação homossexual do Brasil no final dos anos 1970 e era um dos caras do Lampião da Esquina, importante jornal da comunidade gay nos anos 1970 e 1980: “Oi, Bruno. Conheço pouquíssimo do Agnaldo Timóteo. Não creio que seja eu a pessoa mais indicada para te ajudar. Abraço”

Não era a resposta mais animadora, mas era uma resposta. A obra política de Agnaldo não tinha incomodado a ditadura, não tinha levado carolas a protestos, mas também não tinha ressonância no público que eu pensei que fosse dar alguma bola. Agnaldo tinha o problema, como me disse Faour, de não comprar o “pacote completo” da homossexualidade. Entre 1974 e 1977, na Folha de S.Paulo, só achei sobre o cantor umas quatro fofocas e uma nota de pé de página, pixurutinha, sobre o lançamento de Perdido na Noite como um marco de comemoração dos 10 anos de carreira do cantor. Os dois volumes de A Canção no Tempo, que cobrem 85 anos de músicas brasileiras, da dupla Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo também não deram muita bola à trilogia, registrando timidamente as canções “Perdido na Noite” e “Eu, Pecador” como “outros sucessos” dos anos de seus lançamentos.

Acho que mesmo pra eu me tocar que Agnaldo, aquele Agnaldo, só tocava a mim mesmo, nem o Agnaldo ligava pro Agnaldo que eu tava atrás. Acho que eu crio e alimento essas obsessões até o limite, fico mastigando esse vespeiro ao ponto extremo de guardar por dois anos uma história pronta. Eu não entendia a obra de Agnaldo Timóteo porque eu inventei a obra de Agnaldo Timóteo, acho. Mas isso também é um problema dele. Hoje morto, eu aqui, anos depois, me vingando feito o Marcelino Freire.

Agnaldo Timóteo, cantor.
Agnaldo Timóteo, cantor. Carlos Namba/Grupo Abril

Ao final da entrevista, Agnaldo não resiste e canta o começo de Perdido na Noite:

“Estou perdido na noite de muitos
Sempre a procura da mesma ilusão
Estou perdido na noite sozinho
Pelos caminhos sombrios eu vou”

Interrompe. Me olha e comenta, antes de retomar a canção:

– Você vê que é uma mentira. Eu nunca fui pelos caminhos sombrios.

A gente sabe bem que caminhos são esses.

***

No domingo, após a sua morte, a internet se encheu de elegias e elogios ao cantor, ao político, ao cara brabo e bruto e camelô eterno de si. Reviro esses depoimentos e percebo que pouca gente da MPB passou incólume à sua presença. Frejat fala de ligações pessoais, Zeca Baleiro canta “Perdido na Noite”, Pedro Alexandre Sanches escreve um texto tão foda que fico um tempo pensando em pra que caralhos eu vou escrever o meu. Abro a biografia do Erasmo Carlos e me deparo com uma história absurda envolvendo uma reunião de condomínio e venda de CDs na rua. Agnaldo Timóteo não perdia uma e agora estava morto, abatido pela covid-19.

Em 2016, antes de se eleger presidente, Jair Bolsonaro, em perfil escrito pela repórter Consuelo Diegues para a revista Piauí, disse que Agnaldo era seu cantor predileto. “Gosto dele”, falou, lacônico.

Em 2020 o cantor andou bem mal e acompanhei pelo seu Instagram a doença, que o levou à intubação. Saiu, abatido, mas saiu. Num vídeo postado no YouTube em setembro de 2020, em meio à pandemia, ele aparece claudicante, de terno azul, na igreja do pastor Valdomiro Santiago, da Igreja Mundial. Entra com uma máscara do Botafogo, seu time do coração, sobe ao palco com o pastor, tira a máscara e o protozoário do pastor diz que “aqui o Corona não sobrevive não”. Agnaldo prega, canta um louvor, agradece e sai apoiado num misto de assessor e obreiro.

Não sei se o mais cretino aqui é Agnaldo, o pastor ou deus. A cena do cantor na igreja lotada não parece a de uma fé fajuta. Agnaldo enche a igreja com aquilo que lhe era mais caro e que o filia a uma escola a muito detonada na música brasileira, a do cantor de vozeirão, e aí vai a segunda parte da minha Teoria Geral de Agnaldo Timóteo.

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Vozes

Não é engraçado que um ex-torneiro mecânico estreie em disco com uma bolacha chamada Surge um Astro?

Sério. Pensa aí. Surge um Astro. Primeiro disco. A capa estampa três fotos em sequência do cantor, cheio de charme. Só o Michel Temer tem uma autoestima tão alta.

O primeiro disco de Agnaldo era um compilado de versões brasileiras de standards internacionais aos quais ele só emprestava a voz. 1965. Tinha 27 anos e uma voz absurda. Em 1965, Roberto Carlos lançava o seu Canta para a Juventude e a música brasileira era rica e diversa, cabendo no pacote os violões da bossa nova, as guitarras da jovem guarda, mas os dós de peito dos cantores da velha guarda começavam a minguar. Nelson Gonçalves, o rei do rádio nos anos 1950, se recuperava do vício em cocaína e ensaiava um retorno, mas a escola que o fez famoso não formava mais muitos nomes.

“Como que alguém se atreve em dizer que a minha música é cafona, e não é. É que eu sou um tremendo cantor e eles são uns mentirosos que não cantam nada, mas têm o apoio da mídia”

Agnaldo Timóteo

É que gente como ele, Orlando Silva e o neófito Agnaldo vieram de um tempo no qual a tecnologia de captação de som era tão precária que um cantor, pra ser cantor, tinha que empostar a voz com a maior intensidade possível. Era preciso um Vicente Celestino pra encher toda uma lona de circo com sua tristeza.

O vozeirão era o elemento que definia quem poderia ser cantor ou não, ter voz era elemento essencial na era do rádio, o que gerava uma música com forte carga dramática e altíssimo contraste. A bossa nova, no final dos anos 1950, propunha exatamente o contrário: ao invés do exagero do vozeirão, a voz constrita e miúda de João Gilberto, ao invés da orquestração pesada, um violão. Uma mudança paradigmática radical, sem retorno, que vai levando um modo de fazer e ouvir música à obsolescência. O que vão fazer os cantores que se orgulham da potência vocal quando a potência vocal não era mais o elemento mais importante? Não só isso, o dramalhão do samba canção, do bolero e das serestas tinham menos espaço pra juventude interessada nas experimentações dos Mutantes ou no roque de Roberto e Erasmo. Fudeu.

Nem adiantava muito o boêmio voltar, que o vozeirão entrava, nos anos seguintes, no universo do cafona, do brega e da música de velho.

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Cynira Arruda/Grupo Abril

Adelino Moreira, que compôs alguns dos maiores clássicos do repertório de Nelson Gonçalves, foi ferino numa letra gravada em 1962, no disco Nós e a Seresta, de Nelson, que vou copiar todinha aqui porque me agrada o veneno:

“Seresta moderna não tem poesia
Não tem noite de lua, não tem luar
Não tem cavaquinho, não tem violão
Nem mesmo um pandeiro
Para o sambar ritmar
Seresta moderna agora é hi-fi
Num canto de sala de um apartamento
Vitrola tocando, bebida rolando
Gritinhos nervosos a todo momento
Um gaiato cantando sem voz
Um samba sem graça
Desafinado que só vendo
E as meninas de copo na mão
Fingindo entender
Mas na verdade, nada entendendo
Pela madrugada, tudo está em paz
Ninguém sabe o que fez
Ninguém sabe o que faz
A noite termina, o samba tem fim
Amargurado por ser tratado assim”

A letra é uma crítica violentíssima à bossa nova, essa canção limpinha, de apartamento, com gaiatos sem voz e desafinados. Mas pouco adiantava, ser cantor de vozeirão já não era essas coisas todas.

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Menos pra Agnaldo, que mais de 40 anos após sua estreia continuava a viver na era do rádio dos anos 1950. Você não precisa ler três linhas de qualquer entrevista dele pra vê-lo baixar o sarrafo em outros cantores. Odiava ser chamado de brega ou mesmo de cafona.

– Nós, os cantores românticos, fomos pro caralho! Hoje em dia eles tocam sertanejo, funk e rap. O Brasil virou um país de sertanejo, com algumas duplas maravilhosas e outras merda – me falou em 2018.

Uma década antes, disse a Ana Rieper: “Como que alguém se atreve em dizer que a minha música é cafona, e não é. É que eu sou um tremendo cantor e eles são uns mentirosos que não cantam nada, mas têm o apoio da mídia. É o Chico Buarque que não canta nada, o João Gilberto é um horror que não canta nada, chato. Então tem um grupo que não canta nada mas que tem um grande apoio da grande mídia, inclusive da Rede Globo.”

Ao Pasquim disse que Caetano Veloso “seria gongado, pô! Vocês fabricaram o Caetano! Caetano é uma merda! Caetano não é artista; o Caetano – eu lamento dizer isso, porque a Maria Betânia eu adoro – não sabe cantar. O Caetano não tem postura no palco”.

Agnaldo era fã de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Nora Ney, Vicente Celestino. Se fosse leitor, seria de Tex Willer. Uma carreira longeva e sólida enfiada num paradigma velho que ele insistia em aplicar como verdade absoluta a todo outro artista, Timóteo ser sempre seguro de si e se auto intitulava o maior cantor do Brasil, postura que defendia sempre, como um cinturão de pugilista: “Você não tem ideia do que é esse crioulo no palco. Eu sou de fácil interação, eu sou alegre no palco, descontraído, e canto muito, ninguém percebe que eu sou preto, feio, cabelo duro, porque eu canto muito, mais canto muito, muito mais do que Roberto”, disse à documentarista. Timóteo era o machão de vozeirão que o país deixou pra trás em alguma propaganda de cigarro, mas Agnaldo levantava a ponta do chapéu que não usava, como se repetisse uma frase da autobiografia de Waldick Soriano publicada pelo Pasquim: “Meu público são as pessoas que a civilização não tornou frescos”.

Tá que há nomes novos nessa escola, mas de longe não seguem o mesmo paradigma. Eu fico morto de feliz ouvindo Zezo, mas Zezo não é Agnaldo Timóteo, um cantor de vozeirão em outro contexto é só um atalho à memória de gente não tão velha, como eu, que por algum motivo se prende obsessivamente num passado que nem viveu. Aos 82 anos, ainda no sofá do hotel Costa Atlântico, Agnaldo Timóteo relembra seus amigos de uma velha guarda da qual era o público sobrevivente:

– O Anísio morreu anônimo, o Orlandinho morreu anônimo, o Waldick mais ou menos. Eu continuo em luta, pra dizer que estou vivo.

Desculpa ter demorado tanto.
Fica bem.

Bruno Azevêdo e Agnaldo Timóteo no dia da entrevista.
Bruno Azevêdo e Agnaldo Timóteo no dia da entrevista. Bruno Azevêdo/Arquivo

Agradeço à Ana Rieper, que me cedeu as transcrições brutas de sua entrevista com o Agnaldo, ao Arnaldo, que dançou comigo uns Agnaldos na casa do Góis e à Gabi, que aturou o frenesi do processo de escrita. Aproveito também para perdoar oficialmente o Alê Cassati por ter me feito perder o show daquela noite de 2018.

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